quinta-feira, 30 de julho de 2015

L de Ler (XII)


A FERIDA


A enorme ferida na cabeça começou a sarar
No início da sétima semana.
Os seus vales escureceram e as suas aldeias sossegaram:
De alegria não me movia nem ousava falar,
Não a curariam os médicos, mas o tempo com a sua perícia paciente.

E continuamente o meu espírito regressava a Tróia.
Após ter navegado pelos mares, de cada vez lutava
Em ambos os lados, partilhando o júbilo da condição
De Helena, e crescendo - para ver Tróia arder -
Como Neoptólemo, esse rapaz obstinado.

Deitado, eu descansava como estava prescrito.
Planeava com os Gregos e fazia sortidas
Diárias com Heitor. Por fim, a minha cama
Transformou-se na tenda de Aquiles, à qual o rústico
Tersitas vinha relatar os inúmeros mortos.

Era eu próprio: sem estar sujeito ao fôlego de outro homem:
O meu único comandante era o inimigo.
E enquanto o cinturão pendia, a espada na bainha,
Tersitas surgia arrastando-se exausto,
Vociferando a morte do meu amigo Pátroclo.

Gritei pelas armas, ergui-me e não cambaleei.
Mas, quando o pensei, a ira da sua nobre dor
Subiu-me à cabeça e, voltando-me, senti
Que toda a minha ferida se abria. De novo
Tive de deixar sarar aqueles vales iluminados pela tempestade.


Thom Gunn
in A Destruição do Nada e Outros Poemas, trad. de Maria de Lourdes Guimarães, 
Lisboa: Relógio D'Água, 1993

domingo, 26 de julho de 2015

L de (A) Luz da Sombra (XLV)




[ID, 'O passado é um país estrangeiro', 25/07/015]

quarta-feira, 15 de julho de 2015

V de Vista para um saguão (V)




[Fotografia da Inês, exactamente um mês depois, sob o olhar atento da Lou e da Daisy]

quarta-feira, 8 de julho de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXVI)


"[...] O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Batman a chegar ao cruzamento, pouco depois das alminhas, defronte do cemitério. E o autor acompanhando, entretido com as imagens, como quem se liberta da sala onde escreve encarcerado, como se toda a liberdade do mundo convergisse num só ponto: o vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Lá vai Batman. Tira da algibeira um saco amarfanhado, um saco prontamente cheio, figos que depressa colhe à beira da estrada. O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Toca o telefone da sala. O autor ouve, não olha. Seus olhos são passos no caminho. [...]"


Vítor Nogueira, Amanhã logo se vê,
com capa de Adriana Molder e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Averno, 2015 




[ID, São Miguel, 26/06/015]

terça-feira, 7 de julho de 2015

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLVII)




PUZZLE


eu tenho uma tristeza chama-se desemprego

destrói corações esvazia os depósitos
quebra as flechas desse arqueiro que corre pelo bosques
e fecha os postos de correios
eu tenho uma tristeza de fábricas em ruína
                                                          uma tristeza
inútil como um puzzle como um mapa sem norte


Pablo García Casado, El Mapa de América,
Barcelona: DVD, 2001

[Fotografia e tradução: ID]

segunda-feira, 6 de julho de 2015

D de "Do outro lado do rio" - b






REQUIEM POR UMA AMIZADE


Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos.
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.

Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar da lama do tempo, para assim o podermos entender.

Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede-amigo do lado de lá.

Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.


Robert Schindel
in Telhados de Vidro n.º 11, trad. João Barrento,
Lisboa: Averno, 2008





[ID, 2/07/015]

P de Pele (II)




[ID, 4/07/015]

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A de Alegoria da Caverna




"Escrevo para não enlouquecer."




Vítor Nogueira, Amanhã logo se vê,
Lisboa, Averno, 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

W de Wild is the wind (X)




[Obrigada, Luis]

quarta-feira, 24 de junho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

C de "Cabeça, coração"


ROSTOS


Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito. 
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo. 
Baralho as outras cartas. 
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais. 


Jules Supervielle traduzido por Carlos Drummond de Andrade
in Poesia Traduzida, São Paulo, Cosac Naify, 2011

quarta-feira, 17 de junho de 2015

V de "Volto ao jardim"


PASSOS TRISTES


Voltando para a cama aos apalpões depois de mijar
Abro as espessas cortinas e sinto um sobressalto
Ao ver as nuvens velozes e a limpidez da luz.

Quatro da manhã: os jardins de sombras agrestes
Sob um céu cavernoso, espicaçado pelo vento. 
Há nisto tudo algo que faz rir, 

A lua a correr por entre as nuvens ralas
Como fumo de canhão acaba por se destacar
(Luz cor de pedra aguça as arestas dos telhados)

Elevada, insensata e solitária -
Pastilha do amor! Medalhão da arte!
Oh, lobos da memória! Imensidões! Não,

Virado lá para cima, sinto um leve arrepio.
Esse olhar tão singularmente duro e claro
Tão amplo, tão fixo e penetrante

Traz à memória a intensidade e a dor
De ser jovem; e recorda que nada disso vai voltar,
Mas existe plenamente, noutro sítio, para outros. 


Philip Larkin, Uma Antologia,
trad. Maria Teresa Guerreiro, Coimbra: Fora do Texto, 1989

terça-feira, 16 de junho de 2015

B de Bartleby


segunda-feira, 15 de junho de 2015

C de Coração arquivista (III)


CABEÇA, CORAÇÃO


O coração chora.
A cabeça tenta ajudar o coração.
A cabeça diz ao coração como são as coisas, outra vez:
Vais perder quem amas. Todos se irão. Até a Terra se irá, algum dia.
O coração sente-se melhor, então.
Mas as palavras de cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.
É tudo muito novo para o coração.
Eu quero-os de volta, diz o coração.
A cabeça é tudo o que o coração tem.
Ajuda, cabeça. Ajuda o coração.


in Contos Completos, trad. Manuel Resende, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (III)



[Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932]



ATENÇÃO


ATENÇÃO   as aranhas percorrem a cidade 
os vermes infiltram-se   Deus não pára de morrer
Exaustivamente a noite despe-se para o amor 
sujo   baleado   sinistro
Os assassinos rodeiam a mesa de oiro 
pesados de ódio   metálicos   podres
e as múmias falantes completam o seu dia

Estamos cercados de postes 
devorando automóveis   telégrafos
a minha ternura é este avião que passa
este cigarro de treva e limo
Nascemos (ouve-me bem) para alimento da noite 
sem outra voz senão veneno
porque entre os vidros e o horizonte
são doidos e lívidos os sonhos que restam

Chegaram panteras escarlates a moer raiva 
amantes aterrorizados   horas    precipícios
e nem uma pequenina flor ou uma praia
ou um leito para estendermos os cabelos

Só a miséria destas noites    o cansaço deste tempo

E o MAR   entre fumo e chuva 
o AMOR dissolvido sob uma campânula   a VIDA


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, Sintra, Maio 011]

domingo, 14 de junho de 2015

P de (Os) Pássaros em Volta (IV)




[ID, '13 de Junho de 2011' - 2015]



sexta-feira, 12 de junho de 2015

M de 'Memory of a bird' (II)




[ID, 'Memory of a bird', 06/015]

M de 'Memory of a Bird'




[Paul Klee, 1932]

quinta-feira, 11 de junho de 2015

D de Dansa (VI)


"The picture that changed everything? When I fell in love with Sabine and she taught me how to dance. After that moment, I stopped taking pictures to prove anything or to be daring. After that moment, I started taking pictures out of love and curiosity. After that moment, I started dancing. [...]"

domingo, 7 de junho de 2015

R de (O) rio da minha aldeia






[...]

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

[...]


in Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009





[ID, Santarém / Julho 010]