quarta-feira, 18 de maio de 2016

C de Coimbra (II)




CAFÉ SANTA CRUZ


Se queres ver os tritões
- ou, se preferires, as sereias –
nos três vitrais da entrada,
deves chegar a meio da tarde
e obrigar-te a não ter pressa.
Em Coimbra morre-se devagar. É bom.

Conheci poucos lugares onde
reinasse assim o esplendor do incomum.
Cada mesa tão diferente da outra:
um pintor rústico que faz dos dedos
pincéis, dois namorados que já saíram,
com a pressa física do amor,
o velho reformado que lê pela décima vez
o jornal da véspera – ou ainda o que
regista envergonhado estes versos.
Desiguais abismos, maneiras de se
se estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

Pouco importa. Abandona-te, finalmente,
ao sortilégio mudo de sereias
ou tritões. É tudo o que precisas.
Uma música feliz perde-se na tarde
e as lágrimas, afinal, são uma espécie de sorriso.


Manuel de Freitas, Juros de Demora, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007




[ID, Coimbra, 14/05/016]

terça-feira, 17 de maio de 2016

B de Bárbaros


"[...]

P. ¿Considera la amistad efímera?
R. No, la considero frágil. Igual que el resto de sentimientos humanos, a excepción de la barbarie.

[...]"


- SEMPÉ entrevistado por Álex Vicente

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A de "A propósito de andorinhas"


A CONTRAPROVA


É preciso guardar
o recibo das andorinhas
quando reencontram,
tumultuosas,
o ninho.


António Osório, Décima Aurora,
Lisboa: Na Regra do Jogo, 1982





[ID, 'Vista para um saguão', Maio 2016]

quarta-feira, 11 de maio de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLIV)


"Segues pela terceira rua à direita, depois pela primeira à esquerda, chegas a uma praça, voltas junto do café que conheces, segues a primeira rua à esquerda, depois a terceira rua à direita, lanças a tua estátua por terra e ficas."


- André Breton / Paul Éluard





[Miguel de Carvalho, Neste estabelecimento não há lugares sentados,
com arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2016]

terça-feira, 10 de maio de 2016

T de Tempo sem tempo (XIX)


XX


Caso contrário, se não houver uma dor profunda que torne os homens igualmente silenciosos, um ouve mais, outro menos, da poderosa melodia do pano de fundo. Muitos já nem a ouvem. São como árvores que esqueceram as suas raízes e que crêem que a sua força e a sua vida são o rumor dos seus ramos. Muitos não têm tempo para a ouvir. São impacientes para com o tempo à sua volta. São pobres apátridas, que perderam o sentido da existência. Primem as teclas dos dias e tocam sempre a mesma monótona nota perdida. 


Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. de Sandra Filipe, Lisboa, Averno, 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2016

E de Espiga - IV b





E de Espiga (IV)


A MORTE


Para Yvan Goll


A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação. 

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.


Paul Celan,
A morte é uma flor, trad. de João Barrento,
Lisboa: Cotovia, 1998

segunda-feira, 2 de maio de 2016

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sábado, 30 de abril de 2016

B de Brincar com ossinhos - IX b





Como se pressentisse a sua ruína
como se cego fosse
estendeu a mão e deixou os seus dedos
desenharem as palavras desenhadas
na pedra "eu morte existo".


João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre o mar e a casa, com pinturas de Pedro Calapez,
Lisboa: Europália, 1991




[ID, Lisboa, 2016 | Coimbra, 2012]

sexta-feira, 29 de abril de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLIII)


[...]

Fala, também tu, fosses tu o último a falar. É o que um poema - e talvez estejamos agora melhor preparados para o entender - nos dá a ler, nos dá a viver, permitindo-nos retomar nele este movimento da poesia tal como Celan no-la propôs, quase ironicamente: A poesia, Senhoras e Senhores: esta palavra de infinito, palavra da morte vã e do único Nada. [...]




Maurice Blanchot, O Último a Falar,
com tradução e notas de Fernanda Bernardo, 
capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Averno, 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

I de "I want to ride my bike"


[...]
Como decía mi padre: “yo he sido transparente viajando en bicicleta”. 
Es uno de sus poemas surrealistas.
[...]


terça-feira, 26 de abril de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIV


Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.


Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]

Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.

[...]

Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.


- FERNANDO PESSOA
(para Mário de Sá Carneiro)

T de "The days grow short..." (II)


When roses cease to bloom, dear,
And violets are done,
When bumblebees in solemn flight
Have passed beyond the sun,

The hand that paused to gather
Upon this summer's day
Will idle lie, in Auburn, -
Then take my flower, pray!


- EMILY DICKINSON





[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 25/04/016]

segunda-feira, 25 de abril de 2016

R de Regresso ao real (XI)



[ID, Abril 2016]

quarta-feira, 20 de abril de 2016

R de Rezar na era da técnica (XXII)




Tadao Ando's Church of Light, in Osaka
 [Photograph by Hiroshi Sugimoto]

a de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências"


"Le hasard a de ces sortilèges, pas la nécessité. Pour qu’un amour soit inoubliable, il faut que les hasards s’y rejoignent dès le premier instant comme les oiseaux sur les épaules de Saint François d’Assise."


MILAN KUNDERA

domingo, 17 de abril de 2016

J de Janelas - IX b


De quando em quando, alguém escreve diante de uma janela que dá para outra janela. Vive depois da deflagração e da rasura, e às vezes, ao tocar no rosto, percebe que as cinzas e o vento o escavaram até o deixarem desabitado. Escreve como quem apanha as palavras do chão e lhes tira o pó e o cotão, ao erguê-las na sua palma. Endireita-lhes os cantos dobrados e, ao observá-las com atenção, receia que já não lhe sirvam para nada. Mas não tem outras, porque vive num quarto de hotel arrasado e silencioso, e neste livro começou a caminhar no sentido contrário ao horizonte; a contar a vida de novo, embora desta vez não haja ninguém em frente para anuir com exclamações moídas. Contar a vida de um modo vacilante, precário, coxo e repondo as palavras espalhadas pelos escombros sem luz nem certezas. É nisto que consiste escrever: é esse café que vamos tomar depois de estarmos sem falar e que alguém propõe com pouca convicção, “fala-me de ti, conta-me a tua vida” e o outro, ao começar, só encontra um olhar no espelho que está atrás do balcão.


José Ángel Cilleruelo
in Cão Celeste n.º3, 
trad. Inês Dias, Lisboa, Maio de 2013

sábado, 16 de abril de 2016

M de Meia-estação



[ID, Regresso ao trabalho, 12/04/016]

sexta-feira, 15 de abril de 2016

S de Sexta-feira (III)


AQUI


Eu estou sempre aqui.
RUY CINATTI


Gostava da chuva mansa
dos dias do norte,
adorava a humidade sobre o rosto:
pouso no chão o telefone
sobre o tapete cinzento
e ajusto a luz nas persianas;
ria-se por nada às sextas-feiras
quando ao entardecer
enlouquece de súbito a cidade:
fecho a varanda
em pleno agosto para impedir
que se espalhe a campainha;
não perdia uma única
das manhãs de feira,
as rifas, as lojas com sardinhas:
abro um livro para fechá-lo,
não me sobressalte a meio de um verso
o som do telefone;
atava à esquerda
o cachecol sobre a gabardina
desproporcionalmente clara:
ponho um disco, embora baixo,
e olho com prazer o aparelho
mudo sobre o tapete;
gostava de passar a noite em comboios,
apanhar aviões, camionetas
para qualquer lado:
no meu caderno anoto uma data mais,
outro dia, outro mês, outro ano,
eu estou sempre aqui.



José Ángel Cilleruelo, Antologia,
trad. Joaquim Manuel Magalhães,
Lisboa: Averno, 2005

quarta-feira, 13 de abril de 2016

C de Cicatriz (V)


26 – DO TEMPO

Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


Miguel Martins, Lérias,
Lisboa: Averno, 2011

terça-feira, 12 de abril de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXIV


[...]

Davvero chiedono gli uomini altro che vivere?
pergunta Pasolini.

- Não percebo.

«Na verdade, clamam os homens por mais do que
viver?»

O pior é que viver
está nas mãos
dos donos disto, que, magnânimos, é certo,
há séculos que se contentam
com cobrar em trabalho
a riqueza e progresso, dizem,
que eles trazem à humanidade,
os donos deste tempo
e deste espaço,
bem como os que o não são
e querem ser, que são quase todos,
e nem sabem que ser donos
também tem dono.

Não me interesso muito por eles,
mas eles muito por mim, quer dizer,
por tudo à minha volta.

São imprevisíveis dentro do previsível,
ameaçam tornar as coisas certas
cada vez mais incertas,
controlam tudo:
agem, em suma,
como qualquer patrão.

Amigos, alguns, poucos,
eles já são poucos,
ou seja, poucos dos poucos,
ajudam-me quando preciso,
tentam que não seja já despedido
ou me despeça eu já.

Lembro-me dum slogan antigo:
«Os que podem aos que precisam».
«Precisar» é um verbo regular,
quer dizer,
constante na forma,
de uma à outra ponta
da sua vida verbal.
«Poder» não é,
regula e desregula ele mesmo
conforme lhe apraz que seja
e regulou e desregulou sempre
no passado e no presente.
Será este um resumo
de tudo?

- Quem sabe?


Alberto Pimenta, nove fabulo, o mea vox / de novo falo, a meia voz,
Lisboa: Pianola, 2016

sábado, 9 de abril de 2016

J de (O) Jardim e a Casa (XI)


TEMPO


I

Enquanto dormes
as estações passam
sobre a montanha.

A neve no alto
fundindo-se dá vida
ao vento:
atrás da casa o prado fala,
a luz
bebe os vestígios de chuva nos caminhos.

Enquanto dormes
anos de sol passam
entre as copas dos lariços
e as nuvens.


II

Posso colher junquilhos
enquanto dormes
porque sei onde crescem.
E que a minha verdadeira casa
com as suas portas e as suas pedras
fique distante,
que nunca mais a encontre,
mas continue errando
pelos bosques
eternamente -
enquanto dormes
e os junquilhos crescem
sem trégua.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
com sel., trad. e capa de Inês Dias,
prefácio de José Carlos Soares e posfácio de Matteo M. Vecchio,
Lisboa: Averno, 2012







[ID, Jardim Botânico da Ajuda, 03/12/011]

sexta-feira, 8 de abril de 2016

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II.

Eu tinha três ideias em mente,
Como uma árvore
Em que estão três melros.




Wallace Stevens
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

E de Espera (LVII)


Não é por acanhamento que olha para o chão,
mas pela volúpia da surpresa.

É capaz de percorrer bairros inteiros a matutar
no xadrez das calçadas.
em busca do vagaroso rei dos seus olhos.

Nos lancis vê peitos magros de braços guindados,
caudas enroscadas em flechas.
Em soleiras de portas,
canhões antiquíssimos a fumegar ainda
por entre a lã do movimento.

Fascina-a sobretudo a repentina simetria
dos pingos de chuva.

As vozes atravessam-na como bandeiras desferidas
no cimo da mais erma colina.
Toda a paisagem, fechando os olhos,
é uma investida solitária,
vociferada à constelação de nuvens que
circunspectamente
vai amparando o céu.

Ela sabe que entre a terra e o espaço
também os olhos se fecham.
O mundo é, a todas as horas, nas nações
e nos bosques, o útero de um raríssimo encontro
de bichos predadores
a que os deuses chamam embaixada.

No teu sonho, quando a tocas,
ela junta os pés,
como quem namora um precipício,
e balouça-se para trás.
Estranhamente, também tu sentes
que passaste os anos a fixar o caminho,
que só agora, na linha dos seus ombros,
surge o horizonte inapelável
da encarnação.

Que entre ti e ela é a terra e o espaço
que cruzam os olhos.


Vasco Gato, Primeiro Direito,
Lisboa: Artefacto, 2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

P de (Po)ética (XLII)




Andrei Tarkovsky
(4 de Abril de 1934 - 1986)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O de "O mar, o mar" - VII b


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, 
é a isso que eu chamo felicidade."


MARGUERITE DURAS




[ID, 'É aqui o amor?', 2015]

domingo, 3 de abril de 2016

I de Intimidade - III b


"Digamos que há uma entrega total ao momento e ao ofício - tal como às pessoas a quem se ama ou com quem se está em intimidade. Repara que, mesmo quando se está só a conversar com alguém, há uma entrega total. Quando se está num acto íntimo tem de se ter uma atenção e entrega totais, tal como num acto artístico (o que quer que esta expressão queira dizer...). É por isso que não quero ninguém por perto, no atelier. Chego mesmo a sentir pudor."


Rui Chafes, Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
Lisboa: Documenta, 2016


*


"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."


Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014

P de Poética (XLI)



[Inês Dias, Lisboa, 12/03/016]



*




[Inês Dias, Lisboa - 24/02/012]

sábado, 2 de abril de 2016

sexta-feira, 1 de abril de 2016

S de Satisfação (há-de deixar-se fotografar umas vezes)


"Dark is a way and light is a place."

DYLAN THOMAS









[ID, Barnabé, 31/03/11]

quarta-feira, 30 de março de 2016

W de Walk the line - II b


(a mancha)

agora é a noite é quase noite / à hora em que vieres eu estarei acordada porque a estação é imensa e vou poder dizer-te o que quiseres oh fixa bem, oh fica bem, fica ao pé assim deitado mais para mim é quase noite e dou-te a ti o que guardei de dia aquela mancha no céu mais acima no céu aquela a outra isso a que ilumina mas eu não oh digas antes que ilumino pouco agora é quase noite é a noite seco limo verde azul por aí são esses tons os meus sob a onda estão lá bi...chos é a multidão mas o que quero é que tu oiças mesmo isto que é eu puxo eu vou eu vivo eu fico eu vim cheguei a crescer vou crescer muito também minguar / seria uma árvore e o meu corpo ainda seria duro e a voz dura e o leito frio / é quase noite vês aquela mancha

(...)

(a voz)

eu puxo eu vivo sou a registante das noites e dos dias vividos e vou poder dizer-te o que quiseres à hora em que vieres e bastará que arranhes eu estarei acordada ou te agaches ou me invoques eu estarei acordada ou me invoques qualquer coisa há-de servir para eu lembrar porque a estação é imensa as noites longas os dias grandes e eu estou cá. Ouves também.


Álvaro Lapa, Barulheira
& etc, 1982




[ID, Nazaré, Novembro 2012]

segunda-feira, 28 de março de 2016

I de Intimidade (III)


A propósito de intimidade, disse que há um reduto último que não se partilha. Nem com quem se ama?

Khalil Gibran dizia: "a pessoa casa-se, partilha tudo mas não partilha o prato". É a tal barreira de que falámos anteriormente. Há limites que não podem ser ultrapassados, para que as relações entre as pessoas se mantenham, mesmo as mais próximas. A distância que assegura a intimidade tem de ser incondicionalmente preservada. Nietzsche também fala disso de uma forma muito clara. Ele diz que, se vivermos em demasiada proximidade com alguém, é como estar permanentemente a tocar uma boa gravura com os nossos dedos... um dia não teremos nada mais nas mãos senão um pobre papel sujo.
Cada pessoa tem de ter o seu espaço, há sempre uma parte íntima, sua e secreta, que deve ser absolutamente protegida mesmo que partilhes a vida com alguém. Claro que deves também respeitar a parte privada da outra pessoa, não a invadindo ou devassando, mantendo uma certa distância. Quando se quebram todas as barreiras é o fim. As pessoas deviam ter isso sempre presente.


Quebrar todas as barreiras é obsceno?

Obsceno, sim. Como disse, manter as barreiras de um espaço intacto, não romper, não forçar a entrada, é de uma sabedoria imensa. Não mexer nos papéis pessoais do outro, não quere saber tudo, não exigir o significado de tudo... Nem tudo tem de ter uma resposta e nem todas as perguntas têm de ser feitas - perguntar tudo também é obsceno. Há perguntas que não se fazem mas, para o saber, é preciso ser-se muito sábio. Isto é sabedoria e, ao mesmo tempo, a maior prova de confiança. Sabedoria e confiança andam juntas, uma leva à outra.
Novalis escreveu: "Nunca nos iremos compreender totalmente - mas podemos e faremos a nós próprios muito mais do que compreender". É por isso que digo que é na partilha do impartilhável que se encontram os nossos irmãos.


*


Um sentido de comunhão?

Exactamente. Esse silêncio cria uma espécie de irmãos. Dá-se o reconhecimento mútuo, onde há outras formas de comunicação que não passam pelas palavras: quando os fios estão limpos e descarnados, a corrente eléctrica pode passar.
Há uma coisa que todos sabemos e que está continuamente presente: a vida é muito curta. Conhecermos pessoas que estão no mesmo campo de inquietações que nós é um privilégio e uma forma de comunhão, como dizes. Por isso, penso sempre que a vida é demasiado curta para perdermos tempo com pessoas e coisas idiotas, arte imbecil, ideias cretinas ou questões estúpidas. Temos de ser muito selectivos, a vida é um fogo-fátuo. Muita gente não tem noção disso, perde-se em questões sem interesse nem grandeza e depois é tarde de mais... Estar vivo, partilhar a nossa vida com as pessoas que admiramos, ou até vir tomar banho ao mar, são privilégios.


Rui Chafes
in Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
col. "Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa, Documenta, 2016

sábado, 26 de março de 2016

P de Páscoa Feliz (II)


"Ajoelhada no relvado húmido e perfumado do parque da aldeia, Clara Morrow escondeu cuidadosamente o ovo de Páscoa e pensou em ressuscitar os mortos, o que tencionava fazer logo após o jantar. [...]"


Louise Penny, O mais cruel dos meses,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2016






"Várias colunas dóricas, entrelaçadas por uma trepadeira de madressilva, davam um aspecto de velha mansão sulista à fachada da casa de Fondero. A impressão era dissipada pelo enorme carro funerário preto estacionado ao lado. Atrás do carro funerário, havia um pequeno carro desportivo vermelho. A incongruência entre os dois veículos divertiu Pinata. A morte e a ressurreição, pensou ele. Se calhar é assim que os americanos de hoje imaginam a ressurreição, como um carro desportivo vermelho, levando-os por uma estrada de espuma sintética em direcção a um nirvana de nylon."


Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011

sexta-feira, 25 de março de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII c



[...] Trata-se, em suma, de apelar para que ouseis enfrentar o mais recente dos perigos que ameaçam toda a humanidade e que é um perigo imanente: o de ela vir a ser privada de toda a beleza da vida por causa de uns tantos que defendem o direito exclusivo aos privilégios. É, de facto, um perigo que os mais fortes e mais sábios entre os humanos, no seu afã para um total domínio sobre a natureza, possam vir a destruir os seus bens mais singelos e generosos, a tornar seus escravos os mais simples e, a eles, escravos de si próprios, o que levará o mundo a uma segunda barbárie ainda mais ignóbil e muitíssimo menos esperançosa do que a primeira.
Falo do perigo de o actual curso da civilização poder vir a destruir a beleza da vida - estas são, sem dúvida, palavras duras e quem me dera poder não as pronunciar. Mas não posso, sem trair o que julgo ser a verdade.
[...]
Entre esses males estou e estive sempre convicto de que será vencido aquele que considerei ser o pior de todos, a mais pesada das escravaturas: o mal de que padece a maior parte da população sujeita a ver quase toda a sua vida atrofiada por um trabalho que, na melhor das hipóteses, não lhe interessa ou não desenvolve as suas faculdades e, na pior delas (e também a mais comum), é mero trabalho escravo que a reduz a uma condição sub-humana, que lhe é compulsivamente extorquido da forma mais severa e de que todos se envergonham e quem pode rejeita. Há-de vir o dia em que todos tomarão consciência disso e se ouvirá o grito de serem homens, de novo. Só a arte os conseguirá redimir dessa escravatura [...], serão iluminados por uma arte feita pelas pessoas e para as pessoas como um prazer para quem a faz e para quem a usufrui.


William Morris (24 de Março de 1834 – 1896)
in A Beleza da Vida, trad. de Clara Garcia da Fonseca,
Lisboa: & etc, 2007

segunda-feira, 21 de março de 2016

P de Poesia (IV)


Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não lhes urge,
quando se cala o ruído da multidão
e termina o linchamento das horas.

Os poetas trabalham no escuro
como falcões nocturnos ou rouxinóis
de dulcíssimo canto
e receiam afrontar Deus.

Mas os poetas, no seu silêncio,
fazem muito mais ruído
do que uma dourada cúpula de estrelas.


- ALDA MERINI
[trad. Inês Dias]

sábado, 19 de março de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" - V b


BEM FUNDO


Um prego na gengiva,
bem fundo, até onde seria
de crer que só chegasse a alma, assim

as árvores nos crescem
por dentro da memória, onde as raízes
a fazem rebentar, assim

as folhas que nos servem
por momentos de pele
se nos agitam no espírito, onde a pele

se afunda como num écran,
a pele, um jeito de árvore que tivesse
um espelho entre as raízes,

a pele que nos vendou, que nos serviu
de venda e de memória,
brancura que o lençol disputa às trevas,

irmã dessa raiz
agarrada ao écran, dessa gengiva
esquecida de já ter estado na boca

e agora apenas presa
à alma, sobre a qual
parece debruçada.


Luís Miguel Nava
in Rosa Maria Martelo, O Cinema da Poesia,
Lisboa: Documenta, 2012




[ID, 'Une Famille d'Arbres', 12/03/016]



POÉTICA


Todos temos um amigo morto
e um amor que partiu, ao amanhecer,
e nos deixou a luz feita em pedaços.

Um pai e uma mãe que se esgotam,
uma foto em Lisboa, um cão tonto,
dois ou três livros, quatro ou cinco quadros.

Todos temos uma rua escura,
uma avenida que nos reconhece,
uma árvore velha e um antigo pátio.

E a certeza de que tanto é nada,
a desgraça de ser o que perdemos,
a sorte de viver para contá-lo.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. de Inês Dias,
Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Novembro de 2011

domingo, 13 de março de 2016

quinta-feira, 10 de março de 2016

P de (Dois Anos de) Pássaros





"On the set of the film The Mirror, Andrey Tarkovsky included himself in one scene, lying in a hospital bed and holding a tiny bird on his right hand. And this is what happened to him at the end of his life: in his sick-room in Paris, the room where he died, a little bird would fly every morning through the open window and come to light on him."


- in Instant Light - Tarkovsky Polaroids,
Londres, Thames & Hudson, 2009

domingo, 6 de março de 2016

"As coisas só existem quando há poetas por perto."


Agustina Bessa-Luís, Breviário do Brasil,
Lisboa: Guimarães, 2012

sexta-feira, 4 de março de 2016

P de Pele (IV)


[...] O dicionário diz que 'aguentar' é segurar uma corda que corre; resistir ao vento, como uma vela. Ela sempre usa a palavra 'aguentar'; faz parte do seu repertório de vida. Quando alguém diz que tem um problema, que não consegue fazer qualquer coisa, ela sempre fala: 'aguenta sim; a gente aguenta tudo; é só querer'. Ninguém consegue nem pode contestá-la, já que ela passou pelo que passou. Aguentar tudo, para os humanos, que não são como as velas de um barco, tem um preço. No caso dela, foram as circunstâncias que a obrigaram a aguentar. Em outros casos, diferentes de frio, fome, sede, talvez não seja necessário nem aconselhável aguentar tudo; talvez seja até preciso resistir menos, ser um pouco mais fraco, para que as consequências de segurar uma corda que corre não sejam tão drásticas. Mas não no frio. No frio, é preciso segurar a corda que corre. O frio é uma corda que corre impiedosamente e quem passa por ele deve ficar com a alma mais seca, assim como a pele que endurece e também seca no contato com ele. Depois do inverno, as temperaturas muito baixas se esquecem, e é por isso que ela não consegue entender agora como conseguiu aguentar. Mas o frio deixa suas marcas indeléveis e secretas. Alguém que passou pelo frio intenso, sem agasalhos, é diferente de alguém que nunca passou por isso. [...]


Noemi Jaffe, O que os cegos estão sonhando? - com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945),
São Paulo, Editora 34, 2012

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXXV b




[ID, São Miguel, 24/09/2012]

quinta-feira, 3 de março de 2016

A de Altar (V)




[ID, 'Bons caminhos', Lisboa | 2016]

quarta-feira, 2 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII c


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar do céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.


JEAN GENET
in Yukio Mishima, GENET seguido de O CONDENADO À MORTE de Jean Genet,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena, 1986

terça-feira, 1 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII b




[ID, Coimbra 2013]

T de Tempo Sem Tempo (XVIII)


Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de agosto de 2011
não dá para tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão  se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo a atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.


António Amaral Tavares, Talvez seja essa certeza,
Coimbra: Medula, 2014

domingo, 28 de fevereiro de 2016

D de (Des)obediência (II)



[ID, Guimarães, 2013]



[ID, Beja, 2014]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVIII)


No fundo, talvez ele [Emerson] esteja muito perto de Pickpocket de Bresson: ter viajado tanto para chegar àquela que esteve sempre ao seu lado, chegar ao mais próximo de si, obedecer às intimações da proximidade. É que a exigência de viver no presente - e, portanto, acima do tempo ou no seu coração mais secreto - é a condição do esclarecimento de que a alma não é viajante: "onde ela se encontra, encontra-se o dia" (p. 37). A alma é luz: cada ser basta-se a si próprio se responder às "exortações para ficar em casa, para entrar em comunhão com esse oceano interior". Não ter contratos mas proximidades, agora citando a passagem completa: "Que cada um saiba que, doravante, não obedeço a nenhuma lei senão a eterna. Não quero outras obrigações senão as da proximidade" (p. 44). A lei eterna é a de considerar e aceitar tornar-se aquilo que se é, sem uma noção teórica disso que se é [...].
Aquele que viaja para se divertir, ou para obter uma coisa que não traz consigo, viaja para se afastar de si próprio e envelhece mesmo sendo jovem: eis o estilhaçamento da temporalidade própria de cada um: aquele que vai ter com as ruínas ancestrais, sem ter mais nada para dar a não ser o vazio da sua curiosidade, acrescenta ruínas às ruínas.


- Maria Filomena Molder
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVII)


"Por conseguinte, ao fazer a introdução a um discurso sobre as 'coisas mínimas' e sem história, não sabemos resistir à tentação de cobrir os nossos ombros com um recurso à história, pedindo emprestadas as palavras de quem considerou ser digno discorrer sobre 'as humildes e baixas matérias': 'É de tamanho vilipêndio a mentira que - escrevia Leonardo -, mesmo quando diz bem de coisas de Deus, retira graça à sua divindade, e é de tamanha excelência a verdade que, mesmo quando louva as coisas mínimas, estas se tornam nobres; e tem a verdade em si tamanha excelência que, ainda que se aplique às humildes e baixas matérias, excede sem comparação as incertezas e as mentiras aplicadas aos grandiosos e altíssimos discursos... Mas tu, que vives de sonhos, agradam-te mais as razões sofísticas e os logros dos embusteiros sobre as coisas grandes e incertas, do que as certas e naturais e não tão elevadas.'"


- Leonardo da Vinci citado por Umberto Eco
in Apocalípticos e Integrados,
 Lisboa, Relógio D'Água, 2015

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

M de "(O) Mundo Inteiro" (II)


[...]
O companheiro lançou uma risada seca:
- Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.

[...]


José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
5.ª ed., Lisboa: Moraes, 1977





[ID, Estádio, 11/013]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XV)


EL VERBO


En el principio era el verbo
y el verbo no era dios
eran las palabras
frágiles transparentes y putas
cada una venía con su estuche
con su legado de desidia
era posible mirarlas al trasluz
o volverlas cabeza abajo
interrogarlas en calma o en francés
ellas respondían con guiños cómplices y corruptos
qué suerte unos pocos estábamos en la pomada
éramos el resumen la quintaesencia el zumo
ellas las contraseñas nos valseaban el orgasmo
abanicaban nuestra modesta vanidad
mientras el pueblo ese desconocido
con calvaria tristeza decía no entendernos
no saber de qué hablábamos ni de qué callábamos
hasta nuestros silencios le resultaban complicados
porque también integraban la partitura excelsa
ellas las palabras se ubicaban y reubicaban
eran nuestra vanguardia y cuando alguna caía
acribillada por la moda o el sentido común
las otras se juntaban solidarias y espléndidas
cada derrota las ponía radiantes
porque como sostienen los latinoamericanos del boul mich
la gran literatura sólo se produce en la infelicidad
y solidarias y espléndidas parían
adjetivos y gerundios
preposiciones y delirios
con los cuales decorar el retortijón existencial
y convertirlo en oda o nouvelle o manifiesto
las revoluciones frustradas tienen eso de bueno
provocan angustias de un gran nivel artístico
en tanto las triunfantes apenas si alcanzan
logros tan prosaicos como la justicia social

en el después será el verbo
y el verbo tampoco será dios
tan sólo el grito de varios millones de gargantas
capaces de reír y llorar como hombres nuevos y mujeres nuevas

y las palabras putas y frágiles
se volverán sólidas y artesanas
y acaso ganen su derecho a ser sembradas
a ser regadas por los hechos y las lluvias
a abrirse en árboles y frutos
a ser por fin alimento y trofeo
de un pueblo ya maduro por la revolución y la inocencia.


MARIO BENEDETTI

sábado, 13 de fevereiro de 2016

F de Fazer Fotografia (LIX)


"No dia 5 de Maio de 1938, Antonia oferece a Dino um maço de fotografias acompanhadas de um bilhete que então pareceu enigmático ao destinatário:

Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.
Antonia."


in Antonia Pozzi, Morte de Uma Estação,
pref. de José Carlos Soares,
Lisboa: Averno, 13 de Fevereiro de 2012
(dia em que a autora cumpriria 100 anos)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

P de "Pelos caminhos da manhã" (VII)


[...]
Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados de melancolia não encontravam quem os entendesse. O ambiente tentou manter com eles um diálogo negro. Tud...o em volta se assemelhava à escavação de um túmulo. Outros olhares podiam assustar-se, vendo como desciam águas novas pelas escarpas quebradas em degraus. Pensariam que se configurava, nessa fundura, o que um cadáver pode ver, se acaso vê pelas pálpebras cerradas: as paredes de barro e um céu distante. Não o olhar de Gabriel e de Lizzie que era o de quem acaba de nascer e sofre o choque da respiração. O Old Roar Gill aconselhava a que morressem nesse mesmo instante, mas eles não entendiam o conselho.


Hélia Correia, Adoecer,
Lisboa, Relógio D'Água, 2010



[ID, Londres, 2014]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" (IX)




Eduardo Guerra Carneiro, Isto anda tudo ligado,
2.ª ed., Lisboa, Fólio Exemplar, Outubro de 2015 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

P de Poética (XXIX)


O TROY É UMA INSTITUIÇÃO E NEM SEQUER PEDE
e assim acaba por ser um mendigo absentista, impróprio.
Dizem que só no carnaval estende a mão
como os outros põem a sua máscara.
Mas em janeiro, que é o mês das chuvas
e o Passeio Marítimo uma espécie de frontão do mar,
ou em agosto ou julho quando tudo está em festa
e até fevereiro regressa com o som dos seus foliões
e os churrascos na praia são
como sinais votivos de um povo milenar,
o Troy limita-se a falar sozinho da sua estrela
desorbitada, fala ou tagarela sem redenção ao vento
e contra o vento de levante expõe
a sua barba como um deus repudiado e rebelde,
e vai de um lado para o outro no semáforo,
sempre de um lado para o outro perseguindo o esquecimento.
Por muito amar, muito perdeu, comentam,
e agora é a sua liberdade contra a memória.
Sempre de um lado para o outro com a sua barba
e o seu casaco em agosto porque todos os caminhos
levam à desilusão.
                               A tristeza é a luz
da loucura ou esta talvez a sombra da dor,
mas a nossa alegria, a dos homens lúcidos,
é a insanidade com método, ou o código que ensina
a esquecer a impostura. Os loucos dão festins
surreais e os lúcidos festins com o sangue
dos nossos semelhantes: guerra, guerra,
e a loucura não consta muitas vezes
como forma de autodestruição.
O Troy carrega uma dívida no pensamento.
O Troy, que foi ferido por uma má carícia.
Tem uma lua desbocada no cérebro, uma maré.
por isso mesmo passa o dia atravessando no semáforo.
Tal como o vinho, tomada em grandes doses só
a loucura entorpece o seu dom caritativo.
Ah, querido, grande Novalis, a poesia cura
as feridas melancólicas da razão.
O Troy, como o mar, de um lado para o outro
do Passeio Marítimo.
                                   Começa-se por ser um deus,
um amante ardente, e acaba-se como louco
que, se pede esmola, a pede ao passado.


António Hernández, O Mundo Inteiro,
trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012





Izis Bidermanas, Carnaval de Nice, 1956

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


O SENTIDO DA SIMPLICIDADE



Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de Agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para este encontro,
ela insiste, a palavra. 


Yannis Ritsos traduzido por Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1980





[ID, Bartleby, 2012]