terça-feira, 31 de julho de 2012

P de Perder a cabeça (IX)


[Bartleby, 27/07/12]

Y de "y el sol era un domingo"

segunda-feira, 30 de julho de 2012

E de Espinhas para um gato (XIV)



 [Lisboa, 23/07/12]

domingo, 29 de julho de 2012




"[...]
- Como é que passa lá os dias?
- Ah, sim! Quer que eu aborde o problema do tempo? Pois bem, a respeito do tempo vou responder-lhe como Santo Agostinho. À espera da morte."


Entrevista a Jean Genet, BBC, 1985

sábado, 28 de julho de 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXV)

há em cada livro, dizes,
um rascunho do mundo,
e as palavras vão unindo as pontas do mar.


Emanuel Jorge Botelho
in Urbano, O Fundo das Naus,
edição do autor, 2011

I de Intimidade - c



Ilustração de Jean Cocteau para Querelle de Brest (1947), de Jean Genet

in Jean Genet, No sentido da noite,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

P de Paisagem urbana (IV)

QUE DESLIZA



Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouso negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.


Ana Cristina Cesar

E de "Eliminando sombras/ no mapa das cidades de ontem"



Herbert Dombrowski, "Licht über Altona #11", 1954

quinta-feira, 26 de julho de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLVIII




[...]

What was sent to the soldier's wife
From Oslo over the sound ?
From Oslo he sent her a collar of fur,
How it pleases her, the little collar of fur
From Oslo over the sound.

[...]


Balthus,
ilustração para O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë,
1932

I de "I'm building a still to slow down the time" - d



[Lisboa, 23/07/12]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

C de Começar o dia com um livro novo (XI)




S de Solidão (ou C de Comunidade) XLVII

TERAPIA




Tranquilizo-me quando
não falam os parvos,
se vão os intriguistas,
veraneia o mesquinho,
o invejoso dorme;
fico à defesa se
sedam o melancólico,
condecoram o mentecapto,
domesticam o herói,
dão medalhas ao vate,
acariciam os lerdos.
Indisponho-me se falam
bem de mim na minha presença
e também se não falam
nada de mim ou quase nada.
Sou um luzeiro escuro.
E calo-me. Talvez
porque falta uma gota
de vinho carrascão
para transbordar o copo.

 
Antonio Hernández

domingo, 22 de julho de 2012

B de Balada para un loco - b

B de Balada para un loco (II)


O MEU SOBRINHO MANOLO




A tristeza às vezes visitava-lhe o entusiasmo
e o fogo apagava-se e já nada lhe fervia
aos oitenta graus que o levavam pelo mundo.
Tinha os olhos como duas brasas, como duas catapultas,
e o seu sorriso era capaz de hipnotizar um anjo.
Parecia estar sempre a acordar
e sempre prestes a mostrar-nos a aurora.
Mas um dia esqueceu-se de tudo
e decidiu fugir para onde os sonhos lhe sorrissem
e não o ameaçassem, onde não se chamassem loucura,
essa desdita dura e bela de uma certa idade.
E enforcou-se numa árvore para voar mais alto e mais livre.

 
Antonio Hernández
[Trad. ID]

sábado, 21 de julho de 2012

A SECO



Bebe, bebe comigo.
Já sei que aguentas mais,
que és invencível,
bebe até me destruíres,
mas talvez consiga
neste jogo a dois
que conheças os homens
que sem piedade criaste;
e sofras por uma vez,
ao sabor da pena,
o belo e o terrível
das tuas experiências.

Bebe e paga a conta.


Antonio Hernández
[Trad. ID]

B de Biorritmo (CL)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

F de Flor Suficiente (XX)


[Fumadora inveterada, Berta Mendes segurava originalmente nos dedos um cigarro, hábito emancipado feminino nos Anos 20 que, censurado pelo regime, foi substituído por uma pequena flor estilizada.]




Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932

C de Começar o dia com um livro novo (X)



Antonio Hernández, Insurgencias (vol.2), 2010

ARTIGO NÃO REVOGADO




Os poetas, à semelhança dos cães celestes,
serão sempre identificados pelos dentes.


Ricardo Álvaro

quarta-feira, 18 de julho de 2012

P de Perder a cabeça - VIII b




[...]
The holes in my pockets
I lost it all
[...]



Obrigada, Daniela :)

terça-feira, 17 de julho de 2012

C de "(O) começo de um livro..."

Vim estabelecer-me nesta cidade numa altura em que absolutamente nada me importava. "Estabelecer" talvez nem seja a expressão correcta. Não acalentava qualquer desejo de estabilidade; pretendia apenas que à minha volta tudo continuasse fluido e provisório, pois que só deste modo me parecia possível salvaguardar uma certa estabilidade interior, cuja substância não saberia contudo explicar.

[...]



Italo Calvino, "A nuvem de smog"
in A Vida Difícil, Lisboa: Arcádia, s/d

D de Dansa (II)



Eduard Munch, "O Baile da Vida", 1899

P de Perder a cabeça* (VIII)



= o portátil

C de Comfort food (III)



Mesa de amigos
com dim-sum.

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed." (III)





[...]


Há algo de grandioso nesta luta
e de um certo modo tenho
a difusa certeza de que existe
um verso que contém esse segredo
trivial e abominável da rosa:
a beleza é o rosto da morte.
Se encontrasse esse verso seria suficiente?

[... - aqui]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

B de Biorritmo (CIXL)

POEMA 1000103




A menina que brinca acordada com a sua inesperada inocência
a desconhecida inocência em forma de arco
uma moeda coberta de ninhos bordados,
um piano esvaindo-se em sangue no meio das chamas
sem ter conhecido a transparência das suas mãos
sem ter sequer protestado contra os espelhos brancos,
sem usar o habitual fato de alumínio,
minhas incompletas incompreensões repetidas incansavelmente
cortem as vossas mãos, cortem os vossos olhos,
as suas vivências tranquilas,
a humidade que cresce até ao medo,
a jovem despida que nunca viu o seu retrato
a jovem que escuta de 2 a 4 a sua inconsciência
o anjo, o belo anjo, que ofereceu as suas plumas,
subamos até ao país desalojado pelas abelhas
agoniza sempre a diminuta neve,
segui, segui, senhores pássaros de leitura.


Enrique Goméz-Correa
in Total n.º1, Janeiro de 1936
(revista dirigida por Vicente Huidobro)

P de Paisagem urbana (III)



Destino a 50 metros

[em Sete Rios]

domingo, 15 de julho de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade) XLVI

O LOBO FALA AOS SEUS CÃES



Vejam-me sou incrível como a noite
Talvez porque até ao meu cérebro
Desceram hienas em larva


Conservaram-se
Nessas tristes histórias da infância
Com a fúria do homem que fez
Do orgulho o ar mais respirável


Estamos perdidos com os amigos
Na mesma podridão
Rimos
Abandonámos as nossas noivas
Num festim de cães degolados
Nuvens do amor, nuvens da noite
Devolvei-me às fáculas ardentes dos meus sonhos
Para não ouvir o ruído
Da maldição que sobe aos lábios
E ser um pouco mais negro do que a calúnia.



Enrique Goméz-Correa, Cataclismo en los ojos, 1936
[Trad. ID]

sexta-feira, 13 de julho de 2012



Robert Doisneau, "La voiture fondue", 1944


quinta-feira, 12 de julho de 2012

L de "Lived in bars" (II)

AS MIL E UMA NOITES



“Rufam os saltos
de uma puta no passeio”

PEDRO LUIS DE GÁLVEZ



Que escuros e estranhos
e sujos lugares
em que desperdiçámos os famosos anos;
 
recordo os bares
cheios de raparigas
à procura de algum chato com quem casar-se;

os cornos, as zangas,
os copos, as noites
em que o grupo era como uma família;

curtir nos carros,
vigiar esplanadas,
aprender letras de canções absurdas,

vaguear nas praças
exibindo um ar
mais-que-estudado de arcanjo canalha;

somos dessa cepa
que comprava droga
com a mesma lata que guloseimas,

que acreditava no ioga
em vez da missa,
e éramos virgens do sexo sem borracha;

tínhamos pressa
e, muito mimados,
tivemos tudo desde o primeiro dia:

beleza, apelidos,
talentos, e depois
as duras mulheres, os amigos brandos.

A noite foi uma prova
de fogo em que ardiam
os melhores anos como ramos secos.

Juventude perdida…
Mau sonho que passa
ao voltar a casa
a sua dupla factura: a bolsa e a vida.


Fernando López de Artieta, Grosso Modo,
Sevilha: Siltolà, 2011

[Trad. ID]

E de Espera (XXI)

CONTRA-TEMPO



Ainda mais alguns dias até ao acontecimento. Passa-se do outro lado da rua por causa disso - da espera. Toda a gente (alguns) dizem: "é para hoje" e fazem rapidamente as malas. Enchem-nas de chaves iale e parafusos, fusos horários e rocas peadas. "É para já" dizem. São os que anulam muito bem a coisa de que entre cada dia e cada dia há uma noite inteira para comover-se e pousar. Tomam a pose solar e iludem a chuva e todas as faces da água - provando pois que o espaço pode ser impermeável e a vida dois dias - o que esperaram no susto de antes do antes de ser este dia aplacado que fazem - o dia placa - e este. É a gente do já. Faut les aimer, faut les aimer, dizem as avezinhas de frança nos dias úteis. Mas essas não são o acontecimento, nem sequer seu anúncio.


[...]


Maria Velho da Costa, Desescritas, 1973

quarta-feira, 11 de julho de 2012

P de Poética (XXVII)

Só podemos falar verdade quando falamos de nós mesmos...
E a minha pintura
não é senão uma procura de verdade.
Posso falar de mim no céu de uma paisagem.

- Mário Botas


 
[Cemitério da Pederneira, Agosto 2010]

S de Sete rosas mais tarde - VIII b

terça-feira, 10 de julho de 2012

S de Santa Cruz (IV)

NO FUNDO DO SONHO



Às vezes tenho sonhos como mares:
batem-me as suas ondas, fazem-me mal,
deixam-me um gosto a sal debaixo da língua,
emaranham os meus cabelos e afogam-me.
E, quando chego ao fundo, repugnam-me
os seres que o habitam e o sujam,
seres escorregadios e viscosos,
sem pálpebras e sem extremidades,
sem linguagem, sem lágrimas, sem ruído.
Às vezes tenho sonhos como mares
e, quando acordo de um deles,
sei que sobrevivi a outro naufrágio.


Amalia Bautista
in La poesía y el mar/A poesia e o mar, 1998

[Trad. ID]


S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXIV)

COR SÓ



     Como, então,
sair daqui, tentar a aventura
de sair deste tempo
de desolação?
                             O verde claro
que nos traz a alegria e a esperança, não como o do musgo ou o das
     garrafas,
cheios de incerteza e de soluços, ou o verde já oxidado
do tempo; nem sequer o da maçã ou o da ondulação
porque não têm olhos nem cintura. Nem os verdes do porto, porque estão
     em silêncio; nem aqueles
que nos dizem adeus das estações ou da janela.
Nem o dos quartéis ou o das casulas
porque nunca dão flor. Eu falo do verde da infância
que nunca nos deixa sós, e vive e sonha
e morrerá connosco; ou o desse vestido
que o vento levanta à nossa passagem, e nos olha e aceita
com a sua inocência infantil; não esse outro
que anda desde o amanhecer de roupão
e nos observa com receio; nem esse que está sempre
com os olhos em branco; nem o que se benze
porque não tem fé.
                               Falo do verde que está só
e que é aventura, do verde dos mares
porque não tem rumo, do que nasce em sonhos
porque não o esquecemos.
                              Falo do verde
que nos olha nos olhos
e nunca sente medo.
                              Zurbarán pintava-o
com cachos de uvas e em mesas florescentes. Recolho-o agora
no jogo dessas crianças que estão ali, nas sombras, perto de casa. Toco
     esse verde
que encolhe os ombros
porque é inocente, e os seus peitos olham-me
leves como gestos, estremecem
de amor
     sob as estrelas.


Diego Jesús Jiménez
in La poesía y el mar/A poesia e o mar,
Madrid: Visor, 1998

[Trad. ID]
  

S de sete rosas mais tarde (VIII)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A embriaguez, tal como a pintura, comporta uma pequena parte mecânica e uma parte poética: o amor também, aliás.


*


Com dificuldade existirá no mundo uma mercadoria mais estranha do que os livros; impressos por pessoas que os não compram; vendidos por pessoas que os não compreendem; encadernados, censurados e lidos por pessoas que os não compreendem; muito melhor, escritos por pessoas que os não compreendem.


*


As pessoas mais saudáveis, mais belas, mais regularmente construídas são as que aceitam tudo. Desde que uma pessoa tenha uma doença, tem uma opinião pessoal.


Geor Christoph Lichtenberg (1742-1799)
in Aforismos, Lisboa: Editorial Estampa, 1974

E de Espera (XX)



Yves Jeanmougin, Marseille, 1981

E de Espera (XIX)

I



Lupita está a morrer. O coração dela sofreu um enfarte
massivo há exactamente dois dias. Quarenta
e oito horas que caminham tão lentas
que não sabemos se é de um sonho que se trata.

Mas não é, e Lupita esá a morrer lentamente
e corteja a morte desafiante, embora saiba
que ela a vai apanhar, que chegado o momento
terá de se lhe entregar.

Com os pulmões encharcados, edema
pulmonar, chamam-lhe, e uma cardiopatia
de que não recordo agora o apelido, assim
aguarda na unidade de cuidados intensivos,
na sala polivalente, que se apague a dor
que lhe oprime o peito, a sede que não pode
apaziguar e o fim da vida.

Lupita está a morrer e isso é incontrolável, e a única coisa
que hoje sou capaz de fazer é escrever
sobre ela.


Ignacio Escuín Borao,
trad. Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro, n.º 15, Lisboa: Averno, 2011


*


SOLANGE F, 2011



Lupita está a morrer desde sempre,
como todos nós. Mas tivemos de o saber hoje,
pela tua voz, poucas horas depois de Amy Winehouse
ter sucumbido ao peso da última canção.

A amizade, por vezes, tem a nitidez de uma lâmina;
ajuda-nos a perceber a noite de que somos feitos,
inscreve na pele exausta um sorriso desarmado.

Manuel de Freitas, Jukebox 3,
Teatro de Vila Real, 2012

domingo, 8 de julho de 2012

K de Kissing the sun (VIII)



Lisboa, 07/07/12

E de Epígrafe



[A próxima epígrafe.]

S de Santa Cruz (III)

PEVIDE



     Estava sentada à soleira das vossas portas com o coração prevenido mas manso. Vendia sentada à borda dos vossos bancos. O dentro dos dedos estava cheio de sal fino, uma sequeira. Lambia-os de relance, eu não queria ofender, sentada à porta dos vossos bancos. Sabiam ao torrado das sementes, a forno. Enrolava os pequenos dinheiros por tamanhos, como era de vosso uso. Estava sentada às vossas sombras sem nada de necessário para trocar. E via:
     O desnome das caras passeantes, o desavindo andar, as portas de redondo vidro, cromos, as pernas a galgar ao alto do meu ver, riquezas, bons cheiros, girações, o apertado coração de pressas e os que vagueavam até mim, de graça: o sal atrai e aquele estar tão queda, o funil de jornal, minhas sementes.
     Tinha eu então o coração como um trapo: nada me chegava. Porque nada me chegava talvez porque eu quisesse o pouco. O bom de algum bem quieto e poder estar ao sol. Via as ervas crescerem e revirem, nas montras, ao lado da bulha das buzinas. Que manso pasmo, as lindas folhas onde, à beira, nada parava. Fazia frio e seco, molhado outras, os anos, tudo a passar. Os que diziam “Vem” tinham outro ofício a dar-me – mulherar aos dias. Eu não tinha ofício a receber. Diziam “Pois quê?” e só eu podia como não, isso não. Acho que passaram os tempos todos e eu não me fazia mesmo velha. Não me fazia nada, de nada feita. A pouco e pouco, ainda perguntava, fui não estando à espera. Porque estando à espera, não fazia nada que não fosse da espera e ela gasta-se. Há um podre na coisa quieta sem usos que vem do dentro para o fora. Ia saindo isso e formando uma pequena nuvem de enxofre no meu regaço, salobrava. Não me parecia bem. Foi tudo passando mais de largo. Como eu era frouxa assim empodrecendo do que não ficava, não chegava, sentada à soleira das vossas pedra-mármore, balcoarias, janelos de papel-moeda, deposita. De só querer o pouco, o demenos. O só bom. O não buscar.
     Foi então que vieram levar-me porque eu não tinha roupas de direito, nomes, licença de cobrar, fazer levantamentos, vendilhona era daquele tempo.
     Mas posso fazer renda, digam. Voltar e fazer renda à soleira das vossas trocas? Malha de malha de malha até que nem já veja e então volte devida a este fora parte onde me têm? Eu só queria estar perto do vosso buliçar de ofícios, vender o verem da minha mansidão. Que medo faz paciência pobre, semente gôra seca, outra sede. Medo de malmorrer, não ter aonde. Mas aqui.


Maria Velho da Costa, Desescritas,
Porto: Afrontamento, 1973

L de (A) Luz da Sombra (XXIV)

Amava-o pela sua sombra, mais do que por ele próprio, e quando o homem - enciumado daquele hábito - lhe viarava as costas, ela, brincalhona, quase lasciva, corria atrás da sombra e, muito excitada, dava palmadas no ar. Foi uma história de amor na esperança, e chegou mesmo a deitar-se de tal modo que a sombra teve de passar sobre ela, e sentiu um frio nas entranhas. A partir daí nunca soube se o filho era dele ou da sombra.


*


Nunca verás um amanhecer tão bonito como ela.


*


Para quem se veste a mulher do cego?, perguntou o filósofo, em busca de um pretexto para um dicurso impossível: Para a noite e o tacto, respondeu o cego, que era um néscio insuportável.


*


Amavam-se porque tinham vocação de corpo.


Rafael Pérez Estrada
[Trad. ID]

sábado, 7 de julho de 2012

S de Saber voar



- Gutzon Borglum and his sculpture "Statue of Aviator", 1919 -

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXIV)


your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

- Charles Bukowski

L de (A) Luz da Sombra (XXIII)

- Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi  muita  coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não sei como arrumar tudo isso. Porquê, sabe?, Uma noite acorda-se às quatro da manhã, num quarto vazio acende-se um cigarrro,... Está a ver? A pequena luz do fósforo ergue de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida,... compreende?... a nossa vida apresenta-se então ali como algo... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar tudo muito depressa. Há felizmente, o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é aquela maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não?

[...]



Herberto Helder, "Estilo", Os Passos em Volta,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2006

L de (A) Luz da Sombra (XXII)




[Dezembro 2010]


sexta-feira, 6 de julho de 2012

M de Música para os meus olhos (XXX)

A de Anomalia Poética (V)



"Não vos inquieteis, é a realidade que se engana."

[Ontem, à chegada ao trabalho.]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

P de Paisagem Urbana (II)



[Telheiras, 03/07/12]

P de Poética - XXVI b

Perguntei-lhe e disse-me: Pesa-me demasiado a realidade para não ser poeta.


*


Para poder assistir ao baile de máscaras, o anjo amputou as suas asas.


*



Não conseguia andar, tinha uma estrela no sapato.


*



Para conseguir o voo sem fim, a criança poeta e assassina cortava as patas aos pardais do jardim.


Rafael Pérez Estrada
[Trad. ID]

quarta-feira, 4 de julho de 2012

ARTE POÉTICA


Para Carlos Martínez de Aguierre



Foge de ser totalmente compreendido,
do que possa revelar-se incómodo,
de utilizar o substantivo alma,
de criticar os comícios poéticos ,
das revistas, das entrevistas,
do trabalho diário, dos prémios,
da rotina, dos compromissos,
da dor, da dúvida, do silêncio,
da esperança, da classe média,
da verdade, da emoção, do verso,
da rima, do século XVII,
da beleza, dos mandamentos,
de terminar com um final pomposo,
dos leitores, de escrever sonetos.


Fernando López de Artieta
[Trad. ID]

terça-feira, 3 de julho de 2012

S de Sete rosas mais tarde (VII)

Quero uma rosa ácida - disse-me -. Não interessa a cor. Só preciso que seja ácida. Uma rosa com sabor a toranja e cheiro a roupa limpa. Soube então que os invernos com ela seriam interessantes, e que a velhice chegaria cheia de vertigens. E senti-me feliz.


Rafael Pérez Estrada
[Trad. ID]


P de Postais - V c



Peder Balke, "A Tempestade, 1862

R de (A) Room of One's Own

O APARTAMENTO

  

Que mais posso pedir além de tudo isto?
Estou sozinho no meu apartamento,
não há uma desordem demasiado grande
nem demasiado pequena,
o telefone está decapitado
e a única coisa que diz é um zumbido
intermitente, como se me falassem
uma série de relógios aborrecidos.
Não tenho de suportar outro passado
além desse breve poema que leste,
com este único verso de presente,
sem mais futuro do que acabar um livro.
Viver assim, sem mais, remoendo o seco
e aturdido sabor do infinito.


Fernando López de Artieta
[Trad. ID]

M de Música para os meus olhos (XXIX)

P de Poética (XXVI)

Com a frieza de um cirurgião cravou o punhal da crítica na indefesa ternura do poema.


*


Vi-o tão feliz e seguro que não pude conter-me:
Você não está em condições de escrever poesia!,
avisei-o didacticamente.


*


O sorriso é inimigo do sonho. Junto ao anjo em mármore de asas partidas,
uma criança brinca com o frio.



Rafael Pérez Estrada
[Trad. ID]

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXII)



[Lisboa, 29/06/12]




segunda-feira, 2 de julho de 2012

F de Fazer Fotografia - XIII e


Daí a poesia.


Duane Michals, "There Are Things Here Not Seen In This Picture", 1977

V de (A) Violência e o Escárnio

Bem sei que é preciso um ar sério para termos êxito na vida e inspirar respeito. E apesar disso custa-me ser sério, a mim, que não tenho em apreço a seriedade.
Vou explicar-me melhor: das coisas sérias, só o ar sério me agrada; quer dizer, meia hora, uma, duas ou três horas de ar sério por dia. É verdade que muitas vezes ando com ele quase um dia inteiro.
Acontece, no entanto, que gosto de brincar, de piadas, da ironia, dos jogos de palavras e fazer partidas.
Mas não pode ser assim.
O trabalho torna-se difícil.
Porque, em geral, temos de privar com pessoas superficiais e ignorantes. Que estão sempre sérias. Carrancas brutalmente sérias como poderão dizer piadas, se as não entendem? Essas carrancas tão sérias são um reflexo. Para o seu analfabetismo e a sua estupidez todas as coisas são problemas e dificuldades; e, tal como as vacas e as ovelhas (os animais têm sempre uma expressão séria), mostram feições impregnadas de seriedade. De um modo geral a pessoa espirituosa é desprezada, na melhor das hipóteses não é considerada e não inspira muita confiança! Por isso me preocupo em apresentar aos outros um ar sério. Já reparei que facilita bastante os meus próprios problemas. Interiormente, porém, divirto-me muito, e rio.


Konstandinos Kavafis, Páginas Íntimas (Hiena)


*


[...]
Entretanto, como uma banana e tenho vontade de rir (o que é bom sinal) porque sei, através do Musil, que é preciso viver em humor e desespero.


João César Monteiro, Uma semana noutra cidade (&etc)

domingo, 1 de julho de 2012

R de Rebeca (XIV)



Piero di Cosimo, c. 1495

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXI)

I saw your mother
with two guards
through a glass plate
for one quarter hour
on the day that you died.
    
'Extra visit, special favour'
I was told, and warned
'The visit will be stopped
if politics is discussed.
Verstaan - understand!?'
on the day that you died.
   
I couldn't place
my arm around her,
around your mother
when she sobbed.
    
Fifteen minutes up
I was led
back to the workshop.
Your death, my wife,
one crime they managed
not to perpetrate
on the day that you died.


JEREMY CRONIN
(soberbamente lido, esta tarde, por John Mateer)



Bert Hardy:
 The Forgotten Gorbals, Glasgow, Scotland, 1948