quarta-feira, 29 de agosto de 2012

R de Revisões da matéria dada (XII)




Spellbound, de Alfred Hitchcock (1945)



A resposta será, sem dúvida, que podemos representar a obra de uma vida reduzida a três tratados, e também a três poemas, ou a três acções, nas quais o poder de criação pessoal seja levado ao extremo. O que significa mais ou menos isto: calarmo-nos quando não temos nada para dizer, fazermos apenas o estritamente necessário quando não temos projectos especiais e, coisa esta muito importante, ficarmos indiferentes quando não experimentamos a sensação indescritível de sermos arrastados, de braços abertos, por uma vaga da criação. 


Robert Musil, O Homem Sem Qualidades



*



[...] Estas árvores vão adoptar-me pouco a pouco, e para o merecer aprendo aquilo que é preciso saber:
Já sei olhar as nuvens que passam.
Já sei ficar parado.
E já sei quase calar-me. 


Jules Renard, Histoires Naturelles

terça-feira, 28 de agosto de 2012

J de (O) Jardim e a casa (VIII)


József Rippl-Rónai, "Um parque à noite", 1892-1895



*



Esta solidão com árvores abandonadas (eu ando sempre na ponta dos pés dentro dos grandes jardins, porque comunica logo comigo uma alma estranha ali encantada e presente) fixou-se-me para o resto da vida. As casas são sempre as mesmas casas, os homens são sempre os mesmos homens de toda a parte. Os jardins não.




Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens,
Açores: Artes e Letras, Setembro de 2009

JEJUANDO




Às vezes convém desprendermo-nos,
tirarmos da boca o mais particular.
Negarmos o apetite afirma-nos.
Perdermos a sorte,
                              desalojarmo-nos,
sairmos de casa por um fogo
que limpe de impurezas a nossa casa.

Deixarmo-nos ir, em ondas,
declinar quem somos e quem fomos.
Às vezes ajuda-nos renunciar
às nossas certezas, proceder
afiando,
             libertando-nos
das nossas ilusões.
                             A moderação
de estar entre as coisas sem desejo,
para desejar estar entre as coisas.

Às vezes o vazio
em que parece que flutuamos
é o mais absoluto que nos preenche.
Muitas vezes convém ser mendigo
da nossa realidade,
                              ficar em jejum
do que mais amamos e nos ama.
Ficar de lado,
                      vendo-nos passar,
dando-nos a esmola de não darmos
outra esmola senão a de continuar vivos.

Convém endurecer,
                               calejar as subtilezas.
E regressar ao mundo, vorazes,
com novas ânsias.


Carlos Marzal, Ánima Mia,
Barcelona: Tusquets, 2009

P de (The) Privacy of Rain (XXXI)



[São Miguel, 24/08/12]

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

F de Falar para as paredes (XVI)



São Miguel, 25/08/12

L de (A) Luz da Sombra - XVI b


[São Miguel]

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXV)


"Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito."


Lawrence Durrell, Justine

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXIV)





São Miguel, 22/08/12

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

V de (A) Violência e o Escárnio - c


THE WHOLE MESS... ALMOST



I ran up six flights of stairs
to my small furnished room  
opened the window
and began throwing out
those things most important in life

First to go, Truth, squealing like a fink:
“Don’t! I’ll tell awful things about you!”
“Oh yeah? Well, I’ve nothing to hide ... OUT!”
Then went God, glowering & whimpering in amazement:  
“It’s not my fault! I’m not the cause of it all!” “OUT!”  
Then Love, cooing bribes: “You’ll never know impotency!  
All the girls on Vogue covers, all yours!”
I pushed her fat ass out and screamed:
“You always end up a bummer!”
I picked up Faith Hope Charity
all three clinging together:
“Without us you’ll surely die!”
“With you I’m going nuts! Goodbye!”

Then Beauty ... ah, Beauty—
As I led her to the window
I told her: “You I loved best in life
... but you’re a killer; Beauty kills!”  
Not really meaning to drop her
I immediately ran downstairs
getting there just in time to catch her  
“You saved me!” she cried
I put her down and told her: “Move on.”

Went back up those six flights
went to the money
there was no money to throw out.
The only thing left in the room was Death  
hiding beneath the kitchen sink:
“I’m not real!” It cried
“I’m just a rumor spread by life ... ”  
Laughing I threw it out, kitchen sink and all  
and suddenly realized Humor
was all that was left—
All I could do with Humor was to say:  
“Out the window with the window!”


GREGORY CORSO

F de Flor Suficiente (XXIII)





 São Miguel

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXII)





"[...] era o canto da ponte
que os barcos faziam entre as terras
como um selo de correio entre dois corações
[...]"

ANTONIO HERNÁNDEZ



S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXI)




[...]
And you want to travel blind
And know she will trust you
[...]

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

V de (A) Violência e o Escárnio - b

Se ela chegou, porventura, a conhecer-me, deve ter descoberto que para todos os que sentem profundamente e que têm plena consciência da inescrutável teia do pensamento humano, só uma resposta é possível - uma irónica ternura e o silêncio.


Lawrence Durrell, Justine



*



Entretanto, como uma banana e tenho vontade de rir (o que é bom sinal) porque sei, através do Musil, que é preciso viver em humor e desespero.


João César Monteiro, Uma semana noutra cidade

M de Música para os meus olhos (XXXI)



Philip Jones Griffiths, "Boy Destroying Piano", Wales, 1961


[Obrigada, Daniela]

domingo, 19 de agosto de 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXIX)

F de Flor Suficiente (XXII)



Ponta Delgada, 18/08/12

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXVII)




[...]


L'Angleterre est douce à voir
Du haut d'une cathédrale
Même si le thé fait pleuvoir
Quelque ennui sur les escales
Les Cornouailles sont à prendre
Quand elles accouchent du jour
Et qu'on flotte entre le tendre
Entre le tendre et l'amour
Prenez une cathédrale
Et offrez-lui quelques mâts
Un beaupré, de vastes cales
Mais ne vous réveillez pas
Filez toutes voiles dehors
Et ho hisse, les matelots
A chasser les cachalots
Qui vous mèneront aux Açores
Puis Madère avec ses filles
Canarianes et l'océan
Qui vous poussera en riant
En riant jusqu'aux Antilles

[...]

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

B de Biorritmo (CLII)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XXX)



São Miguel, 14/08/12
(junto à lagoa mais silenciosa e bela que conheço)

S de (A) Solidão dos Números Primos (II)

UM AMOR ÍMPAR



Como eu gostei de ti, claro
gostaram de ti outros. E outros tantos
no futuro gostarão de ti assim.
Como não amar com idêntico rancor
a tua voz desfeita, avançada a noite,
a tua furiosa adição à tristeza,
o teu velho amor aos velhos chapéus?
Seria insensato não te amar,
e a nossa insensatez, que é bem famosa,
nada tem a ver com este assunto. 
O que me tira o sono nesta altura
- especialmente quando penso
que serias incapaz de algo tão nobre -
é que o amor se esqueça de me matar,
pois se reparo que não serei eterno,
nada mais elegante me ocorre,
nenhum veneno tão afortunado,
para dar um final a esta comédia.
Do mesmo modo queria que o amor
- e não digo o meu amor, pois é sabido
que já não é o que era noutros tempos - 
ulcerasse a tua alma até a arruinar toda.
De certeza que te agradaria 
exibir este final, que agora te ofereço,
como mais um dos teus velhos chapéus.
Desconfia deste galardão:
estamos concebidos teimosamente,
és invulnerável a algo tão puro.
Quando muito retomarás o teu voo
até ao selvagem rebordo de um copo
e eu não alcanço sempre essas alturas.
O amor é ímpar, e tu e eu exactos.
Como eu gostei de ti, estás a  ver, 
gostaram de ti outros. Mas duvido
que alguém fosse tão parecido contigo:
inconstante e falaz, e desejoso
de ser ímpar. Talvez como o amor.


Carlos Marzal,  El Corazón Perplejo
Barcelona: Tusquets, 2005
[Trad. ID]

P de Pássaros anónimos (XVI)



Hideo Nishiyama (1911-1989),
"Hikone Castle in Early Summer"


[Obrigada, Luis]

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XIV)

TROUVAILLE:
POEMA DESENTRANHADO DE UMA PROSA
DE CAMILO JOSÉ CELA



É certo que a Deus se pode escrever mesmo às escuras
Se Ele quiser pode conduzir a tua mão nas trevas
Mas se ele não quiser nada conseguirás
Mesmo que implores com lágrimas nos olhos
E mesmo que te vistas de toureiro
Ou de qualquer outro vistoso disfarce
Bispo ou juiz ou oficial de cavalaria
Nem meia linha conseguirás com letra legível
E Deus não costuma querer já to digo há muito tempo

Deus não é chamado para o que se passa entre os homens



Emanuel Félix, O Instante Suspenso,
Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, 1992

terça-feira, 14 de agosto de 2012

S de Sense of Snow (VII)









Lisboa - Ponta Delgada,
13/08/12

C de Começar o dia com um livro novo (XII)

E, às vezes, o real cabe (quase) todo num livro. 
Como o primeiro em que pego, neste regresso à ilha, que começa justamente assim:


"O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...
Retirei-me para esta ilha com alguns livros [...]"


Lawrence Durrell, Justine
Lisboa: Editora Ulisseia,  1960

P de Pássaros anónimos (XV)



Postal de Jacques Tardi 
(1996)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

domingo, 12 de agosto de 2012

L de Ler - II b

[...] A atmosfera desta pura amizade é o silêncio, mais do que a palavra. Porque nós falamos para os outros, mas calamo-nos para connosco mesmos. É por isso que o silêncio não traz consigo, como a palavra, a marca dos nossos defeitos, das nossas caretas. Ele é puro, é verdadeiramente uma atmosfera. [...]


Marcel Proust, O Prazer da Leitura,
Lisboa: Editorial Teorema, 1997
- em releitura, sempre.

A de Anomalia poética (VI)



[Santarém, 11/08/12]

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

S de Santa Cruz (VII)


Out of the rolling ocean the crowd came a drop gently to me,
Whispering, I love you, before long I die,
I have travell’d a long way merely to look on you to touch you,
For I could not die till I once look’d on you,
For I fear’d I might afterward lose you.


Now we have met, we have look’d, we are safe,
Return in peace to the ocean my love,
I too am part of that ocean, my love, we are not so much separated,
Behold the great rondure, the cohesion of all, how perfect!
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour carrying us diverse, yet cannot carry us diverse forever;
Be not impatient – a little space – know you I salute the air, the ocean and the land,
Every day at sundown for your dear sake, my love.


WALT WHITMAN

domingo, 5 de agosto de 2012

P de Pássaros anónimos (XIV)





Cais do Sodré - Alcântara
Agosto 2012




 

sábado, 4 de agosto de 2012

P de Poética (XXX)

O TRABALHO SUJO



Eu farei
o trabalho
sujo.

Karmelo C. Iribarren



Regressei à poesia.
Àquela de que sempre
gostei:
a poesia elegíaca, narrativa,
de reflexão profunda
e doses medidas de ensimesmamento.
Leio Parcerisas, Joan Margarit.
Releio Juan Luis Panero,
Cesare Pavese e Cernuda.
Descubro os poemas de amor
de Abelardo Linares. Deslumbro-me.
São uma maravilha.
Boa parte da minha própria
poesia não é, sei-o, assim.
Mas uma pessoa nem sempre escreve
o que gosta de ler.
Uma pessoa não escreve necessariamente
o que quer, antes o que deve escrever.
Olha à sua volta e dá-se conta
de que há montanhas de roupa para lavar.
O trabalho sujo.
Alguém - como disse
o meu amigo Iribarren - tem de o fazer.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Lisboa, Outubro 2010

S de September Song

GONE, GONE AGAIN



Gone, gone again,
May, June, July,
And August gone,
Again gone by,


Not memorable
Save that I saw them go,
As past the empty quays
The rivers flow.


And now again,
In the harvest rain,
The Blenheim oranges
Fall grubby from the trees,


As when I was young—
And when the lost one was here—
And when the war began
To turn young men to dung.


Look at the old house,
Outmoded, dignified,
Dark and untenanted,
With grass growing instead


Of the footsteps of life,
The friendliness, the strife;
In its beds have lain
Youth, love, age, and pain:


I am something like that;
Only I am not dead,
Still breathing and interested
In the house that is not dark:—


I am something like that:
Not one pane to reflect the sun,
For the schoolboys to throw at—
They have broken every one.



Edward Thomas, Poems (1917)





sexta-feira, 3 de agosto de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXII)

TRIBUTAÇÃO



Nem defendidos nem governados
que podemos opor à coesão
pequeno-burguesa? O mal?

Um cemitério urbano de rurais
vota numa autarquia afim.
As maiorias: a auto-estrada,
a parabólica, a reprodução.

Existe um primeiro direito:
todo o bem do seu país.
A que se junta o de sofrer
todos os cimos do seu erro.

A chave da porta explodiu.

E há poemas que não têm caspa
nem engordam com os anos.


Joaquim Manuel Magalhães

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." - b




[...]

Must've been a train
That took me away from here
But a train can't bring me home

T de Tratado de Pedagogia (LV)




Hoje, no Ípsilon.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." *

13



Alguém que veja o comboio a partir do campo
vai associá-lo ao mistério e querer ver-nos
como seres que voltam de outro mundo,
que vêm da morte sem sabê-lo.
Semi-adormecido, atrás dos vidros
em cujo fundo se instala o segredo
de uma luz mortiça, nesta urna
que nos transporta como um mausoléu
sabe-se lá para onde, ou até quem,
que escapa para tornar fugaz o eterno
ou para descobrir que no fugaz
há sinais do imperecível,
alguém me olha, a par de quem me vê,
com o meu  perfil, cabelo igual,
surpresa idêntica nos olhos,
duplo de um rosto que a lua pôs
do outro lado do vidro. E falo-lhe
como se a versão desse reflexo,
que a lua não pinta mas sim a luz
mortiça deste compartimento,
me fosse dar a chave a partir de fora,
como se me olhasse a partir de um tempo
que não é o meu, tal como se alguém olhar
a partir do campo vê passar os mortos.


Antonio Hernández, Sagrada Forma,
Madrid: Visor, 1994



* Jules Laforgue

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

P de Postais (VI)



À saída da minha livraria preferida.

C de Cuidar (e não Suspirar) *



De um dos textos da minha vida,  
"O Cuidar e o Suspirar", 
no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.