domingo, 30 de junho de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXVI)


CAPÍTULO PRIMEIRO


Para chegar ao fundo do beco os raios de sol descem a direito ao longo das paredes frias, mantidas de pé apenas à custa das arcadas que atravessam a tira de céu azul carregado. 

[...]



Italo Calvino, O Atalho dos Ninhos de Aranha,
Lisboa: Portugália Editora, s/d

sábado, 29 de junho de 2013

F de "(Une) Famille d'Arbres - II b




"(...)
Está bom tempo aí e há muitas rosas?"

- De Rainer Maria Rilke para Lou Andréas-Salomé

(e da Inês para o Abel)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) LVI


TECENDO A MANHÃ



Um galo sòzinho não tece uma manhã:
êle precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2.


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no tôldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, tôldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.



João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 27 de junho de 2013

C de Cicatriz (II)



Bert Stern (1929 - 25/06/013)

P de Poética (XLVII)

A europa dos lugares indiferentes, dos aeroportos que se assemelham a longos corredores, fechados a intervalos rectangulares, por rectângulos a preto, o silêncio camuflado de alguns passos, a sombra pintada nas paredes, como nas auto-estradas as gralhas nos separadores de vidro, rodeia-nos a mentira, uma voz chama de nenhum lugar, uma voz transparente, que existe como uma casa, não uma casa mas, a minha casa, ou uma macieira, não uma macieira mas, aquela macieira que, no último verão não deu maçãs, ou um lagarto, não um lagarto mas, aquele lagarto que, no dia dos meus sete anos apanhei, bicho verde, com os flancos sarapintados de azul, que se estorcia na minha mão, que abria e fechava a boca, uma voz que é, só uma voz, sem boca nem corpo que lhe dêem a imperfeição de uma dor, ou de alguém que lhe responda, esta voz ouve-se como a luz se espalha, nestes corredores penitenciários, luz e voz não vêm de uma lâmpada nem de um altifalante, estão por todo o lado, estamos nelas, avançamos por elas, e elas avançam connosco, ou melhor, atravessamos sempre a mesma voz e a mesma luz,
[...]


Rui Nunes, Uma Viagem no Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, Junho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

C de Cidades Invisíveis


VENICE II


After its demise
they will say of Venice
(and you know who)
there never was a city
on the lagoon

All invention

And those who conquered Byzantium
those were the Germans
those earlier legends
(Frankish knights with parachutes)
describe only
an imagined place
It is only a scheme
for a canalization project
Nevertheless after some time
on the horizon of forgetfulness
San Marco's domes emerge
the Doge's Palace
the Piazza with two pillars
and
the prisons became filled
with people who believe
they have boated
on the Grand Canal.



Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]

segunda-feira, 24 de junho de 2013

L de Lunário

 
II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012

domingo, 23 de junho de 2013

P de "Paredes frias" (V)




[Lisboa, 23/06/013]

P de "Pássaros de acaso" - VI b


MANHÃS


Pendurada numa corda da roupa de um sétimo andar,
atrás de um prédio enferrujado,

todas as suas varandas envidraçadas ou com grades,
ali, em cada manhã, está uma pequena gaiola quadrada.

Cativo nesta provocação contra o céu,
nesse intervalo reflexivo entre apelo e canção,

esse Vazio que as aves nos "ofereceram",
ali na perversidade fixa de uma vertigem,

o tentilhão debate-se esporadicamente, desarmado,
mudo. Não, freneticamente vocal, mas sem ser ouvido. 

Queremos que isto seja uma ode.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa: Averno, Maio de 2013




[Bruce Davidson]

sexta-feira, 21 de junho de 2013

C de Cicatriz (XII)



 
 
Rui Caeiro, No Martim Moniz com o meu pai,
Lisboa: Landscapes d'Antanho, Junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

S de "Semantics won't do" (XXII)


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLVI)


a insubmissão é uma arma apontada para os grandes horizontes
que são de todos nós para tudo o que nunca fomos nem seremos
quando um esquecimento nos vem à memória
a insubmissão é cortarmos o pescoço para podermos verdadeiramente cantar
a insubmissão é um marinheiro desgovernado
que encontra no mar uma mulher-serpente e lhe dá de comer
como se tivessem ambos as pálpebras silenciosas e a boca entreaberta.


Mário Botas
in Aventuras de um crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

P de (The) Privacy of Rain - IX b


CRY OF THE BAT


As they fly swiftly through the twilight, here, there, everywhere, their screech is loud but only they themselves can hear it. The tops of trees and barns, dilapidated church spires throw back the echo which heard in flight reports on the kind of obstacles that lie before them and where the way is clear. With their voice removed they are left helpless to find their way; bumping against everything, flying into walls, they drop to the ground, dead. Without voice they are overcome by what otherwise they destroy, now prevailing in increasing numbers: vermin.


Günter Kunert
in Windy Times, trad. Agnes Stein,
New York: Red Dust, 1983

terça-feira, 18 de junho de 2013

R de Realizar (XIII)


P de (The) Privacy of Rain - XLVI c


"[...]

Passa uma faca sobre a vida. Tudo se apaga. A  tentação de parar ao lado de alguém é esta chuva branda, esta música de infância, testemunho a passar até onde pudermos, até desaparecermos ao longe, atrás dos rios e das montanhas, no vento dos transes dos navios, no clima dos campos de combate, onde já não são sombras quem nos espera, mas uma quarentena, a catedral, o elevador que desce até ao infinito glaciar da vida."


Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013

domingo, 16 de junho de 2013

P de (The) Privacy of Rain - XLVI b


"[...]

Durante alguns breves e fabulosos momentos, são livres.

Não ainda pássaros. Mas já não humanos."


ALLAN GRAUBARD
(pela voz da Ana)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXVIII)


Mário Botas
in Aventuras de um Crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

S de Santos Populares (III)



Noite de Santo António / 013


quarta-feira, 12 de junho de 2013

R de Regresso ao Trabalho (LII)




Les très riches heures du Duc de Berry, 1412-1416

segunda-feira, 10 de junho de 2013

E de Epígrafe (IV)



P de Poética (XLVI)





Meu samba não se importa que eu esteja numa
De andar roendo as unhas pela madrugada
De sentar no meio fio não querendo nada
De cheirar pelas esquinas minha flor nenhuma

Meu samba não se importa se eu não faço rima
Se pego na viola e ela desafina
Meu samba não se importa se eu não tenho amor
Se dou meu coração assim sem disciplina

Meu samba não se importa se desapareço
Se digo uma mentira sem me arrepender
Quando entro numa boa ele vem comigo
E fica desse jeito se eu entristecer

domingo, 9 de junho de 2013

P de "Pássaros de acaso" (VI)


O POETA


Não vamos encontrar O Poeta
nas suas palavras. É por isso que
visitamos as suas casas
ou os seus túmulos, ou os seus rios.
Não há espaço num poema
para O Poeta, apenas o dito
e, às vezes, memórias.
Visitamos os países de poetas
estrangeiros para os encontrarmos arruinados,
para testemunharmos, onde antes palavras
havia, entulho, estátuas decapitadas
e aves, aves canoras engaioladas.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa: Averno, Maio de 2013




[Bertold Schenkelbach, Drohobycz, 1925–1939]

quinta-feira, 6 de junho de 2013

E de Estado da nação (VII)


12


Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

a água é sempre azul
e sempre fresca

Em que país encontraria
amor e compreensão

em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco



António Reis, Poemas Quotidianos,
Lisboa: Portugália, 1967

quarta-feira, 5 de junho de 2013

B de Biorritmo (CLV)


[...] To the question: "What do I do? What do I produce?" there was an honourable, well-wishing, effective answer, at any rate an answer in conscience - for this was the scope of his conscience; but to the question: "Who I am?" there was none. Many human beings have no knowledge of themselves except as effects. They carry within them no reconciliation of these effects, no sense of a realized or realizable individuality, no origin of the notes they give out,. They are neither musicians nor children singing; they are gramophones, mass-produced - effect-makers, good or bad. Of these, some are content, as Severidge was not; they think complacently in terms of effect, as a gramophone might be supposed to think as it came off the production-line. But some are unhappy as a gramophone might be which was aware of music's cause and that it was itself empty of this cause. Severidge resembled such a gramophone. In business, his effect-making had such a perfection which, like all perfection in its own kind, was beautiful , and, while he exercised this faculty, he had a sense of flawlessness, of innocence. He felt then: I am a good man, as a gramophone might feel: I am a good gramophone. But, observing others at school and in later life, he had found that certain men were to him what musicians are to gramophones - often extremely incompetent, but still musicians, aware of music within them; often untrue to their truth but recognizing it as theirs, their very own, the nature of their being, their stem, root and seed, their link with Earth, their unity with Nature, their not.being-lonely, their not-being-sterile-or-dead.
[...]



Charles Morgan, The Judge's Story,
Londres: MacMillan, 1950

sábado, 1 de junho de 2013

R de Rebeca (XVII)


UM CÃO O MAR


Por detrás da persiana o mar
com a imagem de um latido.
Lançado por um cão ago
ra morto. Que novamente
parece um ser humano
a soluçar. Por detrás da
persiana toda a noite
tudo o que se movimenta.

No jardim o vento é um cír
culo à volta da paisagem.
Em torno da figura sonora do
mar. Tudo são as fases
do labirinto. Espaço noctur
no de ninguém. Solidão
rarefeita em ecos.
Odoríferos como o vácuo.



Fiama Hasse Pais Brandão, Âmago I / Nova Arte,
Porto: Limiar, 1985