sexta-feira, 30 de novembro de 2012

S de Solidão (ou C de Comunidade) LIII

Deixa-o, a ele que ocupa
o seu reduto. Nunca te afastes
nunca te aproximes. Deixa-o
buscar a sua água. Que ele arde
por trás da pele e tu cheia de sol
ardes também dentro do sangue.
Aprende a liberdade das distâncias
a sabedoria de não tocar em nada.
Cada estrela em sua solidão.
Cada solidão como uma estrela.


Carlos Poças Falcão, 
Arte Nenhuma (Poesia 1987-2012), 2012

C de Começar o dia com um livro novo (XVII)

Sempre dançaram. Mataram. Ergueram
pedra sobre pedra o seu desejo, o seu espanto.
Tinham de mudar o curso desses rios
tinham de suar. O sonho em ressaca
varria-lhes a vida. Não paravam.
As palavras eram o mais árduo
ofício de inventar. Julgavam que sabiam
com palavras. Os céus lentamente evoluíam
havia sempre a noite e sempre o dia.
Nunca suspeitaram que morriam.


Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma (Poesia - 1987-2012),
Guimarães: Opera Omnia, 2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

P de Pássaros Anónimos (XVII)

A CORUJA



Dizem que a coruja
bebe o azeite das lamparinas de santuário
nas igrejas da aldeia;
entra pelo vitral quebrado
a essas horas da noite
em que os bons e os violentos adormecem
em que o orgulho e o amor se esgotam
em que a folhagem sonha.
O animal aquece o seu sangue
com o azeite luminoso e virgem.


Jean Follain
[Trad. ID]

W de Walk the line (II)

 
 
Lisboa - Nazaré - José Carlos,
Novembro 2012
 
 
A propósito de sítios perante os quais nos sentimos como perante os livros que farão parte de nós. E a propósito do vento a desafiar; do horizonte, que pode ser outra onda, outro país ou outro tempo; e do inverno habitado por uma raça com veias alimentadas a café e olhos em forma de vela.
Mas a propósito, sobretudo, dos amigos com quem existir é sempre escrever um diário a dois.
 

P de Poética - XXXIV d

[...] É no Castelo que está traçada a preocupação de Kafka pelo grande espaço da presença, presença como tirania, como vocação de vampiro que há no ser humano. A torre do castelo, que se divisa de longe, é o símbolo da presença, e desde longe ela irrita e faz com que a alma humana se encabreie como uma cavalo espavorido. O castelo é a sede duma imaensa administração, em que a hierarquia reina até ao infinito. Destina-se a caçar a originalidade humana, a fazê-la depender da sua ordem prodigiosa. O único meio para lhe escapar é o de fazer-se pequeno, como um insecto; pequeno e repugnante e fácil de remover da face da terra.
 
[...]
 
 
Agustina Bessa-Luís, Kafkiana (2012)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

L de (A) Luz da Sombra (XXXI)



Lisboa - Marta, 
28/11/12

terça-feira, 27 de novembro de 2012

P de Poética - XXXIV b


Os inocentes são por assim dizer as musas dos criminosos. Mas há poucos inocentes, não conheço nenhum, e não se busque sobretudo entre as crianças: as crianças são monstruosas, eu sei, fui criança muito tempo, e o meu talento era monstruoso, o talento visitavelmente simples de respirar, mexer-se, propor uma palavra, uma frase, interpretar as coisas segundo a lei inspirada. A inocência é a tarefa de uma vida e essa vida deve ser então redonda, completa. Não sei de vidas completas.

De modo que os criminosos acabam por incitar-se uns aos outros, e tudo parece pequeno: ódio, vingança, crime; pode-se olhar face a face qualquer assassino: nenhuma estrela de primeira grandeza conduz essas biografias nocturnas; têm-se pela frente apenas as magias menores.

Alguns poetas procuram atravessar as portas, e se a palavra treme e faz tremer é um acto tremendo, uma passagem para a tenebrosa matéria de certas realidades, tenho ouvido pouco dessa palavra sísmica; estamos num tempo verbal manso. O arrepio que às vezes julgo percorrer uma voz, escuto melhor, não, não é daquela força com que se falam inocência e crime. Os poetas cumprimentam o dicionário, a gramática, a regra das formas, trazem luvas para trabalhar as massas sangrentas. E saem limpos como de cirurgias a raios laser. Não compreendo. Porque penso em todos aqueles que estão cobertos de sangue, não apenas as mãos bárbaras, mas os rostos erguidos, as bocas que devoram corações, os próprios corações postos fora; e a soberania deles, selvagem e nobre e inexorável e arrogante, funda-se no enigma do sangue e da luz, é um diálogo rítmico, terrestre, entre crime e inocência. O inferno não é o mal mas a fascinação que entre si exercem a candura e o saber. São figuras antigas, essas, monárquicas, loucas, trono e ceptro resplandecem. Por isso as venero. Os xamãs, os sacerdotes, os profetas. E os do verbo primitivo e furioso, sangue e sopro, a lua nas trevas, os animais solares, os fatais teoremas da dança e do abismo. Dante, Villon, Camões, Shakespeare, Blake, Nietzsche, Rimbaud, Sá-Carneiro.

Os outros, aqueles que vejo longe, que estão por aí, que os maus tempos tépidos prometem, passarinham pelos corredores, levantam à volta uma poalha iridiscente, nem se consegue sequer atribuir-lhes uma vida, são apócrifos.

E então ponho-me atento aos indícios: há um quarto aceso na cidade, a noite cerca esse quarto recôndito na sua luz, cada pequena coisa respira com destino à insónia invisível; presumo de imagens que se cruzam na memória, imagens insondáveis; presumo da crispada exaltação com que a insónia vigia o mundo que dorme. [...]


Herberto Helder
in Telhados de Vidro n.º4,
Lisboa: Averno, Maio de 2005

P de Poética (XXXIV)


[...] "Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro." Mas na adolescência uma vontade crescia em mim: ser alguém com uma arma na mão, ter o amor dos outros. Inocência, pois as armas são perigosas, e o amor vira-se contra nós. Anos depois contemplava a bela frase, a humildade ardente dessa frase, e concluía que os caminhos do orgulho, que me haviam conduzido até ela, eram a minha solitária arma e a maneira de antecipar com vitoriosa alegria as várias mortes dos meus vários anos. Bem. Tenho algumas prateleiras com livros, meia dúzia de quadros e desenhos, uma dezena de discos. O quarto pode ficar subitamente cheio. [...]


Herberto Helder, Os Passos em Volta,
9ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim,  2006

M de Música para os meus olhos (XXXV)



A. Rosa, A Cantiga de António Nogueira,
Lisboa: ed. do autor, Dezembro de 1985
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012


OS ACIDENTES
 

Pousar uma noite o pé descalço
sobre um prego
cair dos ramos
beber da fonte uma água demasiado fria
são os acidentes mortais
que o velho destino impõe
o mundo deixa então de ter idade
o céu permanece intacto e azul
os muros secam inexoráveis.
 
 Jean Follain
[Trad. ID]

domingo, 25 de novembro de 2012

T de Tratado de Pedagogia (XLVII)


C de Começar o dia com um livro novo (XVI)

O AMOROSO QUOTIDIANO
 
 
 
A juventude é transparente,
é bom olhar através dessa transparência
(esta palavra já foi conspurcada pla
muralha repugnante dos políticos)
 
 
§
 
 
Excursões por livrarias, templos, jardins,
almoços, jejuns, faltas de dinheiro,
dores de dentes, jornais com anúncios luminosos,
amigos que morrem mal e ressuscitam bem impressos
 
 
§
 
 
A minha morte, o meu amor, o meu trabalho:
escutar-te todos os dias, à distância de muitos tiros,
calhandra toda lábios, em vôos coloridos
 
 
 
António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012
 

T de Tratado de Pedagogia (XLVIII)


O APELO DO CAVALEIRO

 

A criança copia
fracções sem cor
depois no silêncio glacial
de uma noite de inverno ocidental
abre por fim o seu livro de História
nesse grito que Assas lançou
chamando um regimento de Auvergne,
repete-o por instantes
depois cai num longo sono.

 
Jean Follain
[Trad. ID]

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (X)


 
ENCRUZILHADA DE CAMINHOS
 
 
O sol branco dos jardins
aquece os doentes
alta e frondosa uma sebe
esconde o lugar dos fuzilados
em frente das barreiras discute-se
o preço do trigo
passam homens com ferramentas
galinhas perdidas de asas
cobertas de poeira
estudantes de sangue coagulado
nos seus arranhões profundos
que abrem os olhos para ver tudo
sob o azul que arde.
 
Jean Follain, Exister,
3ª ed., Paris: Gallimard, 1947
[Trad. ID]
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

F de Fazer Fotografia (LXXI)


(Re)lido hoje, na inauguração da exposição “Fracções”,
de José Francisco Azevedo e Ruth Rosengarten
– Teatro da Politécnica

 

UMA ESPÉCIE DE PERDA

 
 
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
          cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
          gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
          E estendemos sempre a mão.
 

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
          Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, por uma praia e uma
          cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
Idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
 

( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

 
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
          mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
 

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

 

Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado,
trad. Judite Berkemeier e João Barrento,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1992

O de Outono (XIII)



"Meet me in the park", 21/11/12

terça-feira, 20 de novembro de 2012

F de Fazer Fotografia (LXX)

 
 
Frank Paulin, "I Love You", Chicago, 1951

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

F de "Ferrugem e osso"


 
[Nazaré, 18/11/12]
 

P de (The) Privacy of Rain (XXXVIII)

 



Do lado de dentro do Forte de S. Miguel Arcanjo,
17/11/12
 

sábado, 17 de novembro de 2012

T de "The days grow short..." (V)

 
 
Lisboa - Nazaré,
ontem.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

S de "Semantics won't do" (VI)


T de Tratado de Pedagogia (XLVI)

O PERIGO DA SABEDORIA
 


Aprendemos a viver sem paixão.
A ser razoáveis. Passamos fome
entre os celeiros gigantes
que este mundo é. Armazenamos bastante
para quando formos velhos e fracos.
É a nossa força que nos despoja.
Como Keats obedecer ao médico
que lhe disse que a melhor coisa para a
tuberculose era comer apenas uma
fatia de pão e um pedaço
de peixe por dia. Keats matou-se
à fome porque ansiava
tão desesperadamente regalar-se com Fanny Brawne.
Emerson e a mulher decidiram fazer
amor com moderação para acumularem
a paixão dele. Ensinam-nos a ser
moderados. A viver inteligentemente.


Jack Gilbert
[18/02/1925 – 11/11/2012]

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

S de "Solo se pierde lo que no se ama.” *




* Começa assim um poema de Claudio Rodríguez.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVII)

FRAGMENTO (NARRATIVA)
 
 
 
ao Laureano, in memoriam
 
 
 
"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.
 
"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.
 
 
Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008
 

O de Outono (XII)



NO OUTONO




Junto à cerca, os girassóis e seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.

Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.

Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.


Georg Trakl
[Trad. João Barrento]




[Vila Real, 03/11/12]


domingo, 11 de novembro de 2012

S de Sense of snow (IX)


P de (Anti-)Poética XXXIII

MARFINS



     Em pelota. Rubicundos como velhos gansos. Já fastidiosos. Empolam a membrana onde esgalham versos. Empifarados. Que rilkas coisas estas crianças enfolam no amor pelos livros.
        Começam com um lago, um poente, uma flor. A sua mousseline pende das líricas videiras do silêncio.
        Sobem ao monte mais próximo onde descobrem um cágado. Deitam-no de costas e põem-se a chorar porque ele não anda.
        Começam com um Deus. Uma forma obscuríssima de vida. Depois, a meio caminho, enxotam animais e homens e cotejam essa agreste solidão com extractos de cultura.
        Os poetinhas desdenham um teclado sujo.
       Enfiam-se em casa, polindo os seus marfins. Despedem a misericódia dessa vida ingrata de reclusos e dão grandes passeios uterinos. Cansados dos avós, das palmadas no rabo, com o olho fito em bibliotecas, esgueiram-se pelos corredores onde os papões os esperam, afeitos à brincadeira. Então a mousseline estica como leite azedado de bambinos. 
        Os poetas armam zaragatas porque todos pretendem o melhor dos desaguisados.
       O povo, esse instrumento sofredor na mão dos literatos, ouve essas bulhas de bufarinheiros, cospe nas mãos e chama-lhes sacanas.
        "É perigoso este instrumento dado aos inocentes."
      Os poetinhas fogem pela rua dos fanqueiros, das fardas de criada, das popelines e das sarjas. Cegam com o pó que se levanta das peças de riscado e quando as burguesas, furiosas, colocam os maridos no caixote, os poetas saltitam, desdobram mousseline sobre os restos e fazem fogos-fátuos. 
      O povo, esse vazio onde as pessoas poisam mas não aquecem o lugar para os nomes, desfibra então a paciência, conta os tostões, inveja carpetes, lustres, pianos, magnetofones, e não inspira confiança.
    Andam aos bandos como um poema antigo. Aonde esta escolástica precoce que lhes antolha os membros? Deserdados de músculos, com utensílios ineficazes ao pescoço, os poetinhas marujam na versátil confusão dos versos. Vêem-se penosamente nas tardes baças, onde piam pássaros de modo lúgubre, nas noites rígidas e calafetadas. Quando o aquecimento ao rubro já não dá mais margem ao desespero, os poetinhas sobem às cadeiras, retiram as molduras e põem-se ao espelho como prostitutas.
     Besuntam-se de tédio, colocam no rosto esses cremes nefastos que retiram dos armários culturais, desse arsenal de espólios que as famílias do espírito entesouraram para os descendentes. 
     Conhecem eles a guerra? O instante que se joga no gatilho? A cobiça dos bens? O mar de soluços que sobe pelas pernas podres dos que vão morrendo?
     Arremedam o Instante, a Cobiça, o Soluço.
     Fogem quando o pavor é real e a máquina uma força indomável que não cede a biografias nem a deuses.
   E cantam.
   Cantamos. 



Armando Silva Carvalho, O Alicate, 
Lisboa: Editorial Presença, 1972

sábado, 10 de novembro de 2012

A de Amor (XX)

"Lembro-me duma frase doutro escritor de língua alemã, Hermann Broch, que me impressiona ainda com a mesma intensidade, muitos anos depois de a ter lido. 'O amor é uma estranheza' - diz ele. Tudo o que nos desperta e até fere é um toque de alvorada do amor, ou é a descoberta da sua procura. Porque o amor nada mais é do que a procura incessante, a inspiração de toda a ausência de perigo para o qual o homem se acha destinado. [...] Kafka preocupa-se em criar obstáculos aos seus concidadãos de Praga e do mundo inteiro; obstina-se em ser desagradável e criar raízes assim no coração dos outros. A sua forma de amor é a hostilidade, a resistência à fatalidade do acordo, o desprezo da bonomia cuja superficialidade o magoa mais do que a agressão."


Agustina Bessa-Luís, Kafkiana
Lisboa: Guimarães, 2012


*


"Pois aquele que ama está num embaraço, não sabe o que faz, anda à procura. Não é esta a maneira menos decisiva de justificar a natureza incompleta da filosofia - termo cujo significado nunca se fixou definitivamente -, tarefa intrigante, que leva de cada vez a cabo uma inquiração de identidade, desde sempre grande motivo de escândalo. Com efeito, só se pode amar aquilo que não se possui. A imoderação própria da actividade filosófica tem a ver com a natureza do amor."


Maria Filomena Molder, A Imperfeição da Filosofia,
Lisboa: Relógio D'Água, 2003

A de Aniversário - XII c

"J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse."

Arthur Rimbaud
[20/10/1854 - 10/11/1891]




[São Miguel, Agosto 2012]

A de Aniversário - XII b


O fumo, os  cafés, o tipo que te traz de madrugada,
aquele colega que fugiu, este que vem acordar-te,
as carícias, a coragem, uma manhã com Rimbaud...

Se o que ajuda a viver, o verdadeiro, não custa nada
porque é tão alto o preço da vida?




Violeta C. Rangel

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A de Aniversário (XII)

[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto. [...]


João Miguel Fernandes Jorge,  O Próximo Outono, 
Lisboa: Relógio D'Água, 2012

P de Poesia (XI)

 
 
Cirque d'insectes. "Paon-de-nuit" volant autour d'une corde raide.
Berlin (Allemagne), 1934.
© Jacques Boyer / Roger-Viollet

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (VI)

A PONTE


Se me disserem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e que me esperes,
eu atravesso essa ponte.

Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu atravesso-a.


Amalia Bautista
  [Trad. ID]
 

L de "Lived in bars" (III)

BAR DO ACASO
 
 
 
Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.


Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.



Rui Costa, O pequeno-almoço de Carla Bruni, 2008
 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

T de "The days grow short..." - III b

TÃO POUCO
Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas

Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo

Ser um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência

Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco

Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais,
Lisboa: Fenda, 1999




[Vila Real, 03/11/12]
 

C de Começar o dia com um livro novo (XV)

 
[Lisboa, 21/09/12]




V

o corpo também é uma cidade,
mesmo que ele a abandone
e a trate como suor, evaporada
lembrança do sal,
a cidade jamais deixará de ser do corpo
assim como na areia a memória do deserto


VI

mas a cidade também é um corpo
basta cegá-la para ver
que ela tinha olhos
basta amputá-la para saber
que ela tinha membros
pisoteá-la
e descobrir a cotação dos ossos
torturá-la para ouvi-la
pena que não diga palavra alguma
articulada para os ouvidos
que esperam o ponto de os ossos cederem
e cantarem com sua voz seca
que tudo é um corpo e morre


Pádua Fernandes, Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

[...] Depois veio a morte e com a morte, o vazio. Converter as imagens em palavras foi um trabalho de entalhe, um trabalho de muitos anos que nunca termina e que nunca se faz bem. E a este trabalho, a esta palavra inarticulada e sucessória, chamamos viver. É um museu de cicatrizes. O certo fica longe.


Luis Rosales

T de Tratado de Pedagogia (LVIII)


 
 
[Obrigada, Raquel]
 

domingo, 4 de novembro de 2012

sábado, 3 de novembro de 2012

P de "Pelos caminhos da manhã" (II)


T de "The days grow short..." (III)

 
 
Lisboa - Vila Real,
hoje.
 


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

D de Dia de los Muertos (VI)

ESTA NOITE



     A primeira vez que vi Charles Chaplin e Paulette Goddard  mimarem os TEMPOS MODERNOS foi na véspera da minha Volta ao Mundo. Mostraram-me o filme numa sessão privada. Acabara de fazer as malas e tinha a certeza de que ia encontrar Charlie e Paulette nos mares da China, que nos íamos dar bem, que terminaríamos junto a nossa viagem, partilhando os inúmeros amigos que os seus filmes lhe traziam e os poucos corações dedicados que os livros me oferecem. 
    Os nossos amigos distantes cruzam-se muitas vezes, porque Chaplin é poeta. A sua poesia não precisa de ser traduzida mas, no fundo, a minha também não, no sentido em que a poesia é uma língua à parte que se se serve apenas de um idioma, e as pessoas que compreendem esta língua não são afastadas pelo idioma em que o poeta se exprime, tal como não são afastadas pelos costumes europeus dos filmes de Charlot.
     Os cartazes de MODERN TIMES acolhiam-nos em cada escala. Infelizmente, viajávamos demasiado depressa para revermos juntos o filme.
     Esta noite, em Montargis, numa garagem convertida em cinema, garagem essa que se deve parecer com o hotel de Bourgogne, revi essa obra, digna das farsas de Molière e das aberturas de Mozart.
     Os meus amigos iniciam nele uma segunda morte, e eu vejo-os, de boa aberta como na lanterna mágica, exprimir sentimentos complexos com o à vontade dos antigos coreógrafos quando descreviam a beleza com um gesto redondo em volta do rosto, e o amor juntando as mãos sobre o coração.
     Esta solidão, esta tristeza de lied que lança sobre Chaplin uma penumbra cuja causa deve ser o facto de ele se ter tornado rico a incarnar um pobre e a fortuna não trazer nada de novo a almas de tamanha elegância, são reforçadas ainda pelo meu cinema de província quase vazio.
     A última vez que nos despedimos foi ao telefone, em Hollywood. A sua voz e a de Pauline chegavam até mim, separadas das suas imagens, tal como esta noite as suas imagens chegam até mim separadas das suas vozes.
     Nunca desejei tanto um fenómeno que permitisse aos meus amigos ganharem relevo e cor, deixarem o ecrã, trocarem as estátuas finas de uma miúda e do ilustre vagabundo pela jovem resplandecente, e pelo dramaturgo de rosto vermelho e caracóis brancos.
     O meu sonho trazia-os até França, a esta data, nesta sala onde MODERN TIMES continua sem eles, onde falaríamos de uma época de máquinas, de armas e de cansaço. Época difícil, que precede uma ainda mais difícil. Sempre que repousamos, sempre que passeamos, o destino ameaça-nos, de dedo apontado, pálido e terrível como o director da fábrica na parede da casa de banho.


Jean Cocteau
[Trad. ID]

S de Solidão (ou C de Comunidade) - XXXV b




[Outubro 2012]
 

D de Dia de los Muertos (V)

Dia de los Muertos (IV)