sábado, 29 de novembro de 2014

V de Vício - V b


"[...]

Mas eu -
disponho três rosas num vaso chinês:
uma rósea,
outra vermelha,
e outra amarela.
E trabalho a sua disposição.
E então sento-me numa janela virada a sul
e saboreio um vinho clarete com uma pitada de cicuta,
e penso nas noites de Inverno,
e nos ratos selvagens que várias vezes cruzarão
o local que será a minha sepultura."


Amy Lowell, Não eram rosas,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2012




[ID, 'God is in the details', Londres 014]

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A de "até que os fios do coração" (XVII)


"[...]
mora um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas sou inteligente, só o deixo sair
por vezes, à noite
quando todos dormem.
e digo, sei que estás aí,
não estejas triste.
depois coloco-o de volta
mas ele canta suavemente
não o deixo morrer
e adormecemos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
[...]"




Charles Bukowski
traduzido por Fábio Neves Marcelino e ilustrado por Débora Figueiredo
in Fanzine ignota 1, Novembro de 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

R de Regresso ao Trabalho (XLVIII)




ALFONSINA Y EL MAR


Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.




R de Regresso ao Trabalho - XLVIII b


ALFONSINA STORNI ATIRA-SE AO OCEANO


"E sobre a minha cabeça
ardem, no crepúsculo,
as eriçadas pontas do mar"
A. S.



Enquanto saem do mar ou do Tempo as amibas,
os caranguejos pré-históricos e os grandes répteis,
chiantes e lentos como tanques de guerra;
enquanto sai Pizarro com os seus homens e cavalos;
e emerge Ursula Andress, o seu biquini eléctrico e louro
como uma flor carnívora que se colasse ao tacto;
   
enquanto saem do mar a Vénus de Boticelli, e Crusoé,
e o Nautilus amarelo dos Beatles, e na praia
vêm encalhar baleias e réstias morenas de raparigas
que tomam sol e mate e depois são tomadas por outros;
enquanto emergem do abismo os icebergues cariados do diabo
e entre eles flutua a vida, esse draga-minas velho e escangalhado;
 
enquanto o mar transborda do mar no meio do estrondo
e o Sumo Ponto já nem ouve os seus próprios pensamentos,
e na praia do cenário já não cabemos todos,
porque todos tropeçamos em todos, e andamos a esbarrar
na vida e nas suas tramóias e no adereço que são as palavras;
   
eu regresso sem nada e em silêncio a este oceano, hoje laranja
e tépido como o líquido amniótico que banhava as minhas primeiras sestas.
Sabem como gosto de dar uma espreitadela aos bastidores.
Deixo-vos com o vosso desembarque diário na Normandia.
Não me acordem até o espectáculo e o mundo acabarem.


Jesús Jiménez Domínguez, Frecuencias,
Madrid: Visor, 2012
[Trad. ID]

terça-feira, 25 de novembro de 2014

T de "(um) torso dobrado pela música" (XV)


[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




[Frida Khalo]

domingo, 23 de novembro de 2014

V de Viagem no Outono




Coimbra, 23/11/014



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

U de "um homem pode o seu coração" (III)


PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS


Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrar os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014




[Detalhe de Francisco Zurbarán / 1655]

terça-feira, 18 de novembro de 2014

U de "um homem pode o seu coração" (II)


SEGUNDA AUSÊNCIA DE MADRID


aqui estamos, sonho, a caminho.
um punho plantado ou uma árvore a descoberto
com o sabor de um longo passado (o que é um passado?)
ruminando saliva pesada, olhando fixamente
as acrobacias mortais

um homem pode o seu coração

aqui estamos, sonho,
aqui estamos, boneca de papel,
cigarro, coração transcorrendo
igual a uma núvem
tenho por referência um válido herói
ou a pedra ligeiramente solta
na espessa parede

o homem pode o seu coração:
o que tem a verdade - a viva ou se assemelhe
a que tem a lua indique a ilha
ou seja o seu limite


Manuel de Castro (17 de Novembro de 1934 - 1971)
in Paralelo W, edição de autor, 1958




Josef Sudek

domingo, 16 de novembro de 2014

F de Família


LAPINHA


Para a Lorena Correia Botelho


Às 21h25 a ilha fecha,
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo, amigos
que invocam em silêncio as estações
e recordam ainda a Criação,
camada por camada.

Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens, que a estrela
única vem selar. Cada um risca
as fronteiras do sonho com sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.

E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014




[Detalhe de uma lapinha feita por Lorena Correia Botelho - um poema.]

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

P de Postais (VII)


DORMIR NO TECTO


É tão calmo o tecto!
É a Place de la Concorde.
O pequeno lustre de cristal
está apagado, a fonte está às escuras.
Não há vivalma no parque.

Mais abaixo, onde o papel de parede se descolou,
o Jardin des Plantes tem os portões fechados.
Aquelas fotografias são animais.
A vegetação e as flores poderosas sussurram;
sob as folhas os insectos escavam.

Temos de passar sob o papel de parede
para encontrar o insecto-gladiador,
lutar com uma rede e um tridente,
e deixar a fonte e a praça
Mas oh, se pudéssemos dormir ali em cima...


- ELIZABETH BISHOP
[Trad. Inês Dias]




[Postais oferecidos no Paralelo W]

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A de "Ai meu amor se bastasse"


BWV 988


Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg.
Não sei, não quero saber, não faço ideia.

Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.

Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.

O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.

É tudo – sabes? – tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.

Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.

E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino – uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).

E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.

Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.

A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu – ninguém, porque
ninguém basta. É um erro – mas gostamos
tanto – pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.

E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos,
para ti, foram sempre sentimentos vãos).

Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram – ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.

O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.

Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.

Qualquer coisa assim.


Manuel de Freitas, [Sic],
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

domingo, 9 de novembro de 2014

A de Amor (XXIV)


 




[...]
Nunca houve na terra um amor como o nosso.
O meu amor por ti é igual ao teu amor por mim.
O resto, batatas fritas!
Se me acontecer alguma coisa, chama a polícia e esconde o anel que te ofereci
no dia dos teus anos.


Ruy Cinatti, 75 Poemas,
com org. de Manuel de Freitas e capa de Inês Dias
Lisboa: Averno, 12 de Outubro de 2014



 




[Inês Dias, 22/02/12 - 05/03/12]

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

P de Ponto de vista




Lisboa, 5/11/014



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

N de "No fundo, é isto" (IV)


incompreensível é a penugem dos gansos ou
a casca verde das nozes
incompreensíveis há muitos     catrefadas deles
o terrorismo financeiro com as suas claras intenções
não é um incompreensível     é por isso que
entre um ganso e um financeiro de elite
não há nada que os distinga quando pensamos em mortalidade
um financeiro de elite não tem penugem e morrerá


ABEL NEVES
in Resumo: a poesia em 2013,
Lisboa: Documenta, 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A de "até que os fios do coração" (XVI)


I.


Estamos mesmo no princípio, percebes? Como que antes de tudo.
Com mil e um sonhos para trás de nós e parados.


Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. Sandra Filipe, Lisboa: Averno, 2011




Shirley Baker (1932-2014)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

F de Fazer Fotografia (XVI)





TUDO COISAS MORTAIS PARA A POESIA


A casa, o lume, o sono dobrado
do corpo feliz, a cesta de figos,
a curva do rio, a fotografia
no cimo do monte, a veracidade
das glicínias, o rosto da mãe,
a fava no bolo, o trunfo de copas,
o filme da tarde, a música nova,
o rasto da chuva por entre os pinheiros,
as aves que voltam, os dias que passam
perto de nós.


José Miguel Silva
in Poetas Sem Qualidades, Lisboa: Averno, 2002, p.72





[Fonte: Instant Light - Tarkovsky Polaroids, Thames & Hudson]