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segunda-feira, 6 de junho de 2011

P de (Os) Pássaros em Volta (III)

ELEGIA


Quando a manhã rasgou o coração do poeta
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção

Quando a tarde chegou ao coração do poeta
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha

Ah mas o sol morreu no coração do poeta
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência


- Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos (2003)

sábado, 21 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLVII)

Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no Outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?


- Fiama Hasse Pais Brandão


[Obrigada, Rosa]

terça-feira, 17 de maio de 2011

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VI)

Ri sobre mim a Primavera. Regressam,
como se sabe, as andorinhas. Partem para longe
as palavras estultas dos amigos.
Já voltam para mim as antigas
palavras de amor. Em ti, rapaz,
resplandecem. Brincam nos teus passos
inseguros. Mas segura em mim caminha
solitária e serena a felicidade.


- Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida (Assírio & Alvim)

sábado, 30 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXV)

O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor, e do assombro, tudo me vem desse tempo... depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balbúrdia e mais nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equívocas, ou, com raras excepções, sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais... Nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse o dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura, que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a água empapada, e, entre as ervas gordas como bichos, pegadas de bois cheias de tinta azul, reflectindo o céu implacável de Agosto. Os pássaros com as suas asas abertas desconfiam e hesitam: a sede aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na armadilha agarramo-los com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve lá no alto um círculo perfeito, e vem, no voo desferido, arripiar com o bico a água estagnada. Toca numa palheira de visco - é nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha? É penas e vida frenética. E essa vida pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos cheios de rãs e os olhos deslumbrados.


Raul Brandão, Se tivesse de recomeçar a vida


terça-feira, 26 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XL)



ah, tivesse eu asas de andorinha
e estes campos não eram o que me definha.


R. C.





sábado, 23 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVII)

Faz bom tempo. O ar está lavado, claro. Ao sol, as casas surgem nítidas, separadas. Agora, sempre que faz bom tempo, a angústia torna-me. Sinto uma espécie de impossível e débil reconhecimento em relação não sei a quê. Tudo parece longínquo, fora do meu alcance. Muito altas no céu, nuvens e um pouco de bruma. Tenho medo e confiança ao mesmo tempo. Preciso de respirar. Andorinhas. Um avião. Queria partir para qualquer lado. Perto ou longe. Para um sítio onde estivesse só e me sentisse bem, pudesse dormir de olhos abertos, sentir o ar fresco nas mãos, no rosto. Uma pausa na inquietação. A paz.



Ernesto Sampaio, Fernanda (Fenda)

terça-feira, 22 de março de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XX) - No fundo, é isto:


ADENDA


Para a Inês e à memória
de quantas andorinhas matei


Como a fotografia que tiras, a pedra
que vos lancei desde essa primavera
da minha infância
tinha (se me perdoares a franqueza)
a mesma intenção: capturar o momento.
Mas um jeito rude, cretino, o desejo
quando só sabe ser grosseiro, antes
de ganhar bons modos, mais artísticos.
Em vez de «para sempre»
ou apenas «para mais tarde recordar»,
ali mesmo se precipitava, atropelando
a realidade nesse seu golpe possessivo.
Não sabendo reproduzir, criar igual,
vai destruir – para ter pelo menos
mão na coisa, um papel qualquer
ainda que seja o de vilão.

Não espero que o entendas. Por sorte,
eu entendo-te. E o que nos separou
talvez recorde aos dois o nosso papel.
Chama-se educação, professora.


Diogo Vaz Pinto
in AAVV, A propósito de andorinhas,
Lisboa, 18 de Abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros - mais andorinha, menos andorinha... (XXVIII)


"Les vrais enfants sont ceux qui ont passé leur enfance dans les arbres à dénicher des nids, et perdu leur vie."