segunda-feira, 30 de novembro de 2009

M de Momento Zen

«A entrevista é interrompida. Pedro Mexia não hesita quando a secretária da Cinemateca bate à porta da sua sala de director para entregar uma vintena de livros: a nova obra. Os livros recém-editados "estão quentinhos", como diz. O entrevistado distrai-se. Abre um exemplar, apalpa-o, folheia-o, confirma se era mesmo o que ele esperava. Perguntámos o que acha. Diz que sim, que está satisfeito. Trata-se de uma nova peça de teatro: "Nada de Dois". Para quem olha de fora, mais parece o pai de um recém-nascido a contar os dedos dos pés e das mãos. A ver se não falta nada. Afinal, está tudo bem. Podemos continuar a entrevista. A falar da vida. Do que há para lá da literatura. »

Entrevista de Ana Soromenho e Christiana Martins,
Revista Única/Expresso (28 Novembro 2009)

sábado, 28 de novembro de 2009

E de Espera (I)

Banda sonora: BWV 36, BWV 61 e BWV 62

Van Gogh, "La chaise de Gauguin"

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Z de Zoo (ou S de Saudade?)



Ontem regressei, quase 20 anos depois, ao Jardim Zoológico. Os meus pais tinham desistido de me levar lá, porque eu acabava invariavelmente a chorar em frente do macaco que estava só numa jaula, do urso preso a quem atiravam maçãs, do elefante que tinha de tocar o sino para ganhar a vida, dos flamingos que tinham perdido o rosa das penas ou das sepulturas em miniatura do Cemitério dos Cães. Isto apesar de me tentarem convencer que alguns daqueles animais, se vivessem no seu habitat natural, passariam fome ou matariam a fome a outros.
Houve coisas que não mudaram 20 anos depois. Continuei a sentir o mesmo nó no peito em frente do urso que percorria sem parar os limites da sua prisão ou do tigre branco que me olhou directamente nos olhos.
Mas o que me doeu mais foi sentir o tempo, esses 20 anos e as mudanças que implicaram. Estar tão mais embrenhada nas minhas coisas (o trabalho, a saúde, as responsabilidades, os prazos...) que o sofrimento alheio não me parecesse tão insuportável; ter talvez perdido a capacidade que na infância possuímos de nos entregarmos todos aos outros e aos momentos sem pensarmos em mais nada e muito menos em futuros. E chorar agora perdas concretas, como a da Rebecca, que não está ali, mas de quem me lembrei ao ver as mesmas sepulturas em miniatura da minha infância sem animais de estimação; ou a das pessoas que me levavam pela mão e me consolavam incansavelmente. Os regressos são sempre, mesmo que em parte, impossíveis. Se calhar por isso, não tive coragem de andar no carrossel iluminado que me devolvia o sorriso no final de cada visita.

sábado, 21 de novembro de 2009

W de Whisky

Dizia o Vinicius de Moraes qualquer coisa deste género (juro que nunca vi esta frase citada duas vezes da mesma maneira): "Se o cão é o melhor amigo do homem, então o whisky é um cão engarrafado".
E, embora apreciando a estética oriental (obrigada, F.), mantenho-me fiel, por razões também (ou sobretudo) afectivas, à única destilaria que fiz questão de visitar quando fui à Escócia:

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A de Aceitação

"Maybe eventually you'll settle for something worse than paradise but better than hell."
Margaret Millar, How like an angel

M de Mesa de Amigos

A meio da semana, regresso a alguns dos meus amigos e horizontes preferidos.
Obrigada.

sábado, 14 de novembro de 2009

P de (Um Ano de) Pássaros (II)

Disseram-me outro dia que o nível de civilização de uma cidade (até de um povo?) também se pode medir pelo grau de confiança dos pardais em relação às pessoas. A julgar pelos pardais da Gulbenkian, Lisboa já pode competir com Copenhaga.

C de Começar o dia com um livro novo

o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,

o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.

é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.

Renata Correia Botelho, Um Circo no Nevoeiro, Lisboa: Averno, 2009
(Eu ia escolher o último poema do livro, mas o Barnabé, ao meu lado,
fez-me mudar de ideias)

domingo, 8 de novembro de 2009

E de Empréstimos (ou I de Invisíveis Correntes)

Gostaria de me ter lembrado, antes do Diogo, de colocar aqui o "Soneto para Cesário", do Dinis Machado, de quem ainda espero o último policial.
Mas não resisto a deixar aqui este poema, que fui pedir emprestado a outro blog, e que me parece perfeito para dedicar a quem partilha comigo este 4º aniversário de hoje:


IN THE LIBRARY


For Octavio


There's a book called
"A Dictionary of Angels."
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies.The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She's very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.


- CHARLES SIMIC

L de Longe da Aldeia

A LONDON THOROUGHFARE. 2 A.M.

They have watered the street,
It shines in the glare of lamps,
Cold, white lamps,
And lies
Like a slow-moving river,
Barred with silver and black.
Cabs go down it,
One,
And then another.
Between them I hear the shuffling of feet.
Tramps doze on the window-ledges,
Night-walkers pass along the sidewalks.
The city is squalid and sinister,
With the silver-barred street in the midst,
Slow-moving,
A river leading nowhere.

Opposite my window,
The moon cuts,
Clear and round,
Through the plum-couloured night.
She cannot light the city;
It is too bright.
It has white lamps,
And glitters coldly.

I stand in the window and watch the moon.
She is thin and lustreless,
But I love her.
I know the moon,
And this is an alien city.

Amy Lowell (1914)

sábado, 7 de novembro de 2009

F de Fazer Fotografia (III)




RENÉ MALTÊTE




quinta-feira, 5 de novembro de 2009

L de Lar (IV)

Para o F. :



A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.
Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,
Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-nos das suas varandas,
Recolhem os filhos para dentro das saias,
Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.
Eu sempre esperei, sem ver outro dia,
Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

David Teles Pereira

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

F de Fazer Fotografia (II)









André Kertész, "A Túlipa Melancólica" (1939).
Também gosto muito de "A Nuvem Solitária".
E traduzi um livro que, no original, tinha uma fotografia dele na capa. Infelizmente a edição portuguesa optou por "something completely different"...

domingo, 1 de novembro de 2009

5ª feira brindaremos a ele no Apuradinho, onde o viamos tantas vezes:

http://publico.pt/1407774

B de Biorritmo (VI)

Thomas Fersen canta "Une chauve-souris" (uma história de amor improvavelmente feliz):

D de Dia de los Muertos (aliás, hoje é especificamente Dia de los Angelitos)

"O resto... o resto era andar pelo mundo anotando mortes."

Manuel Mujica Llainez, Bomarzo