sexta-feira, 30 de setembro de 2016

T de "The days grow short..." (XIV)


426.

A paisagem em Naruni.

mar e arrozais
no início do outono -
o verde governa-os


Matsuo Bashô, O Eremita Viajante [Haikus - Obra Completa],
org. e versão portuguesa de Joaquim M. Palma,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2016





[ID, Lisboa, 09/016]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

P de "Postais do fim do mundo" (VI)


[...]

Como achas que posso amar a minha vergonha tão loucamente?
Nadamos o dia todo escondidos entre rochas
tentando saber o que se diz sobre nós no porto.
Gosto daquilo que disse que amava
e não posso acrescentar mais nada
porque toda esta morte me faz sentir
mais vivo do que nunca,
porque não distingo as épocas da minha vida,
porque não sei que tipo de mulher serias
nem que tipo de homem serei eu quando nos recordarmos.



[ID | Setembro 016]


Escrevo-te, finalmente, para saber quantas divisões
tinha a nossa primeira casa.
Esqueci-me de um dos quartos, ou não o fixei o suficiente.
Lembro-me de que te levantavas muito cedo,
eu passava a noite toda a escrever,
tu dizias-me para ir dormir,
mas ao amanhecer, enquanto tomavas o pequeno-almoço,
eu lia-te a história da minha educação.
Talvez nesse quarto não tenha acontecido nada
digno de ser recordado
e eu fechava-me nele para escrever
mas não escrevia nada, e tu tiravas-me dali
quase sem ar.
Talvez tenha escrito esse livro sozinho,
e foi essa a primeira ruptura.
No entanto, hoje preciso de saber
quantas divisões tinha a nossa primeira casa,
e a que horas é que te levantavas para ir trabalhar
e sustentar-nos.

[...]


Pablo Fidalgo Lareo, "Um ano sem voltar a casa",
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

I de "I want to ride my bike" (II)


O CICLISTA


O homem que pedala, que ped’alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.


Alexandre O'Neill, Poemas com Endereço [1962], 
in Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 
6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar),  2012

I de "I want to ride my bike" (VIII)


"[...] A verdade é que o bem é maior do que o mal. E, devido a isso, mais difícil de encontrar. Todos sabemos: demasiada luz: cega."


Manuel A. Domingos
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016





[Sabine Weiss, 1957]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

M de Meia-estação (III)




[Herbert Tobias]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XXXIII)


"[...] De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente - é um verbo. 
O nosso verbo, por exemplo, é escrever."


Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências
Lisboa, Relógio D'Água, 1996





[Willy Ronis, 1945]

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

S de S.T.T.L.




[In Nunes da Rocha, Cordoaria Nacional,
Lisboa, Averno, 2016]

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

M de Meia-estação (II)


CAFÉ SIMPLES


Deus fez o mundo e fê-lo com pressa,
mas os poetas, sem saírem das suas casas,
inflamados, coroados por línguas de fogo,
tiritando de solidão e de frio na madrugada,
mantêm-no em contínuo funcionamento.

O novo carregamento de luz ainda não chegou.
Longamente esperam as folhas negras das acácias,
os sete cinzentos do arco-íris, os vitrais das igrejas,
leves e frágeis como as asas de uma libélula.
Em breve se acumulará a claridade, nutritiva e generosa,
nas esquinas e o bispo branco derrotará o negro.
No Museu Nacional as sombras aguardam;
de um momento para o outro vão partilhar o verde,
o azul de Prússia, o vermelhão e o amarelo.

Os poetas, desvelados, administradores
de um vasto império invisível, preparam café;
esperam que fervam também as palavras.
Uma irmandade secreta de colherzinhas
tilintando nervosas, rodando para misturar
– enquanto as canetas sonham com o seu regresso
a Ítaca – as duas substâncias da vida:
o doce e o amargo, a luz e a escuridão.

Os poetas mexem e remexem: as suas colheres
e as suas canetas não sabem fazer outra coisa.
Com brio, com teimosia, quase com fervor.
Como se o redondo fluir dos relógios
nas morgues e nos aeroportos,
e o ciclo curto das estações
(às vezes apenas Outono e Inverno,
Outono e Inverno repetindo-se)
e o preguiçoso rodar do planeta inteiro,
com as suas dobradiças, os seus parafusos e rodas do destino,
dependessem única e exclusivamente
de um insone movimento de pulso.


in Contra las cosas redondas, La Bella Varsovia, 2016
[Trad. ID]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 4 de setembro de 2016

L de "Las simples cosas" (V)



[ID, Santa Cruz, 2016]



"Mudou a luz: isto é setembro."

Carlos Marzal




[ID, Nazaré, 2011]

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P de Pássaros anónimos (XVIII)


recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz, Agosto 016]