Mostrar mensagens com a etiqueta "A luz da sombra". Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta "A luz da sombra". Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

P de Poética (LIX)


ESCREVER


Ficas frente à parede, abraças a cal. Dizem que queima. 


José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016





[ID,  Lisboa, 03/016]

sábado, 1 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) b


7 de Junho de 1979

Compreendi hoje, um pouco melhor, o mistério de solidão. A comunidade tem de estar dispersa, viver na tensão de encontrar-se sem duradouro encontro, cultivar o poder absoluto de estar só, que só ele é inofensivo; é um corpo vivo sem jugo; a comunidade é a diáspora.
Por estes dias sentia-me perturbada, dissolvida na água. Sempre tensa, à procura, em movimento dentro de uma ordem infinita e pré-estabelecida. O trabalho a realizar quotidianamente é mais forte do que conhecer e escrever; estou sempre à espera de poder parar, mas a noite é temporária e ponte para um dia igual. [...]


Maria Gabriela Llansol, Numerosas Linhas - Livro de Horas III,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013




[ID, Lisboa, 09/016]



XXXIX


E nós somos como os frutos. Pendemos do alto de ramos estranhamente tortuosos e suportamos bem os ventos. O que temos é a nossa maturidade, a nossa doçura e a nossa beleza. Mas a força para tal emana de uma raiz que se propagou até cobrir mundos e mundos em todos nós. E, se quisermos testemunhar a favor do seu poder, então devemos utilizar, cada um, o nosso mais solitário sentido.
Quanto mais solitários houver, mais solene, comovente e poderosa será a comunidade.


Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. Sandra Filipe, Lisboa: Averno, 2011

domingo, 26 de junho de 2016

D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" * - II


MAGSTRAEDE, 16


Apenas vos posso dizer que fica 
numa das ruas mais bem escondidas 
de Copenhaga, onde os prédios
dos séculos XVII e XVIII
se vestem de cores - estas sim -
realmente várias, obedientes
à lenta declinação da luz.

Portadas e janelas, nos seus graus
ínfimos de abertura e reclusão,
edificam um silêncio, uma dignidade,
que não consigo imaginar a Sul e que 
só um pintor dinamarquês soube captar.

Fica numa das ruas mais escondidas
de Copenhaga, embora vá fechar em Setembro 
de 2007, o restaurante Tyven Kokken hans Kone 
og hendes Eksten. E é sem querer, claro, que
nos despedimos para sempre destas paredes brancas. 


Manuel de Freitas
in Inês Dias, Lisboa: nigredo, 5 de Setembro de 2014



* O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]



Cai a persiana
como se o sol

se desatasse

e mora agora
em mim
a penumbra

das coisas 
claramente vistas


Vasco Gato, Primeiro Direito,
Lisboa, Artefacto, 2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sexta-feira, 8 de abril de 2016

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II.

Eu tinha três ideias em mente,
Como uma árvore
Em que estão três melros.




Wallace Stevens
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

domingo, 3 de abril de 2016

P de Poética (XLI)



[Inês Dias, Lisboa, 12/03/016]



*




[Inês Dias, Lisboa - 24/02/012]

sexta-feira, 1 de abril de 2016

S de Satisfação (há-de deixar-se fotografar umas vezes)


"Dark is a way and light is a place."

DYLAN THOMAS









[ID, Barnabé, 31/03/11]

sábado, 19 de março de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" - V b


BEM FUNDO


Um prego na gengiva,
bem fundo, até onde seria
de crer que só chegasse a alma, assim

as árvores nos crescem
por dentro da memória, onde as raízes
a fazem rebentar, assim

as folhas que nos servem
por momentos de pele
se nos agitam no espírito, onde a pele

se afunda como num écran,
a pele, um jeito de árvore que tivesse
um espelho entre as raízes,

a pele que nos vendou, que nos serviu
de venda e de memória,
brancura que o lençol disputa às trevas,

irmã dessa raiz
agarrada ao écran, dessa gengiva
esquecida de já ter estado na boca

e agora apenas presa
à alma, sobre a qual
parece debruçada.


Luís Miguel Nava
in Rosa Maria Martelo, O Cinema da Poesia,
Lisboa: Documenta, 2012




[ID, 'Une Famille d'Arbres', 12/03/016]



POÉTICA


Todos temos um amigo morto
e um amor que partiu, ao amanhecer,
e nos deixou a luz feita em pedaços.

Um pai e uma mãe que se esgotam,
uma foto em Lisboa, um cão tonto,
dois ou três livros, quatro ou cinco quadros.

Todos temos uma rua escura,
uma avenida que nos reconhece,
uma árvore velha e um antigo pátio.

E a certeza de que tanto é nada,
a desgraça de ser o que perdemos,
a sorte de viver para contá-lo.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. de Inês Dias,
Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Novembro de 2011

sábado, 27 de fevereiro de 2016

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

E de Espera (XIX)


PEQUENOS VIDROS AZUIS


Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último –
   e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
   – as velas de um sopro apagou –
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de Dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.


João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros,
Lisboa: Relógio D’Água, 2011




[ID, Nazaré, 08/10/11]

sábado, 31 de outubro de 2015

P de "... pero que las hay"


como las brujas
voy vestida de cielo



ANALÍA MARCHESANO
in La luz que no da tregua, Puntal del Este: Trópico Sur Editor, 2015




[ID, Novembro 2008]

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

L de (A) Luz da Sombra (XLVI)




[ID, Madrid, 015]

terça-feira, 18 de agosto de 2015

domingo, 26 de julho de 2015

L de (A) Luz da Sombra (XLV)




[ID, 'O passado é um país estrangeiro', 25/07/015]

segunda-feira, 6 de julho de 2015

quinta-feira, 4 de junho de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXV)


NIGHTHAWKS AT THE DINER


Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa‑me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase‑silêncio desabrigado e informe.

Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo‑nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual — um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.

Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagesse de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.

Daqui a algumas horas esperar‑nos‑á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há‑de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer‑lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
— do lado mais esquivo da morte.

Mas bastam‑me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com selecção de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXI)





VERSOS DO DESCONSOLO


para Stig Dagerman


fiquei com pouco tempo
para dar à claridade
e as abelhas já não vêm
pôr mel dentro das rosas.

às vezes, a minha sombra
é um pedaço de risco,
qualquer coisa desavinda
a que o Sol quer dar sustento.

quem disse que a memória
é sempre muito antiga?

quem falou de uma aranha
para tecer a eternidade?


Emanuel Jorge Botelho, Fecho a cortina, e espero,
com capa de Luis Manuel Gaspar e um desenho de Urbano, 
Lisboa: Averno, 11 de Agosto de 2014





[Lou, 01/015]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

E de Espera (XXXIX)


POR MUITO QUE LEIAS NOVALIS


Ouro, incenso e mirra.
Por muito que leias Novalis
não vês tornar-se mais poética
nem mais verdadeira
a tua vida. No fundo,
só querias guardar ciosamente
(ias escrever religiosamente) a luz
que dezembro te oferece.

Ouro, incenso e mirra.
E certos direitos duramente conquistados.
O direito de impregnar na pele
a cólera das crianças,
o direito às cavidades irrevogáveis
da tua garganta,
o direito de estenderes na corda
a roupa viva dos dias,
e o de ensopares, na côdea,
os restos de gordura do prato,
escassos poderes, toda a luz
que dezembro te oferece.

Ouro, incenso e mirra
a luz que dezembro te oferece
começa logo a desaparecer.
E, por poucas que sejam, estarão sempre a mais
as palavras deste poema.


LUÍS FILIPE PARRADO
in Merry Little Christmas
Lisboa: Averno, 24 de Dezembro de 2012






[ID, 'a luz que dezembro te oferece', 12/014]