sexta-feira, 4 de março de 2016

quinta-feira, 3 de março de 2016

A de Altar (V)




[ID, 'Bons caminhos', Lisboa | 2016]

quarta-feira, 2 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII c


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar do céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.


JEAN GENET
in Yukio Mishima, GENET seguido de O CONDENADO À MORTE de Jean Genet,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena, 1986

terça-feira, 1 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII b




[ID, Coimbra 2013]

T de Tempo Sem Tempo (XVIII)


Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de agosto de 2011
não dá para tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão  se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo a atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.


António Amaral Tavares, Talvez seja essa certeza,
Coimbra: Medula, 2014

domingo, 28 de fevereiro de 2016

D de (Des)obediência (II)



[ID, Guimarães, 2013]



[ID, Beja, 2014]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVIII)


No fundo, talvez ele [Emerson] esteja muito perto de Pickpocket de Bresson: ter viajado tanto para chegar àquela que esteve sempre ao seu lado, chegar ao mais próximo de si, obedecer às intimações da proximidade. É que a exigência de viver no presente - e, portanto, acima do tempo ou no seu coração mais secreto - é a condição do esclarecimento de que a alma não é viajante: "onde ela se encontra, encontra-se o dia" (p. 37). A alma é luz: cada ser basta-se a si próprio se responder às "exortações para ficar em casa, para entrar em comunhão com esse oceano interior". Não ter contratos mas proximidades, agora citando a passagem completa: "Que cada um saiba que, doravante, não obedeço a nenhuma lei senão a eterna. Não quero outras obrigações senão as da proximidade" (p. 44). A lei eterna é a de considerar e aceitar tornar-se aquilo que se é, sem uma noção teórica disso que se é [...].
Aquele que viaja para se divertir, ou para obter uma coisa que não traz consigo, viaja para se afastar de si próprio e envelhece mesmo sendo jovem: eis o estilhaçamento da temporalidade própria de cada um: aquele que vai ter com as ruínas ancestrais, sem ter mais nada para dar a não ser o vazio da sua curiosidade, acrescenta ruínas às ruínas.


- Maria Filomena Molder
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVII)


"Por conseguinte, ao fazer a introdução a um discurso sobre as 'coisas mínimas' e sem história, não sabemos resistir à tentação de cobrir os nossos ombros com um recurso à história, pedindo emprestadas as palavras de quem considerou ser digno discorrer sobre 'as humildes e baixas matérias': 'É de tamanho vilipêndio a mentira que - escrevia Leonardo -, mesmo quando diz bem de coisas de Deus, retira graça à sua divindade, e é de tamanha excelência a verdade que, mesmo quando louva as coisas mínimas, estas se tornam nobres; e tem a verdade em si tamanha excelência que, ainda que se aplique às humildes e baixas matérias, excede sem comparação as incertezas e as mentiras aplicadas aos grandiosos e altíssimos discursos... Mas tu, que vives de sonhos, agradam-te mais as razões sofísticas e os logros dos embusteiros sobre as coisas grandes e incertas, do que as certas e naturais e não tão elevadas.'"


- Leonardo da Vinci citado por Umberto Eco
in Apocalípticos e Integrados,
 Lisboa, Relógio D'Água, 2015

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

M de "(O) Mundo Inteiro" (II)


[...]
O companheiro lançou uma risada seca:
- Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.

[...]


José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
5.ª ed., Lisboa: Moraes, 1977





[ID, Estádio, 11/013]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XV)


EL VERBO


En el principio era el verbo
y el verbo no era dios
eran las palabras
frágiles transparentes y putas
cada una venía con su estuche
con su legado de desidia
era posible mirarlas al trasluz
o volverlas cabeza abajo
interrogarlas en calma o en francés
ellas respondían con guiños cómplices y corruptos
qué suerte unos pocos estábamos en la pomada
éramos el resumen la quintaesencia el zumo
ellas las contraseñas nos valseaban el orgasmo
abanicaban nuestra modesta vanidad
mientras el pueblo ese desconocido
con calvaria tristeza decía no entendernos
no saber de qué hablábamos ni de qué callábamos
hasta nuestros silencios le resultaban complicados
porque también integraban la partitura excelsa
ellas las palabras se ubicaban y reubicaban
eran nuestra vanguardia y cuando alguna caía
acribillada por la moda o el sentido común
las otras se juntaban solidarias y espléndidas
cada derrota las ponía radiantes
porque como sostienen los latinoamericanos del boul mich
la gran literatura sólo se produce en la infelicidad
y solidarias y espléndidas parían
adjetivos y gerundios
preposiciones y delirios
con los cuales decorar el retortijón existencial
y convertirlo en oda o nouvelle o manifiesto
las revoluciones frustradas tienen eso de bueno
provocan angustias de un gran nivel artístico
en tanto las triunfantes apenas si alcanzan
logros tan prosaicos como la justicia social

en el después será el verbo
y el verbo tampoco será dios
tan sólo el grito de varios millones de gargantas
capaces de reír y llorar como hombres nuevos y mujeres nuevas

y las palabras putas y frágiles
se volverán sólidas y artesanas
y acaso ganen su derecho a ser sembradas
a ser regadas por los hechos y las lluvias
a abrirse en árboles y frutos
a ser por fin alimento y trofeo
de un pueblo ya maduro por la revolución y la inocencia.


MARIO BENEDETTI

sábado, 13 de fevereiro de 2016

F de Fazer Fotografia (LIX)


"No dia 5 de Maio de 1938, Antonia oferece a Dino um maço de fotografias acompanhadas de um bilhete que então pareceu enigmático ao destinatário:

Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.
Antonia."


in Antonia Pozzi, Morte de Uma Estação,
pref. de José Carlos Soares,
Lisboa: Averno, 13 de Fevereiro de 2012
(dia em que a autora cumpriria 100 anos)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

P de "Pelos caminhos da manhã" (VII)


[...]
Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados de melancolia não encontravam quem os entendesse. O ambiente tentou manter com eles um diálogo negro. Tud...o em volta se assemelhava à escavação de um túmulo. Outros olhares podiam assustar-se, vendo como desciam águas novas pelas escarpas quebradas em degraus. Pensariam que se configurava, nessa fundura, o que um cadáver pode ver, se acaso vê pelas pálpebras cerradas: as paredes de barro e um céu distante. Não o olhar de Gabriel e de Lizzie que era o de quem acaba de nascer e sofre o choque da respiração. O Old Roar Gill aconselhava a que morressem nesse mesmo instante, mas eles não entendiam o conselho.


Hélia Correia, Adoecer,
Lisboa, Relógio D'Água, 2010



[ID, Londres, 2014]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" (IX)




Eduardo Guerra Carneiro, Isto anda tudo ligado,
2.ª ed., Lisboa, Fólio Exemplar, Outubro de 2015 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

P de Poética (XXIX)


O TROY É UMA INSTITUIÇÃO E NEM SEQUER PEDE
e assim acaba por ser um mendigo absentista, impróprio.
Dizem que só no carnaval estende a mão
como os outros põem a sua máscara.
Mas em janeiro, que é o mês das chuvas
e o Passeio Marítimo uma espécie de frontão do mar,
ou em agosto ou julho quando tudo está em festa
e até fevereiro regressa com o som dos seus foliões
e os churrascos na praia são
como sinais votivos de um povo milenar,
o Troy limita-se a falar sozinho da sua estrela
desorbitada, fala ou tagarela sem redenção ao vento
e contra o vento de levante expõe
a sua barba como um deus repudiado e rebelde,
e vai de um lado para o outro no semáforo,
sempre de um lado para o outro perseguindo o esquecimento.
Por muito amar, muito perdeu, comentam,
e agora é a sua liberdade contra a memória.
Sempre de um lado para o outro com a sua barba
e o seu casaco em agosto porque todos os caminhos
levam à desilusão.
                               A tristeza é a luz
da loucura ou esta talvez a sombra da dor,
mas a nossa alegria, a dos homens lúcidos,
é a insanidade com método, ou o código que ensina
a esquecer a impostura. Os loucos dão festins
surreais e os lúcidos festins com o sangue
dos nossos semelhantes: guerra, guerra,
e a loucura não consta muitas vezes
como forma de autodestruição.
O Troy carrega uma dívida no pensamento.
O Troy, que foi ferido por uma má carícia.
Tem uma lua desbocada no cérebro, uma maré.
por isso mesmo passa o dia atravessando no semáforo.
Tal como o vinho, tomada em grandes doses só
a loucura entorpece o seu dom caritativo.
Ah, querido, grande Novalis, a poesia cura
as feridas melancólicas da razão.
O Troy, como o mar, de um lado para o outro
do Passeio Marítimo.
                                   Começa-se por ser um deus,
um amante ardente, e acaba-se como louco
que, se pede esmola, a pede ao passado.


António Hernández, O Mundo Inteiro,
trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012





Izis Bidermanas, Carnaval de Nice, 1956

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


O SENTIDO DA SIMPLICIDADE



Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de Agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para este encontro,
ela insiste, a palavra. 


Yannis Ritsos traduzido por Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1980





[ID, Bartleby, 2012]

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

N de "No fundo, é isto" (VI)


Se nos encontrarmos, um dia, eu e a mulher, e ela me perguntar o que mais me importa, dir-lhe-ei que de sobremaneira me importa viver, vencer a morte, e saber se se confirma que só o amor é maior do que esse colapso. Gostaria que, nesse momento, nos reconhecêssemos textuantes, gente que, no mistério da realidade, não tem necessariamente muito a partilhar salvo esse pequeno diálogo que transportamos de lugar em lugar.


Maria Gabriela Llansol, Parasceve
Lisboa, Relógio D'Água, 2001

J de "Jardins sous la pluie" (IV)




[ID, 'Lisbon revisited', 25/01/016]

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

T de Tratado de Pedagogia (LIII)


NUMA SALA DE AULA


Falando de poesia, carregando com os livros
às braçadas até à mesa onde as cabeças
se curvam ou olham para cima, escutando, lendo em voz alta,
falando de consoantes, elisões,
cativas do como, esquecidas do porquê:
olho para a tua cara, Jude,
que não franze o sobrolho nem acena que sim,
opaca na obliquidade das partículas de pó sobre a mesa:
uma presença como uma pedra, se uma pedra pensasse
O que não posso dizer, sou eu. Para isso vim.


Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem,
Lisboa: Cotovia, 2008

domingo, 24 de janeiro de 2016

F de Fazer Fotografia (XLVIII)


partiu-se o pote de barro esférico _______ para flores, aspidristas, sobretudo, com relevo de ramo e pássaro. Era belo. Mas, quando olhou para o lugar vazio que deixara, principalmente a auréola de sujo que corroera o verniz do sobrado, a mulher reparou que os seus cacos formavam no chão um pregueamento de extrema beleza. A própria terra do vaso não destoava, nem as aspidristas pareciam sofrer com o sucedido. Em vez da irritação que deveria ter sentido, e a teria obsessivamente levado a repor rapidamente o quadro anterior, ficou de pé, hesitante, a cismar sobre o significado de ter sido liberta de "um" belo inferior que, até àquele momento, considerara como perfeito. [...]

Apenas não reparou que acabara de mudar de vida.


Maria Gabriela Llansol, Parasceve,
Lisboa, Relógio D'Água, 2001



*



«He loved beauty that looked kind of destroyed.»


Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Rui Pires Cabral, Oráculos,
Lisboa, Averno, 2009

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (V)


NOTÍCIAS DO DILÚVIO II


Desde que a razão governa em todos
os domínios da alma,

a névoa e a velhice cobrem o mundo,
são farrapos os sonhos e há vermes
no pão da vida.

Com escombros do céu construímos as nossas casas.
Baptizamos os filhos
numa nascente de cinza, e porque
já nada nos distrai,

só as drogas preenchem os minutos
do nosso aborrecimento.

                                        Avançamos 
para a destruição?

                              Vejo sinais
funestos, vejo os últimos
archotes deste sonho,
                                  e que 
difícil de cantar é a alegria.


José Mateos, Cantos de vida y vuelta, 2013
[Trad. ID]

domingo, 17 de janeiro de 2016

E de Espera - XXV b


Sábado, 21 de dezembro de 2013

Não sei quando voltarei ou se voltarei a frases assim vinculadas a uma ordenação temporal. Talvez. As palavras entendi-as sempre como um favor. Por isso gosto tão pouco de falar. Espécie de fruto da terra, respiramo-las. Entrego-me a elas para que rompam na escrita o meu silêncio. Melhor seria mesmo dizer, para que irrompam do seu silêncio.
Chegou a noite mais longa. A lareira está acesa. A noite, percorro-a entre o escuro das árvores pelos caminhos do bosque, é um ramo vivo de tristeza sob o negro.


João Miguel Fernandes Jorge, O Bosque,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Regresso a casa, Novembro 015]



*



[...]
Tudo se passa sempre como aquela menina de que nos fala Sartre. (Nunca me cansei dessa imagem.) Saía, pé ante pé, do seu jardim e fechava atrás de si a cancela, para depois regressar, sem o menor ruído, só para ver como era o jardim na sua ausência. Richter fala-nos, numa sua pintura, de uma figura feminina em tudo semelhante a esta: está sentada num canal de uma das ilhas de Veneza. Olha a distância. Todavia, o seu olhar não vai além do braço de mar sobre o qual os seus pés balançam. Vê a Veneza da sua ausência. [...]


João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

P de (The) Privacy of Rain (XIX)




[ID, "Pelos caminhos da manhã", 15/01/012]


Escrever é um acto de amor. Se não o for, não passa de escrita. Consiste apenas em obedecer ao mecanismo das plantas e das árvores e em projectar esperma a toda a nossa volta. O luxo do mundo está na perda. [...]

Não devemos existir em espectáculo. Quanto mais se enganarem a nosso respeito, quanto mais nos cobrirem de histórias, mais isso nos abriga e nos ensina a viver em paz. O que somos nos outros não representa nada para nós. 

[...]


Jean Cocteau, Le foyer des artistes,
Paris: Librarie Plon, 1958
[Trad. ID]





Berenice Abbott, "Les mains de Jean Cocteau", 1927

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O de "O mar, o mar" (VIII)


"Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz."


Cesare Pavese
in A Praia, trad. de Alfredo Margarido,
Lisboa: Portugália, s/d

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLII)





X


     E se o vento varrer as fôlhas sêcas sem deixar nenhuma?
     Este Outomno ela não guardará fôlhas dentro dos livros
     e ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
     e ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo no Inverno, à chuva, atrás dos vidros


António Barahona, Noite do Meu Inverno (Segundo Tômo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias, fotografia de Teresa Santos e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2016





[ID, Nazaré, 02/013]

sábado, 9 de janeiro de 2016

A de Anomalia Poética (VII)






[ID, Lisboa, Abril 2015 | Janeiro 2016]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

T de Teologia (III)



"[...] Então, todos veriam as coisas que eu via - o grão tosco da madeira nas tábuas do soalho, as janelas de vidro que emolduravam os ramos esguios das árvores e o céu carregado de neve -, ao mesmo tempo que desapareceria a dor ansiosa e estranha que a simples vista das coisas bastava para causar. [...]"

*

"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."


Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

B de Bibliografia





quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - V b


a janela de linho, a toda leve
a luz branca que esconde o que ilumina
o corpo debruçado, atento, agreste;
um rádio sobre a mesa, antigamente,
a laranja que mata de doirada,
a noite que fica doendo o dia;

o lugar que te coube, inabitável,
em troca de navios sulcando longe
a estrita rota nunca calculada;
o amor aos telefones, aos sinais
lidos em corpo mudo;
o fundo das florestas, onde vive

o mais-que-humano, e nos aguarda, alheio
à breve comoção que nos separa;
a raiva de saber que proibidos
nos foram a razão e os sentidos;
a chuva que nasceu na madrugada;
a passagem do ar, a nuvem fina.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE




[ID, Santarém, Janeiro de 2013]

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XXI)





I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

But I believe in love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

domingo, 3 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XX)



[ID, Lisboa, 02/01/016]



III.

Well, so that is that.
Now we must dismantle the tree,
Putting the decorations back into their cardboard boxes -
Some have got broken – and carrying them up to the attic.
The holly and the mistletoe must be taken down and burnt,
And the children got ready for school. There are enough
Left-overs to do, warmed-up, for the rest of the week -
Not that we have much appetite, having drunk such a lot,
Stayed up so late, attempted – quite unsuccessfully -
To love all of our relatives, and in general
Grossly overestimated our powers. Once again
As in previous years we have seen the actual Vision and failed
To do more than entertain it as an agreeable
Possibility, once again we have sent Him away,
Begging though to remain His disobedient servant,
The promising child who cannot keep His word for long.
The Christmas Feast is already a fading memory,
And already the mind begins to be vaguely aware
Of an unpleasant whiff of apprehension at the thought
Of Lent and Good Friday which cannot, after all, now
Be very far off. But, for the time being, here we all are,
Back in the moderate Aristotelian city
Of darning and the Eight-Fifteen, where Euclid’s geometry
And Newton’s mechanics would account for our experience,
And the kitchen table exists because I scrub it.
It seems to have shrunk during the holidays. The streets
Are much narrower than we remembered; we had forgotten
The office was as depressing as this. To those who have seen
The Child, however dimly, however incredulously,
The Time Being is, in a sense, the most trying time of all.
For the innocent children who whispered so excitedly
Outside the locked door where they knew the presents to be
Grew up when it opened. Now, recollecting that moment
We can repress the joy, but the guilt remains conscious;
Remembering the stable where for once in our lives
Everything became a You and nothing was an It.
And craving the sensation but ignoring the cause,
We look round for something, no matter what, to inhibit
Our self-reflection, and the obvious thing for that purpose
Would be some great suffering. So, once we have met the Son,
We are tempted ever after to pray to the Father;
“Lead us into temptation and evil for our sake.”
They will come, all right, don’t worry; probably in a form
That we do not expect, and certainly with a force
More dreadful than we can imagine. In the meantime
There are bills to be paid, machines to keep in repair,
Irregular verbs to learn, the Time Being to redeem
From insignificance. The happy morning is over,
The night of agony still to come; the time is noon:
When the Spirit must practice his scales of rejoicing
Without even a hostile audience, and the Soul endure
A silence that is neither for nor against her faith
That God’s Will will be done,
That, in spite of her prayers,
God will cheat no one, not even the world of its triumph.


- W. H. AUDEN, "Christmas Oratorio"

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XIX)




Feliz Ano Novo.
[ID, Lisboa, 31/12/015]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

(O) Jardim e a Casa (XX)


o teu rosto, o desenho pouco a pouco devorou-o:
o vento que interrompias com o riso
é agora um sopro interminável
onde as roseiras se tornam transparentes.
Não te percas no jardim como um deus esquecido
nos lábios dos mortos, não desfaças a estação
do rigor que parece eternidade: ainda a manhã
não transformou a geada num resíduo da luz,
na casa vacilante que abriga os meus passos.
Quando te chamo esconde-se no teu nome
a minha ausência


Rui Nunes
in Antologia Crítica e Pessoal, coord. Annabela Rita,
Lisboa, Roma Editora, 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E de Espanta-espíritos


Uma árvore de Natal minimalista.
Com votos de boas festas e melhores ventos.




[ID, Lisboa, 12/015]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

E de Espera (XL) _ 4.º Domingo do Advento





PARDAL DE NATAL


A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente -

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até à ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos,  maçãs de loiça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014



[ID, 02/05/012]

domingo, 13 de dezembro de 2015

E de Espera (XLII) - 3.º Domingo de Advento





"Tenho recordações de que não me lembro: são as mais belas."

- MARIA GABRIELA LLANSOL





[ID, Londres, 11/015]

P de (The) Privacy of Rain (XXXVII) - e de como os amigos nos protegem.




[ID, Vila Real, 03/11/12]



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

E de Espera (XIX)


PEQUENOS VIDROS AZUIS


Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último –
   e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
   – as velas de um sopro apagou –
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de Dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.


João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros,
Lisboa: Relógio D’Água, 2011




[ID, Nazaré, 08/10/11]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

N de "No princípio era o nevoeiro" *






[ID, Lisboa, 06/12/015]


* Ana Teresa Pereira

domingo, 6 de dezembro de 2015

E de Espera (XLI) - 2.º Domingo de Advento


V.

este rastilho
a linha mais recta
para o verão


Anónimo, Fósforos,
Porto, Edições 50kg, 2015




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

I de Incipit



[ID, Santarém | 2012]




João Barrento, Como um hiato na respiração - Diário do dia seguinte,
Lisboa, Averno, 2015




Manuel de Freitas, Incipit,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 2015

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XLI)


"Era o tempo em que ainda acreditávamos em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço. [...]"

- Ana Teresa Pereira, Neverness,
Lisboa, Relógio D'Água, 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

E de Espera (XXV) - 1.º Domingo de Advento



Benjamin Katz, "Painter Gerhard Richter in his studio", 1991




Gerhard Richter, 1983

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

H de Heathrow Express (II)




[ID, Londres, 11/015]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

H de Heathrow Express


ACROBACIAS


sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferias perder
(esta ablação em língua estrangeira
torna-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ia
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me 
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos 
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.


Ana Paula Inácio, 2010-1011,
Lisboa, Averno, 2011



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VIII)


GREVE GERAL


Nesta sede de
poder sem medida
gostaria de ter
um banco
e a fronde 
de uma árvore.
Uma me bastaria:
raiz, e ramagem
puxada para os céus.
Banco com a dureza
mineral do carbono:
caroço universal - 
um punho cerrado.
E depois quebrar
as regras, capaz de
fechar os olhos
sob o interdito 
dessa frescura
sã crepuscular.
Inclinar aí a cabeça 
sobre o peito,
sem alerta, e sentir, 
invasivo, o spread 
das sementes.


Paulo da Costa Domingos, «Voici la poésie ce matin 
et pour la prose il y a les journaux», 
Lisboa, Averno, 2014





[ID, 'Longe da aldeia', 02/013]

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (II)





Três livros preferidos de cozinha:

Inês de Ornellas e Castro (int., trad. e comentários), O Livro de Cozinha de Apício - Um Breviário do Gosto Imperial, Lisboa, Relógio D'Água, 2015

Eihei Dogen, Tenzo Kiôkun - Instruções para o Cozinheiro Zen, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

Manuel Vázquez Montalbán*, Las Recetas de Carvalho, 2.ª ed., Barcelona, Planeta, 2005





* A quem pertence a frase que serve de título ao post. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

a de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (II)


Reconheces a força animal
da folha descendo, ave, em redor
do seu eixo. Em cada noite
os gestos de ver trazem-te 
inquietude, contas as telhas que faltam
e a lanterna aponta ruídos. 
Morreram dois peixes
nessa luz e outra moléstia
abre o outono, lançasses
o ácido às camélias e logo
havias de ver a falsa cor do céu.
A folha que desce é uma asa
no caminho da seda interior
da terra. Ou os teus dedos compondo
a feroz razão de uns enxertos.


Helder Moura Pereira
in AAVV, Dep. Leg. n.º 23571/88,
Lisboa, Frenesi, 1988




[ID, Jardim Constantino, 06/04/2011]

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A de Aniversário (XIV)


Sob a água
vê-se: Inês
posta em sossego,
pedacinhos de ossos.
Olha, aquele rapaz...
o seu corpo é apenas o estojo
duma jóia: ele tem os olhos de Inês.


José António Almeida, António Nogueira,
Lisboa, Edição do Autor, 1984




[ID, 'God is in the details', Madrid 015]

sábado, 7 de novembro de 2015

T de Tempo Sem Tempo (XVI)

     A torrente da multidão queria arrastar-me. As luzes verdes à esquina das ruas ordenavam-me que atravessasse. O polícia sorria a convidar-me para que caminhasse por entre os pregos de cabeça prateada. Até mesmo as folhas de Outono obedeciam à enxurrada. Eu, porém, apartei-me dela, como um objecto extraviado. Desviei-me e parei ao cimo das escadas que descem para os Cais. Lá em baixo deslizava o rio. Um rio diferente da torrente de que eu me separara formada por peças dissonantes que se chocavam com aspereza, movidas pela avidez e pelo desejo.
     Corri pelas escadas abaixo em direcção ao molhe - os ruídos da cidade recuavam à medida que eu descia, as folhas murchas refugiavam-se aos cantos dos degraus sob o vento das minhas saias. Ao fundo das escadas deitavam-se os marinheiros naufragados da torrente das ruas, os vagabundos que se tinham afastado da multidão, que se haviam recusado a obedecer. Tal como eu, a uma dada altura do trajecto, separaram-se, e ei-los ali estendidos, náufragos, no sopé das árvores, a dormirem ou a beberem. Tinham abandonado o tempo, as riquezas, o trabalho, a escravidão. Caminhavam e dormiam contra o ritmo do mundo.  [...]
      
Anaïs Nin, "A Casa Fluvial"
in Debaixo de uma redoma, trad. de Maria Ondina Braga,
Lisboa: Vega, 1986




[ID, 'Lisbon revisited', 2015]

domingo, 1 de novembro de 2015

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25