quarta-feira, 30 de março de 2016

W de Walk the line - II b


(a mancha)

agora é a noite é quase noite / à hora em que vieres eu estarei acordada porque a estação é imensa e vou poder dizer-te o que quiseres oh fixa bem, oh fica bem, fica ao pé assim deitado mais para mim é quase noite e dou-te a ti o que guardei de dia aquela mancha no céu mais acima no céu aquela a outra isso a que ilumina mas eu não oh digas antes que ilumino pouco agora é quase noite é a noite seco limo verde azul por aí são esses tons os meus sob a onda estão lá bi...chos é a multidão mas o que quero é que tu oiças mesmo isto que é eu puxo eu vou eu vivo eu fico eu vim cheguei a crescer vou crescer muito também minguar / seria uma árvore e o meu corpo ainda seria duro e a voz dura e o leito frio / é quase noite vês aquela mancha

(...)

(a voz)

eu puxo eu vivo sou a registante das noites e dos dias vividos e vou poder dizer-te o que quiseres à hora em que vieres e bastará que arranhes eu estarei acordada ou te agaches ou me invoques eu estarei acordada ou me invoques qualquer coisa há-de servir para eu lembrar porque a estação é imensa as noites longas os dias grandes e eu estou cá. Ouves também.


Álvaro Lapa, Barulheira
& etc, 1982




[ID, Nazaré, Novembro 2012]

segunda-feira, 28 de março de 2016

I de Intimidade (III)


A propósito de intimidade, disse que há um reduto último que não se partilha. Nem com quem se ama?

Khalil Gibran dizia: "a pessoa casa-se, partilha tudo mas não partilha o prato". É a tal barreira de que falámos anteriormente. Há limites que não podem ser ultrapassados, para que as relações entre as pessoas se mantenham, mesmo as mais próximas. A distância que assegura a intimidade tem de ser incondicionalmente preservada. Nietzsche também fala disso de uma forma muito clara. Ele diz que, se vivermos em demasiada proximidade com alguém, é como estar permanentemente a tocar uma boa gravura com os nossos dedos... um dia não teremos nada mais nas mãos senão um pobre papel sujo.
Cada pessoa tem de ter o seu espaço, há sempre uma parte íntima, sua e secreta, que deve ser absolutamente protegida mesmo que partilhes a vida com alguém. Claro que deves também respeitar a parte privada da outra pessoa, não a invadindo ou devassando, mantendo uma certa distância. Quando se quebram todas as barreiras é o fim. As pessoas deviam ter isso sempre presente.


Quebrar todas as barreiras é obsceno?

Obsceno, sim. Como disse, manter as barreiras de um espaço intacto, não romper, não forçar a entrada, é de uma sabedoria imensa. Não mexer nos papéis pessoais do outro, não quere saber tudo, não exigir o significado de tudo... Nem tudo tem de ter uma resposta e nem todas as perguntas têm de ser feitas - perguntar tudo também é obsceno. Há perguntas que não se fazem mas, para o saber, é preciso ser-se muito sábio. Isto é sabedoria e, ao mesmo tempo, a maior prova de confiança. Sabedoria e confiança andam juntas, uma leva à outra.
Novalis escreveu: "Nunca nos iremos compreender totalmente - mas podemos e faremos a nós próprios muito mais do que compreender". É por isso que digo que é na partilha do impartilhável que se encontram os nossos irmãos.


*


Um sentido de comunhão?

Exactamente. Esse silêncio cria uma espécie de irmãos. Dá-se o reconhecimento mútuo, onde há outras formas de comunicação que não passam pelas palavras: quando os fios estão limpos e descarnados, a corrente eléctrica pode passar.
Há uma coisa que todos sabemos e que está continuamente presente: a vida é muito curta. Conhecermos pessoas que estão no mesmo campo de inquietações que nós é um privilégio e uma forma de comunhão, como dizes. Por isso, penso sempre que a vida é demasiado curta para perdermos tempo com pessoas e coisas idiotas, arte imbecil, ideias cretinas ou questões estúpidas. Temos de ser muito selectivos, a vida é um fogo-fátuo. Muita gente não tem noção disso, perde-se em questões sem interesse nem grandeza e depois é tarde de mais... Estar vivo, partilhar a nossa vida com as pessoas que admiramos, ou até vir tomar banho ao mar, são privilégios.


Rui Chafes
in Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
col. "Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa, Documenta, 2016

sábado, 26 de março de 2016

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

sexta-feira, 25 de março de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII c



[...] Trata-se, em suma, de apelar para que ouseis enfrentar o mais recente dos perigos que ameaçam toda a humanidade e que é um perigo imanente: o de ela vir a ser privada de toda a beleza da vida por causa de uns tantos que defendem o direito exclusivo aos privilégios. É, de facto, um perigo que os mais fortes e mais sábios entre os humanos, no seu afã para um total domínio sobre a natureza, possam vir a destruir os seus bens mais singelos e generosos, a tornar seus escravos os mais simples e, a eles, escravos de si próprios, o que levará o mundo a uma segunda barbárie ainda mais ignóbil e muitíssimo menos esperançosa do que a primeira.
Falo do perigo de o actual curso da civilização poder vir a destruir a beleza da vida - estas são, sem dúvida, palavras duras e quem me dera poder não as pronunciar. Mas não posso, sem trair o que julgo ser a verdade.
[...]
Entre esses males estou e estive sempre convicto de que será vencido aquele que considerei ser o pior de todos, a mais pesada das escravaturas: o mal de que padece a maior parte da população sujeita a ver quase toda a sua vida atrofiada por um trabalho que, na melhor das hipóteses, não lhe interessa ou não desenvolve as suas faculdades e, na pior delas (e também a mais comum), é mero trabalho escravo que a reduz a uma condição sub-humana, que lhe é compulsivamente extorquido da forma mais severa e de que todos se envergonham e quem pode rejeita. Há-de vir o dia em que todos tomarão consciência disso e se ouvirá o grito de serem homens, de novo. Só a arte os conseguirá redimir dessa escravatura [...], serão iluminados por uma arte feita pelas pessoas e para as pessoas como um prazer para quem a faz e para quem a usufrui.


William Morris (24 de Março de 1834 – 1896)
in A Beleza da Vida, trad. de Clara Garcia da Fonseca,
Lisboa: & etc, 2007

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII b


O trabalho é um dom. O mais das vezes representa uma pena, pois não há nenhum mérito em trabalhar se o trabalho tiver como finalidade servir uma cadeia de lucro. O trabalho, em si mesmo, degrada; não aperfeiçoa o homem. É uma abjecção presumida e um estorvo para a paz. No entanto, o trabalho é um dom. Quando constitui uma glória recatada, uma ciência paciente; quando não significa humilhação, mas sim identidade.


- Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã,
Lisboa, Guimarães Editores, 2015

segunda-feira, 21 de março de 2016

P de Poesia (IV)


Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não lhes urge,
quando se cala o ruído da multidão
e termina o linchamento das horas.

Os poetas trabalham no escuro
como falcões nocturnos ou rouxinóis
de dulcíssimo canto
e receiam afrontar Deus.

Mas os poetas, no seu silêncio,
fazem muito mais ruído
do que uma dourada cúpula de estrelas.


- ALDA MERINI
[trad. Inês Dias]

sábado, 19 de março de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" - V b


BEM FUNDO


Um prego na gengiva,
bem fundo, até onde seria
de crer que só chegasse a alma, assim

as árvores nos crescem
por dentro da memória, onde as raízes
a fazem rebentar, assim

as folhas que nos servem
por momentos de pele
se nos agitam no espírito, onde a pele

se afunda como num écran,
a pele, um jeito de árvore que tivesse
um espelho entre as raízes,

a pele que nos vendou, que nos serviu
de venda e de memória,
brancura que o lençol disputa às trevas,

irmã dessa raiz
agarrada ao écran, dessa gengiva
esquecida de já ter estado na boca

e agora apenas presa
à alma, sobre a qual
parece debruçada.


Luís Miguel Nava
in Rosa Maria Martelo, O Cinema da Poesia,
Lisboa: Documenta, 2012




[ID, 'Une Famille d'Arbres', 12/03/016]



POÉTICA


Todos temos um amigo morto
e um amor que partiu, ao amanhecer,
e nos deixou a luz feita em pedaços.

Um pai e uma mãe que se esgotam,
uma foto em Lisboa, um cão tonto,
dois ou três livros, quatro ou cinco quadros.

Todos temos uma rua escura,
uma avenida que nos reconhece,
uma árvore velha e um antigo pátio.

E a certeza de que tanto é nada,
a desgraça de ser o que perdemos,
a sorte de viver para contá-lo.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. de Inês Dias,
Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Novembro de 2011

domingo, 13 de março de 2016

quinta-feira, 10 de março de 2016

P de (Dois Anos de) Pássaros





"On the set of the film The Mirror, Andrey Tarkovsky included himself in one scene, lying in a hospital bed and holding a tiny bird on his right hand. And this is what happened to him at the end of his life: in his sick-room in Paris, the room where he died, a little bird would fly every morning through the open window and come to light on him."


- in Instant Light - Tarkovsky Polaroids,
Londres, Thames & Hudson, 2009

domingo, 6 de março de 2016

"As coisas só existem quando há poetas por perto."


Agustina Bessa-Luís, Breviário do Brasil,
Lisboa: Guimarães, 2012

sexta-feira, 4 de março de 2016

P de Pele (IV)


[...] O dicionário diz que 'aguentar' é segurar uma corda que corre; resistir ao vento, como uma vela. Ela sempre usa a palavra 'aguentar'; faz parte do seu repertório de vida. Quando alguém diz que tem um problema, que não consegue fazer qualquer coisa, ela sempre fala: 'aguenta sim; a gente aguenta tudo; é só querer'. Ninguém consegue nem pode contestá-la, já que ela passou pelo que passou. Aguentar tudo, para os humanos, que não são como as velas de um barco, tem um preço. No caso dela, foram as circunstâncias que a obrigaram a aguentar. Em outros casos, diferentes de frio, fome, sede, talvez não seja necessário nem aconselhável aguentar tudo; talvez seja até preciso resistir menos, ser um pouco mais fraco, para que as consequências de segurar uma corda que corre não sejam tão drásticas. Mas não no frio. No frio, é preciso segurar a corda que corre. O frio é uma corda que corre impiedosamente e quem passa por ele deve ficar com a alma mais seca, assim como a pele que endurece e também seca no contato com ele. Depois do inverno, as temperaturas muito baixas se esquecem, e é por isso que ela não consegue entender agora como conseguiu aguentar. Mas o frio deixa suas marcas indeléveis e secretas. Alguém que passou pelo frio intenso, sem agasalhos, é diferente de alguém que nunca passou por isso. [...]


Noemi Jaffe, O que os cegos estão sonhando? - com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945),
São Paulo, Editora 34, 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXXV b




[ID, São Miguel, 24/09/2012]

quinta-feira, 3 de março de 2016

A de Altar (V)




[ID, 'Bons caminhos', Lisboa | 2016]

quarta-feira, 2 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII c


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar do céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.


JEAN GENET
in Yukio Mishima, GENET seguido de O CONDENADO À MORTE de Jean Genet,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena, 1986

terça-feira, 1 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII b




[ID, Coimbra 2013]

T de Tempo Sem Tempo (XVIII)


Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de agosto de 2011
não dá para tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão  se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo a atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.


António Amaral Tavares, Talvez seja essa certeza,
Coimbra: Medula, 2014