terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIII

Deixa de espreitar para o outro lado do que és, Maynard, de te esconderes nas esquinas de ti próprio, nas esquinas das ruas onde te perdes. Esse jogo não dá nada. É por de mais cansativo e inútil. Há aquela história do homem, Maynard, que quis fugir à própria sombra, e parece que foi já há muito tempo, e dizem que ele ainda anda a correr, que andará a correr pelos tempos fora, e o raio da sombra nunca mais o larga. Já sabes que a maior parte da gente que te rodeia é uma cambada. Ao fim e ao cabo, desde o dia em que a mamã deu um tipo à luz, ele começa a aprender a existir no inferno, a coexistir com os vários infernos, que estão dentro e fora das pessoas, que as pessoas trocam umas com as outras, mercadoria que se chama congénita fraqueza humana, que é traição, que é tédio, que é apática observância de conveniências, que é mentira, que é dúvida. E depois há umas pequenas alegrias pelo meio, que foram mesmo inventadas para tornar menos monocórdica esta grande e excepcional angústia que é o ferrete do homem contemporâneo (zás, catrapás, foi um lindíssimo fim de período, uma frase de ribalta). Se estou a brincar contigo, Maynard, é para ver se te desfaço a pompa, digo bem, a pompa do chamado juízo crítico, pois tu acabas mesmo por fazer da auto-análise um imenso carnaval de lamentações. Não és corajoso, Maynard, és cobarde. A maioria dos outros, ao menos, são safardanas sem andarem a esconder-se nas esquinas de si próprios, à espera que passe uma aragem de bons sentimentos para nela se refrescarem. Preferem não pensar nisso, e pronto. Comem o que podem, dormem o que podem, deitam-se com as mulheres que podem, que se lixe o resto, que se lixe o resto. Mas tu acabas sempre nisto, Maynard. O inefável tribunal de ti próprio: és o acusado, o juiz, o advogado e o júri. E és o público. És, principalmente, o público, porque estas coisas sem público não têm graça nenhuma. E antes de continuares a desafiar-te, tenho a dizer-te que já sei o que vai acontecer: vais considerar-te culpado, mas tens a atenuante da tal angústia, e isso até é um bocado aristocrático, fica-te muito bem, Beethoven para a esquerda, Proust para a direita, e ainda assim uma grande margem de melancolia, e depois a certeza de que um homem só é verdadeiramente solidário com a sua solidão. Deixem-no passar, diz o povo, deixem-no passar, porque ele sofre muito e é grande, olha o sofrimento bem nos olhos e tem a coragem de continuar a viver. És um narciso da merda, Maynard. As piruetas que tu fazes para demonstrares a ti próprio que não és pior do que os outros.


- Dennis McShade, Requiem para D. Quixote (1967)

B de Biorritmo (XC)

Ouviu-se três noites seguidas. E dançou-se numa delas:

domingo, 29 de maio de 2011

D de Davam grandes passeios aos domingos

DIMANCHE



Entre les rangées d'arbres de l'avenue des Gobelins
Une statue de marbre me conduit par la main
Aujourd' hui c'est dimanche les cinémas sont pleins
Les oiseaux dans les branches regardent les humains
Et la statue m' embrasse mais personne ne nous voit
Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.


- Jacques Prévert




H de (The) Heart of Saturday Night

sábado, 28 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIX)




[...]
Les escaliers de la butte sont durs aux miséraux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
[...]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A de Arquitectura

my love is building a building
around you,a frail slippery
house,a strong fragile house
(beginning at the singular beginning

of your smile)a skilful uncouth
prison,a precise clumsy
prison(building thatandthis into Thus,
Around the reckless magic of your mouth)

my love is building a magic,a discrete
tower of magic and(as i guess)

when Farmer Death(whom fairies hate)shall

crumble the mouth-flower fleet
He'll not my tower,
                                          laborious,casual

where the surrounded smile
                                                            hangs

                                                                             breathless


E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)

I de Infância (II)

Ouviu-se ontem à noite:



Mon enfance passa
De grisailles en silences
De fausses révérences
En manque de batailles
L'hiver j'étais au ventre
De la grande maison
Qui avait jeté l'ancre
Au nord parmi les joncs
L'été à moitié nu
Mais tout à fait modeste
Je devenais indien
Pourtant déjà certain
Que mes oncles repus
M'avaient volé le Far West


Mon enfance passa
Les femmes aux cuisines
Où je rêvais de Chine
Vieillissaient en repas
Les hommes au fromage
S'enveloppaient de tabac
Flamands taiseux et sages
Et ne me savaient pas
Moi qui toutes les nuits
Agenouillé pour rien
Arpégeais mon chagrin
Au pied du trop grand lit
Je voulais prendre un train
Que je n`ai jamais pris


Mon enfance passa
De servante en servante
Je m'étonnais déjà
Qu'elles ne fussent point plantes
Je m'étonnais encore
De ces ronds de famille
Flânant de mort en mort
Et que le deuil habille
Je m'étonnais surtout
D'être de ce troupeau
Qui m'apprenait à pleurer
Que je connaissais trop
J'avais l'œil du berger
Mais le cœur de l'agneau


Mon enfance éclata
Ce fut l'adolescence
Et le mur du silence
Un matin se brisa
Ce fut la première fleur
Et la première fille
La première gentille
Et la première peur
Je volais je le jure
Je jure que je volais
Mon cœur ouvrait les bras
Je n`étais plus barbare


Et la guerre arriva


Et nous voilà ce soir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

L de Livraria (IV)

A caminho da minha livraria preferida:

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIX)


Leonora Carrington (1917 - 26 de Maio de 2011)
The Giantess, c. 1947

S de Sete rosas mais tarde (VI)

suppose
Life is an old man carrying flowers on his head.

young death sits in a café
smiling,a piece of money held between
his thumb and first finger

(i say "will he buy flowers" to you
and "Death is young
life wears velour trousers
life totters,life has a beard" i

say to you who are silent.-"Do you see
Life?he is there and here,
or that,or this
or nothing or an old man 3 thirds
asleep,on his head
flowers,always crying
to nobody something about les
roses les bluets
                        yes,
                               will He buy?
Les belles bottes-oh hear
,pas chères")

and my love slowly answered I think so.     But
I think I see someone else

there is a lady,whose name is Afterwards
she is sitting beside young death,is slender;
likes flowers.





Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


T de Tratado de Pedagogia (XXXI)

may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it's sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there's never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile


E. E. Cummings
   in Selected Poems (Liveright)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

C de Carrosséis (XII)

who are you, little i

(five or six years old)
peering from some high

window; at the gold

of november sunset

(and feeling: that if day
has to become night

this is a beautiful way)




Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


S de Sete rosas mais tarde (V)

[Sintra, Maio 2011]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A de "até que os fios do coração" (III)

A ÚLTIMA NOITE


V

Conversámos de "coisas amáveis"
mantendo a distância de um deserto
entre as nossas miragens


- António Barahona, Ritual Análogo (1986)

V de Vício (VI)

Já não se fazem contracapas assim:


[1ªedição de Requiem para D. Quixote, de Dennis Mc Shade, aka Dinis Machado,
encontrada numa feira de velharias em Sintra]

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (X)

Miguel, um almoço no "A Raposa", em Sintra, é mais ou menos assim:

[Céu em baixo]

[O couvert]

[Carpaccio tropical]

[Salmão grelhado com crosta de noz, acompanhado por risotto de pesto]

[A conta]

[Céu em cima]

Quanto ao vinho, na 5ª feira descobres por ti próprio como era.

domingo, 22 de maio de 2011

E de Espinhas para um gato (VII)

GATO PRETO


para "Territórios" de Natércia


I

Em busca d'alimento e alado cálculo
continuamente a vadiar esfaimado
II

Senhor do mel e das abelhas negras
eu mesmo: gato preto do telhado
com um caderno e um lápis e este livro
revelado por Deus e aves várias