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sexta-feira, 28 de julho de 2017
segunda-feira, 3 de julho de 2017
C de "(O) começo de um livro..." (VI)
Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
[...]
Rui Nunes, Lampedusa,
com arranjo gráfico de Luís Henriques,
Lisboa, Paralelo W, 2017
sexta-feira, 23 de junho de 2017
P de Poética (LXII)
Ricardo Marques, A Noite [Variações],
com capa a partir de colagem de Rui Pires Cabral e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2017
sexta-feira, 2 de junho de 2017
V de Vida (IX)
Como falava ele ao pequeno-almoço,
quando abria o verso
sobre a onda que nunca rebentava?
Riscava o coração com aparos
de prata
e num êxtase diário subia ao sótão das palavras
a perguntar por Deus?
Qual a distância entre a criatura
e esse muro indiscreto de suor e sonhos
esse labor de mãos sujas de tinta
essa estrada de nada
e de madeira
esse quadro infantil retido na sanita
esse cuco soturno que afinal é um logro
esses passos perdidos na flanela do tempo
a pequena sílaba que descia do queixo
num líquido sabor a maresia
esses gestos de enfado e paciência
que ajudam a memória a subir ao palco
esse pulso cortado pela lâmina de barba
por fazer e é preciso chegar cedo ao concerto?
O gato dorme no colo.
O cão sabe de cor um soneto de Antero.
A rodilha das mãos espremida
em desespero de causa.
A carne sempre à espera de um talho mais discreto
nos sons, no sangue, na exposição das entranhas.
Chegou o intervalo e a história não acaba.
Acabou o poema e a vida ainda não chega.
Armando Silva Carvalho, Lisboas,
Lisboa: Quetzal, 2000
segunda-feira, 29 de maio de 2017
S.T.T.L.
[...]
Já referi que São Francisco se recusava a deixar de ver as árvores por causa do bosque; mais ainda, também se recusava a deixar de ver os homens por causa da multidão. Aquilo que distingue este democrata genuíno de um mero demagogo é o facto de nunca ter enganado os outros nem se ter deixado enganar pela ilusão da sugestão de massas; por muito que gostasse de monstros, nunca viu diante de si um animal com muitas cabeças: apenas via a imagem de Deus, multiplicada, mas nunca monótona. Para ele, um homem era sempre um homem e, se não desaparecia no deserto, também não desaparecia no meio de uma densa multidão. [...]
G. K. Chesterton, São Francisco de Assis,
Lisboa: Alêtheia Editores, 2013
terça-feira, 23 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
S de S.T.T.L.
Sem mo dizeres - compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. [...] O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é o momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de que nos sentimos logo irmãos...
Raul Brandão, "O Silêncio e o Lume"
(Dezembro, 1924)
terça-feira, 25 de abril de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
terça-feira, 28 de março de 2017
P de (Po)ética - XLIX d
À BEIRA DE UM MAR PARECIDO
Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.
Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.
Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
M de Mesa de Amigos (II)
Era uma vez uma tarde cheia de sol. Não havia um gesto a mais. Nem palavras. Estava alguém num café. Ao sol. Eram pequeninas coisas a ligarem-se umas às outras: desde um copo de água aos teus ombros. […] E o sol a bater em cheio na mesa. E nas mãos.
[…] E pronto. É assim que se faz a História. Sem palavras a mais.
[...]
Eduardo Guerra Carneiro, É assim que se faz a história,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1973
domingo, 19 de fevereiro de 2017
L de Ler (VIII)
(a Carson McCullers)
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?
Um velho, a criança, o café ambulante,
na madrugada da América o amor da cerveja,
e a mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar pelos olhos da criança
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
"o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo"
Eu serei aquele velho e tu a brancura,
a neve suspensa, à noite, sobre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema
E direi como ele à criança d'alva:
"Sabes como o amor devia começar?"
"Sabes como o amor devia começar?"
(E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
Um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros):
"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
António Barahona, Eunice,
Lisboa, Ed. do Autor, 1970
Lisboa, Ed. do Autor, 1970
à memória de Carson McCullers
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?
Um velho, uma criança, um café ambulante,
na madrugada da América o sabor a cerveja,
e uma mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar plos olhos da criança
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo
Eu serei aquele velho e tu a mulher,
a neve suspensa, à noite, sôbre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema
E direi como ele à criança d'alva:
- Sabes como o amor devia começar?
E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros:
Uma árvore, um rochedo, uma nuvem.
António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2015
ROSA ROTATIVA
para o António Barahona e a Daniela Gomes
"Je vis mes roses rosées dans mes ténèbres."
PIERRE JEAN JOUVE
Já é tarde. Os grunhos do andar de cima terminaram, enfim, de celebrar estridentemente a vitória do Benfica em Bordéus. Na companhia de Chet Baker, estive a ler As Grandes Ondas e senti-me, uma vez mais, visitado por um fogo limpo que cresce a cada leitura. Até um descrente, como eu, acaba por encontrar ali a única religião possível, onde o amor (pelo que é belo e verdadeiro) e o ódio (pelo que é vil e interesseiro) sabiamente se equilibram numa corajosa Guerra Santa.
Foi sempre assim: há os que esculpem versos, recorrendo a aclamadas e simiescas habilidades ou a revoltas de papelão, e existem, nos antípodas (escandalosamente ignorados), os poetas incondicionais, na urgência do seu grito, sussurro ou pranto. Tive a sorte de conhecer alguns desses príncipes sem reino e, em particular, António Barahona. À partida, dir-se-ia, muito pouco nos poderia aproximar. Mas ignorámos ambos, até que fosse chegado o momento, que a amizade é uma ponte incalculável e que o fundo respeito pela língua que partilhamos se tornou uma moeda rara, desprezada por banqueiros, políticos ou linguistas que se deleitam com novas escravaturas, e que tudo procuram traduzir em números.
*
Ao poeta, se realmente o for, nada pode ser alheio. Sabe-o, crua e visceralmente, António Barahona: «E pergunto-me por que escrevo, do mesmo modo que pergunto por que respiro; e reaproprio-me de tudo, a fim de vislumbrar o Todo, na tentativa de converter em harmonia a dissonância do mundo». Daniela Gomes foi sensível a este apelo, permitindo que as rosas rotativas do poeta se fundissem no mar inominado em que corpo e espírito se equivalem, para que o verbo sangre e resplandeça.
*
Poucas grandes ondas tenho visto assim tão altas. Devia oferecer-vos, em vez deste texto, rosas brancas e vermelhas, coisas de cheiro feliz.
- Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro n.º 18, Lisboa, Averno, Maio de 2013
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXX b
"Com a primeira luz, um pássaro negro afasta-se a voar - é um poema."
Lawrence Ferlinghetti, A Poesia como Arte Insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2016
[ID, São Miguel / Agosto 012]
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
S de Santa Cruz (XI)
[Navio Hay, encalhado a 5 de Fevereiro de 1929, em Santa Cruz, na actual Praia do Navio
- um dos fascínios da minha infância]
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
P de Poética (LIX)
ESCREVER
Ficas frente à parede, abraças a cal. Dizem que queima.
José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016
[ID, Lisboa, 03/016]
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
A de Amor (XXVI)
ERRATA
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.
Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.
Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.
MANUEL DE FREITAS
in Terra Sem Coroa, Teatro de Vila Real, 2007
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