terça-feira, 31 de março de 2015

U de "Uma Correspondência"


VIZINHA


A Ana morreu
nos troncos e nas entradas dos prédios
penduraram avisos
a convocar os tristes para o luto
por ela e por si mesmos
e a treinar os transeuntes
na negação da própria morte
o anjo magro encarregado da alma dela
ainda se demora um pouco no pátio

nos seus últimos tempos tinha ficado cega
talvez fosse castigo 
por ter sido sempre cega
por a sua vista ter sempre retirado
às coisas e aos seres
a beleza
a vida passou-a sem qualquer assombro
os olhos corriam atrás dos defeitos 

no final fez-se branca e fina
como papel 
carregaram-na ao vento com cuidado
e pousaram-na no pó
como num envelope
uma última carta para si mesma


Mordechai Geldman, Teoria do Um, vol. I,
trad. João Paulo Esteves da Silva,
Lisboa: Douda Correria, 2015

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" (VI)


UMA CORRESPONDÊNCIA



Quando o meu pai morreu,
a minha mãe escreveu-me:
"Somos dois
a quem tenho de sobreviver:
o teu pai e eu."
Não respondi:
há dias em que todos os verbos são culpados.
Não senti nada:
há dias em que todos os sentimentos são falsos.
Mas desci à cave,
escolhi um cachimbo e um velho violino;
ao tirar-lhes o pó,
pedi-lhes que ficassem tristes por mim:
o cachimbo com o seu âmbar torto,
algumas marcas de dentes, o seu ar embaraçado;
o violino muito romântico,
talvez tuberculoso
e falando de um inverno em que a neve fora negra.
Choraram para me servir de exemplo.
Vou escrever à minha mãe:
"Os nossos objectos mais próximos
asseguraram-me que estão inteiramente connosco."


Alain Bosquet, Je ne suis pas un poète d'eau douce,
Paris: Gallimard, 1996

[Trad. ID]

segunda-feira, 30 de março de 2015

S de "Semantics won't do" (XXIV)




[...]
But so is life
[...]

M de Mesa de Amigos - Xb



[29/03/015]

sábado, 28 de março de 2015

E de Espera (XXIII)


BILHETE-POSTAL NEGRO



I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse é cosido em silêncio.



Tomas Tranströmer, 50 Poemas,
trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

sexta-feira, 27 de março de 2015

P de "Postais do fim do mundo" (V)



[ID, 'O rio da minha aldeia', Abril 014]



[...]

Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim,
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.


Júlia de Carvalho Hansen, A Casa dos Nietzscheanos,
Guimarães: Grisu, 2014

terça-feira, 24 de março de 2015

J de (O) Jardim e a Casa (X)


E maio empregara-se nos jardins com uma velocidade ao pé do esplendor, e tu escrevias errado que não chegara a ser branco, e uma máquina esquecia-se e aparecia o paraíso azul numa parte e amarelo, e as estátuas diziam sempre a minha lembrança da luz, e voltavam-se para a esquerda e para a direita à procura dos perfis, e a tua blusa fremia como se uma nuvem viesse por baixo, e era tudo um instante em redor do exercício cândido, e as mãos ocupavam-se em ter dedos - era maio: afluente do desejo, bom-dia eu estou nu, bom-dia eu estou nua, e o sol tirava o retrato de corpo inteiro, e de repente havia um grito narrativo, e a noite ia de um lado para o outro na voz espantosa de crianças completamente obscuras, e o perfume aterrador do sangue trabalhava na sua voz estrangeira, e as colinas afastavam-se para dar passagem à nossa ausência tremendo de febre - depressa - dizia uma magnólia cega, e o radar indicava os passos queimados em volta do êxtase, e a imprensa redigia a morte entre parênteses distraídos, e virando de leve a cabeça um para o outro não havia auréolas, e partíamos para a virgindade com a vocação de um crime, e já íamos dormindo e sonhando com os pulmões a ferver.


Herberto Helder, Vocação Animal,
Lisboa: Publicações D. Quixote, Maio de 1971




segunda-feira, 23 de março de 2015

F de Flor Suficiente (XXI)


CAVACO SILVA, 2011


Um dia, felizmente,
ninguém se vai lembrar deste nome. 






MELINGO, 2011


Não sei o que vos diga.
Vinha do outro lado do mundo
e vestia-se com rosas e arame.

Tinha a poesia no corpo. 

Perante isso – graça 
ou desencanto – 
somos todos meros escriturários.



- Manuel de Freitas
 in Jukebox 3, Teatro de Vila Real, 2012

sexta-feira, 20 de março de 2015

H de História de amor

"É sobre o futuro, stôra."
- hoje, na Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão



ESTUDOS CAMONIANOS


Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.

Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.

Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.


- MANUEL DE FREITAS

quarta-feira, 18 de março de 2015

A de A poesia é o menos - VI b




Quarto desenhado por Paul Poiret, c. 1924.

A de A poesia é o menos (VI)


Caralhos fodam tudo isto os ramos de jacintos,
as margaridas.
Quanto mais árvores melhor. Mais tempo.
Temos os rudimentos destes passos o sonho apontando
um lado, outro lado.
O que nos acontece é o que sucede dentro. Um
pouco a simetria cartesiana, a mulher sentada de
mesa a mesa de café. Faz o que o pensamento faz,
foge por entre os dedos de café em café. Tendo
na evasão a sua natureza
a fluente relação do que ganha perdendo: as alturas
da terra, as alturas do mar.
Porque são tão lentos os passos abandonados ao
simples estudo
e porque diz "será que as coisas hoje acontecem tão
rapidamente?",
seja o que for
fixa a prévia partícula da cor, o medo, o ar, o
antever os vivos. Os vivos acontecem.
A própria respiração era uma brincadeira lançada sobre o
vidro frio da janela,
embora víssemos os que matavam pássaros
em pleno voo.
(As fronteiras estão cuidadosamente guardadas
pelo meu vizinho.)


Há uma paisagem na unha do meu corpo.
Irrelevante paisagem. Maravilhosa paisagem erguendo
luas, o trabalho sobre o corpo.
Quando se começa? Tudo está no seu lugar. Misteriosamente
aquilo com que lidamos não são corpos,
ou serão o nosso regresso aos romances inacabados, à
transparente folha.
O caçador dispara uma e outra vez, outra vez ainda.


João Miguel Fernandes Jorge
in Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte (1977)




[Abril 013]

sexta-feira, 13 de março de 2015

P de (Seis Anos de) Pássaros (L)


[...]
de novo os pássaros     voam e recolhem-se
é assim
as tais mãos verdadeiras
se não forem usadas não oferecem grãos de luz
e é neles que se recolhem os pássaros
e os versos  inúteis
um poeta diz qualquer coisa parecida
com o que está além do horizonte
qualquer coisa que houve     não vista     não tocada     necessária
qualquer coisa sossegada para lamber a ferida do desassossego
e pronto     com tanto além nem topamos à frente do nariz
há tanto sal que não salga
míssil para cima     míssil para baixo
os indefesos caindo que nem tordos
os refinados gatunos à janela
os queridos financeiros fritando os miolos entre
a conspiração e as sardinheiras
[...]


Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

F de Flor Suficiente (XI)



[ID, Lx, 10/011]



"[...]
olha     traz-me um ramo de qualquer coisa
qualquer coisa que venha amaciar o seco das palavras
deitadas a este relento entre ninhos de raposa
e um sonho de groselhas 
é que deixam secura e mais nada     não deixam mais nada
os sabugueiros ao menos deitam flores e bagas
tudo pérolas     traz-me um ramo de azul tuaregue
e nem é preciso que vás ao deserto
entra por esta noite     pode ser apenas esta
não dês alerta aos bichos dos varandins
às gatas e aos gatos com cio     aos homens com sabre
sossega as gazelas     vai à fonte e traz o azul 
eu estarei à tua espera sem o falcão
sem o rei na barriga nem a gataria à espreita
[...]


Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015







[ID, Lx, 02/015]