sábado, 30 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXV)

O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo: o que sei das árvores, da ternura, da dor, e do assombro, tudo me vem desse tempo... depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balbúrdia e mais nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equívocas, ou, com raras excepções, sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais... Nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse o dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura, que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a água empapada, e, entre as ervas gordas como bichos, pegadas de bois cheias de tinta azul, reflectindo o céu implacável de Agosto. Os pássaros com as suas asas abertas desconfiam e hesitam: a sede aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na armadilha agarramo-los com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve lá no alto um círculo perfeito, e vem, no voo desferido, arripiar com o bico a água estagnada. Toca numa palheira de visco - é nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha? É penas e vida frenética. E essa vida pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos cheios de rãs e os olhos deslumbrados.


Raul Brandão, Se tivesse de recomeçar a vida


S de Solidão (ou C de Comunidade) XIX

Entre os 11 minutos e os 13 minutos e 37 segundos, a minha cena preferida:

sexta-feira, 29 de abril de 2011

F de Fazer Fotografia (XLV)

polaroides


Frementes campaínhas
enredam-se na cancela
de madeira de buxo

O velho regador vermelho
esquecido junto
aos frios jarros

Uma pêra de inverno
apodrecida entre
caixotes demantelados

No meio da vereda
o lutuoso pássaro
animal melancólico

As verdes gavinhas
brilham de tanto
orvalho depositado

As janelas da casa
escancaradas
o vento nas cortinas

Uma chuva fina
de agulhas ponteia
os lençóis da tarde


- Luís Pignatelli, Obra Poética (& etc)

B de Biorritmo (LXXX)

C de (A) Comunidade

15 - Dos meus, aqui e agora

---------------------------- : a vida, intermitente.


Caído do chão, rindo duma piada sobre a Pietà e o Outão;

o vazio;


tocando ao lado de uma musa;

o vazio;


sendo o paciente português de uma francesa paciente;

o vazio;


ouvindo os comentários ao pugilato Bergman vs. Spielberg;

o vazio;


escalpelizando azulejos, noite cerrada, ao lado do poeta;

o vazio;


lendo um autógrafo sobre ilhas e arquipélagos;

o vazio;


apreciando pés na madrugada;

o vazio;


editando a alegria de um primeiro livro;

o vazio;


ouvindo: "Eh!, tanta carne!", estando eu de tronco nu;

o vazio;


aprendendo a raiz quadrada de um número negativo;

o vazio;


dando com as coordenadas de um poema e falhando as de umas moelas;

o vazio;


amando os miradouros da cidade;

o vazio.


Concluo: os meus vazios estão cheios.





MIGUEL MARTINS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLI)


József Rippl-Rónai, "Mulher com gaiola", c. 1900

S de Solidão (ou C de Comunidade) XVIII

[Espero sinceramente que hoje, quando contar quantos somos, a matemática dos afectos continue a bater certo e a dar o mesmo total de ontem e de anteontem. É das poucas ciências em que preciso de confiar para estar viva. ]




CONTRA MUNDUM



This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T.S. Eliot



Hoje quantos somos? Quantos ainda
sentem o gosto, esse cheiro
escapando, estranho
como a nossa juventude.
Adiados vezes suficientes, mais
atrevidos ainda, num país que preferia
não, que gosta muito de chamar
à parte, de dizer que isto não é próprio,
não se faz, ou
explicar as suas razões e,
no fim, pedir uma atençãozinha.

Tenho o sono,
há dias, semanas já, sem funcionar.
Não me larga a ideia de que
endoideço
. A boca cheia de asas,
um rígido tremor, e quando a abro

nada. E então levo-me por aí, a pé,
a sentar-me pelos cafés, só, a dissolver-me
nuns versos. A chuva perde o juízo,
cai de todos os lados e cansa
a manhã, com as suas cores frágeis,
arrastadas, e aromas pútridos.
Mesmo a sombra
cheira a deus
nestes jardins de vento.
Fico a olhar umas flores afogadas
nesse charco de onde bebo
um último verso antes de ir-me.

Decoro detalhes, variações
mínimas neste
entardecer alucinado. Vou pela hora
em que a loucura se torna doce,
monologando como os velhos, a desfiar-me
pelos bairros, afogado em sonho.
Da boca cariada das ruas de Lisboa,
oiço e aproveito restos de frases esquecidas
de sentido, vozes já sem ninguém,
um inventário de coisas
que a música
sorve. Todas estas canções que ainda
nos procuram no sangue
um coração antigo. Quase nada
resta.

Sonho, enfim, a escuridão
dentro de uns cabelos
, lábios rombos de
amor, mesmo um assim, tão rasteiro. Uns
olhos verdes, quietos. Beleza dessa,
roçando a insolência.
Depois só a sombra parada nestas mãos,
de um corpo que se afastou e deixa
todo o seu peso num nome,
florindo minuciosamente,
num odor agudo, vago, tardio.

A cama baixa ao nível cruel
das recordações, desfeita por mulheres
dessas de dar à corda. O ébrio galope
de uma raça que já sabe
como tudo acaba
e continua a ter pressa.

Mas hoje quis, como
só poucos,
cortar ambas as mãos, deixá-las
sobre a pedra de uma igreja em ruínas,
rezando
, alimentando
as religiões do ritmo. Sons
agarrando a vida para escorchá-la,
fazê-la nascer de novo
e a uma ânsia nova, de olhos rasgando
em perseguição, que fareje e busque,
embosque e faça presas, morda e mate
com a sua boca incrível.

Quantos? Poucos, decerto, mas
em nenhuma época foram precisos
muitos.



- Diogo Vaz Pinto, Nervo, Lisboa: Averno, 2011

A de Amor (XI)

Um poema de amor que ninguém
tivesse feito e só um merecesse
e só o outro entendesse

E aí estaria ele o amor
em estado de pura nudez
litográfica à século das luzes



- Rui Caeiro, O Quarto Azul e outros poemas, Lisboa: Letra Livre, 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XL)



ah, tivesse eu asas de andorinha
e estes campos não eram o que me definha.


R. C.





A de Anjos Caídos

T de Tratado de Pedagogia (XXIV)

Se não fosse o Rui, não achava piada nenhuma a isto :)




R de Regresso ao Trabalho (XII)



[...]
Punctuated birds on the power line
In a Studebaker with the Birdie Joe Joaks
I'm diggin all the way to China
With a silver spoon
While the hangman fumbles with the noose, boys
The hangman fumbles with the noose

Got to get behind the Mule
In the morning and plow


Pin your ear to the wisdom post
Pin your eye to the line
Never let the weeds get higher
Than the garden
Always keep a sapphire in your mind
Always keep a diamond in your mind
[...]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

F de Falar para as paredes (VII)

Para o Barnabé e para o Miguel
(a caminho da Rua do Século):

R de Regresso ao Trabalho (XI)

"Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed- interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit- crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?"

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIX)

P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXVIII)



"If you could only stop your heart beat for one heart beat"

[Obrigada, Patrícia]

A de Abril

NÃO POSSO



Nasce
em torpes corações a Primavera.
Tempo, astros, alegria nunca escolhem
sobre quem derramar-se.
Para exemplo deste imponderável
Goering amava os animais
e vem a Lisboa David Oistrakh
tocar para estudantes e rameiras.

Quando colho uma flor, sei
que ela mudará as minhas noites.
Mas é também conhecido
que a certas horas os carcereiros
despem a farda
e vão às Mercês e à Rinchoa
comprar cestos à beira da estrada
com morangos ou cravos. Não posso
com tanta ironia.



Fernando Assis Pacheco
in Cuidar dos Vivos (1963)

domingo, 24 de abril de 2011

T de Tratado de Pedagogia (XXIII)

L de (A) Luz da Sombra (VI)

M de (O) Magnetismo das palavras

At this unique distance from isolation
It becomes still more difficult to find
Words at once true and kind
Or not untrue and not unkind.


PHILIP LARKIN



Ainda nem tive coragem para desarranjar estas palavras e estrear as minhas :)