sábado, 31 de julho de 2010

V de Vício (III)

Leituras de Verão encontradas perto do rio da minha aldeia, em caixas esquecidas na última prateleira de uma loja coberta de pó:

sexta-feira, 30 de julho de 2010

F de Férias

Conclusão, aliás feliz: Preciso de tirar umas férias. A sério.
É preciso fazer qualquer coisa contra o medo.

João César Monteiro, Uma semana noutra cidade (&etc)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

E de Efeito borboleta



BUTTERFLY LAUGHTER

In the middle of our porridge plates
There was a blue butterfly painted
And each morning we tried who should [reach the butterfly first.
Then the Grandmother said: "Do not eat [the poor butterfly."
That made us laugh.
Always she said it and always it started [us laughing.
It seemed such a sweet little joke.
I was certain that one fine morning
The butterfly would fly out of our plates,
Laughing the teeniest laugh in the world,
And perch on the Grandmother's lap.

Katherine Mansfield

segunda-feira, 26 de julho de 2010

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (IV)

Não se pode jantar duas vezes no mesmo restaurante (o que é uma pena, pois este foi o meu preferido):




O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela / Copenhaga (encerrado em 2007)

domingo, 25 de julho de 2010

A de À falta de mar (II)

ATLANTIC


No guardanapo,
a negro, o nome do oceano

em algum dia em algum
segmento perdido do tempo

haveria de ter o Atlântico
por detrás de uma janela
como se fosse a montra de
nenhum outro bar

onda atrás de onda
e quando soprasse a nortada
e o vidro se confundisse
com os cristais do sal

círculo ao redor do copo

o oceano era a palavra que
levava aos lábios.


João Miguel Fernandes Jorge,
Invisíveis Correntes, Lisboa: Relógio D’Água, 2004

sexta-feira, 23 de julho de 2010

F de Fazer Fotografia (XV)

Um último fotograma entre as pestanas,
pupila fechada na sua moldura
como um azulejo,
a lágrima coalhada:
no filme a luz que se deixa prender
e vela ainda

o olho de vidro
o berlinde opaco de tanto dormir.



Elisa Biagini, “Morgue”
(inspirado livremente na série de A. Serrano)
in TELHADOS DE VIDRO 6

J de (O) Jardim e a Casa (II)

Um jardim com Lisboa ao fundo:

Almada/Casa da Cerca (22 Julho 2010)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

C de Castelos

Montbazillac Bio - Château Larchère 2004 (Blanc):

terça-feira, 20 de julho de 2010

A de Amor em Fuga

Depois de ler uma espécie de entrevista que saiu na Pública deste domingo, lembrei-me da seguinte fotografia de Stanley Kubrick:

Mas já passou. Felizmente.

B de Biorritmo (XXV)

HAVEMOS DE IR A VIANA

Letra: Pedro Homem de Mello
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues

Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

T de Tratado de Pedagogia (IX)

Desaparecimento e aparecimento da poesia



As nuvens sobrevoaram os poemas. Os poemas desapareceram. Submersos no limbo. Ou ocultados por uma folha amarelecida, quase ao rés da terra, na floresta nocturna de repente incognoscível. Os poemas foram deslizando para o outro lado do tempo. Quem os escreveu deu-os por perdidos, dolorosamente ignorante da viagem secreta.

Os poemas desapareceram.

Contradizendo o abismo irremediável, os poemas emergiram na manhã seguinte. Cobertos de orvalho.


Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio Alvim)

sábado, 17 de julho de 2010

F de Fazer Fotografia (XIV)

Stanley Kubrick, Columbia University in New York City, January 1948
[Fonte: Rainer Crone, Stanley Kubrick - Drama & Shadows: Photographs 1945-1950, Londres: Phaidon, 2006]

F de Fazer Fotografia (XIII)

Ofereceram-me uma antologia de poemas felizes*. Logo na Introdução, a organizadora questiona-se sobre até que ponto é possível pôr a felicidade por escrito. Seguem-se 101 exemplos, mas a capa é talvez a melhor prova de que se pode fixar a felicidade. Não a vou descrever; só vendo (se calhar, a felicidade não deve ser lida, tem de ser mesmo vivida/vista em primeira mão).
É curioso, porque esta semana tinha falado com dois amigos sobre porque é que fotografamos: o que é que queremos apreender? O que é que tentamos salvar? O que é que nos foge ou, em última análise, não é fotografável? Para eles, o que se fotografa é sempre, de uma maneira ou outra, a morte. A ausência. Real ou pressentida. E por isso usei o verbo salvar. A razão pela qual guardo tantas fotografias ao longo dos anos é porque quero salvar, de algum modo, todas aquelas pessoas, sítios e momentos que entretanto fui perdendo ou vendo mudar. Ao abrir um dos álbuns, recupero a minha bisavó do Algarve ou o sorriso do dia em que acabei o estágio e descobri que estava apaixonada. A felicidade até pode ser isso: saber que fotografar a morte é roubar do esquecimento, da segunda morte; prolongar esses “últimos olhos” de que falou o Borges. Às vezes, a poesia também faz o mesmo: guarda em si as ondas que partilhámos com alguém que já morreu, numa ilha já modernizada; impede que as flores plantadas provisoriamente na calçada da minha rua murchem; mantém o amor em passeio pelos caminhos da manhã.
Claro que a morte parece ganhar sempre. Nem tudo é fotografável. Há pessoas que fugiram sempre da objectiva e que agora temos medo de não conseguir recordar, fechando os olhos. Há momentos que aconteceram sem testemunhas que os fotografassem ou escrevessem – quando desci as escadas da casa da minha bisavó, carregada de livros, aos 4 anos. Há coisas que dificilmente se conseguem fotografar – o vento nas searas, borboletas a esvoaçar à nossa volta, a maior parte das coincidências (duas velas a serem acesas ao mesmo tempo, por pessoas diferentes mas com a mesma intenção). E há coisas que o tempo – a morte – se encarrega de vir novamente resgatar, como os arco-íris que o meu computador desfragmentou.
Mas depois existem pequenos milagres. O descobrir uma fotografia semelhante a uma das minhas recordações mais antigas num livro de Stanley Kubrick. E, por vezes, quando chego a casa e passo as fotografias para o ecrã/papel, surpreender-me com o pássaro que se atravessou em pleno céu, a sombra ou o reflexo que conseguimos captar, a esperança que doía por resistir à realidade de uma cadeira de rodas para venda e de um bando de cães abandonados num sítio em ruínas. O suficiente para, por instantes, vencer a morte, suportar a vida e estar, um pouco, feliz.


* Heaven on Earth: 101 Happy Poems (Faber and Faber)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O de "Onde se lê amor"

Tudo ali estava nimbado de vida. E de um profundo amor. Estranho como permaneciam visíveis os alicerces, os andaimes, os projectos, os mapas. Livros empilhados. Manuscritos emergiam dos montículos de papel. Tudo ali parecia vir de muito longe. Três continentes – cidade após cidade – rios que nunca mais seriam avistados – e rostos que a memória não deixa sepultar. Tudo, ali, estava nimbado de vida, e de um profundo amor. As paredes cobertas de óleos, de livros, de desenhos. Fotografias, raras, que o coração não deixa amarelecer.
E a música. A música, atravessando, diagonal ininterrupta, as salas todas. Atravessando o corredor, muito longo. Com seus segredos.

Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios,
Assírio & Alvim (2010)

B de Biorritmo (XXIVc)

E outra versão ainda:

"Como és mejor el verso aquel/ que no podemos recordar." (Letra de Homero Expósito)

B de Biorritmo (XXIVb)

Outra versão de um dos meus boleros preferidos: "Vete de mi".

B de Biorritmo (XXIV)

Olga Guillot (1922-2010)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A de À falta de mar...

... o rio vem ter connosco.


Lisboa, 13/07/10

terça-feira, 13 de julho de 2010

M de Museu Imaginário (VII)

Parabéns, David.






















Vilhelm Hammershøi, "Interior with Young Man Reading", 1898 (Hirschsprung/Copenhaga)

domingo, 11 de julho de 2010

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (III)

À falta de mar - por enquanto -, recomenda-se assistir à passagem do tempo no restaurante Ibo:






B de Biorritmo (XXIII)

"[…] Nina,/ no llorés, mordete los ojos,/ cachame las manos bien fuerte,/ si viene la muerte, mangala:/ que pague, de prepo y de a uno/ los días felices que debe. […]"

Horacio Ferrer


quinta-feira, 8 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

F de Fazer Fotografia (XII)



Gertrude Käsebier, "Silhouette" (1915)

terça-feira, 6 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

F de Fazer Fotografia (XI)


B de Biorritmo (XXII)

MORGEN

Música: Richard Strauss

Texto: John Henry Mackay

Elisabeth Schwarzkopf, Soprano / LSO, George Szell





Und morgen wird die Sonne wieder scheinen,/und auf dem Wege, den ich gehen werde,/ wird uns, die Glücklichen, sie wieder einen/ inmitten dieser sonnenatmenden Erde...// Und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,/ werden wir still und langsam niedersteigen,/ stumm werden wir uns in die Augen schauen,/und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...

[And tomorrow the sun will shine again/ And on the path that I shall take/ It will reunite us, the blessed ones,/In the midst of this world that breathes in the sun...// And to the broad shore, lapped by blue waves,/ We shall quietly and slowly climb down,/ Silently we shall look into each other's eyes/ While upon us descends the silence of true bliss...]

sexta-feira, 2 de julho de 2010

D de "deve ser/ com certeza um sítio muito triste" (II)

ADEUS


Envio-te o meu gato negro com um colar de violetas
- Último gesto deste dia de Inverno.

Não perturbar os pequenos barcos ao longe
- Meu ir conventual pensar de flores.

Não perturbar o fumo do cigarro
- Pousado no silêncio.


Manuel de Castro,
Paralelo W
(edição do autor, 1958)