terça-feira, 30 de abril de 2013

R de Rebeca (XVI)

 
HISTÓRIA DE CÃO
 
 
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação,
2ªed. revista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
 
 
 
 
Francis Bacon, "Study of a dog", 1952
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

E de Epígrafe (III)

 
"[...] É de enlouquecer, se se pensa no caso: dormir, ter um sonho, recordá-lo... e vendê-lo. E correr com o dinheiro à taberna mais próxima! Sabe o que isto parece, menina? Assemelha-se à vida.
[...]"
 
Truman Capote, "O Homem Que Comprava Sonhos / Master Misery"
in A Árvore da Noite, Lisboa: Livros do Brasil, s/d
 
 

domingo, 28 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - c



[Ontem, em Lisboa]

sábado, 27 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - b



André Malraux, "Le Musée Imaginaire", 1947
 © Maurice Jarnoux

E de Epígrafe - II b


 A PORTA QUE SE FECHA



Tu bem o vês, irmã: estou cansada,
cansada, gasta, enfraquecida,
como o pilar de um portão estreito
à entrada de um imenso pátio;
como um velho pilar
que toda a vida
impediu a violenta fuga
de uma louca aí fechada.
Oh, as palavras prisioneiras
que batem, batem
furiosamente
à porta da alma
e a porta da alma
que pouco a pouco
cruelmente
se fecha!
E todos os dias a passagem se estreita
e todos os dias o assalto é mais forte.
E no último dia
- eu sei-o bem -
no último dia
quando um único raio de luz
se derramar pela fresta restante *
no seio das trevas,
então haverá a onda monstruosa,
o choque terrível,
o uivo mortal
das palavras não nascidas
em direcção ao último sonho de sol.
E depois,
atrás da porta para sempre fechada,
haverá a noite plena,
a frescura,
o silêncio.
E depois,
com os lábios fechados,
com os olhos abertos
sobre o misterioso céu da sombra,
haverá
- tu bem o sabes - 
a paz.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
Lisboa: Averno, 2012






* in Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa: Averno, 2013, p.5

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A de Abril (II)





[Santarém, 25 de Abril de 2013]

S de "Semantics won't do" (XVIII)


quarta-feira, 24 de abril de 2013

C de "(O) começo de um livro..." - ou de um dia (II)


Our share of night to bear,
Our share of morning,
Our blank in bliss to fill,
Our blank in scorning.

Here a star, and there a star,
Some lose their way.
Here a mist, and there a  mist,
Afterwards - day!


in Poems of Emily Dickinson,
com desenhos de Helen Sewell,
Connecticut: The Heritage Press, 1952

terça-feira, 23 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXIX)


 
 
[...]
 
my eyes burn and claws rush to fill them
and in the morning after the night
i fall in love with the light
it is so clear i realize
that here at last i have my eyes
[...]
 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXVIII)


     Não aderimos a uma crença por ela ser verdadeira (todas o são), mas porque uma força obscura a isso nos impele. Quando essa força nos abandona, é a prostração, a derrocada, a conversa com aquilo que resta de nós próprios.
     Cioran é um iluminador: um homem ultra-religioso que quase ultraja a religião.
     No intervalo deste quase (equilíbrio no gume de uma lâmina de barba do tamanho do mundo), Cioran conversa com Deus e olha-nos do interior do seu diálogo, tornado, mediante a escrita, num solilóquio subterrâneo.
     Lá, onde ele se movimenta, a luz penetra por múltiplos orifícios: impõe-se reuni-la num único foco com a ajuda das trevas multiplicadas.
     O trecho que cito atrás iluminou-me: é uma luva na minha mão direita; a força obscura, referida por Cioran, é-me absolutamente familiar.
     A iluminação, porém, não anula a sombra: a luz de uma coincidência é fugaz; só subsiste, fulgurante, a recordação perene da surpresa.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013




  
[Cioran, L'Élan Vers le Pire, fotografias de Irmely Jung,
Paris: Gallimard, 1988]

sábado, 20 de abril de 2013

V de Vista para um saguão (III)

 
 
[o Barnabé a espreitar o regresso da Primavera,
esta manhã.]
 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

E de Encontro (II)


XVI
 
 
À flor da pele. O vermelho esfacelado, a
continuada linha preta, os olhos
vivos ou parados
olham para os degraus sujos da
vida - têm todos a mesma expressão
concentrada e ausente
um ponto, um traço no suceder solene - a
verdade imaterial. E logo
 
a bronquidão asmática dos pombos
a mobilidade leve da arvéola
o clamor de amorio dos pavões. E logo
 
uma grande alegria
quando dois estranhos se encontram, quando
de noite
ao fim de escavarem o túnel das suas vidas -
     em cada extremo, Aleluia - os dedos se encontram, e
logo
a cisterna dos rostos.
 
 
 
João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

P de Perder a cabeça (X)


[Paris, 1950]

A de Aniversário (XIII)

 
 
Jacopo da Pontormo, "Retrato de Alexandre de Medicis", séc. XVI
(Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

H de Humanidade (VI)


UMA MORTE RÁPIDA


It is not.
Samuel Beckett


[...]


*


As três ante-câmaras da morte: a "cozinha" 
e "sala" da cesta, e este aquário de restaurante
a quem também poderíamos chamar "despensa". A lagosta
arrasta-se junto ao fundo e bate no vidro
duas vezes, as pinças envoltas em elásticos.

A previsão é de tempestade. Lê-a 
no vidro, meu elegante, moreno e belo estranho;
é a mesma para todos nós afinal -
um breve mergulho: de olhos virados
para o fogo.


Robin Robertson
[Trad. ID]




[Harpo Marx desenhado por Dali,
com uma maçã e uma lagosta na cabeça]

sábado, 13 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLV)



[A epígrafe de um livro de George Steiner.]
 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

P de "Pássaros de acaso" (III)


ECO



Nada se perdeu, querido ser,
Nada se perde nunca;
A palavra por dizer
Não está exausta, pode ainda ser ouvida.
Música que mancha;
O silêncio permanece...
Oh, o eco está por toda a parte, pássaro inarmadilhável.


Lawrence Durrell, Alexandria,
sel. e trad. Luís Nogueira,
Coimbra: Fenda Edições, 1982

quarta-feira, 10 de abril de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXV)


SANTOS MÁRTIRES (LX)



e quando (a meio do Inverno) já só contamos com a frialdade dos dias
afundados numa tarde azul - a luz oblíqua desferida sobre a cristaleira -
mantas herdadas de dezembros mais frios afogadas numa feérica luz
de últimos dias («viste o meu espelho»); quase silêncio e a televisão acesa

lá muito em baixo, alguns vultos de casais junto das águas do lago –
à margem da toada dos cães que latem (aqui ao lado) no logradouro vizinho
e dos filhos de estranhos que choram em apartamentos de outros prédios;
(«o espelho») a vaga toada de uma festa no terraço - uma boda de Inverno

apagam-se as gambiarras; um morrão pontuando o reflexo de uma janela -
logo um instante dourado que sobre tudo se abate e (tudo) transforma em silêncio;
fitando a escuridão das águas e as lantejoulas varridas pela brisa para o lodo da margem:
ao fundo da sala, sempre a luz sobre a cristaleira a morrer às nossas costas


Alexandre Sarrazola, View-Master,
Lisboa: Língua Morta, 2013

[Obrigada, Alexandre]

terça-feira, 9 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - XXVI b


 
[Lisboa / Fevereiro 013]
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

R de Rebeca (XV)


[05/04/013]

domingo, 7 de abril de 2013

P de "Pássaros de acaso" (II)

 
JACINTOS
 
 
 
Os teus jacintos ainda estão vivos
E o sopro da morte
é um voo de pombas no céu de janeiro.
 
 
André Pieyre de Mandiargues

P de "Postais do fim do mundo" (II)




FREQUÊNCIAS DE ONDA CURTA


Vais começar uma viagem.
Atravessarás areias movediças,
bancos de nevoeiro, charcos insondáveis.

Dispõe-te a receber os sinais secretos
que as coisas do mundo emitem para ti.

O insecto que voa ao teu redor,
que senha, que promessa de jardim te traz?

O fogo branco da neve nas copas,
conseguiu silenciar o fogo verde das árvores?

A folha que, na margem do rio, se separa
do ramo do arbusto e cai, poderá unir-se
ao ramo certo da água sem a quebrar?

Chegam ondas de um extremo ao outro dos teus sentidos:
conseguiste sintonizar um dial secreto do mundo.

Mas deténs-te à beira desta página
e encontras uma frequência no teu interior,
uma transmissão. Uma mensagem de ti, escuta-a.
É o teu coração paciente: esse tradutor,
esse amanuense, esse secretário incansável
pondo aspas vinte-e-quatro horas por dia
a tudo o que o assombro profusamente lhe traz.








sexta-feira, 5 de abril de 2013

R de (O) rio da minha aldeia (VI)


CASTELO DA PENA
 
 
 
Velha casa de Sintra. À demorada parede
chegou o  musgo do outono.
Trouxe comigo as duas raparigas que
me enviaste, em fotografia, na última
carta. Demorado oval
vindo de longe, rosto que foram no
início do século passado.     À sua
entrada sentaram-se de vestidos brancos com
rendas de Benavente no colar do peito.
 
Deram as mãos, grato sorriso
pelo tempo que lhes foi futuro.     Botas bem
atacadas, espreita a brancura da meia, realce da
pele queimada pelo sol da beira Tejo. Esfolões
na correria.     "Foram avós e entraram
num poema que nunca leste. Uma delas
lembrava-se de ter beijado a mão ao rei Manuel
por altura de uma cheia memorável."
Não sei a desrazão das duas
meninas desenhadas num cenário de rebentação
ribeirinha.     Ondas do mar do Tejo.
Olhos plenos de uma noite serena quando um
rapaz, o remador, lhes falou em voz baixa no vão de uma janela
até perceber qual lhe oferecia o riso mais eterno.
 
Descansa o remador, com uma história de
afogado nos lábios. Vai contar: "esse bocado de
carne"     Nos vidros das janelas
o resplendor da serra bate no espelho
de prata; clarão cerrado no óleo dos retratos.
Não sei que pé direito das raparigas
chutou a morte com um ruído surdo - o
remador, aquele que se põe a contar afogados sonhos
 
desce, sobre a vila, a névoa de outono; as meninas,
amarrotado laço no escuro, submergem na
terra amolecida da lezíria. "Fúcsias envasadas no mês
do inverno", oiço os lábios do remador.
Uma noite longínqua no castelo de Sintra. Remador
de um tempo perdido,
em voz baixa
indica o assento na sombria barca, rema o clamor
no deserto do rio.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge, Castelos - I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXVII)


"[...] A woman came to a window with a candle and some mess she was making, and then that was gone and there was no light anywhere but the moon. [...]"

Gerard Manley Hopkins



Jacques Prévert, "La lune" (colagem)

L de Leituras paralelas (III)

terça-feira, 2 de abril de 2013

S de Sol - b


"J'ai tout donné au soleil
Tout sauf mon ombre"

Guillaume Apollinaire

segunda-feira, 1 de abril de 2013

F de "Falar separa, também."*








* Albert Camus

R de Regresso ao real (VII)

MEU DUPLO


1


A edição que circula de mim pelas ruas
Foi feita sem o meu consentimento.
Existe a meu lado um duplo
Que possui um enorme poder:
Ele imprimiu esta edição da minha vida
Que todo o mundo lê e comenta.

Quando eu morrer a água dos mares
Dissolverá a tinta negra do meu corpo,
Destruindo esta edição dos meus pensamentos, sonhos e amores
Feita à minha revelia.



Murilo Mendes