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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A de Amor (XXVI)


ERRATA


Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê? 
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.


MANUEL DE FREITAS
in Terra Sem Coroa, Teatro de  Vila Real, 2007

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O de "O poema ensina a cair" (II)


VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA


eu não entendia
e ela se mexia tanto ao meu lado
e aqueles bancos apertados
o ar condicionado gelando
tudo (os brincos dela,
o meu humor)
mais de uma hora cruzando
ruas, avenidas, parágrafos – 
o livro gritando alto
para um mundo ensurdecido
depois de arrumar-se mais
algumas dezenas de vezes
o sol já estava no meio do céu
quando ela se levantou
foi então que percebi que
três pequenos pássaros
voavam em suas costas


- FABIANO CALIXTO

quarta-feira, 20 de julho de 2016

P de Perder a cabeça - IV c




[ID, Porto, 17/07/016]

P de Perder a cabeça - IV b


(O pardal)

A catástrofe das pequenas coisas.
Um pássaro canta sobre a esfera de pedra.
Envolve-o a secura, não a do deserto, mas a do cimento. Desbotado.
Nem um vaso, nem uma cadeira, nem um toldo, nem uma rosa de ninguém:
a luz nos mosaicos anuncia a aridez de uma execução.
A catástrofe das pequenas coisas.
Em baixo, tão em baixo que é preciso olhar para baixo, o artifício das árvores. É esta varanda que lhes tira a humanidade. Mas que é a humanidade de uma árvore? Não o pássaro que a esfera tornou um pássaro de pedra. Um canto de pedra.
Que acrescenta à pedra a forma de um voo.
Não lhe atenua a aridez:
exalta-a.
Exibe-a.
A catástrofe das pequenas coisas.
Não lhe vejo o bico entreaberto, nem o estremecimento das penas: ouço-lhe o canto.
Como um memorial.
De súbito, levantará voo.
E a pedra deixará a pedra. Sem uma marca.
:
um osso exposto
fractura quem o vê?


Rui Nunes, A Crisálida,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

sábado, 9 de julho de 2016

M de Música para os meus olhos (XLI)




"Evolução de uma Miopia"
in Clarice Lispector, Todos os Contos,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

quinta-feira, 16 de junho de 2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II.

Eu tinha três ideias em mente,
Como uma árvore
Em que estão três melros.




Wallace Stevens
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXVIII)


AS ANDORINHAS


I

     Dão-me a minha lição de cada dia.
     Pontuam o ar de pequenos gritos.
     Traçam uma linha recta, põem uma vírgula no fim, e, bruscamente, mudam de linha.
     Colocam entre loucos parênteses a casa onde moro.
     Ascendem da cave até às águas-furtadas, demasiado velozes para que no tanque do meu quintal fique uma cópia do seu voo.
     Com uma pluma de asa ligeira, dão forma a inimitáveis rubricas.
     Depois, aos pares, abraçadas, juntam-se, misturam-se, e são um borrão de tinta sobre o azul do céu.
     No entanto, só um olhar amigo pode segui-las, e se o leitor sabe grego e latim, eu sei ler o hebreu que no ar escrevem as andorinhas-das-chaminés.

[...]


Jules Renard, Histórias Naturais,
com tradução de Carlos Pombo e ilustração de Maria João Worm,
Lisboa, Quarto de Jade, 2015



[Tiragem: 50 exemplares numerados]

terça-feira, 13 de outubro de 2015

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

sábado, 8 de agosto de 2015

P de Poética (LV)


RONDÓ CAPRICHOSO


Por algum tempo, mesmo
que seja mínimo, as
coisas são perfeitas. A
rosa ganha caule mas
não desabrocha. A faca
brilha no ar mas não
desfere o golpe. Os lábios 
humedecem, antes
de cerrar os dentes.

Por algum tempo uma
criança habita a casa, um
gato aquece ao sol a
sua grata pelagem, um corpo
cansado adormece
no lençol limpo.

Por algum tempo, os insultos
não são proferidos
e os corpos enlaçam-se
apiedados do abismo
entre as próprias imagens.

Por algum tempo acreditamos
em grandes amores e viagens. Depois
consumimos
sucedâneos ou literatura.

Por algum tempo, olhamos
o quadro sem turistas
à frente. Escutamos o virtuose
sem tosses na assistência.

Por algum tempo, descobre-se
a cura. O amor regressa. A teoria
convence. A fé ressuscita. Acreditamos
em Únicos e Pátrias.

Até que esse algum tempo
perfeito e mensurável
em desmedido tempo
se transforma.


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa: &etc, 2005





[ID, São Miguel, 06/015]

quarta-feira, 15 de julho de 2015

V de Vista para um saguão (V)




[Fotografia da Inês, exactamente um mês depois, sob o olhar atento da Lou e da Daisy]

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (III)



[Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932]



ATENÇÃO


ATENÇÃO   as aranhas percorrem a cidade 
os vermes infiltram-se   Deus não pára de morrer
Exaustivamente a noite despe-se para o amor 
sujo   baleado   sinistro
Os assassinos rodeiam a mesa de oiro 
pesados de ódio   metálicos   podres
e as múmias falantes completam o seu dia

Estamos cercados de postes 
devorando automóveis   telégrafos
a minha ternura é este avião que passa
este cigarro de treva e limo
Nascemos (ouve-me bem) para alimento da noite 
sem outra voz senão veneno
porque entre os vidros e o horizonte
são doidos e lívidos os sonhos que restam

Chegaram panteras escarlates a moer raiva 
amantes aterrorizados   horas    precipícios
e nem uma pequenina flor ou uma praia
ou um leito para estendermos os cabelos

Só a miséria destas noites    o cansaço deste tempo

E o MAR   entre fumo e chuva 
o AMOR dissolvido sob uma campânula   a VIDA


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, Sintra, Maio 011]

sexta-feira, 12 de junho de 2015

sábado, 6 de junho de 2015

V de Vista para um saguão (IV)




[Fotografia da Inês, com ajuda da Lou, em 05/06/015]

terça-feira, 2 de junho de 2015

D de Dia mundial da criança




[ID, Azenhas do Mar, 015]

sexta-feira, 13 de março de 2015

P de (Seis Anos de) Pássaros (L)


[...]
de novo os pássaros     voam e recolhem-se
é assim
as tais mãos verdadeiras
se não forem usadas não oferecem grãos de luz
e é neles que se recolhem os pássaros
e os versos  inúteis
um poeta diz qualquer coisa parecida
com o que está além do horizonte
qualquer coisa que houve     não vista     não tocada     necessária
qualquer coisa sossegada para lamber a ferida do desassossego
e pronto     com tanto além nem topamos à frente do nariz
há tanto sal que não salga
míssil para cima     míssil para baixo
os indefesos caindo que nem tordos
os refinados gatunos à janela
os queridos financeiros fritando os miolos entre
a conspiração e as sardinheiras
[...]


Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

P de (Cinco Anos de) Pássaros


CORVOS DE SHINJUKU


Corvos instáveis saltitando de um saco de lixo volumoso
para outro na manhã de Shinjuku;
qual foi a minha Alma, as suas frases incompletas,
os seus corsários, desembarcando, ansiosos por recordarem
onde é que tinham enterrado o tesouro.


John Mateer, "O poeta vislumbra a sua alma", 
Este Livro Escuro, trad. Inês Dias, 
Lisboa: Averno, 2012




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A de A poesia é o menos (III)


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se 
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz. 


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




[29 de Junho de 2014]