quarta-feira, 30 de novembro de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXI

"Quem nos impede de ser em arquipélago [...]?"


António Cabrita, Respiro, Lisboa: Língua Morta, 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XV)




Today my bird flew away
gone to find her big blue jay
Starlight before she took flight
I sung a lullaby of bird land everynight
I sang a lullaby every night
sang for my Ava every night.


Ava was the morning, now she's gone
she's reborn like Sarah Vaughan
In the sanctuary she has found
birds surround her sweet sound
and Ava flies in paradise
and Ava flies in paradise


With dread I woke in my bed
to shooting pains up in my head
Lovebird, my beautiful bird
Spoken 'til one day she couldn't be heard
She spoke until one day she coudlnt be heard
she just stopped singing


Ava was the morning, now she's gone
she's reborn like Sarah Vaughan
In the sanctuary she has found
birds surround her sweet sound
and Ava flies in paradise [x3]

domingo, 27 de novembro de 2011

J de (O) Jardim e a Casa - VI c

PARTES DE UM TODO


Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra. 
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma 
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.


in Criatura nº6,  Novembro de 2011

Q de "Que sorte que temos. É tão bom coincidirmos assim." *

* A frase e a canção ouviram-se ontem, 
no final de uma noite em que a morte se sentou, cansada, e nos deixou dansar a vida:

sábado, 26 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A de "até que os fios do coração" (VII)

Instruções para o coração novo?


[Hoje, à chegada a casa]

M de Música para os meus olhos (XVIII)



Caligrama de Vicente Huidobro (1917)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (VIII)

[…]
Nas actuais “democracias”, que tendem a limitar-se à promoção de um sistema económico assente na competitividade, a arte – que desde sempre atesta o humano do homem, a sua capacidade de criar enquanto capacidade de ser singular e de viver em comum – é posta em perigo por um conjunto de mecanismos, os mesmos que são usados para forçar o consumo de qualquer tipo de mercadorias, nomeadamente, os da indiferenciação entre informação, propaganda e publicidade, sendo que estas últimas tendem a ser simples técnicas impositivas de comportamentos, criando elas próprias o ambiente propício para se tornarem cada vez mais poderosas. É assim que proliferam os chamados criativos e as “indústrias criativas”, que os nomes de artistas se convertem em marcas comerciais, ou que um grupo de produtores, “agentes artísticos”, “cria” os próprios artistas, como um bom agente de publicidade pode “criar” o produto a consumir. O controlo dos indivíduos por um Estado “democrático”, através do qual o capital exerce o seu poder, não decorre de meios directos de controlo mas da cumplicidade entre a gestão centralizada de certos recursos e serviços e o poder do marketing detido pelos média, que são o principal veículo do entretenimento […]. O controlo é permanente: a formação de “públicos”, contínua e vinda de todos os lados, abole o silêncio e o espanto pela saturação do quotidiano por músicas, imagens, “notícias” e jogos que não só produzem identificações automáticas como introduzem compulsões ao exercício do poder, correspondentes a um tudo-é-possível-e-tudo-se-equivale. Estão em perigo o sentir e o pensar, motivo pelo qual a resposta singular que a arte convoca é rasurada pelas instituições que pretendem fazê-la render, moldá-la às circunstâncias, que se resumem ao lucro.
[…]

Silvina Rodrigues Lopes, "Precedências desajustadas"
in Persistência da Obra - Arte e Política,
org. Tomás Maia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

A de "até que os fios do coração" (VI)

Um coração novo?

B de Biorritmo (CIII)

A de "até que os fios do coração" (V)

UNA SEMANA


En la primera ecografía no
tenía corazón.

Una semana amando
tres centímetros sin corazón.

Y lo más parecido
a la pequeña mancha
negra era un pequeño

ataúd. Un nudo del tamaño
de un huesito de pollo
en la garganta.

Y lo más parecido a amanecer
velando tu respiración:
el jadeo del mar bajo un cielo de estaño.

Recordé a un poeta
cantor de la familia
tardocapitalista
y te hizo grazia.

Una semana después
la libertad.


Carlos Pardo
in Para los años diez (7 poetas españoles),
org. Juan Carlos Reche, Montevideo: Casa Editorial Hum, 2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

L de (A) Luz da Sombra (XVIII)


Baptistério, S. Miguel, Agosto 2011

R de Regresso ao Trabalho (XXVIII)

FEAR


Your fear is powerful
metaphysical
mine a junior clerk
with a briefcase

with a file
and a questionnaire
when was I born
what means of support
what haven't I done
what don't I believe in

what am I doing here
when will I stop pretending
where will I go
next


Tadeus Rózewicz, They Came to See a Poet,
3ª ed. ampliada, Londres: Anvil Press Poetry, 2011

A de Aniversário (VIII)

Para um Amigo que gosta de cachimbos:



Pablo Picasso, "Garçon à la pipe", 1905

B de Biorritmo (CII)

Ouvia-se ontem, longe do mundo - ou seja, entre Amigos:



[...]
There's a patched up dream for a winter rose
There's a soft touch finally come to blows

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

J de (O) Jardim e a Casa - VI b


[Madrid, 2010]

domingo, 20 de novembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XIV)


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (VI)

Em que é que acredita hoje?

Acredito em literatura, acredito em arte. Não acredito em burrice, não acredito em lugares comuns. Acredito nas coisas que me comovem.


Entrevista de Alexandra Carita a Eduardo Batarda
in "Revista Única", Expresso, 19/11/2011

R de Realizar (IX)


sábado, 19 de novembro de 2011

T de "The days grow short..." (IV)

Tengo el pelo color noviembre.
Mi alma muda las hojas con la llegada del otoño.


María González
in Terreno Fértil - Un ámbito poético (Córdoba, 1994-2009),
Sevilha: Cangrejo Pistolero Ediciones, 2010

P de (The) Privacy of Rain (XVII)


[Ontem, às 18h, num taxi]

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

C de (A) Comunidade (III)

THEY SHED THE LOAD


He comes to you
and says

you are not responsible
either for the world or the end of the world
the load has been lifted off your shoulders
you are like children and birds
go, play

and they play

they forget
that contemporary poetry
means struggle for breath


Tadeusz Rózewicz

B de Biorritmo (CI)

Estrella Morente e Bebo Valdés:

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

E de Em carne viva (V)

ENTRE CÉU E TERRA


Quando não estou a sofrer, encontrando-me entre dois períodos de sofrimento, vivo como se não vivesse. Em vez de ser um indivíduo cheio de ossos, músculos, carne, órgãos, memória, desejos, vejo-me facilmente, de tal modo o meu sentimento de vida é fraco e indeterminado, como um ser unicelular microscópico, preso por um fio e vogando à deriva entre céu e terra, num espaço incircunscrito, empurrado pelos ventos, e nem isso claramente.

 
Henri Michaux
in La vie dans les plis (1949)


B de Biorritmo (C)




[...]
And I'll be true to my love
if my love will be true to me

P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (II)

Para a minha irmã, que faz hoje anos.
O son(h)o começou assim, durante muitos anos, para nós:

terça-feira, 15 de novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

P de "[...] Para realizar um fantasma entrevisto" b



Capela do Senhor Crucificado (Convento dos Capuchos), 12/11/11

P de "[...] Para realizar um fantasma entrevisto"


[Ontem, pela 1ª vez]

P de Poética (XII)

"Il est toujours préférable de ne pas voyager avec un mort."
Henri Michaux


sábado, 12 de novembro de 2011

B de Biorritmo - XCVII b

B de Biorritmo (XCVII)

Hoje, no PÚBLICO:

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

S de "Sleeping is the only love" (II)

DECISÕES GRAVES



Rasgar fotografias
com desgosto
ritual, meticuloso na destruição
como Antero de Quental.

Escrever, por não querer dizer,
ansioso de calar-me, de
caiar-me uma noite
iluminado luto,
canção da ponte admirável
quando eu era um rio a correr
ao teu encontro.

A realidade não dá descanso a ninguém
acordado; e muito menos ao poeta
que dorme bem desperto, a sono preso
ao sonho e para além do sonho
adensado em tumulto de mistério.

Desligar as estrofes, experimentar ignorar
com consciência: sair para poder entrar
por outra porta. Há uma infinidade de portas.
Muito poucas estão abertas.



António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea (Averno)

E de "essa forma modesta de felicidade"


Photographer unknown, "Blackbird’s nest in the folded hands of a statue on a graveyard",
Berlin, 1932


[Pedida de empréstimo a uma vizinha]


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

S de "Sleeping is the only love"

BOAS NOITES


Boas noites.
Que o sonho te distinga
com a sua brilhante escuridão. Que o tempo
se detenha umas horas e te ofereça
a possibilidade de não morreres
pelo processo de estar morta.
Que não venha o turvo pesadelo
do doutor Freud comentar os teus sonhos,
semeando de fantasmas o teu repouso.
Que uns anjos loiros pousem
nas quatro esquinas da tua cama
e degolem os maus pensamentos
com a sua espada de luz, e não te deixem 
sozinha até que amanheça.
Boas noites.


Luis Alberto de Cuenca
in Sin miedo ni esperanza 


[Trad. ID]

terça-feira, 8 de novembro de 2011

R de Regresso ao Trabalho - XXVII (turno da tarde)


 
"[...] Fazer o que a gente não gosta é o pior desemprego do mundo. Se pegar esse aparelho aqui, que pisca, que ri, que chora, e botar ele para trabalhar numa coisa que ele não gosta, é um desserviço para o espírito."


P de Poesia (VII)


Ramón Gaya, "Retrato de Tomás Segovia", 1949

R de Regresso ao Trabalho (XXVII)

C de "Canção diante de uma porta fechada" (IV)



[Lisboa, 04/11/11]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A de Antes de amanhecer

NÃO VALE A PENA


Não vale a pena viver tanto
e tão heroicamente como ontem à noite.
Foi o vazio (e a sua mãe, a ansiedade)
quem marcou as fronteiras que tivémos
de atravessar, os tórridos caminhos
por onde fomos a lado nenhum,
achando-nos os reis da festa.
Não vale a pena que as luzes
da manhã doam e não salvem.


Luis Alberto de Cuenca, Sin medo ni esperanza,
Madrid: Visor, 2002

[Trad. ID]

domingo, 6 de novembro de 2011

L de Levantar a cabeça (VII)



Ontem, a lua à saída do Hospital de Santa Marta.

L de (A) Luz da Sombra (XVII)


Um poema:
Saul Leiter, "Sunday Morning", 1947

[Obrigada, Daniela]

K de Kissing the sun (VI)


S. Miguel / Agosto 2011

B de Biorritmo (XCV)




[...]

Esta noche, amiga mia,
con alcohol nos embriagamos;
que me importa que se rian
y nos llamen los mareados.
Cada cual tiene sus penas
y nosotros las tenemos.
[...]

sábado, 5 de novembro de 2011

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (V)

Ainda há pouco, num gesto lânguido, sob a lassidão que o mau tempo traz, desesperando as tardes uma após a outra, deixei cair, sem sombra de curiosidade e com a sensação de já ter lido tudo há vinte anos, a cortina de pérolas multicolores  que vela a chuva, ainda, contra a fulgência inconstante das brochuras na biblioteca. Muitas obras, sob os fios de vidrilhos, alinharão agora as suas próprias cintilações: apraz-me, como no céu pejado, junto ao vidro, seguir os clarões da tempestade.

A nossa época, recente, se não termina, suspende-se ou talvez ganhe consciência: certa atenção liberta a vontade criadora e relativamente segura de si.

Mesmo a imprensa, cuja informação costuma requerer uns vinte anos, trata do assunto, de repente, no próprio dia.

A literatura sofre aqui uma preciosa crise, fundamental.

[...]


Stéphane Mallarmé, entre 1886 e 1896
in Crise de Versos, trad. e notas de Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo,
Porto: Deriva Editores, 2011

C de Carrosséis (XIII)


Manuel Alvarez Bravo, "Los Obstáculos", 1929

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

T de Tempo Sem Tempo (V)

Porque às vezes apetece tentar uma revolução mansa contra o Tempo: deixar o negro avançar dentro de nós sem o cortar, saltar um dia, não levantar os olhos para nenhuma beleza que nos salve. Mas há sempre um fio que nos puxa de volta ao mundo. Uma palavra - ou várias, com um gato adormecido nas entrelinhas. A respiração dos amigos a dar-nos novo fôlego.

AQUI

I de "I'm building a still to slow down the time" (II)


L de (A) Luz da Sombra (XVI)

Não te lembres de mim, ao nevoeiro
que encerra os barcos negros no abrigo,
para que o olhar da gárgula arguta
roube às goteiras um golo de luz.

Mas a vida secou. A árvore de ouro
de que viste a sombra ferida no muro,
na parede da casa à meia-noite,
de súbito enlaçada ao candeeiro,

morreu. E tu partiste sob a chuva
de outro mundo, sem saberes que fazer
da carruagem com olhos de lobo,

da porta onde o teu corpo se gravou.
Voltarás ao caminho devorado,
das trevas iludido o céu diurno.


Luis Manuel Gaspar
in A Sombra do Farol (1995)



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais" - IV b

Quando surgiu o "Primeiro Manifesto do Surrealismo", "transformar o mundo" (Marx), "mudar a vida" (Rimbaud) eram mais do que um belo sonho. Hoje, o que são?

Transformar o mundo, mudar a vida, será sempre mais do que um belo sonho. Não é outro o tema da poesia de todos os tempos.
Em 1924, ano da publicação do "Primeiro Manifesto do Surrealismo", ainda eu não era nascido, e hoje, 1988, quando estou vivo desta maneira - sempre mais do que um belo sonho. Não vos inquieteis, é a realidade que se engana, está escrito num muro da Avenida de Berna. Não me inquieto.


Entrevistador - Ernesto Sampaio / Entrevistado - António José Forte
in Corpo de Ninguém, Lisboa: Hiena Editora, 1989

B de Biorritmo (XCIV)




Dear darkness
Dear darkness
Won't you cover, cover
Me again?


Dear darkness
Dear
I've been your friend
For many years


Won't you do this for me?
Dearest darkness
And cover me from the sun


And the words tightening
The words are tightening
Around my throat


And, and...

Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening
Around the throat of the one I love
Tightening, tightening, tightening


Dear darkness
Dear darkness
Now it's your time to look after us
'Cause we kept you clothed
We kept in business
When everyone else was having good luck


So now it's your time
Time to pay
To pay me and the one I love
With the worldly goods you've stashed away
With all the things you
Took from us

F de Flor Suficiente (XIII)

NASCEMOS PARA O SONO


Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.


Herberto Helder
in Poesia Toda I, Lisboa: Plátano Editora, 1973

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

P de (The) Privacy of Rain (XVI)

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (IV)

ENTREVISTA



Poesia modo de conhecimento ou meio de expressão?

Poesia é sobretudo, e antes de mais nada, forma de conhecimento. Mas não pode deixar de ser, também, expressão. Conhecimento de nós, dos outros, do mundo, enfim. Conhecimento do homem como microcosmos, entenda-se. Logo, conhecimento sempre revolucionário. Escrevi uma vez: a revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. É evidente que este revolucionário só pode ser o poeta. Porque o poeta, sendo um visionário, é também uma visão: através dele todos podem ver. Ver criticamente, livremente - afinal única maneira de ver. Expressão desse conhecimento pode ser a palavra escrita, e é apenas neste sentido que digo que a poesia é também expressão.


Nós encontrávamo-nos nos cafés. Hoje os cafés perderam-se. Que mais achas tu que se perdeu (ou ganhou) - além da vida? 

Sim, encontrávamo-nos nos cafés. [...] Será melhor dizer: a nossa presença nos cafés era uma constante afirmação contra a morte. [...]  No Café Gelo encontrei a poesia na sua primeira forma bárbara, que é a forma do início de tudo. Os cafés perderam-se, foram assassinados. Perdeu-se, isto é, eu acho que perdi sobretudo o que me roubaram. Ganhei tudo o que tive talento e força para ganhar. Estou vivo.

[...]


Entrevistador - Ernesto Sampaio / Entrevistado - António José Forte
in Corpo de Ninguém, Lisboa: Hiena Editora, 1989

terça-feira, 1 de novembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XII)

Lá estava o pássaro imóvel - vulto furioso e sombrio, de grandes asas, um pequeno mundo feito de ferozes desesperos, de sonhos e da lembrança de ter flutuado lá no alto, acima do Popocatepelt, em voos de quilómetros e quilómetros, para depois baixar sobre a floresta e poisar, em atitude de observação, nos topos fantasmagóricos das desoladas árvores da montanha! Com mãos rápidas mas trementes, Yvone começou a abrir a gaiola. A ave saiu esvoaçando. Poisando-lhe aos pés, hesitou; depois, voou para o telhado de El Petate; em seguida, precipitou-se no espaço através da obscuridade, não para poisar na árvore mais próxima, como seria de crer, mas para subir, subir, no que tinha razão, pois se reconhecia livre - a grande altitude, com um súbito esgaçar de rémiges, no céu límpido, de um azul profundo, no qual, nesse momento, surgia a primeira estrela. Yvonne não sentia qualquer espécie de remorso, mas apenas uma inexplicável e secreta sensação de triunfo e de alívio: nunca ninguém viria a saber do seu acto. Por fim, apoderou-se dela uma sensação de total desgosto e desânimo.

Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, p.333

A de Aniversário (VII)


ALDA MERINI


21 de Março de 1931 - 1 de Novembro de 2009


Obrigada por este parêntesis morto,
por este incunábulo puro,
por esta brisa de aloendro!

Às vezes os mortos são uma história lúgubre,
às vezes só se descobrem depois,
quando ao afastar cortinas de espaço
os encontramos inumeráveis e regressados,
e é desagradável dizer a quem passa
“este já não está sobre a Terra
porque vivia ébrio de beijos”.

*
 
Quando os apaixonados falam
entre as árvores
e centenas de ruas infelizes,
quando abraçam a hera
como se fosse um canto,
quando descobrem a graça
nas searas descompostas
e profundamente viçosas,
quando os apaixonados gemem,
tornam-se senhores da terra
e vizinhos de Deus
como os santos mais ébrios.

Quando os apaixonados falam da morte
falam da vida eterna
conversando num fino esperanto
que só Ele conhece.
A sua linguagem é dessacralizante,
mas evoca a graça infinita
de um imenso perdão.

*

Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não lhes urge,
quando se cala o ruído da multidão
e termina o linchamento das horas.

Os poetas trabalham no escuro
como falcões nocturnos ou rouxinóis
de dulcíssimo canto
e receiam afrontar Deus.

Mas os poetas, no seu silêncio,
fazem muito mais ruído
do que uma dourada cúpula de estrelas.

*

Regressa ao vento da poesia
que não há esperança
mas vive dia a dia
pisando os ossos dos velhos
e antigos profetas.
Regressa às montanhas ardentes
da solidão
que te queimarão o corpo
e a voz.
Regressa aos quotidianos tormentos
mas lembra-te que a solidão
é a única mulher que não te abandona.

B de Biorritmo (XCIII)