sexta-feira, 15 de janeiro de 2016


Escrever é um acto de amor. Se não o for, não passa de escrita. Consiste apenas em obedecer ao mecanismo das plantas e das árvores e em projectar esperma a toda a nossa volta. O luxo do mundo está na perda. [...]

Não devemos existir em espectáculo. Quanto mais se enganarem a nosso respeito, quanto mais nos cobrirem de histórias, mais isso nos abriga e nos ensina a viver em paz. O que somos nos outros não representa nada para nós. 

[...]


Jean Cocteau, Le foyer des artistes,
Paris: Librarie Plon, 1958
[Trad. ID]





Berenice Abbott, "Les mains de Jean Cocteau", 1927

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O de "O mar, o mar" (VIII)


"Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz."


Cesare Pavese
in A Praia, trad. de Alfredo Margarido,
Lisboa: Portugália, s/d

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLII)





X


     E se o vento varrer as fôlhas sêcas sem deixar nenhuma?
     Este Outomno ela não guardará fôlhas dentro dos livros
     e ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
     e ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo no Inverno, à chuva, atrás dos vidros


António Barahona, Noite do Meu Inverno (Segundo Tômo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias, fotografia de Teresa Santos e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2016





[ID, Nazaré, 02/013]

sábado, 9 de janeiro de 2016

A de Anomalia Poética (VII)






[ID, Lisboa, Abril 2015 | Janeiro 2016]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

T de Teologia (III)



"[...] Então, todos veriam as coisas que eu via - o grão tosco da madeira nas tábuas do soalho, as janelas de vidro que emolduravam os ramos esguios das árvores e o céu carregado de neve -, ao mesmo tempo que desapareceria a dor ansiosa e estranha que a simples vista das coisas bastava para causar. [...]"

*

"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."


Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

B de Bibliografia





quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - V b


a janela de linho, a toda leve
a luz branca que esconde o que ilumina
o corpo debruçado, atento, agreste;
um rádio sobre a mesa, antigamente,
a laranja que mata de doirada,
a noite que fica doendo o dia;

o lugar que te coube, inabitável,
em troca de navios sulcando longe
a estrita rota nunca calculada;
o amor aos telefones, aos sinais
lidos em corpo mudo;
o fundo das florestas, onde vive

o mais-que-humano, e nos aguarda, alheio
à breve comoção que nos separa;
a raiva de saber que proibidos
nos foram a razão e os sentidos;
a chuva que nasceu na madrugada;
a passagem do ar, a nuvem fina.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE




[ID, Santarém, Janeiro de 2013]

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XXI)





I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

But I believe in love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

domingo, 3 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XX)



[ID, Lisboa, 02/01/016]



III.

Well, so that is that.
Now we must dismantle the tree,
Putting the decorations back into their cardboard boxes -
Some have got broken – and carrying them up to the attic.
The holly and the mistletoe must be taken down and burnt,
And the children got ready for school. There are enough
Left-overs to do, warmed-up, for the rest of the week -
Not that we have much appetite, having drunk such a lot,
Stayed up so late, attempted – quite unsuccessfully -
To love all of our relatives, and in general
Grossly overestimated our powers. Once again
As in previous years we have seen the actual Vision and failed
To do more than entertain it as an agreeable
Possibility, once again we have sent Him away,
Begging though to remain His disobedient servant,
The promising child who cannot keep His word for long.
The Christmas Feast is already a fading memory,
And already the mind begins to be vaguely aware
Of an unpleasant whiff of apprehension at the thought
Of Lent and Good Friday which cannot, after all, now
Be very far off. But, for the time being, here we all are,
Back in the moderate Aristotelian city
Of darning and the Eight-Fifteen, where Euclid’s geometry
And Newton’s mechanics would account for our experience,
And the kitchen table exists because I scrub it.
It seems to have shrunk during the holidays. The streets
Are much narrower than we remembered; we had forgotten
The office was as depressing as this. To those who have seen
The Child, however dimly, however incredulously,
The Time Being is, in a sense, the most trying time of all.
For the innocent children who whispered so excitedly
Outside the locked door where they knew the presents to be
Grew up when it opened. Now, recollecting that moment
We can repress the joy, but the guilt remains conscious;
Remembering the stable where for once in our lives
Everything became a You and nothing was an It.
And craving the sensation but ignoring the cause,
We look round for something, no matter what, to inhibit
Our self-reflection, and the obvious thing for that purpose
Would be some great suffering. So, once we have met the Son,
We are tempted ever after to pray to the Father;
“Lead us into temptation and evil for our sake.”
They will come, all right, don’t worry; probably in a form
That we do not expect, and certainly with a force
More dreadful than we can imagine. In the meantime
There are bills to be paid, machines to keep in repair,
Irregular verbs to learn, the Time Being to redeem
From insignificance. The happy morning is over,
The night of agony still to come; the time is noon:
When the Spirit must practice his scales of rejoicing
Without even a hostile audience, and the Soul endure
A silence that is neither for nor against her faith
That God’s Will will be done,
That, in spite of her prayers,
God will cheat no one, not even the world of its triumph.


- W. H. AUDEN, "Christmas Oratorio"

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XIX)




Feliz Ano Novo.
[ID, Lisboa, 31/12/015]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

(O) Jardim e a Casa (XX)


o teu rosto, o desenho pouco a pouco devorou-o:
o vento que interrompias com o riso
é agora um sopro interminável
onde as roseiras se tornam transparentes.
Não te percas no jardim como um deus esquecido
nos lábios dos mortos, não desfaças a estação
do rigor que parece eternidade: ainda a manhã
não transformou a geada num resíduo da luz,
na casa vacilante que abriga os meus passos.
Quando te chamo esconde-se no teu nome
a minha ausência


Rui Nunes
in Antologia Crítica e Pessoal, coord. Annabela Rita,
Lisboa, Roma Editora, 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E de Espanta-espíritos


Uma árvore de Natal minimalista.
Com votos de boas festas e melhores ventos.




[ID, Lisboa, 12/015]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

E de Espera (XL) _ 4.º Domingo do Advento





PARDAL DE NATAL


A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente -

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até à ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos,  maçãs de loiça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014



[ID, 02/05/012]

domingo, 13 de dezembro de 2015

E de Espera (XLII) - 3.º Domingo de Advento





"Tenho recordações de que não me lembro: são as mais belas."

- MARIA GABRIELA LLANSOL





[ID, Londres, 11/015]

P de (The) Privacy of Rain (XXXVII) - e de como os amigos nos protegem.




[ID, Vila Real, 03/11/12]



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

E de Espera (XIX)


PEQUENOS VIDROS AZUIS


Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último –
   e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
   – as velas de um sopro apagou –
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de Dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.


João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros,
Lisboa: Relógio D’Água, 2011




[ID, Nazaré, 08/10/11]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

N de "No princípio era o nevoeiro" *






[ID, Lisboa, 06/12/015]


* Ana Teresa Pereira

domingo, 6 de dezembro de 2015

E de Espera (XLI) - 2.º Domingo de Advento


V.

este rastilho
a linha mais recta
para o verão


Anónimo, Fósforos,
Porto, Edições 50kg, 2015




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

I de Incipit



[ID, Santarém | 2012]




João Barrento, Como um hiato na respiração - Diário do dia seguinte,
Lisboa, Averno, 2015




Manuel de Freitas, Incipit,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XLI)


"Era o tempo em que ainda acreditávamos em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço. [...]"

- Ana Teresa Pereira, Neverness,
Lisboa, Relógio D'Água, 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

E de Espera (XXV) - 1.º Domingo de Advento



Benjamin Katz, "Painter Gerhard Richter in his studio", 1991




Gerhard Richter, 1983

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

H de Heathrow Express (II)




[ID, Londres, 11/015]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

H de Heathrow Express


ACROBACIAS


sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferias perder
(esta ablação em língua estrangeira
torna-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ia
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me 
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos 
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.


Ana Paula Inácio, 2010-1011,
Lisboa, Averno, 2011



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VIII)


GREVE GERAL


Nesta sede de
poder sem medida
gostaria de ter
um banco
e a fronde 
de uma árvore.
Uma me bastaria:
raiz, e ramagem
puxada para os céus.
Banco com a dureza
mineral do carbono:
caroço universal - 
um punho cerrado.
E depois quebrar
as regras, capaz de
fechar os olhos
sob o interdito 
dessa frescura
sã crepuscular.
Inclinar aí a cabeça 
sobre o peito,
sem alerta, e sentir, 
invasivo, o spread 
das sementes.


Paulo da Costa Domingos, «Voici la poésie ce matin 
et pour la prose il y a les journaux», 
Lisboa, Averno, 2014





[ID, 'Longe da aldeia', 02/013]

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (II)





Três livros preferidos de cozinha:

Inês de Ornellas e Castro (int., trad. e comentários), O Livro de Cozinha de Apício - Um Breviário do Gosto Imperial, Lisboa, Relógio D'Água, 2015

Eihei Dogen, Tenzo Kiôkun - Instruções para o Cozinheiro Zen, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

Manuel Vázquez Montalbán*, Las Recetas de Carvalho, 2.ª ed., Barcelona, Planeta, 2005





* A quem pertence a frase que serve de título ao post. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

a de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (II)


Reconheces a força animal
da folha descendo, ave, em redor
do seu eixo. Em cada noite
os gestos de ver trazem-te 
inquietude, contas as telhas que faltam
e a lanterna aponta ruídos. 
Morreram dois peixes
nessa luz e outra moléstia
abre o outono, lançasses
o ácido às camélias e logo
havias de ver a falsa cor do céu.
A folha que desce é uma asa
no caminho da seda interior
da terra. Ou os teus dedos compondo
a feroz razão de uns enxertos.


Helder Moura Pereira
in AAVV, Dep. Leg. n.º 23571/88,
Lisboa, Frenesi, 1988




[ID, Jardim Constantino, 06/04/2011]

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A de Aniversário (XIV)


Sob a água
vê-se: Inês
posta em sossego,
pedacinhos de ossos.
Olha, aquele rapaz...
o seu corpo é apenas o estojo
duma jóia: ele tem os olhos de Inês.


José António Almeida, António Nogueira,
Lisboa, Edição do Autor, 1984




[ID, 'God is in the details', Madrid 015]

sábado, 7 de novembro de 2015

T de Tempo Sem Tempo (XVI)

     A torrente da multidão queria arrastar-me. As luzes verdes à esquina das ruas ordenavam-me que atravessasse. O polícia sorria a convidar-me para que caminhasse por entre os pregos de cabeça prateada. Até mesmo as folhas de Outono obedeciam à enxurrada. Eu, porém, apartei-me dela, como um objecto extraviado. Desviei-me e parei ao cimo das escadas que descem para os Cais. Lá em baixo deslizava o rio. Um rio diferente da torrente de que eu me separara formada por peças dissonantes que se chocavam com aspereza, movidas pela avidez e pelo desejo.
     Corri pelas escadas abaixo em direcção ao molhe - os ruídos da cidade recuavam à medida que eu descia, as folhas murchas refugiavam-se aos cantos dos degraus sob o vento das minhas saias. Ao fundo das escadas deitavam-se os marinheiros naufragados da torrente das ruas, os vagabundos que se tinham afastado da multidão, que se haviam recusado a obedecer. Tal como eu, a uma dada altura do trajecto, separaram-se, e ei-los ali estendidos, náufragos, no sopé das árvores, a dormirem ou a beberem. Tinham abandonado o tempo, as riquezas, o trabalho, a escravidão. Caminhavam e dormiam contra o ritmo do mundo.  [...]
      
Anaïs Nin, "A Casa Fluvial"
in Debaixo de uma redoma, trad. de Maria Ondina Braga,
Lisboa: Vega, 1986




[ID, 'Lisbon revisited', 2015]

domingo, 1 de novembro de 2015

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25

sábado, 31 de outubro de 2015

P de "... pero que las hay"


como las brujas
voy vestida de cielo



ANALÍA MARCHESANO
in La luz que no da tregua, Puntal del Este: Trópico Sur Editor, 2015




[ID, Novembro 2008]

T de Tratado de Pedagogia (LXVI)


15 de Maio de 2006


Ensinar, escrever, cantar, compor música, levá-la à soleira da porta para que ela receba o sol, são actos de amor. 
Não deixar estropiar o ensino, a escrita, o canto, a composição da música que se leva à soleira da porta para que receba a transparência da lua, são actos de protecção amorosa _____
[...]


Maria Gabriela Llansol, O Azul Imperfeito - Livro de Horas V (Pessoa em Llansol)
org. Maria Etelvina Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2015

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

I de "I want to ride my bike" (VII)


     "O anjo: eternidade após eternidade a guardar cadáveres, segurando-lhes a trela, deixando-os entrerroer os ossos. [...] 
    O anjo: eternidade após eternidade a oficiar a resistência, atiçando o lume nos olhos dos que ainda aprendem a amar aquilo que se lhes recusa. Para eles, o sonho, não o sono, é um lobo entre dois ataques. Emboscado sem horários, dias úteis, tréguas. Sem medo. Sem abdicar de ser inquieto e convulso, que é o mesmo que dizer vivo e poético. Respeitando o círculo das trevas, espreitando o sinal do pássaro do terror, seguindo convictamente o seu assassino como se um fio lhe prendesse cada nervo aos arrepios da cegueira, aos pregos na voz. Os últimos dos últimos, escreveriam; os verdadeiros toureiros, os funâmbulos.
     Pobre anjo. De paciência destelhada, contempla o seu rebanho de cadáveres. Nunca se sentiu tão mal acompanhado. E nós tão sós, neste mundo de sombras ocupadas a repisarem a nossa sombra, às escuras." 


Inês Dias
in Cão Celeste n.º 2, Lisboa, Outubro de 2012




[Josef Koudelka, Czechoslovakia, 1968
 © Josef Koudelka/Magnum Photos]

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

P de (Po)ética - LVI


VIDA AÉREA


o quanto você quer, me diga, com frio na barriga,
proclamar norte onde seu nariz aponte, se livrar do
que não interessa, com força, abrir a cabeça, meter pés
pelas mãos, com pressa, não importa, sentar no escombro
ombro a ombro com a obra, me diga me diga, com frio
na barriga, quanto tempo perdido, quantos reais no bolso,
quantos livros não lidos, quantos minutos de espera,
quantos dentes cariados, me diga o quanto você quer tudo isso
e para onde quer que envie, se você quer que embrulhe


Angélica Freitas, Rilke Shake
Lisboa, Douda Correria, 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

T de "The days grow short" (XI)


6.


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.


in Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Coimbra, Janeiro 014]

terça-feira, 27 de outubro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XL)



[ID, S. Miguel, 06/015]



[...]

Nada poderá trazer um navio de volta
a este porto prometido às trevas
e ao visco.
No jardim que deixámos para trás
(e lembra hoje uma única teia de tamiça e estopa)
cresceram as luzes da visitação

Não seguimos o rio, não iremos juntos.
Só damos de nós o que jamais
poderão ver

[...]


Luis Manuel Gaspar, Lvminaria, 2.ª ed. revista, 
com capa de José Escada e arranjo gráfico de Inês Mateus, 
Lisboa, Alambique, 2015




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/007]

domingo, 25 de outubro de 2015

P de Postais - V b



ESTÁTICA


A tempestade sacode as suas bátegas
contra a janela anoitecida:
o vidro estremece sob o granizo lançado.
Desengonçada, a televisão perde o controlo,
esvai-se em preto e branco,
depois em silêncio, enquanto as linhas descem.
Os postais dela agitam-se na prateleira, caem;
as luzes de Calais apagam-se uma por uma.

Ele não lhe pode contar
que os gansos regressam ao crepúsculo,
que o farol passeia a sua luz
por entre as trincheiras do mar.
Ele não lhe pode contar que a vasta noite
desliza como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela é a chave.



Robin Robertson, A Painted Field
Londres: Picador, 1997
[Trad. Inês Dias]



[Inês Dias, Nazaré 013]


Estar não faz mal nem bem. Ser chave e fechadura,
ser aquele que se perdeu no atalho dos dias. Depois,
é só fazer de conta que tudo vai bem. Depois,
é só acreditar no pior.



Rui Baião, Rude,

Lisboa: Averno, 2012

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

P de...


Lembrei-me ontem, por volta das 20h, de algo que reli há pouco tempo:


219

Era uma vez um homem elástico. Quando era preciso que ele passasse através duma porta mal aberta esticavam-no em comprimento e ele passava. Não era preciso abrir mais a porta. Quando ao deitar-se, se a cama fosse curta encolhiam-no, ele dava em largura e assim estava sempre tudo certo. Este mito, que deu origem ao verbo procrastinar, há muito que é conhecido dos portugueses. 

- ANA HATHERLY

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXIII


249

Olho-te e penso naquele poeta que fala da loneliness of much beauty. Quantas vezes nos sentimos extraordinariamente sós embora sentindo-nos felizes. O amor é impossível mesmo quando possível. 


Ana Hatherly, 463 Tisanas,
Lisboa, Quimera, 2006





[Fotografia de José Francisco Azevedo,
na capa de Rainer Maria Rilke, Nota sobre a melodia das coisas, 
Lisboa, Averno, 2011]

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

N de 'Nous deux encore' - V b


Tinham nascido iguais aos outros
e tinham decidido após alguns anos
continuar a ser iguais.
Falariam até de madrugada sem pensar
que o seu filho herdaria esse costume.

Iam tornar-se insones e conquistar tudo.
Iam sair de casa ao amanhecer,
à hora em que os amantes
resistem à primeira luz e se reconhecem.
Iam estar prontos para chegar a tempo
às grandes conversas que começam
em muitos pontos da cidade todas as manhãs.
Tinham a absoluta certeza
de se estarem a amar num tempo diferente deste.

Tudo o que se dizia sobre o país lhes interessava,
registavam-no e conseguiam nomeá-lo
antes de se entregarem um ao outro.
Iam ser a primeira falta de educação.
Iam trazer um filho ao mundo
para que as esperanças colocadas neles
já não fossem reais.

Deixariam o seu amor no ponto mais belo
em que uma história de amor alguma vez ficou.
Iam sempre precisar de mais um dia
para saber o que fazer com a sua vida
e sempre, como uma excepção, lhes seria concedido.


Pablo Fidalgo Lareo, Os meus pais: Romeu e Julieta,
trad. Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015

N de 'Nous deux encore' (V)




[ID, 'Nous deux encore', 19/10/015]

domingo, 18 de outubro de 2015

C de "celui qui regarde une fenêtre fermée" (IV)


INFÂNCIA


I

Terra
sem uma gota
de céu. 


II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério. 

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.


III

Transmutação 
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.


IV

Chamo
a cada ramo 
de árvore 
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia. 


V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa

porque eu quis,
desmorona-se e cai.


VI

Céu
sem uma gota 
de terra.


Carlos de Oliveira
in A Perspectiva da Morte, sel. de Manuel de Freitas,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009




[ID, Lx, ontem]

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXVIII)


AS ANDORINHAS


I

     Dão-me a minha lição de cada dia.
     Pontuam o ar de pequenos gritos.
     Traçam uma linha recta, põem uma vírgula no fim, e, bruscamente, mudam de linha.
     Colocam entre loucos parênteses a casa onde moro.
     Ascendem da cave até às águas-furtadas, demasiado velozes para que no tanque do meu quintal fique uma cópia do seu voo.
     Com uma pluma de asa ligeira, dão forma a inimitáveis rubricas.
     Depois, aos pares, abraçadas, juntam-se, misturam-se, e são um borrão de tinta sobre o azul do céu.
     No entanto, só um olhar amigo pode segui-las, e se o leitor sabe grego e latim, eu sei ler o hebreu que no ar escrevem as andorinhas-das-chaminés.

[...]


Jules Renard, Histórias Naturais,
com tradução de Carlos Pombo e ilustração de Maria João Worm,
Lisboa, Quarto de Jade, 2015



[Tiragem: 50 exemplares numerados]

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXVII)


Era um país, um corpo,
uma cidade de ossos
calcinados, onde nem cães
metiam o dente.

E o corpo é um cristal lívido
no centro d'uma praça, deportado,
límpido, onde nem os homens
se atrevem.

A cidade aposta-se toda
na espessura do sono, na
candura banal, vulgar,

do país em ruína: impaciente.


Paulo da Costa Domingos, Cal,
com prefácio de Vitor Silva Tavares,
Lisboa, Averno, 2015



terça-feira, 13 de outubro de 2015

domingo, 11 de outubro de 2015

P de Poética - LV b


LARGO 2 DE MARÇO


para a Inês Dias


o largo tinha tanto.
o largo tinha tudo.

à noite o largo não era escuro,
e eu tinha as mãos de meu pai
a contar-me, pelos dedos, a luz do dia seguinte.

o largo ficou cheio de tempo,
e sem um sorriso para gastar.

já não há nenhum mistério
na Casa das Palmeiras.
a morte não gosta de palavras com quatro sílabas,
prefere o pó.


Emanuel Jorge Botelho, Fecho as cortinas, e espero,
 Lisboa, Averno, 2014





[ID, Casa das Palmeiras, 06/015]

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

S de "Solo se pierde lo que no se ama" (IV)




John Ashbery
in Uma Onda e Outros Poemas,
trad. colectiva (Mateus, Junho de 1991), Lisboa: Quetzal, 1992

R de Regresso ao Trabalho - XLVIII b


Ouvida ontem, no Teatro Maria Matos
a várias vozes e a vários tempos:




[...]
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
[...]

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

B de Biorritmo (CLVII)


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A de "A propósito de andorinhas" (III)


Ontem, o concerto do grupo Hirundo Maris começou assim:




Anima nostra, 
sicut passer, 
erepta est 
de laqueo 
venantium

sábado, 3 de outubro de 2015

S de Santa Cruz - XI c




[Uma poética - ID / 2011]

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

S de 'Solo se pierde lo que no se ama." (III)


"Magoar alguém é um acto de intimidade relutante."




Hanif Kureishi, Intimidade,
trad. Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2015