sexta-feira, 30 de agosto de 2013

N de "Nous deux encore" (II)


A DOIS PASSOS


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais 
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós 
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que 
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem. 


Rui Caeiro, "Do inferno - cinco aproximações"
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

N de "Na casa de Julho e Agosto" (III)


II. ORLANDO PANTERA
I am a professional



e dançámos
lentos & digestivos

mas tentemos antes passar
o dia a limpo:

o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta

o teu peito mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar

as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos

o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefónica
- queimando toda a rede fixa de Carcavelos - 
o pássaro
morto na escrivaninha
o desenho a meio

depois a noite a lua

o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros

ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de sapatos
adaptadas para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada


Miguel-Manso
in Telhados de Vidro n.º12,
Lisboa: Averno, Maio de 2009

domingo, 25 de agosto de 2013

P de "Postais do fim do mundo" (III)


Dizer tudo um ao outro num diálogo de surdos,
incerto dizer sem dizer o nada onde
a vida não se viva nunca a dizer
a ruína e o mar, o bolor da espuma,
a caliça nos cabelos molhados.


Rui Baião, Rude,
Lisboa: Averno, 2012




[Santarém / Agosto 013]

sábado, 24 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto (V)


NAUSICAA II


One doesn't know where one has landed.
One knows only: here
the sun never fails to shine.
Soft rush of waves
on the gentle sand of the pale shore:
island rythm.

Naked the other sex 
approaches the new arrivals:
phallic flowering
the mid-day heat
generates.

Life is and death is
very simple: a toothless cowering
at the end, the eye
on the motionless sea, the back
towards the rough cliffs, no more expectations,
no hope: a final recognition 
that the place lost in passage
was no other than
Scheria. 


Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto - III b



[21/08/013]

H de (A) Humanidade em Agosto (III)

I



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                   Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
              Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisiveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação contidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.


T. S. Eliot, "Burnt Norton", Quatro Quartetos,
trad. Gualter Cunha, Lisboa: Relógio D'Água, 2004

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A de Amizade (III)


"[...] A habit of speech is a deep matter. [...]"

Iris Murdoch

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O de "Onde se lê gato" (VIII)




Rui Caeiro, Um Gato no Inferno
com desenhos de Inês Caria,
Lisboa, 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

U de "Uma promessa do deserto"




[Moinho Grande, 10/08/013]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

D de "Die schöne Müllerin" (II)


OUTRO ORÁCULO


Diante dos brancos,
reluzentes, metálicos moinhos,
no ar tão limpo do inverno,
põe-se devagar o sol.
Penso no tempo em que não existiam.
Pouco a pouco compreendo que foram dias 
de horizonte mais amplo. Hoje erguem-se
no seu lugar, brutais, estes moinhos
preparados para uma época difícil.
Aproximo-me de um deles: sinto a sua indiferença.
Acaricio o enorme mastro frio,
sinto o amanhã nessa poderosa
linguagem de foice que vai ceifando o ar
com grandes pás que, furiosas, giram 
voltadas para o poente.
Como alguém que dissesse a verdade.


Joan Margarit, Misteriosamente Feliz,
Madrid: Visor, 2009

[Traduzido pela Inês Dias
para a Ana Isabel Soares
e todos os amigos do Moinho Grande]

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

P de (Po)ética - XLIX b


felicidade


Acorda com as mãos em concha
a defender a sombra onde fez casa
e permanece sentado. Os dias passam
na sua claridade e ele, imóvel,
doente de palavras, não as suporta,
não servem para nada. Imóvel,
não quer mais sentir-se ferido,
ameaçado. Dorme e acorda
nessa inactividade. Espera.
E expectante crê que um dia
a luz há-de encher o quarto.
Não se consegue levantar, não
consegue senão a consciência
desse instante vago, olhos fixos
no soalho ou rente às paredes
da casa, atento às sombras a quem, 
horror, sorri. Assim o encontram
dias mais tarde. Como se estivesse
a rezar. Ele, cuja metafísica
era saber que as palavras não são
suficientes para nos tornar mais tristes.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

domingo, 4 de agosto de 2013

C de Cicatriz (XI)


"[...]
devo sentir nostalgia? de quantas cicatrizes precisa a nostalgia?"

Pablo García Casado




[Fevereiro 013]

sábado, 3 de agosto de 2013

L de (A) Luz da Sombra - XXXV b




[Guimarães, 1/08/013]