terça-feira, 28 de outubro de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX



[ID, Santa Cruz, Setembro 012]



ANUNCIAÇÃO


Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.


Ruy Cinatti, 75 Poemas,
org. de Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 12 de Outubro de 2014




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

F de Frequências




"Isto anda tudo ligado"

[Lisboa, 13/10/14]



domingo, 19 de outubro de 2014

V de Vício (IX)


DEPOIS DE VOLTAR DE UMA VIAGEM DE EXPLORAÇÃO


       Na almofada a cabeça sonolenta de John Mateer
é um aquário às voltas com água veneziana
       e naquele galeão, aquele brinquedo luminoso,
ele está ao leme, de telescópio no olho,
       jurando que não consegue ver a Austrália.

E quando a sua caravela desliza Tejo adentro,
       tão colocada e cerebral como um cisne negro,
ele pede um copo de porto e um pastel de nata,
       depois recolhe ao quarto num calmo hotel de Alfama,

e sonha o sonho:
       que um dia haverá um poeta
chamado John Mateer, tal como houve uma vez,
       para além dos limites dos mapas, um monstro
chamado Austrália.


John Mateer, Namban,
trad. Andreia Sarabando, Coimbra: Medula, 2014


*


What a shock it is to discover the world is round and the areas merge and nothing separates the monsters and ourselves; that we are all whirling around in space together and there isn't even a graceful way of falling off.


Margaret Millar, Beyond This Point Are Monsters, 1970
[O título do livro vem de uma inscrição num mapa medieval.]

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

P de (Cinco Anos de) Pássaros


CORVOS DE SHINJUKU


Corvos instáveis saltitando de um saco de lixo volumoso
para outro na manhã de Shinjuku;
qual foi a minha Alma, as suas frases incompletas,
os seus corsários, desembarcando, ansiosos por recordarem
onde é que tinham enterrado o tesouro.


John Mateer, "O poeta vislumbra a sua alma", 
Este Livro Escuro, trad. Inês Dias, 
Lisboa: Averno, 2012




quinta-feira, 16 de outubro de 2014

P de "Pássaros de acaso" (IX)




Daniel Filipe, Discurso sobre a cidade,
Lisboa: Editorial Presença, 1977

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

P de Poética (XLII)



[Um anúncio de 1943]

terça-feira, 14 de outubro de 2014

T de "The days grow short" (XII)


COZINHA


Quando o Outono agarra o prédio com toda a força
e se infiltra nas paredes, começo a sentir, cada vez com mais intensidade,
a luz azulada que vem do esquentador a iluminar a cozinha. Como se
Turner paralisasse este espaço.
Com a água quente e espumosa em redor dos meus pulsos
fixo nos azulejos brancos uma sombra semelhante a duas flores
que um dia vi na berma de uma via rápida.


JOÃO MIGUEL QUEIRÓS
in Poetas Sem Qualidades, org. de Manuel de Freitas, 
capa de Sérgio Eloy e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira, 
Lisboa: Averno, 2002

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

M de "My house, I say" (VI)


117.


Acumulaba azules, sombras
de óxido en las horas, días
en el cesto de frutas, pan
duro dentro de la panera.
La casa envejecía. Nadie
que cambiase los fluorescentes
de la cocina, que repare
el horno, el tirador, su miedo
si la noche la abandonaba
a sí misma. Con el pincel
del pintaúnas sin pintura
se arreglaba las manos. Tan
delicadas, había dicho.


- JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO
in 'Suroeste' n.º4, 
Badajoz: Editora Regional de Extremadura e Fundación Ortega Muñoz, 2014




[ID, Santarém, Maio 014]

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

C de Corpo Santo



['God is in the details', Beja 014]



As so with that, I thought I'd take a final walk
The tide of public opinion had started to abate
The neighbours, bless them, had turned out to be all talk
I could see their frightened faces 
peering at me through the gate

I was looking for an end to this, for some kind of closure
Time moved so rapidly, I had no hope of keeping track of it
I thought of my friends who had died of exposure
And I remembered other ones 
Who had died from the lack of it

And in my best shoes I started falling forward down the street
I stopped at a church and jostled through the crowd
And love followed just behind me, panting at my feet
As the steeple tore the stomach from a lonely little cloud

Inside I sat, seeking the presence of a God
I searched through the pictures in a leather-bound book
I found a woolly lamb dozing in an issue of blood
And a gilled Jesus shivering on a fisherman's hook

Babe
It seems so long
Since you've been gone away
And I 
Just got to say
That it grows darker with the day

Back on the street I saw a great big smiling sun
It was a Good day and an Evil day and all was bright and new
And it seemed to me that most destruction was being done
By those who could not choose between the two

Amateurs, dilettantes, hacks, cowboys, clones
The streets groan with little Caesars, Napoleons and cunts
With their building blocks and their tiny plastic phones
Counting on their fingers, with crumbs down their fronts

I passed by your garden, saw you with your flowers
The Camellias, Magnolias and Azaleas so sweet
And I stood there invisible in the panicking crowds
You looked so beautiful in the rising heat

I smell smoke, see little fires bursting on the lawns
People carry on regardless, listening to their hands
Great cracks appear in the pavement, the earth yawns
Bored and disgusted, to do us down

[...]

These streets are frozen now. I come and go
Full of a longing for something I do not know
My father sits slumped in the deepening snow
As I search, in and out, above, about, below

Babe
It seems so long
Since you went away
And I
Just got to say
That it grows darker with the day



domingo, 5 de outubro de 2014

T de de "(um) torso dobrado pela música" (XIV)


O SEGREDO
[Jardim Amália Rodrigues, 1961]


Vão alguns em busca de beleza, dizem.

HERBERTO HELDER


Os meus dedos já souberam
de cor a perfeição.

A morte era o menos.
Só a beleza nos parecia intolerável
se não a despedaçássemos,
voz por voz, compasso a compasso,
numa harmonia mais dócil. Menos urgente
do que os músculos que ensaiávamos
todos os dias sem nos tocarmos.

Agora ouço outras mãos 
a tactear o mesmo mistério e
é como segredar, pianississimo,
ao ouvido de alguém demasiado longe,
quando afinal adormeceste apenas
dentro de mim, com as garras
cravadas ao de leve na memória,


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (X)


NAS TRASEIRAS DO REAL


parque de locomotivas em San Jose
     desconsolado eu deambulava
frente a uma fábrica de tanques
     e sentei-me num banco
junto à baiuca do agulheiro.

Uma flor jazia no feno sobre 
     a estrada asfaltada 
- a assombrosa flor do feno
     pensei eu - tinha um
negro caule crestado e uma
     corola de espinhos sujos
amarelados como polegadas
     da coroa de Jesus e um tufo
de algodão seco e manchado
     no meio tal pincel de barba
usado que jazesse soterrado
     há um ano na garagem.

Amarela flor, amarela e
     flor da indústria,
dura flor aguçada e feia,
     e ainda assim flor,
com a forma da grande Rosa
     amarela dentro da cabeça!
É esta a flor do Mundo.


San Jose, 1954



Allen Ginsberg, Uivo e outros poemas,
trad. Margarida Vale de Gato,
Lisboa: Relógio D'Água, 2014

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

T de Teacher Was Here


     Desde que sei escrever, medi os anos a partir de Setembro, quando fazia anos e regressava às aulas. Era um mês com cheiro a praias batidas, velas apagadas, mas livros e sonhos intocados. 
     Depois houve um ano em que regressei às aulas como professora. Lembro-me até do momento exacto em que percebi que me apaixonara por esses novos setembros: sei ainda de cor os quase trinta rostos sentados à minha frente a tentar adivinhar o verso seguinte de uma cantiga de amigo, o sorriso deles a abrir-se, o meu a tentar não dar nas vistas. 
     Fui professora em escolas públicas durante quinze anos, anos esses que conto pelo nome das escolas por onde passei. Regressei tantas vezes a casa exausta, impotente perante a carga burocrática; ou as decisões superiores sem olhos e razão no terreno; e sobretudo a dimensão dos problemas das centenas de alunos que nem sempre conseguíamos ajudar. Mas também sei que regressei tão mais vezes a casa de coração cheio. Há coisas que fazemos – e há coisas que fazem de nós aquilo que somos. É disso que falo aqui.

     Este ano decidi tentar mudar de vida. Deixar de esperar por resultados de concursos podres, de ter de aplicar políticas podres, de ser tratada como provisória, residual, incapaz até prova (incapaz) em contrário. Vou enviar currículos, responder a anúncios, procurar traduções e revisões.
     O que não significa que deixe de ser professora; pelo contrário, desejo sinceramente encontrar projectos dignos, que me devolvam algum do idealismo que tive de sacrificar por conta deste outrem. Gostaria que os meus alunos continuassem a aprender a não se resignar ao habitual, ao normalizado e avaliado por exames, ao que nos é simplesmente imposto. Que percebessem que esta é também a minha maneira de lhes explicar que todos temos o direito e o dever de nos reconstruirmos a nós próprios para nos conseguirmos reconstruir em sociedade. Que soubessem – eles e os colegas com quem fui aprendendo – como lhes agradeço, para já, por tudo.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVIII)


O MAU POEMA


A lição é simples
e basta ouvir uns quantos mestres,
para já não a esquecer no futuro. 
Tu própria a conheces:
a verdadeira arte faz-nos amar a vida;
e embora ensine a dor, e nos possa ferir,
e não consiga tornar-nos mais felizes quando precisamos,
embora nos obrigue a desejar a morte por vezes
- quem o provou o sabe -, a arte, se for autêntica,
reconcilia-nos com a nossa impotência,
infunde-nos uma coragem absurda
para enfrentar o correr dos dias.
De modo que, por tudo isso
e mais algum tópico que tenha esquecido, 
há algo na arte de inevitável que conduz ao amor. 

Mas permite-me agora que esqueça a doutrina.
Retiro tudo aquilo que disse. 
E se o acaso fez com que algum destes versos
te levasse a um sentimento nobre, 
não fui eu quem o instilou neles.
Pensei em desejar-te toda a solidão, toda a cólera,
oferecer-te a ira e o delírio
sem qualquer emenda, sem redenção possível.
Quis que sofresses com o tempo
e que ninguém o soubesse.
Mas já não acho que seja suficiente.
E espero que por isso compreendas agora
na medida certa este meu envio:
se ainda consegues acreditar num poema,
considera-te morta. 


CARLOS MARZAL
[Trad. Inês Dias]


*




[...]

Did you write the book of love
And do you have faith in God above
If the Bible tells you so?
Now do you believe in rock and roll
Can music save your mortal soul
And can you teach me how to dance real slow?

[...]