terça-feira, 26 de janeiro de 2016

N de "No fundo, é isto" (VI)


Se nos encontrarmos, um dia, eu e a mulher, e ela me perguntar o que mais me importa, dir-lhe-ei que de sobremaneira me importa viver, vencer a morte, e saber se se confirma que só o amor é maior do que esse colapso. Gostaria que, nesse momento, nos reconhecêssemos textuantes, gente que, no mistério da realidade, não tem necessariamente muito a partilhar salvo esse pequeno diálogo que transportamos de lugar em lugar.


Maria Gabriela Llansol, Parasceve
Lisboa, Relógio D'Água, 2001

J de "Jardins sous la pluie" (IV)




[ID, 'Lisbon revisited', 25/01/016]

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

T de Tratado de Pedagogia (LIII)


NUMA SALA DE AULA


Falando de poesia, carregando com os livros
às braçadas até à mesa onde as cabeças
se curvam ou olham para cima, escutando, lendo em voz alta,
falando de consoantes, elisões,
cativas do como, esquecidas do porquê:
olho para a tua cara, Jude,
que não franze o sobrolho nem acena que sim,
opaca na obliquidade das partículas de pó sobre a mesa:
uma presença como uma pedra, se uma pedra pensasse
O que não posso dizer, sou eu. Para isso vim.


Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem,
Lisboa: Cotovia, 2008

domingo, 24 de janeiro de 2016

F de Fazer Fotografia (XLVIII)


partiu-se o pote de barro esférico _______ para flores, aspidristas, sobretudo, com relevo de ramo e pássaro. Era belo. Mas, quando olhou para o lugar vazio que deixara, principalmente a auréola de sujo que corroera o verniz do sobrado, a mulher reparou que os seus cacos formavam no chão um pregueamento de extrema beleza. A própria terra do vaso não destoava, nem as aspidristas pareciam sofrer com o sucedido. Em vez da irritação que deveria ter sentido, e a teria obsessivamente levado a repor rapidamente o quadro anterior, ficou de pé, hesitante, a cismar sobre o significado de ter sido liberta de "um" belo inferior que, até àquele momento, considerara como perfeito. [...]

Apenas não reparou que acabara de mudar de vida.


Maria Gabriela Llansol, Parasceve,
Lisboa, Relógio D'Água, 2001



*



«He loved beauty that looked kind of destroyed.»


Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Rui Pires Cabral, Oráculos,
Lisboa, Averno, 2009

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (V)


NOTÍCIAS DO DILÚVIO II


Desde que a razão governa em todos
os domínios da alma,

a névoa e a velhice cobrem o mundo,
são farrapos os sonhos e há vermes
no pão da vida.

Com escombros do céu construímos as nossas casas.
Baptizamos os filhos
numa nascente de cinza, e porque
já nada nos distrai,

só as drogas preenchem os minutos
do nosso aborrecimento.

                                        Avançamos 
para a destruição?

                              Vejo sinais
funestos, vejo os últimos
archotes deste sonho,
                                  e que 
difícil de cantar é a alegria.


José Mateos, Cantos de vida y vuelta, 2013
[Trad. ID]

domingo, 17 de janeiro de 2016

E de Espera - XXV b


Sábado, 21 de dezembro de 2013

Não sei quando voltarei ou se voltarei a frases assim vinculadas a uma ordenação temporal. Talvez. As palavras entendi-as sempre como um favor. Por isso gosto tão pouco de falar. Espécie de fruto da terra, respiramo-las. Entrego-me a elas para que rompam na escrita o meu silêncio. Melhor seria mesmo dizer, para que irrompam do seu silêncio.
Chegou a noite mais longa. A lareira está acesa. A noite, percorro-a entre o escuro das árvores pelos caminhos do bosque, é um ramo vivo de tristeza sob o negro.


João Miguel Fernandes Jorge, O Bosque,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Regresso a casa, Novembro 015]



*



[...]
Tudo se passa sempre como aquela menina de que nos fala Sartre. (Nunca me cansei dessa imagem.) Saía, pé ante pé, do seu jardim e fechava atrás de si a cancela, para depois regressar, sem o menor ruído, só para ver como era o jardim na sua ausência. Richter fala-nos, numa sua pintura, de uma figura feminina em tudo semelhante a esta: está sentada num canal de uma das ilhas de Veneza. Olha a distância. Todavia, o seu olhar não vai além do braço de mar sobre o qual os seus pés balançam. Vê a Veneza da sua ausência. [...]


João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

P de (The) Privacy of Rain (XIX)




[ID, "Pelos caminhos da manhã", 15/01/012]


Escrever é um acto de amor. Se não o for, não passa de escrita. Consiste apenas em obedecer ao mecanismo das plantas e das árvores e em projectar esperma a toda a nossa volta. O luxo do mundo está na perda. [...]

Não devemos existir em espectáculo. Quanto mais se enganarem a nosso respeito, quanto mais nos cobrirem de histórias, mais isso nos abriga e nos ensina a viver em paz. O que somos nos outros não representa nada para nós. 

[...]


Jean Cocteau, Le foyer des artistes,
Paris: Librarie Plon, 1958
[Trad. ID]





Berenice Abbott, "Les mains de Jean Cocteau", 1927

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O de "O mar, o mar" (VIII)


"Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz."


Cesare Pavese
in A Praia, trad. de Alfredo Margarido,
Lisboa: Portugália, s/d

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLII)





X


     E se o vento varrer as fôlhas sêcas sem deixar nenhuma?
     Este Outomno ela não guardará fôlhas dentro dos livros
     e ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
     e ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo no Inverno, à chuva, atrás dos vidros


António Barahona, Noite do Meu Inverno (Segundo Tômo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias, fotografia de Teresa Santos e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2016





[ID, Nazaré, 02/013]

sábado, 9 de janeiro de 2016

A de Anomalia Poética (VII)






[ID, Lisboa, Abril 2015 | Janeiro 2016]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

M de Música para os meus olhos (XXXVIII)


NÃO IMPRECISO, INCOMPLETO


Sentado à mesa,
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
                             até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora
também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.


Josep M. Rodríguez
in A Caixa Negra,
trad. de Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2009




[Detalhe de Stefano di Giovanni Sassetta, "A Viagem dos Reis Magos", c. 1433-1435]


XXIX


Terra e céu. O cavalo negro à beira do rio
gelado. O pão que Märta cortou, em Luz de
Inverno, esboroa-se em duas partes
à semelhança das duas igrejas quase desertas
nas planícies de Upsala - Nosso Senhor
Jesus Cristo na noite em que foi traído

A imagem é um campo de neve: o que nos
abandona não se une às pedras ao silêncio de
deus
ao latim, que por um momento emerge na sua nudez de
língua viva
há coisas pelo meio - distância ecos obscuridade


João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012

T de Teologia (III)



"[...] Então, todos veriam as coisas que eu via - o grão tosco da madeira nas tábuas do soalho, as janelas de vidro que emolduravam os ramos esguios das árvores e o céu carregado de neve -, ao mesmo tempo que desapareceria a dor ansiosa e estranha que a simples vista das coisas bastava para causar. [...]"

*

"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."


Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

B de Bibliografia





quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - V b


a janela de linho, a toda leve
a luz branca que esconde o que ilumina
o corpo debruçado, atento, agreste;
um rádio sobre a mesa, antigamente,
a laranja que mata de doirada,
a noite que fica doendo o dia;

o lugar que te coube, inabitável,
em troca de navios sulcando longe
a estrita rota nunca calculada;
o amor aos telefones, aos sinais
lidos em corpo mudo;
o fundo das florestas, onde vive

o mais-que-humano, e nos aguarda, alheio
à breve comoção que nos separa;
a raiva de saber que proibidos
nos foram a razão e os sentidos;
a chuva que nasceu na madrugada;
a passagem do ar, a nuvem fina.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE




[ID, Santarém, Janeiro de 2013]

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XXI)





I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

But I believe in love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

domingo, 3 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XX)



[ID, Lisboa, 02/01/016]



III.

Well, so that is that.
Now we must dismantle the tree,
Putting the decorations back into their cardboard boxes -
Some have got broken – and carrying them up to the attic.
The holly and the mistletoe must be taken down and burnt,
And the children got ready for school. There are enough
Left-overs to do, warmed-up, for the rest of the week -
Not that we have much appetite, having drunk such a lot,
Stayed up so late, attempted – quite unsuccessfully -
To love all of our relatives, and in general
Grossly overestimated our powers. Once again
As in previous years we have seen the actual Vision and failed
To do more than entertain it as an agreeable
Possibility, once again we have sent Him away,
Begging though to remain His disobedient servant,
The promising child who cannot keep His word for long.
The Christmas Feast is already a fading memory,
And already the mind begins to be vaguely aware
Of an unpleasant whiff of apprehension at the thought
Of Lent and Good Friday which cannot, after all, now
Be very far off. But, for the time being, here we all are,
Back in the moderate Aristotelian city
Of darning and the Eight-Fifteen, where Euclid’s geometry
And Newton’s mechanics would account for our experience,
And the kitchen table exists because I scrub it.
It seems to have shrunk during the holidays. The streets
Are much narrower than we remembered; we had forgotten
The office was as depressing as this. To those who have seen
The Child, however dimly, however incredulously,
The Time Being is, in a sense, the most trying time of all.
For the innocent children who whispered so excitedly
Outside the locked door where they knew the presents to be
Grew up when it opened. Now, recollecting that moment
We can repress the joy, but the guilt remains conscious;
Remembering the stable where for once in our lives
Everything became a You and nothing was an It.
And craving the sensation but ignoring the cause,
We look round for something, no matter what, to inhibit
Our self-reflection, and the obvious thing for that purpose
Would be some great suffering. So, once we have met the Son,
We are tempted ever after to pray to the Father;
“Lead us into temptation and evil for our sake.”
They will come, all right, don’t worry; probably in a form
That we do not expect, and certainly with a force
More dreadful than we can imagine. In the meantime
There are bills to be paid, machines to keep in repair,
Irregular verbs to learn, the Time Being to redeem
From insignificance. The happy morning is over,
The night of agony still to come; the time is noon:
When the Spirit must practice his scales of rejoicing
Without even a hostile audience, and the Soul endure
A silence that is neither for nor against her faith
That God’s Will will be done,
That, in spite of her prayers,
God will cheat no one, not even the world of its triumph.


- W. H. AUDEN, "Christmas Oratorio"

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XIX)




Feliz Ano Novo.
[ID, Lisboa, 31/12/015]