sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

P de "Pássaros de acaso" (VIII)


Agora anoto cada vez mais a fadiga,
E dela falo cada vez menos.
Oh! tímidas capturas da minha alma,
Alegre e cálido tropel.

Que géneros de pássaros inventas para ti?
A quem os ofereces, ou será que os vendes?
Acaso habitas ninhos do presente
E do presente é a voz do teu cantar?

Regressa, alma minha, e extrai-me a pena;
Que cante velhas glórias o transístor.
Diz-me, alma, como é que via
A vida o voo do falcão?

Enquanto a neve, vinda do nada,
Revoluteia num qualquer confim,
Pinta sobre a morte, rua minha,
E no teu grito, ave, fala de viver.

Já vês, enquanto eu caminho, tu voas,
Alheia ao nosso mal-estar.
Já vês, eu sigo a minha vida, enquanto tu bates as asas
Gritando, alarmada, num qualquer lugar.


Joseph Brodsky
in Um Ateu no Campo, versões de João Rodrigues,
Lisboa, Edições Pirata, 2000

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

C de Começar o dia com um livro novo (XXVIII)


Perdi a caneta
de tinta eterna
no teu cabelo.

O Adamastor lá estava, no relvado,
onde mais duma vez nós conversámos
a contemplar o rio com desencanto.

A caneta perdida impedia-me de escrever
quanto te amo e odeio
como se ardesse a frio num incêndio.

A côr da friagem na minha barba hirsuta
toldada de brancura e nevoeiro:
é a velhice magra que me espreita, atenta
à caneta perdida em teu cabelo.


António Barahona, Pátria Minha,
Lisboa: Averno, 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

R de Regresso ao real (VIII)


Gosto da brisa gelada
e do vapor que fala no Inverno:
Eu sou eu. A realidade é a realidade.

Um rapazinho, vermelho como um tomate,
dono e senhor do seu trenó,
lança-se encosta abaixo.

E eu, em desacordo com o mundo, com a liberdade,
aceito o contágio do trenó,
dos seus estriados braços de prata.

O século poderia ser mais leve que um esquilo,
mais leve que um esquilo no doce arroio.
Metade do céu é usar botas de inverno.


Ossip Mandelstam
in Um ateu no campo, versões de João Rodrigues,
Lisboa, edições pirata, 2000

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

E de Espinhas para um gato (XVI)



Samuel Beckett

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

C de "Canção da vida" (II)


THE CAGE


O nosso carro não vai muito longe,
só aqui à volta onde já se sabe o caminho
como dizem que sabem os cavalos. Na avenida
com os paralelos enfeitados pela chuva, no sossego
das cercanias onde até o ar nos tarda.

Nós fomos prometidos ao amor pela terna mistificação
dos livros, mas como se faz escuro
sobre os mastros da serra, como nos apoucam
estes dias. Provamos a tristeza dos cafés
no princípio das aldeias, descemos na paisagem
onde o céu negoceia com a lama. Ao volante a estrada é curta
e tu levas a minha música ao colo, quem mais o faria por mim?


Rui Pires Cabral, Música Antológica & Onze Cidades,
Lisboa: Editorial Presença, 1997

M de Manhã submersa







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

C de "Canção da vida"


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

domingo, 9 de fevereiro de 2014

R de "Rezar na era da técnica" (XIV)


A RELIGIÃO FUTURA


O futuro da religião reside no mistério do toque.
A mente é intocável, assim como a vontade, assim como o espírito.
Primeiro vem a morte, depois a verdadeira solidão, que é permanente
e então o renascimento do toque.


D. H. Lawrence, Amores-perfeitos,
sel. e trad. de Ricardo Marques, não (edições), 2014

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O de "Oh! qu'ils sont chers, les trains manqués/ Où j'ai passé ma vie à faillir m'embarquer!..." (III)


ARRIVAL HOME


What kind of land is this 
which is like nowhere
especially in the late night grottoes
of lonely train stations.
Much too light. Much too much
rain.
Have you ever noticed
how they step from the train
disappointed at arrival:
Again nothing but cold and wet
and darkness and smoke.
Again nothing. Again a dream
failed.
Already they're stumbling off
over their own shadows
no Penelope waits for them
in the Hades of their final home.


Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]


*


RECEBER UM POETA CHINÊS


Fazes parte da delegação enviada para receber o poeta. Na estação de comboios, de pé à sombra, viras-te para norte em direcção à luz. É um dia tranquilo, desses repletos de uma solidão continental. Ao teu lado sobre a plataforma há anões, silenciosos e imóveis. Estás prestes a comentar esse facto, quando o comboio chega, as suas portas abrindo-se num suspiro. O poeta modestamente vestido desce, com o rosto de um homem que foi libertado da prisão apenas para não encontrar ninguém à sua espera na entrada.


John Mateer
[in Telhados de Vidro n.º18, trad. Inês Dias,
Lisboa: Averno, 2013]

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

P de "Paredes frias" (VI)


HOSPITAL CANTONAL DE PERREUX


Aqueles jardins tinham o gosto da anestesia
no céu da boca, havia longas alamedas
poluídas pelo segredo dos pavilhões proibidos.

Os internados dormiam toda a tarde sem ruído,
às seis vinham a tropeçar pelo refeitório,
cumprimentavam no seu francês turvado pelos químicos:
Ça va, m'sieur? Eu andava à procura de um acelerador
para a minha viagem, interrogava constantemente 
os meus oráculos, o livro aberto sobre as sombras
no terraço.

Eram mesmo para mim as mensagens que encontrei
nos muros de algumas cidades, ou foram só ilusões 
engendradas pelo acaso? Eu não sabia responder
naquela altura, tal como nunca soube. Às vezes
o silêncio de Perreux era confortável
para os meus sentidos, trazia-me depressa
o sono. Na manhã seguinte, eu voltaria a partir. 


Rui Pires Cabral, A Super-Realidade,
2.ª ed., Lisboa: Língua Morta, 2011