segunda-feira, 31 de agosto de 2015

C de Criatura(s) (II)


CRIATURAS


Hamlet descobriu-as nas formas das nuvens,
mas eu vi-as na mobília da infância,
criaturas debaixo das camadas de madeira,

uma escondida num aparador polido,
outra franzindo o olho atrás de uma cadeira,
outra uivando no escritório silencioso de minha mãe,
presa no grão do ácer, congelada em carvalho.

Também via estas silhuetas
no padrão em espiral do papel de parede,
e nos vários verdes de um candeeiro de porcelana,
cada uma parecendo tão melancólica, tão amaldiçoada,
algumas olhando para mim como se soubessem
todos os segredos de um rapaz enigmático.

Muitas vezes estava a sonhar acordado,
deitado na carpete, e uma aparecia junto de mim,
o nariz descomunal, o olhar vazio.

É pois fácil de compreender a minha reacção
esta manhã na praia
quando abriste a tua mão para me mostrares
uma pedra que tinhas apanhado à beira-mar.

“Não vês a cara?” perguntaste tu
enquanto a vaga fria tocava os nossos tornozelos nus.
“Aqui está o olho, a linha da boca, como se estivesse
a fazer uma careta, como se lhe doesse alguma coisa.”

“Bem, talvez seja porque tem um corte
que atravessa o comprimento da testa,
para não mencionar uma espécie de bico retorcido”,

disse eu, tirando-te a aberração da mão e atirando-a
por cima do brilho das ondas azuis
para que assim continuasse a levar a sua vida anormal
no escuro profundo do mar

e parasse de importunar veraneantes inocentes como nós,
parasse de estragar o verão a toda a gente.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Averno, 2014





[ID, Madrid, 20/08/015]

terça-feira, 25 de agosto de 2015

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXII


"[...] É fácil, estando no mundo, viver segundo a opinião do mundo; é fácil, na solidão, viver segundo a nossa, mas tem grandeza aquele que no meio da multidão guarda com uma serenidade perfeita a independência da solidão."


- RALPH WALDO EMERSON
in A Confiança em Si, com trad. de Saul Costa e fotografias de Daniel Costa, 
Lisboa, Livros Vendaval, 2001

domingo, 23 de agosto de 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

D de Desobediência




[ID, Casa Alberto, Madrid 2010/2015]

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

L de (A) Luz da Sombra (XLVI)




[ID, Madrid, 015]

terça-feira, 18 de agosto de 2015

domingo, 16 de agosto de 2015

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" - IV b


46.

Um grande poeta, meu amigo, disse-me que as buganvílias não têm cheiro. Mas nós sabemos que tudo tem cheiro, até o vidro, os navios de espelhos e as flores-de-lis tatuadas no coração das donzelas. As buganvílias, quando fenecem e se apagam lentamente, libertam, no exacto momento em que a sua luz se extingue, um suave odor a rapariga adormecida na madrugada. Os poetas sabem o mundo todo, mas nem sempre têm razão."


Rui Chafes, Entre o céu e a terra
Lisboa: Documenta, 2012





[ID, Moinho Grande, 2013]

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O de "O mar, o mar" (VII)


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, 
é a isso que eu chamo felicidade."

MARGUERITE DURAS



[Agatha et les lectures illimitées, 1981]

sábado, 8 de agosto de 2015

P de Poética (LV)


RONDÓ CAPRICHOSO


Por algum tempo, mesmo
que seja mínimo, as
coisas são perfeitas. A
rosa ganha caule mas
não desabrocha. A faca
brilha no ar mas não
desfere o golpe. Os lábios 
humedecem, antes
de cerrar os dentes.

Por algum tempo uma
criança habita a casa, um
gato aquece ao sol a
sua grata pelagem, um corpo
cansado adormece
no lençol limpo.

Por algum tempo, os insultos
não são proferidos
e os corpos enlaçam-se
apiedados do abismo
entre as próprias imagens.

Por algum tempo acreditamos
em grandes amores e viagens. Depois
consumimos
sucedâneos ou literatura.

Por algum tempo, olhamos
o quadro sem turistas
à frente. Escutamos o virtuose
sem tosses na assistência.

Por algum tempo, descobre-se
a cura. O amor regressa. A teoria
convence. A fé ressuscita. Acreditamos
em Únicos e Pátrias.

Até que esse algum tempo
perfeito e mensurável
em desmedido tempo
se transforma.


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa: &etc, 2005





[ID, São Miguel, 06/015]

H de História de amor - d



Lívio olha fixamente na direcção de Mónica. Imaginemos um soneto canónico em que um dos versos tem mais quatro ou cinco silabas que os restantes. Sucede o mesmo com este plano, que colocado nas mãos de qualquer montador de qualquer parte do mundo ficaria com uma boa meia dúzia de segundos a menos. Eu penso, todavia, que é preciso querer errar para que se acerte absolutamente.


João César Monteiro, "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço"
in Obra Escrita 1, Lisboa: Letra Livre, 2014

H de História de amor - c



[João César Monteiro, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970]



Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


LUÍS DE CAMÕES





[João César Monteiro, A Comédia de Deus, 1995]

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

H de História de amor - b





Estudos camonianos
por João César Monteiro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O de "Onde se lê gato" (X)


"Dormir ao sol, ser o dono da tua pequena ilha ao sol. Governá-la é: dominar o mundo, nada fazer."




Rui Caeiro, 49 espinhas para um gato,
com desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa: Edição do Autor, 1997

terça-feira, 4 de agosto de 2015

N de "Na Casa de Julho e Agosto" (V)


MANHÃ DE AGOSTO


Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo "para esse universo
onde a vida é trocada por palavras".

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms - tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.


Isabel de Sá, O Duplo Dividido,
Lisboa: &etc, 1993

domingo, 2 de agosto de 2015

I de "I want to ride my bike" (VI)




Italo Calvino

R de Revisões da matéria dada (X)


[...] O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma tenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.


Italo Calvino, As Cidades Invisíveis,
trad. José Colaço Barreiros,
Lisboa: Editorial Teorema, 2002

sábado, 1 de agosto de 2015

R de Revisões da matéria dada (XI)


"Hell is the impossibility of reason."

Platoon, 1986