sábado, 30 de junho de 2012

F de Falar para as paredes (XV)



Ontem, no Bairro Alto.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

D de "deve ser/ com certeza um sítio muito triste" *

Este poema seria teu, Inês,
se não fosse de ninguém.
Ao chegarmos de Lisboa,
depois da paragem ritual
no Café Lisbela - onde tudo
se compra e tudo se perde -,
vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.

[...]


Manuel de Freitas, Motet pour les trépassés,
Lisboa: Língua Morta, 29 de Junho de 2011


 


* Este post, tal como este, serão sempre também da Célia e do Rui, que, há dois anos, nos fizeram sentir que, apesar de tudo, ainda havia margens. Obrigada.

J de (O) Jardim e a Casa (XVII)

As formas, as sombras, a luz descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era o que me lembro
da cor do jardim
 


 ANTÓNIO MARIA LISBOA

quinta-feira, 28 de junho de 2012

B de Biorritmo (CXXXVIII)

CANÇÃO


"triste como um rio, sereno como as pontes..."



fio d'água transparente
balança de luz
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

estátua que conduz
o cintilar do negro
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

o gato que se enrola
a limitar o brilho
que identifica o negro
que a noite percorre
sereno como um rio
sereno como as pontes

palácio que esqueci
teu corpo já estrangeiro
no nome tão distante
felino ainda na noite

triste como um rio
sereno como as pontes


Manuel de Castro, A Estrela Rutilante, ed. do autor

P de "Portugal não é um país pequeno." (IX)



Portugal - Espanha, Euro 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

M de Mesa de Amigos (IX)



Ontem, no Clube dos Jornalistas.


A FLOR


 
Foi um golpe de mestre. Gostaria mesmo de dizer que fui genial. Não aceitei a oferta de uma flor porque me convenci que eu não estava ali. Por vezes gosto de imaginar que superei a vida. É uma ilusão bonita e agradável. Ali estava eu, sentado, como se me encontrasse no reino dos bem-aventurados. O outro, porque estava vivo e não podia escapar aos imperativos da existência, pediu à rapariga a flor que ela tinha na mão, e ela ofereceu-lhe a flor sem hesitar. Foi com grande talento que continuei ali gentilmente sentado, como quem não tem qualquer importância. Representava o papel da personagem ausente.
[...]

 
Robert Walser
 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

B de Biorritmo (CXXXVII)




EL CIRUELO


Hay en el patio un ciruelo
que no se encuentra menor.
Para que nadie le pise
tiene reja alrededor.

Aunque no puede crecer,
él sueña con ser mayor.
Pero nunca podrá serlo
teniendo tan poco sol.

Duda si será un ciruelo
porque ciruelas no da.
Mas se conoce en la hoja
que es ciruelo de verdad.


- Bertolt Brecht

D de "De cara a la pared"


 
México em Lisboa, 20/06/12

P de Pássaros anónimos (XIII)


Emanuel Jorge Botelho,
no Paralelo W.
CONTRA MUNDUM

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T.S. Eliot



Hoje quantos somos? Quantos ainda
sentem o gosto, esse cheiro
escapando, estranho
como a nossa juventude.
Adiados vezes suficientes, mais
atrevidos ainda, num país que preferia
não, que gosta muito de chamar
à parte, de dizer que isto não é próprio,
não se faz, ou
explicar as suas razões e,
no fim, pedir uma atençãozinha.

Tenho o sono,
há dias, semanas já, sem funcionar.
Não me larga a ideia de que
endoideço
. A boca cheia de asas,
um rígido tremor, e quando a abro

nada. E então levo-me por aí, a pé,
a sentar-me pelos cafés, só, a dissolver-me
nuns versos. A chuva perde o juízo,
cai de todos os lados e cansa
a manhã, com as suas cores frágeis,
arrastadas, e aromas pútridos.
Mesmo a sombra
cheira a deus
nestes jardins de vento.
Fico a olhar umas flores afogadas
nesse charco de onde bebo
um último verso antes de ir-me.

Decoro detalhes, variações
mínimas neste
entardecer alucinado. Vou pela hora
em que a loucura se torna doce,
monologando como os velhos, a desfiar-me
pelos bairros, afogado em sonho.
Da boca cariada das ruas de Lisboa,
oiço e aproveito restos de frases esquecidas
de sentido, vozes já sem ninguém,
um inventário de coisas
que a música
sorve. Todas estas canções que ainda
nos procuram no sangue
um coração antigo. Quase nada
resta.

Sonho, enfim, a escuridão
dentro de uns cabelos
, lábios rombos de
amor, mesmo um assim, tão rasteiro. Uns
olhos verdes, quietos. Beleza dessa,
roçando a insolência.
Depois só a sombra parada nestas mãos,
de um corpo que se afastou e deixa
todo o seu peso num nome,
florindo minuciosamente,
num odor agudo, vago, tardio.

A cama baixa ao nível cruel
das recordações, desfeita por mulheres
dessas de dar à corda. O ébrio galope
de uma raça que já sabe
como tudo acaba
e continua a ter pressa.

Mas hoje quis, como
só poucos,
cortar ambas as mãos, deixá-las
sobre a pedra de uma igreja em ruínas,
rezando
, alimentando
as religiões do ritmo. Sons
agarrando a vida para escorchá-la,
fazê-la nascer de novo
e a uma ânsia nova, de olhos rasgando
em perseguição, que fareje e busque,
embosque e faça presas, morda e mate
com a sua boca incrível.

Quantos? Poucos, decerto, mas
em nenhuma época foram precisos
muitos.
Diogo Vaz Pinto, Nervo,
Lisboa: Averno, 2011

E de "e é sempre segunda-feira/ nas paragens" (II)

La luz araña los cristales
y cubre de pavas la mesilla.
Suenan muelles, toses, cañerias.
La peña, de un portazo, se embarca
hacia el talego. Afuera el autobús
cierra sus hojas.

Es la vida
que vuelve como un preso a su cadena.


Violeta C. Rangel, Para nada,
Huelva: Crecida, 1999

domingo, 24 de junho de 2012

N de "Na casa de Julho e Agosto" (II)

CASSINO



Não gosto de prazer premeditado.
O mundo, às vezes, é um borrão escuro.
Eu, meio bêbado, estou condenado
A ver as cores de um viver obscuro.

O vento brinca e às nuvens descabela.
A âncora cai no fundo do oceano.
E inanimada, como numa tela,
A alma pende sobre o abismo insano.

Mas amo estar nas dunas do cassino,
A larga vista da janela baça,
Um fio de luz na toalha que desbota,

À minha volta o mar verde-citrino,
Vinho, como uma rosa, em minha taça
E eu a seguir o vôo da gaivota.


Óssip Mandelstam,
trad. de Augusto de Campos

sábado, 23 de junho de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXX)

[...]

Não há portugueses. Há políticos. Vale mais para nós o predomínio do nosso partido do que a honra e a independência da Pátria. Se a vitória da Alemanha assegurasse as instituições republicanas, não haveria um republicano que fosse francófilo. Se a vitória da França restaurasse a monarquia, entre os monárquicos não haveria um germanófilo. Não há portugueses. Há políticos. A nossa terra é um cenário de acaso, onde se representam egoísmos, falcatruas, misérias...
Portugal deixou de viver, porque deixou de ser amado e compreendido. Não é mais que um pobre criado que só tratamos bem quando nos serve... Portugal não existe; existem partidos. Uma coroa real e um barrete frígio, vêde a pobre constelação de farrapos em volta da qual gravitam as nossas almas (?)...

[...]

 
Teixeira de Pascoaes,
na revista Águia (1915)


sexta-feira, 22 de junho de 2012

P de Poética (XXV)

Devemos regressar incessantemente à erosão. A dor contra a perfeição.


René Char, Le Nu perdu, 1978

*

Contra o poeta e a favor da poesia, uma única fonte, um único segredo, um único remédio - ser contrariado.

 
Pierre Reverdy, En Vrac, 1956

[Trad. ID]
 
REMANÊNCIA


Para Louis Fernandez



De que sofres tu? Como se despertasse na casa em silêncio o ascendente de um rosto que algum espelho agreste tivesse imobilizado. Como se, com o candeeiro alto e o seu brilho pousados sobre um prato cego, tu erguesses até à tua garganta apertada a mesa antiga e os seus frutos. Como se revivesses as tuas fugas no vapor da manhã ao encontro da tão desejada revolta, que soube, melhor do que qualquer ternura, socorrer-te e elevar-te. Como se condenasses, enquanto o teu amor dorme, o portal absoluto e o caminho que a ele conduz.
De que sofres tu?
Do irreal intacto no real devastado. Dos seus desvios aventureiros, cercados de apelos e de sangue. Do que foi escolhido e não foi atingido, da margem do salto até à costa alcançada, do presente irreflectido que vai desaparecendo. De uma estrela louca que se aproximou e que vai morrer antes de mim.


René Char, Le Nu perdu, 1978
[Trad. ID]

quinta-feira, 21 de junho de 2012

P de (The) Privacy of Rain - XXIX b

WORKING IN THE RAIN



My father loved more than anything to
work outside in wet weather. Beginning
at daylight he'd go out in dripping brush
to mow or pull weeds for hog and chickens.
First his shoulders got damp and the drops from
his hat ran down his back. When even his
armpits were soaked he came in to dry out
by the fire, making coffee, read a little.
But if the rain continued he'd soon be
restless, and go out to sharpen tools in
the shed or carry wood from the pile,
then open up a puddle to the drain,
working by steps back into the downpour.
I thought he sought the privacy of rain,
the one time no one was likely to be
out and he was left to the intimacy
of drops touching every leaf and tree in
the woods and the easy mutterings of
drip and runoff, the shine of pools behind
grass dams. He could not resist the long
ritual
, the companionship and freedom
of falling weather, or even the cold
drenching, the heavy soak and chill of clothes
and sobbing of fingers and sacrifice
of shoes that earned a baking by the fire
and washed fatigue after the wandering
and loneliness in the country of rain.



Robert Morgan


P de (The) Privacy of Rain (XXIX)



Ontem, à porta do passado.
Ou os efeitos terapêuticos dos amigos e da chuva sobre a tristeza universal
(obrigada).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

R de Resistência (II)



Hoje, ainda para o Miguel C., ainda como o seu sorriso era.
A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Dylan Thomas, A mão ao assinar este papel,
trad. Fernando Guimarães, Lisboa: Assírio & Alvim, 1990

B de Biorritmo - CXXVI b

Eu vinha para a vida e dão-me dias
Reduzida ao relógio a aventura
eu próprio me despeço da lonjura
e troco por desastres alegrias

Se não cabiam nestas freguesias
os gestos que trazia agora à lura
mal assoma limito a desmesura
e cantam rouxinóis não cotovias

E digo "senhorio" "procurador"
quando quero falar da minha casa
o templo onde habita o senhor

Não pode o homem ser aquele que é
mesmo que pra voar distenda a asa
ou seja natural de nazaré


Ruy Belo, Homem de Palavra(s), 1969


terça-feira, 19 de junho de 2012

O poeta não deve ter e sobretudo não deve procurar aquilo a que se chama um público; só pode ter - não pares, isso não significaria nada neste contexto, nem sequer semelhantes: precisaria de idênticos e isso não existe - digamos, então, equivalentes e isso encontra-se, não se procura.


Pierre Reverdy
[Trad. ID]

B de Biorritmo (CXXXVI)

Para o Miguel C.:




"[...]
Be sure to find me. [...]"

segunda-feira, 18 de junho de 2012

F de Falar para as paredes (XIV)



Hoje, no metro, a insustentável leveza do amor.

domingo, 17 de junho de 2012

R de Resistência

Os poetas não são profetas mas, não tendo em geral um sentido do presente nem o dom de se adaptarem profundamente a ele, talvez possuam um sentido do que é constante, de que pode ser válido num dado momento e depois. Eles não predizem nada do futuro, mas sentem às vezes no presente algo que só se tornará evidente para todos no futuro.

Pierre Reverdy, Le livre de mon bord, 1948
[Trad. ID]

P de Perder a cabeça (VII)



[Lisboa, 16/06/12]

B de Biorritmo (CXXXV)




Don't go to church on Sunday
Don't get on my knees to pray
Don't memorize the books of the Bible
I got my own special way
But I know Jesus loves me
Maybe just a little bit more

     
[...]
          

R de Rezar na era da técnica (IX)




 "1101175503112011":
uma instalação de Izumi Ueda Yuu
no espaço Câmara Lenta.

[ID, 15/06/12]

sábado, 16 de junho de 2012

S de Sense of snow (VI)


CURVA

Para Karl Miller

Sob a boca
da lua: um campo
  
de giestas com luvas de neve,
e muito abaixo, o mar,

naufragando
contra as rochas.

No quarto bruxuleante
o fogo

encontra o whisky, aceso
na sua ranhura dourada,

no calcanhar
morno do copo.

Uma curva
de pedra e madeira,

coisas tornadas
mais belas pelo uso;

o voo como neve
a cair da coruja,

o virar
as páginas de um livro.


Robin Robertson
[Trad. ID]

P de Poética (XXIV)

[...]
Nasci em Maceió, uma pequena cidade marítima e lagunar do nordeste brasileiro, e a paisagem nativa se casava plenamente à paisagem dos romances afortunados. Diante de mim estava sempre o mar, com as suas vagas sucessivas, os navios que convidavam à partida e à evasão, e um branco farol vigilante no alto de uma colina. A realidade e a imaginação se fundiam no instante milagroso. Assim, desde cedo aprendi que a única verdade do homem é a verdade de sua imaginação, esteja ela guiando a mão de um escritor ou a ambição de um menino.
[...]
Naquele momento, aprendi que a poesia é filha da realidade e da materialidade e impureza do mundo visível, mas só através da criação poética o mundo pode ser desvelado. Aos poetas, como aos demais criadores, cabe a tarefa ou a missão de proceder à visibilidade do universo. A poesia é uma arte de ver - de ver e saber ver o que, mesmo sob os nossos olhos, só pode ser distinguido pelo uso e iluminação da linguagem.
[...]


Lêdo Ivo, "Rumo ao Farol",
in Antologia Poética,
Porto: Edições Afrontamento, 2012

T de Tratado de Pedagogia (LIV)



Hoje, no EXPRESSO/"Actual".

P de Pássaros anónimos (XII)



[Príncipe Real, 15/06/12]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIX)

A SAQUE E A SANGUE


Na minha cidade a saque e a sangue
um grilo sacana canta e não canta
um grilo couraçado, desesperado
dentro da gaiola, pequena garganta

*

Conheço estas vozes que cheiram a tabaco
e dizem e dizem a saque e a sangue
a missão do poeta na miséria dos tempos:
Construir uma Rosa, suicidar-se estanque
   
ou viver pesaroso, fumador de navios,
ou vampiro feliz na encruzilhada dos rios


António Barahona
in Grifo (1970)

F de Flor Suficiente (XIX)



[Príncipe Real, Junho 2012]


S de Sexta-feira (II)

SEXTA-FEIRA

para o Manuel e a Inês
Um vidro com anúncios, dão-se explicações
sob varandas esfoladas de onde ninguém
nos acena. Lisboa, as pequenas praças
de empedrado incerto, quando saímos
de um café e pensamos: olha, já escureceu.
As manobras difíceis dos autocarros
de sexta, o fruto não apetecido de Novembro
na mercearia que a mesma tristeza oprime
desde a década de 50. À volta, os muitos filhos
da realidade ilustram os trabalhos outonais,
sombrios, inexpressivos figurantes do erro,
da repetição. Sentimos que não podemos
continuar – mas continuamos. E à noite talvez
venha por nós, de mãos mais frias, a poesia.

Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia (Averno)

quinta-feira, 14 de junho de 2012


Helen Levitt, New York, c.1942
 

W de Wild is the wind (IV)





 
Vento = Tempo


quarta-feira, 13 de junho de 2012

A de Aniversário (X)

Para o Miguel, de oito anos estreados, a quem fico hoje a dever um jardim e três prendas:




Lucien Clergue, "Pássaro caído do ninho", 1955

A de Anomalia Poética (IV)



Lisboa, 12/06/12



segunda-feira, 11 de junho de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (IV)


 
Alain Resnais, L'année dernière à Marienbad, 1961

*


Wolf Suschitzky, "Boys Playing Cards", Dundee, 1944
     [...]
     Eis o papel da poesia. Ela desvela, no sentido pleno do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que afasta o torpor, as coisas surpreendentes que nos rodeiam e que os nossos sentidos registavam maquinalmente.
     É inútil ir muito longe à procura de objectos e sentimentos bizarros para surpreender o sonhador acordado. É esse o sistema do mau poeta e o que nos acontece com o exotismo.
     Trata-se, sim, de lhe mostrar aquilo sobre o qual o seu coração e os seus olhos deslizam todos os dias, mas sob um ângulo e a uma tal velocidade que lhe pareça vê-lo e comover-se com isso pela primeira vez.
     Eis a única criação permitida à criatura.
     Pois, se é verdade que a multiplicidade de olhares deixa sobre as estátuas uma pátina, os lugares comuns, obras-primas eternas, estão cobertos por uma espessa camada que os torna invisíveis e que esconde a sua beleza.
     Se pegarem num lugar comum, o limparem, o esfregarem, o iluminarem de maneira a que ele recupere a força da juventude e da frescura que tinha na origem, farão o ofício de poeta.
     Tudo o mais é literatura.   

     [...]




Jean Cocteau, Le Secret Professionnel, 1922
[Trad. e fotografia: Inês Dias]


 
"Children in a Bomb Shelter", England c. 1941   

quinta-feira, 7 de junho de 2012

P de Postais (V)


LÂMPADAS



Em junho gostas de madrugar, luz, para te esgueirares por entre as ripas dos estores que nunca fecham até ao fim. Tentas visitar os quartos onde os amantes se abraçam. Ainda que gostasses de ficar acordada, luz, para desfrutar dos seus rostos encadeados, há um momento em que os olhos te pesam e os fechas, e perdes, deitada no sofá, o argumento do filme cujo fim descobres quando acordas para te infiltrares pelas ranhuras. Sei todas estas coisas, vejo-as, mas tenho uma dúvida, luz, contemplas os lençóis desfeitos ou também o que sonham?


[Trad. ID]

F de Fazer Fotografia (LXV)



Weegee, aka Arthur Fellig, fotografado a fotografar, em 1939.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

[...]

É necessário dizer isto para começar. Para que uma obra absurda seja possível, é preciso que o pensamento, sob a sua forma mais lúcida, esteja misturado com ela. Mas ao mesmo tempo é preciso que nela ele não transpareça, a não ser como inteligência organizadora. Este paradoxo explica-se segundo o absurdo. A obra de arte nasce da renúncia da inteligência a raciocinar o concreto. Nasce do triunfo do carnal. É o pensamento lúcido que a provoca mas nesse mesmo acto o pensamento renuncia a si próprio. Não cederá à tentação de acrescentar à descrição um sentido mais profundo, que sabe ilegítimo. A obra de arte encarna um drama da inteligência, mas só indirectamente o comprova. A obra absurda exige um artista consciente desses limites e uma arte em que o concreto não significa nada mais do que ele próprio. Não pode ser o fim, o sentido e a consolação de uma vida. Criar ou não criar, não muda coisa nenhuma. O criador absurdo não depende da sua obra. Poderia renunciar a ela; algumas vezes renuncia. Basta uma Abissínia.

[...]


Albert Camus, O mito de Sísifo,
trad. Urbano Tavares Rodrigues,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d


Jerome Liebling, "Boys Playing at Abandoned Building", New York City, 1949



Jean-Pierre Melville, L'armée des ombres, 1969
(teste de cor)

S de Sob céus estranhos (II)



Ontem, o caminho até junto dos amigos foi assim.


T de Tratado de Pedagogia XLVII ou R de Regresso ao Trabalho - b

terça-feira, 5 de junho de 2012

I de Indexação (II)



Luís Henriques
in Aforismos do Estádio, Oficina do Cego, 2011


R de Regresso ao Trabalho (XLIV)


Ernö Vadas, "Fábrica", Budapeste, 1955

O AMADOR DE POEMAS


Se olhar de repente para o meu verdadeiro pensamento, não me consolo por ter de suportar esta palavra interior sem pessoa nem origem; estas figuras efémeras; e esta infinidade de projectos interrompidos pela sua própria facilidade, que se transformam uns nos outros, sem que nada mude com eles. Incoerente sem o parecer, instantaneamente anulado por ser espontâneo, o pensamento, devido à sua própria natureza, é destituído de estilo.
    
Mas nem todos os dias tenho a força de dedicar a minha atenção a alguns seres necessários, ou de simular os obstáculos espirituais capazes de criarem uma aparência de começo, de plenitude e de fim, em vez desta minha fuga insuportável.
    
Um poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada; ofereço-lhe a minha respiração e as máquinas da minha voz; ou apenas o seu poder, que se concilia com o silêncio.

Entrego-me a esse andamento encantatório: ler, viver onde nos levam as palavras. A sua aparição está escrita. As suas sonoridades concertadas. A sua vibração forma-se, segundo uma meditação anterior, e elas precipitam-se, em grupos magníficos ou puros, na ressonância. Até os meus assombros estão garantidos: são previamente escondidos e fazem parte do conjunto.
  
Levado pela escrita fatal, e uma vez que a métrica sempre futura domina de modo irreversível a minha memória, sinto cada palavra com toda a sua força, por a ter esperado indefinidamente. Esta dimensão, que me transporta e a que eu dou cor, protege-me do verdadeiro e do falso. Nem a dúvida me divide, nem a razão me atormenta. Nenhum acaso, mas uma sorte extraordinária que se fortalece. Encontro sem esforço a linguagem dessa felicidade; e penso por artifício, um pensamento todo certo, maravilhosamente previdente - com lacunas calculadas, sem trevas involuntárias, cujo movimento me dirige e cuja quantidade me preenche: um pensamento singularmente pleno.


Paul Valéry
[Trad. ID]

segunda-feira, 4 de junho de 2012

E de "e é sempre segunda-feira/ nas paragens"



... e volta.

I de Inverness (III)

MÁGOAS



Um copo demasiado cheio:
pego na minha cabeça
com ambas as mãos,
cuidadosamente para não entornar.


*


Sem uma morte real na vida
tive de inventar a minha.

Agora construo modelos do meu pai
feitos de fumo e luz.


*


Ele estava desconfortável
por isso pedi à enfermeira
que o soerguesse um pouco.
Morreu uma hora depois.
Costuma acontecer, explicou ela,
depois de lhes mexermos.
Perdoa-me, digo-lhe, junto a ele,
a boca cheia de fel.
 

*


Lembro-me dele
em mangas de camisa e calças de flanela:
 
uma pontada de lado
por ter corrido tanto até casa.


*


A barragem que ele construiu
no riacho cedeu finalmente:
água fria da Escócia
a lançar-se no mar.



Robin Robertson
[Trad. ID]

domingo, 3 de junho de 2012

A de Anomalia poética (III)



Na minha livraria preferida.

sábado, 2 de junho de 2012

H de «He loved beauty that looked kind of destroyed.» (II)

[...]

O belo resulta sempre de um acidente. De uma queda brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adqurido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude do choque Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: "Nunca se é compreendido, é-se admitido." Matisse repete com frequência esta frase.

As pessoas que realmente viram o acidente afastam-se, perturbadas, incapazes de dar por ele. As que o não viram, testemunham-no. Exprimem a sua ininteligência através de um pretexto, que é darem importância a si próprias. Mas o acidente permanece na estrada ensanguentado, estupidificado, atroz de solidão, presa das loquacidades e dos relatórios da polícia.


Jean Cocteau, Visão Invisível,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005


B de Biorritmo (X)

Outra maneira de ouvir o filme La Belle et la Bête, de Jean Cocteau:


sexta-feira, 1 de junho de 2012

F de Fazer Fotografia (LXIV)

AO CREPÚSCULO



Ao atravessar o bosque
vi as seguintes coisas:
um gato, deitado, a olhar para mim;
uma cabana vermelha em que não podia entrar;
o esgar branco da raposa apanhada;
a aranha numa garrafa de leite,
aconchegando a mosca enfaixada,
embalando-a no seu sono;
umas chaves de carro, penduradas numa árvore;
uma fogueira, ainda quente, e um osso
do tamanho do meu braço, o meu nome
gravado nele, com erros.
O cão deixou-me aí,
e eu continuei sozinho.


Robin Robertson
[Trad. ID]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXVII)

Dêem-lhe todas as satisfações económicas de maneira que não faça mais nada senão dormir, devorar pastéis e esforçar-se por prolongar a história universal; cumulem-no de todos os bens da terra e mergulhem-no em felicidade até à raiz dos cabelos: à superfície de tal felicidade como à tona de água virão rebentar bolhas pequeninas.

DOSTOIEVSKI, Cadernos do Subterrâneo

[epígrafe de Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo,
Lisboa: Edições 70, 2011]

C de Começar o dia com um livro novo (IX)

SOZINHO

     Sozinho levantado. Sozinho sentado. Sozinho deitado. Sozinho sobre a grelha. Sozinho desmembrado por cavalos de trabalho de que só via as garupas. Sozinho enforcado e o seu esperma transformado em mandrágora. Sozinho na velocidade que não existe, no minuto que não existe, no espaço que não existe, no tempo que não existe, na eternidade que não existe, no nada que não existe, no vazio cheio de lama. Sozinho num bloco de quartzo ignóbil, num icebergue em viagem. Sozinho com a solidão que não é só uma. Com a lua que foi sem ser. Com os seus passos que não existem. Com este tição que se devora e arde ao meio e se devora e arde num sonho que nem sequer é um sonho. Sozinho com o sono do condenado à morte.


Jean Cocteau, Tanta coisa por dizer,
Lisboa: Língua Morta, 2012



B de Biorritmo (CXXXIV)

T de Tempo Sem Tempo (XI)

Morre-se de vulgaridade, hoje. Morre-se de maquilhagem e lifting. A vulgaridade entediante do trabalho, dos gestos repetidos da jornada. Deixar de produzir, suspender o consumo: morte; que assinala a interrupção do tempo linear mensurável lembrando a todos os homens como é súbita a permanência no peep-show da vida. [...]


Paulo da Costa Domingos, "Artes Moriendi",
Vaga, Lisboa: frenesi, 1990