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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Q de Que a alegria em mim permaneça (III)


O FUTURO OUTRORA



[...]



g.

Livre é o dom das mãos do mundo: a alegria; nunca
saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
que o teu e as suas várias almas conhecem;

Mas para que uma última vez possas dançar
Podemos, sim, podemos pôr aqui o fogo
e a árvore da música:

a vibração do mundo quando não estamos a olhar.


Manuel Gusmão
in Telhados de Vidro n.º6,
Lisboa: Averno, Maio de 2006

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

N de "Nous deux encore" (II)


A DOIS PASSOS


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais 
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós 
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que 
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem. 


Rui Caeiro, "Do inferno - cinco aproximações"
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

sábado, 13 de outubro de 2018

A de A propósito de melros *


VI



E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-me rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso. 

Como o melro, tal e qual. 


A. M. Pires Cabral
in Telhados de Vidro n.º 11, 
Lisboa, Averno, Novembro de 2008


*


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ



Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro de 2016, para o Ricardo Álvaro.]

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXXVII)


FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º 11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

domingo, 17 de junho de 2018

P de "Pássaros de acaso" - VI b


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3.º andar e papagaios de 5.º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.


JORGE DE SENA




[Bruce Davidson]



MANHÃS


Pendurada numa corda da roupa de um sétimo andar,
atrás de um prédio enferrujado,

todas as suas varandas envidraçadas ou com grades,
ali, em cada manhã, está uma pequena gaiola quadrada.

Cativo nesta provocação contra o céu,
nesse intervalo reflexivo entre apelo e canção,

esse Vazio que as aves nos "ofereceram",
ali na perversidade fixa de uma vertigem,

o tentilhão debate-se esporadicamente, desarmado,
mudo. Não, freneticamente vocal, mas sem ser ouvido. 

Queremos que isto seja uma ode.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º 18, trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, Maio de 2013

sábado, 5 de maio de 2018

D de Dansa (VIII)




ANTÓNIO RAMOS ROSA


*




Pablo Fidalgo Lareo, traduzido por Manuel de Freitas,
in Telhados de Vidro n.º 17, Lisboa, Averno, Novembro de 2012