[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]
sábado, 30 de julho de 2016
O de "O mar, o mar" (V)
São desprezíveis os que amam e os que troçam
e quem espera e o desespero e a nostalgia.
Somos deuses que a dor e a infecção engrossam
e em Deus vamos pensando todavia.
A baía suave. Sonho em bosques sumido.
Os astros pesam, flores-bolas de nevar.
Saltam panteras p'las árvores sem ruído.
Tudo é margem. Eterno chama o mar.
Gottfried Benn, 50 Poemas,
trad. Vasco Graça Moura, Lisboa: Relógio D'Água, 1998
[Epígrafe de Inês Dias, Tempos Vários, Lisboa: Paralelo W, 2014]
E de Estar (V)
AINDA NÃO
Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há cama só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
- ANTÓNIO JOSÉ FORTE
in Surrealismo/Abjeccionismo, org. Mário Cesariny de Vasconcelos,
Lisboa: Edições Salamandra, 1992
S de "Sei de um rio"
[ID, Julho de 2016]
*
[Fotografia de Inês Dias
in Manuel de Freitas, Motet pour les trépassés,
Lisboa, Língua Morta, 2011]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quarta-feira, 27 de julho de 2016
J de (O) Jardim e a a Casa (XVIII)
SE EU FOSSE...
Se eu guardasse patos.
Mas não figura romântica, dama, estilizada.
Não como a que se debruça risonha, regaçada,
para o lago pequeno do Jardim da Estrela.
Se eu guardasse patos, de pé descalço ou de
tamancos...
De cana na mão, malhado do sol, esgrouviada,
sem graça nem disfarces!
Levaria o meu rebanho à minha frente, direitinho
à pancada.
Vá tu, mole. Vá tu, mal mandado. Vá, vá!
Real guardadora de patos da borda-de-água...
Se eu fosse!
Patos, meus cuidados, batidos e dóceis correríeis
como gamos.
Ou se eu fosse uma mulher de canastra.
Das que atravessam a correr as pranchas, carregadas e airosas.
Tantos passos para lá, tantos outros para cá...
Entre o barco e o cais o espaço é curto e debaixo há água.
E a prancha ginga.
Mas elas correm pesadas, seguras e rítmicas.
Ser uma mulher de canastra...
Se eu fosse!
João Falco (Irene Lisboa), Outono havias de vir,
Lisboa: Seara Nova, 1937
"Filha de rei guardando patos", Jardim da Estrela, 1917
*
FILHA DE REI GUARDANDO PATOS
[Jardim da Estrela, 1917]
Já não nos podem tirar nada:
o castelo estava em ruínas
quando o conquistámos
e da revolução sobrara apenas
a memória doméstica da água cortada,
toda aquela roupa por lavar.
Mas as estações deixavam-se guardar
nos herbários e o futuro rasgava-se
ainda nesse gesto largo, sem muros,
longe do exercício incerto de descer
a calçada mais íngreme.
Estas eram as nossas estrelas -
açaimadas, coxas, vadias.
E não desistimos de as trazer para casa.
Inês Dias,
in Deitar a Língua de Fora, com ilustrações de Luís Henriques
Lisboa: Língua Morta, 2012
segunda-feira, 25 de julho de 2016
domingo, 24 de julho de 2016
P de Poética (LVII)
[...]
Atormentava-o um problema, que lhe dava má consciência e o impedia de escrever: o que se passa no domínio da escrita não será destituído de valor se se mantiver puramente "estético", anódino, desprovido de sanção, se, no acto de escrever uma obra, não houver nada que seja o equivalente (e aqui intervém uma das imagens mais caras ao autor) do que são para o toureiro os cornos acerados do touro, a única coisa que - por causa da ameaça material que contêm - confere uma realidade humana à sua arte, e a impede de ser apenas a graça fútil de uma bailarina?
[...]
Michel Leiris, "Da literatura considerada como uma tauromaquia",
in Idade de Homem, Lisboa: Editorial Estampa, 1971
*
"[...] disse que tal como aos toureiros lhes crescem as barbas com o medo de tourear assim lhe crescia a barba na espera dos críticos. e imaginei-o em pequeno a escrever num diário, imberbe. e agora esta vida de samurais e de toureiros onde é preciso sangrar. é isso a literatura, diz ele. um samurai que sabe que vai morrer mas continua a lutar. [...]"
Sandra Andrade, Doppelgänger,
Coimbra, DSO, 2016
quarta-feira, 20 de julho de 2016
P de Perder a cabeça - IV b
(O pardal)
A catástrofe das pequenas coisas.
Um pássaro canta sobre a esfera de pedra.
Envolve-o a secura, não a do deserto, mas a do cimento. Desbotado.
Nem um vaso, nem uma cadeira, nem um toldo, nem uma rosa de ninguém:
a luz nos mosaicos anuncia a aridez de uma execução.
A catástrofe das pequenas coisas.
Em baixo, tão em baixo que é preciso olhar para baixo, o artifício das árvores. É esta varanda que lhes tira a humanidade. Mas que é a humanidade de uma árvore? Não o pássaro que a esfera tornou um pássaro de pedra. Um canto de pedra.
Que acrescenta à pedra a forma de um voo.
Não lhe atenua a aridez:
exalta-a.
Exibe-a.
A catástrofe das pequenas coisas.
Não lhe vejo o bico entreaberto, nem o estremecimento das penas: ouço-lhe o canto.
Como um memorial.
De súbito, levantará voo.
E a pedra deixará a pedra. Sem uma marca.
:
um osso exposto
fractura quem o vê?
Rui Nunes, A Crisálida,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016
segunda-feira, 18 de julho de 2016
B de Biorritmo (CLVIII)
SHE LIVES BY THE CASTLE
Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.
Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.
Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.
E assim, meu amor, acaba este poema.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes,
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015
domingo, 17 de julho de 2016
L de "Las simples cosas" (III)
Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.
Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.
Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.
A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011
[ID, Entre Famalicão e Moledo, Junho 016]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
sábado, 16 de julho de 2016
O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (VII)
*
Albert Camus
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa,
Lisboa, Livros do Brasil, s/d
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa,
Lisboa, Livros do Brasil, s/d
*
"no vivir por mano ajena"
Camilo José Cela
*
"O prazer da vida é apenas um: não ser um escravo."
Otar Iosseliani
in Ípsilon, 14/01/11
segunda-feira, 11 de julho de 2016
sábado, 9 de julho de 2016
terça-feira, 5 de julho de 2016
M de Museu Imaginário (XXVI)
[Abbas Kiarostami, Cópia Certificada, 2010]
"[...]
Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.
[...]"
João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio",
in Telhado de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004
[Antoni Tapiès, "Gran Sábana", 1968]
[Fotograma de Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo,
2009]
segunda-feira, 4 de julho de 2016
T de Tratado de Pedagogia (LX)
10 VERSOS
Sim, estive nessa rua
à hora incerta, de costas
para os avisos da morte
que já então me cobiçava.
Fui pequeno, confiante,
tive um chapéu de palha,
aprendi a tabuada. A noite
roubou-me a voz, a sorte
deu-me estes versos, 1 x 10
igual a nada.
Rui Pires Cabral
in Nós, os desconhecidos,
Lisboa: Averno, 2012
*
íamos ali
no intervalo das duas mortes jogava-se
o bilhar
alguns velhos concêntricos moíam apostas baixas
à carambola
ponho talco nas mãos e no taco enquanto
observo resvalar a nota dobrada em quatro sobre o pano
verde
uma visão triangulada às tabelas da cabeceira
com gramsci nietzsche hemingway mal batidos
camurças de 1.ª entre duas novas mortes
também jogava às sortes nas traseiras do prédio
entre gente ordinária no gamão - tinha 13 anos
depois tanto fazia ganhar como perder
Paulo da Costa Domingos, 4,
Lisboa: & etc, 1981
Libellés :
"A poesia é o menos.",
ALAMBIQUE,
AVERNO
domingo, 26 de junho de 2016
D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" * - II
MAGSTRAEDE, 16
Apenas vos posso dizer que fica
numa das ruas mais bem escondidas
de Copenhaga, onde os prédios
dos séculos XVII e XVIII
se vestem de cores - estas sim -
realmente várias, obedientes
à lenta declinação da luz.
Portadas e janelas, nos seus graus
ínfimos de abertura e reclusão,
edificam um silêncio, uma dignidade,
que não consigo imaginar a Sul e que
só um pintor dinamarquês soube captar.
Fica numa das ruas mais escondidas
de Copenhaga, embora vá fechar em Setembro
de 2007, o restaurante Tyven Kokken hans Kone
og hendes Eksten. E é sem querer, claro, que
nos despedimos para sempre destas paredes brancas.
Manuel de Freitas
in Inês Dias, Lisboa: nigredo, 5 de Setembro de 2014
* O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
P de Pássaros Anónimos (VI)
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny, 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão,
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quarta-feira, 22 de junho de 2016
C de "(O re)começo de um livro..." (V)
[...]
Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses, também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as suas doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.
[...]
Paulo da Costa Domingos, Narrativa,
com capa e carta-prefácio de Vitor Silva Tavares,
Lisboa, Alambique, 26 de Maio de 2016
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