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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

domingo, 2 de julho de 2017

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXIV)




Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

quinta-feira, 20 de abril de 2017

M de Meia-estação (IV)


Sempre acreditei que só as palavras
me saíam da boca, e eram elas
que me podiam adiar a morte.
Hoje sei que me sai da boca um fio,
transparente e tenaz como uma insónia,
que te atou à minha vida para sempre.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013




[ID, Santarém | 2017]

quinta-feira, 6 de abril de 2017

P de Poética (LX)


"A poesia é tudo o que nasceu com asas a cantar."


Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D' Água, 2016


terça-feira, 21 de março de 2017

P de Poética (XLII)


ASPECTOS DE UMA DEFINIÇÃO


[...]

- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.

[...]

Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.

*

Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.

[...]

A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar os movimentos de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.

*

Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema. 

[...]

Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã. 

[...]


- ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

sábado, 18 de março de 2017

R de Rebeca (XII)


Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.


- Derek Walcott [1930 - 17 de Março de 2017]
in The Bounty, 1998
[Trad. Inês Dias]

quinta-feira, 9 de março de 2017

P de (Po)ética (LV)


ESCREVER


A vida é demasiado séria para eu continuar a escrever. A vida costumava ser mais fácil, e muitas vezes agradável, e então escrever era agradável, embora também parecesse sério. Agora a vida não é fácil, tornou-se muito séria e, por comparação, escrever parece um pouco disparatado. Escrever não é, muitas vezes, sobre coisas reais, mas depois, quando é sobre coisas reais, está muitas vezes a ocupar o lugar de algumas coisas reais. Escrever é demasiadas vezes sobre pessoas que não aguentam mais. Tornei-me entretanto uma dessas pessoas. Sou uma dessas pessoas. O que eu devia fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não aguentam mais, é pura e simplesmente desistir de escrever e aprender a aguentar. E prestar mais atenção à própria vida. A única maneira de me tornar mais inteligente é não voltar a escrever. Há outras coisas que eu devia estar a fazer em vez disso.


Lydia Davis, Não Posso nem Quero,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015




[ID, Coimbra 013]

quinta-feira, 2 de março de 2017

E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (V)


"[...] Quando vivia em Londres, o terror era quase insuportável. Não conseguia escapar aos homens; as suas vozes entravam pelas janelas, e até as portas trancadas se revelavam frágeis salvaguardas. Saía de casa para combater as minhas alucinações, e mulheres de rua miavam-me, homens carentes e furtivos lançavam-me olhares de cobiça, trabalhadores pálidos e exaustos passavam por mim a sorrir, com o seu olhar cansado e o seu andar ansioso, como veados feridos a pingar sangue, e pessoas idosas, curvadas e mortiças, cruzavam-se comigo, falando sozinhas, absolutamente indiferentes a um séquito esfarrapado de crianças trocistas. Refugiava-me então nalguma capela, mas mesmo aí a minha perturbação era tão grande que me parecia que o pregador palrava, encadeando Grandes Pensares tal como o Homem-Macaco fazia; ou numa biblioteca, e aí os rostos concentrados nos livros lembravam-me apenas criaturas pacientes à espera da sua presa. Os rostos vazios e inexpressivos das pessoas nos comboios e nos autocarros eram particularmente repelentes; eram tão parecidos com seres humanos como o seria um cadáver, de modo que não me atrevia a viajar a menos que tivesse a certeza de estar sozinho. E nem eu parecia ser uma criatura racional, mas apenas um animal atormentado por uma estranha perturbação do seu cérebro, que o obrigava a vaguear sozinho como um carneiro doente. 
[...]"


H. G. Wells, A Ilha do Doutor Moreau
trad. de Inês Dias, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXX b


"Com a primeira luz, um pássaro negro afasta-se a voar - é um poema."

Lawrence Ferlinghetti, A Poesia como Arte Insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, São Miguel / Agosto 012]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

E de Estudos literários comparados (II)


A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.


Hakim Bey (trad. Inês Dias)
in Cão Celeste n.º4Lisboa, Novembro de 2013


*


I heard a Fly buzz – when I died – 
The Stillness in the Room 
Was like the Stillness in the Air – 
Between the Heaves of Storm –

The Eyes around – had wrung them dry – 
And Breaths were gathering firm 
For that last Onset – when the King 
Be witnessed – in the Room –

I willed my Keepsakes – Signed away 
What portions of me be 
Assignable – and then it was 
There interposed a Fly –

With Blue – uncertain stumbling 
Buzz – Between the light – and me – 
And then the Windows failed – and then 
I could not see to see –


- EMILY DICKINSON

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) II


ANUNCIAÇÃO
- segundo Fra Angelico


Ele veio do jardim, sem deixar
nem sombra, nem pegada sobre o orvalho.
Os olhares de ambos sustêm-se no ponto
de equilíbrio: tudo conduzindo 
a este momento, tudo se afastando.

Uma palavra lançará a semente
da vida e da morte,
o ensombrar desta rapariga
por umas trevas emplumadas.
Mas ainda não: agora ainda não.

Como recordará ela o silêncio
desse interminável momento?
Ou o final, quando tudo começou -
a primeira de sete alegrias
antes das sete dores?

Ela recordará a canção a seguir
porque é apenas humana.
Um dia
acordará com asas, ou acordará
e descobrirá que elas desapareceram. 


Robin Robertson, Hill of Doors,
Londres: Picador, 2013
[Trad. ID]












                           
                                           
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 1 de novembro de 2016

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

T de Tempo Sem Tempo (XVII)


Porque é que as segundas têm de
estrangular os domingos;
e o outono, o verão;
e o tempo adulto, o tempo mais jovem?
Sob os jardins,
morreram outros jardins.
Atrás do sol,
outros sóis sucumbem,
como roupas velhas num armário.
Ele já não faz perguntas:
apaixonou-se por uma música.


Alain Bosquet
[Trad. ID]

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (II)


"Sempre que vou para o campo, e entro em contacto com a natureza, compreendo que viver é ver regressar; que cada sensação e cada sofrimento e cada prazer nosso partem, virginalmente, de uma memória. Quando terá nascido esta emoção que sinto agora de ver morrer a tarde, embalado no solo, enquanto acaricio a erva? Em que sítio do mundo terá nascido? De onde veio até mim para que eu a possa sentir deste modo tão necessário e radical? As emoções, tal como a linguagem, nascem numa fonte remota do sentir colectivo. Também o ver dos meus olhos e o gostar dos meus lábios são uma tradição interrompida que eu rezo de novo, e o choro é uma acção de graças de todos os que me antecederam no conhecimento da dor. […] Gostaria de te dizer que a memória nos faz e nos desfaz, que a memória é o único meio que o homem tem para diferenciar umas coisas das outras, para as viver e fazê-las suas. O que não se recorda, o que não regressa do coração aos sentidos, não se vive, sente-se. Entre o sentir e o viver está a memória."

Luis Rosales, El contenido del corazón, 1941
[Trad. ID]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

P de "Postais do fim do mundo" (VI)


[...]

Como achas que posso amar a minha vergonha tão loucamente?
Nadamos o dia todo escondidos entre rochas
tentando saber o que se diz sobre nós no porto.
Gosto daquilo que disse que amava
e não posso acrescentar mais nada
porque toda esta morte me faz sentir
mais vivo do que nunca,
porque não distingo as épocas da minha vida,
porque não sei que tipo de mulher serias
nem que tipo de homem serei eu quando nos recordarmos.



[ID | Setembro 016]


Escrevo-te, finalmente, para saber quantas divisões
tinha a nossa primeira casa.
Esqueci-me de um dos quartos, ou não o fixei o suficiente.
Lembro-me de que te levantavas muito cedo,
eu passava a noite toda a escrever,
tu dizias-me para ir dormir,
mas ao amanhecer, enquanto tomavas o pequeno-almoço,
eu lia-te a história da minha educação.
Talvez nesse quarto não tenha acontecido nada
digno de ser recordado
e eu fechava-me nele para escrever
mas não escrevia nada, e tu tiravas-me dali
quase sem ar.
Talvez tenha escrito esse livro sozinho,
e foi essa a primeira ruptura.
No entanto, hoje preciso de saber
quantas divisões tinha a nossa primeira casa,
e a que horas é que te levantavas para ir trabalhar
e sustentar-nos.

[...]


Pablo Fidalgo Lareo, "Um ano sem voltar a casa",
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

M de Meia-estação (II)


CAFÉ SIMPLES


Deus fez o mundo e fê-lo com pressa,
mas os poetas, sem saírem das suas casas,
inflamados, coroados por línguas de fogo,
tiritando de solidão e de frio na madrugada,
mantêm-no em contínuo funcionamento.

O novo carregamento de luz ainda não chegou.
Longamente esperam as folhas negras das acácias,
os sete cinzentos do arco-íris, os vitrais das igrejas,
leves e frágeis como as asas de uma libélula.
Em breve se acumulará a claridade, nutritiva e generosa,
nas esquinas e o bispo branco derrotará o negro.
No Museu Nacional as sombras aguardam;
de um momento para o outro vão partilhar o verde,
o azul de Prússia, o vermelhão e o amarelo.

Os poetas, desvelados, administradores
de um vasto império invisível, preparam café;
esperam que fervam também as palavras.
Uma irmandade secreta de colherzinhas
tilintando nervosas, rodando para misturar
– enquanto as canetas sonham com o seu regresso
a Ítaca – as duas substâncias da vida:
o doce e o amargo, a luz e a escuridão.

Os poetas mexem e remexem: as suas colheres
e as suas canetas não sabem fazer outra coisa.
Com brio, com teimosia, quase com fervor.
Como se o redondo fluir dos relógios
nas morgues e nos aeroportos,
e o ciclo curto das estações
(às vezes apenas Outono e Inverno,
Outono e Inverno repetindo-se)
e o preguiçoso rodar do planeta inteiro,
com as suas dobradiças, os seus parafusos e rodas do destino,
dependessem única e exclusivamente
de um insone movimento de pulso.


in Contra las cosas redondas, La Bella Varsovia, 2016
[Trad. ID]

domingo, 4 de setembro de 2016

L de "Las simples cosas" (V)



[ID, Santa Cruz, 2016]



"Mudou a luz: isto é setembro."

Carlos Marzal




[ID, Nazaré, 2011]

domingo, 14 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIII)





ÁLBUM


Quase nunca apareço, nessas
velhas fotografias: a mão
ou um ombro, desfocados; uma figura
ao fundo,
a sair do enquadramento.
Vejo-me, às vezes, na inquieta
mancha de uma criança, esse estremecimento
no olhar, ou o modo como
o sol derrama o seu ouro na  imagem;
ou aí, nesse golpe longo e branco
sobre a superfície do vidro
na parede atrás. Essa
nódoa de luz
a minha marca, de partida.

Se olharem de perto
para estes instantâneos, toda esta
película a ficar azul, começam
a reparar. Quando finalmente me virem,
vão ver-me por todo o lado: a flutuar
sobre flores, castelos de areia,
folhas caídas, naqueles
bonecos de neve derretendo-se, com as caras
desenhadas a carvão – entre todos
os convidados do casamento,
os convidados do jantar, os convidados
da festa de aniversário – este fumo
na emulsão, o defeito.
Está um fantasma aí; o fantasma levanta-se para ir.


- ROBIN ROBERTSON





[ID, 'The wrecking light', Agosto 2016]

quarta-feira, 22 de junho de 2016

L de Ler (XI)


"Estamos todos doentes, 
e só sabemos ler os livros que falam da nossa doença."


Jean Cocteau, La difficulté d'être,
Paris: Éditions du Rocher, 1989

quinta-feira, 9 de junho de 2016

T de Tratado de Pedagogia - LXIII





I'LL GO TO HELL


Escapar pelo rio,
fugir numa jangada,
acariciar o medo,
coleccionar estrelas,
gostar dos amigos.

Fumar a tristeza
num cachimbo de cortiça.
Ser a sombra que flutua,
uma alma sigilosa que se esconde do sol. 

Enfiar linha numa agulha
com um beijo,
ser a menina que lê
enquanto mexe no cabelo.

Irei para o inferno,
guardarei o teu segredo
do homem escondido
que procura a liberdade
e sonha que o futuro
não distingue as cores.

Irei para o inferno
contigo, Huckleberry,
e o fundo do teu abraço
será a minha salvação. 


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]





[ID, Sintra, Abril 016]