sexta-feira, 31 de maio de 2013

R de Rasura


[...] 

Nessa escuridão vi, e ainda consigo ver, brasas de memória atiradas para o mato ressequido, uma paisagem prestes a arder com uma raiva implacável.


John Mateer, "A  rasura"
in Cão Celeste n.º3, Lisboa, Maio de 2013




[Lisboa, 18/05/013]

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O de "O tempo passa como cinza branda"


CEMITÉRIO INGLÊS


a Álvaro García



Escuta a reza suspensa da cigarra,
a oração do cipreste no seu voo esguio,
o silêncio devoto da cal e do muro
abraçando-se sedentos às plantas.

Aqui há náufragos do mar e da vida,
poetas, párias, amantes que tentaram
deter a brevidade das violetas,
juntos para sempre osso com osso.

O céu explode neste dia de agosto.
Riem as dálias e ouve-se o rumor
da estrada próxima.

Um banco à sombra, a madeira húmida, os pássaros.
Pensas em qual será o teu lugar no mundo.
Continua a rezar por ti a cigarra.



María Paz Moreno, Invernadero,
Sevilha: Renacimiento, 2007

[Trad. ID]
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

C de Carrosséis (XVI)

O carrossel:
Subi pela primeira vez para um carrossel quando tinha onze anos em Lausana, - pela segunda vez anteontem, nas colinas Vorobiov, o dia do Espírito Santo, com Alia, que agora tem seis anos. Entre estes dois carrosséis - toda uma vida.

*

O carrossel! - A magia! O carrossel! - a felicidade! O primeiro dos sete céus! Repleto de estrelas, carregado de sons, o primeiro pobre e popular céu infantil da terra!
Apenas a sete vershóks do solo - mas o pé já não está sobre a terra! Já não há regresso! É uma sensação de irrevogabilidade, de condenação ao voo, de ter entrado num círculo...
O carrossel é um planeta! Que música de esferas emite a sua coluna que ressoa! Não é a terra que gira sobre o seu próprio eixo, é o céu que gira sobre o seu! A fonte do som está oculta. Depois de nos termos sentado já não vemos nada. Cai-se num carrossel como num torvelinho.
Os leões heráldicos e os cavalos apocalípticos, não são por acaso os fantasmas das feras com as quais Baco inundou o seu navio?
Céu de flagelante - promessa de fidelidade dos planetas - coluna de Memnon sob um sol que não declina... O carrossel!


Marina Tsvietaieva, Indícios Terrestres,
Lisboa: Relógio D'Água, 1995



António Sena da Silva, Lisboa / 1957

terça-feira, 28 de maio de 2013

S de "Semantics won't do" (XXI)



 

domingo, 26 de maio de 2013

sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

P de Poética (XLV)


ESCREVER


Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra sêca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todos este artifício da composição sintá-
tica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, sêcas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim, ou não.
E, como isto, continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito...
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas...
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gestos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?


Irene Lisboa, Outono havias de vir,
Lisboa: Seara Nova, 1937




[Lisboa, 18/05/013]

quinta-feira, 23 de maio de 2013

F de Feira do Livro (II)


PARA A FEIRA DO LIVRO


A Ángel Crespo


Folheada, a fôlha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da fôlha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a fôlha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em fôlha de árvore
melhor do que vento em fôlha de livro.
Todavia a fôlha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.


*


Silencioso: quer fechado ou aberto,
incluso o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o posto do quadro na parede,
aberto a vida tôda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas rêdes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.



João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra,
Rio de Janeiro: Editôra do Autor, 1966
(comprado, hoje, na Feira do Livro de Lisboa)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXVII)




[Sintra, 18/05/013]

segunda-feira, 20 de maio de 2013

T de Tempo Sem Tempo (III)


EMBRIAGAI-VOS
 
 
     É preciso estar sempre bêbado. Tudo reside nisso: eis a questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que esmaga os vosso ombros e vos inclina para a terra, precisais embriagar-vos sem tréguas.
     Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade. Mas embriagai-vos.
     E se às vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na morna solidão do vosso quarto, acordardes, a bebedeira leve ou curada, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “São horas de embriagar-se! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,à vossa vontade.”
 
 
Charles Baudelaire, O Spleen de Paris,
trad. Jorge Fazenda Lourenço,
Lisboa: Relógio D'Água, 2007
 
 
 
 
[Mathieu Kassovitz, O Ódio, 1995]
 

domingo, 19 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

P de "Pássaros de acaso" (V)

 

 
 
[...]
The quill from a buzzard
The blood writes the word
I want to know am I the sky
Or a bird
[...]
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CANCIÓN FINAL


Las rosas de papel no son verdad
y queman
lo mismo que una frente pensativa
o el tacto de una lámina de hielo.

Las rosas de papel son, en verdad,
demasiado encendidas para el pecho.



Jaime Gil de Biedma, Las personas del verbo,
Barcelona: Seix Barral, 1996

terça-feira, 14 de maio de 2013

T de de "(um) torso dobrado pela música" (XIII)




- um poema de Edna St. Vicent Millay.

domingo, 12 de maio de 2013

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VII)


"Ainda que fale da decadência, do desaparecimento e do abandono, o seu trabalho é composto de imagens muito belas e sedutoras. Isso não é um paradoxo?

Eu não sei como é que as pessoas chegam ao meu trabalho, mas sei que, de algum modo, ficam contagiadas por certo modo de ver. E isso resulta de eu conseguir descobrir beleza em algumas das coisas para que olho: é como se ao fim de algum tempo, e para sobreviver, a decadência se transformasse num resto de beleza. Porque, se eu não conseguir amar as coisas que fotografo, não consigo sobreviver."


Entrevista de Nuno Crespo a Paulo Nozolino
in "Revista 2", Público, 12/05/2013



*


"[...] Fiz um curso rápido nas Belas Artes e escolhi Fotografia.

Por causa de um fotógrafo, uma fotografia?

Não. Com 17 anos tinha uma namorada que eu adorava e que acabou tudo. Estávamos no Parque Eduardo VII. Como é que pode ser se eu nem tenho uma fotografia tua? Corri a casa e fui buscar uma Kodak Instamatic do meu pai que ainda tenho. Tirei-lhe várias fotografias e nunca mais a vi. Não estava tudo perdido."


Entrevista de Clara Ferreira Alves a Paulo Nozolino
in "Revista Única", Expresso, 29/01/2011

E de Estado da nação (VI)


[Lisboa, 11/05/013]

sábado, 11 de maio de 2013

 
VISÃO II
 
 
No óculo aparecem ao longe
cidades em chamas:
morrem os fogos ficam as ruínas
 
A quem mais pedir contas
senão a Prometeu
A nossa caixa de fósforos
fechada e bem fechada
sempre assim a mantivemos e podemos
em qualquer altura provar
que não falta nenhum fósforo
para nos ilibarmos.
 
 
Günter Kunert
(tradução de Leopoldina Almeida)
 
 
 


[Fotografia de Ferdinando Scianna, Sicília/1960]
 

P de Poética - XLIII b


sexta-feira, 10 de maio de 2013

P de Paredes frias (II)


TEMPOS VENTOSOS
 
 
Com movimentos desajeitados
as árvores reagem
ao vento
Se não tivessem raízes punham-se
em fuga
escorraçadas e estéreis
em rebanhos desordenados a caminho
dum lugar onde nada nem ninguém
as quisesse vergar
 
Subitamente
que vastidões vazias!
 
 
Günter Kunert
(trad. de João Barrento)
 
 
 
 
[Lisboa, 05/05/013]
 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VII

 
 
Danação,
um filme de Béla Tarr (1988)
 


terça-feira, 7 de maio de 2013

domingo, 5 de maio de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXV c


ENTARDECER NO SUBÚRBIO



Aqui o ar circula tranquilo.
Aqui brilha um candeeiro a gás e
ali outro. Aqui cheira a lilases
e ao fumo 
de uma locomotiva perdida.
Os ruídos chegam mais longe
do que de dia, levados
por asas negras.
Atrás da sebe cada palavra dita
é aquilo que era no princípio: um começo.
Assim
só mais tarde os que falam
assumem as suas palavras, de estranhos
passam a vizinhos, rodeiam-se 
dos seus jardins, de ruas acidentadas,
de carris de comboios, de Universo:
Faça-se subúrbio.
Faça-se noite.
Faça-se silêncio. 

Por esta noite
suspendo a criação.


Günter Künert
[Trad. de Fernanda Portela 
in 90 Poemas de Günter Kunert, Lisboa: apáginastantas, 1983]

A de Amor (XXII)


FICÇÃO



Há uma eternidade
tal como a imagino
movimento continuado
dança
ao som de uma canção antiga na penumbra
de um bar velho e sebento
no cheiro a suor e pó-de-arroz
de um par
de um corpo estranho mas íntimo
abraçado em melodia sempre igual
uma valsa lenta talvez
algo arrastada arrebatada
e que também às vezes uma voz escondida
cantasse: Dream a little dream of me
e os nossos lábios se beijassem
como se estivessem
milénios distantes de nós
à luz de candeeiros de resto bem vulgares
que me encadeiam.


Günter Kunert
[Tradução de José Ribeiro da Fonte
in 90 Poemas de Günter Kunert, Lisboa: apáginastantas, 1983]




sábado, 4 de maio de 2013

P de Poética (XLIII)


sexta-feira, 3 de maio de 2013

E de Estado da nação (V)


 
 
Truman Capote, A Árvore da Noite,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d

quinta-feira, 2 de maio de 2013

P de Paredes frias




[Lisboa / Abril 013]