sexta-feira, 30 de setembro de 2016

T de "The days grow short..." (XIV)


426.

A paisagem em Naruni.

mar e arrozais
no início do outono -
o verde governa-os


Matsuo Bashô, O Eremita Viajante [Haikus - Obra Completa],
org. e versão portuguesa de Joaquim M. Palma,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2016





[ID, Lisboa, 09/016]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

P de "Postais do fim do mundo" (VI)


[...]

Como achas que posso amar a minha vergonha tão loucamente?
Nadamos o dia todo escondidos entre rochas
tentando saber o que se diz sobre nós no porto.
Gosto daquilo que disse que amava
e não posso acrescentar mais nada
porque toda esta morte me faz sentir
mais vivo do que nunca,
porque não distingo as épocas da minha vida,
porque não sei que tipo de mulher serias
nem que tipo de homem serei eu quando nos recordarmos.



[ID | Setembro 016]


Escrevo-te, finalmente, para saber quantas divisões
tinha a nossa primeira casa.
Esqueci-me de um dos quartos, ou não o fixei o suficiente.
Lembro-me de que te levantavas muito cedo,
eu passava a noite toda a escrever,
tu dizias-me para ir dormir,
mas ao amanhecer, enquanto tomavas o pequeno-almoço,
eu lia-te a história da minha educação.
Talvez nesse quarto não tenha acontecido nada
digno de ser recordado
e eu fechava-me nele para escrever
mas não escrevia nada, e tu tiravas-me dali
quase sem ar.
Talvez tenha escrito esse livro sozinho,
e foi essa a primeira ruptura.
No entanto, hoje preciso de saber
quantas divisões tinha a nossa primeira casa,
e a que horas é que te levantavas para ir trabalhar
e sustentar-nos.

[...]


Pablo Fidalgo Lareo, "Um ano sem voltar a casa",
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

I de "I want to ride my bike" (II)


O CICLISTA


O homem que pedala, que ped’alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.


Alexandre O'Neill, Poemas com Endereço [1962], 
in Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 
6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar),  2012

I de "I want to ride my bike" (VIII)


"[...] A verdade é que o bem é maior do que o mal. E, devido a isso, mais difícil de encontrar. Todos sabemos: demasiada luz: cega."


Manuel A. Domingos
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016





[Sabine Weiss, 1957]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

M de Meia-estação (III)




[Herbert Tobias]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XXXIII)


"[...] De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente - é um verbo. 
O nosso verbo, por exemplo, é escrever."


Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências
Lisboa, Relógio D'Água, 1996





[Willy Ronis, 1945]

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

S de S.T.T.L.




[In Nunes da Rocha, Cordoaria Nacional,
Lisboa, Averno, 2016]

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

M de Meia-estação (II)


CAFÉ SIMPLES


Deus fez o mundo e fê-lo com pressa,
mas os poetas, sem saírem das suas casas,
inflamados, coroados por línguas de fogo,
tiritando de solidão e de frio na madrugada,
mantêm-no em contínuo funcionamento.

O novo carregamento de luz ainda não chegou.
Longamente esperam as folhas negras das acácias,
os sete cinzentos do arco-íris, os vitrais das igrejas,
leves e frágeis como as asas de uma libélula.
Em breve se acumulará a claridade, nutritiva e generosa,
nas esquinas e o bispo branco derrotará o negro.
No Museu Nacional as sombras aguardam;
de um momento para o outro vão partilhar o verde,
o azul de Prússia, o vermelhão e o amarelo.

Os poetas, desvelados, administradores
de um vasto império invisível, preparam café;
esperam que fervam também as palavras.
Uma irmandade secreta de colherzinhas
tilintando nervosas, rodando para misturar
– enquanto as canetas sonham com o seu regresso
a Ítaca – as duas substâncias da vida:
o doce e o amargo, a luz e a escuridão.

Os poetas mexem e remexem: as suas colheres
e as suas canetas não sabem fazer outra coisa.
Com brio, com teimosia, quase com fervor.
Como se o redondo fluir dos relógios
nas morgues e nos aeroportos,
e o ciclo curto das estações
(às vezes apenas Outono e Inverno,
Outono e Inverno repetindo-se)
e o preguiçoso rodar do planeta inteiro,
com as suas dobradiças, os seus parafusos e rodas do destino,
dependessem única e exclusivamente
de um insone movimento de pulso.


in Contra las cosas redondas, La Bella Varsovia, 2016
[Trad. ID]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 4 de setembro de 2016

L de "Las simples cosas" (V)



[ID, Santa Cruz, 2016]



"Mudou a luz: isto é setembro."

Carlos Marzal




[ID, Nazaré, 2011]

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIV)


Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos,
Coimbra, 1963




[ID, 17/08/016]



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular,
Lisboa, Hiena Editora, 1991

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

S de S.T.T.L.


Virá a morte e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
                                     
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios mal fechados.
Desceremos o remoinho mudos.


22 de Março de 1950


Cesare Pavese
in Trabalhar Cansa, trad. Carlos Leite,
Lisboa: Cotovia, 1997

domingo, 14 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIII)





ÁLBUM


Quase nunca apareço, nessas
velhas fotografias: a mão
ou um ombro, desfocados; uma figura
ao fundo,
a sair do enquadramento.
Vejo-me, às vezes, na inquieta
mancha de uma criança, esse estremecimento
no olhar, ou o modo como
o sol derrama o seu ouro na  imagem;
ou aí, nesse golpe longo e branco
sobre a superfície do vidro
na parede atrás. Essa
nódoa de luz
a minha marca, de partida.

Se olharem de perto
para estes instantâneos, toda esta
película a ficar azul, começam
a reparar. Quando finalmente me virem,
vão ver-me por todo o lado: a flutuar
sobre flores, castelos de areia,
folhas caídas, naqueles
bonecos de neve derretendo-se, com as caras
desenhadas a carvão – entre todos
os convidados do casamento,
os convidados do jantar, os convidados
da festa de aniversário – este fumo
na emulsão, o defeito.
Está um fantasma aí; o fantasma levanta-se para ir.


- ROBIN ROBERTSON





[ID, 'The wrecking light', Agosto 2016]

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XII)




Rainer Maria Rilke
in O LIVRO DE HORAS, trad. Maria Teresa Dias Furtado,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009


terça-feira, 9 de agosto de 2016

A de Amor (VI)



Laurel Gray: [on a scene in Dix's script] I love the love scene - it's very good.


Dixon Steele: Well that's because they're not always telling each other how much in love they are. A good love scene should be about something else besides love. For instance, this one. Me fixing grapefruit. You sitting over there, dopey, half-asleep. Anyone looking at us could tell we're in love.



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

L de (A) Luz da Sombra (XXV)


Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa. 
E do chão. 


- DANIEL FARIA


sábado, 30 de julho de 2016

S de "Sei de um rio" (II)




[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]

O de "O mar, o mar" (V)


São desprezíveis os que amam e os que troçam
e quem espera e o desespero e a nostalgia.
Somos deuses que a dor e a infecção engrossam
e em Deus vamos pensando todavia.

A baía suave. Sonho em bosques sumido.
Os astros pesam, flores-bolas de nevar.
Saltam panteras p'las árvores sem ruído.
Tudo é margem. Eterno chama o mar.


Gottfried Benn, 50 Poemas
trad. Vasco Graça Moura, Lisboa: Relógio D'Água, 1998



[Epígrafe de Inês Dias, Tempos VáriosLisboa: Paralelo W, 2014]

E de Estar (V)


AINDA NÃO


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há cama só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


- ANTÓNIO JOSÉ FORTE
in Surrealismo/Abjeccionismo, org. Mário Cesariny de Vasconcelos, 
Lisboa: Edições Salamandra, 1992

S de "Sei de um rio"




[ID, Julho de 2016]


*




[Fotografia de Inês Dias
in Manuel de Freitas, Motet pour les trépassés,
Lisboa, Língua Morta, 2011]

quarta-feira, 27 de julho de 2016

J de (O) Jardim e a a Casa (XVIII)


SE EU FOSSE...


Se eu guardasse patos.
Mas não figura romântica, dama, estilizada.
Não como a que se debruça risonha, regaçada,
para o lago pequeno do Jardim da Estrela.

Se eu guardasse patos, de pé descalço ou de
tamancos...
De cana na mão, malhado do sol, esgrouviada,
sem graça nem disfarces!
Levaria o meu rebanho à minha frente, direitinho
à pancada.
Vá tu, mole. Vá tu, mal mandado. Vá, vá!

Real guardadora de patos da borda-de-água...
Se eu fosse!
Patos, meus cuidados, batidos e dóceis correríeis
como gamos.

Ou se eu fosse uma mulher de canastra.
Das que atravessam a correr as pranchas, carregadas e airosas.
Tantos passos para lá, tantos outros para cá...
Entre o barco e o cais o espaço é curto e debaixo há água.
E a prancha ginga.
Mas elas correm pesadas, seguras e rítmicas.

Ser uma mulher de canastra...
Se eu fosse!


João Falco (Irene Lisboa), Outono havias de vir,
Lisboa: Seara Nova, 1937



"Filha de rei guardando patos", Jardim da Estrela, 1917


*


FILHA DE REI GUARDANDO PATOS
[Jardim da Estrela, 1917]


Já não nos podem tirar nada:
o castelo estava em ruínas
quando o conquistámos
e da revolução sobrara apenas
a memória doméstica da água cortada,
toda aquela roupa por lavar.

Mas as estações deixavam-se guardar
nos herbários e o futuro rasgava-se
ainda nesse gesto largo, sem muros,
longe do exercício incerto de descer
a calçada mais íngreme.

Estas eram as nossas estrelas -
açaimadas, coxas, vadias.
E não desistimos de as trazer para casa.




Inês Dias, 
in Deitar a Língua de Fora, com ilustrações de Luís Henriques
Lisboa: Língua Morta, 2012

segunda-feira, 25 de julho de 2016

N de 'Nous deux encore' (VI)




Andrei Tarkovsky, Nostalghia, 1983

domingo, 24 de julho de 2016

P de Poética (LVII)


[...]
Atormentava-o um problema, que lhe dava má consciência e o impedia de escrever: o que se passa no domínio da escrita não será destituído de valor se se mantiver puramente "estético", anódino, desprovido de sanção, se, no acto de escrever uma obra, não houver nada que seja o equivalente (e aqui intervém uma das imagens mais caras ao autor) do que são para o toureiro os cornos acerados do touro, a única coisa que - por causa da ameaça material que contêm - confere uma realidade humana à sua arte, e a impede de ser apenas a graça fútil de uma bailarina?
[...]


Michel Leiris, "Da literatura considerada como uma tauromaquia", 
in Idade de Homem, Lisboa: Editorial Estampa, 1971


*


"[...] disse que tal como aos toureiros lhes crescem as barbas com o medo de tourear assim lhe crescia a barba na espera dos críticos. e imaginei-o em pequeno a escrever num diário, imberbe. e agora esta vida de samurais e de toureiros onde é preciso sangrar. é isso a literatura, diz ele. um samurai que sabe que vai morrer mas continua a lutar. [...]"


Sandra Andrade, Doppelgänger,
Coimbra, DSO, 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

P de Perder a cabeça - IV c




[ID, Porto, 17/07/016]

P de Perder a cabeça - IV b


(O pardal)

A catástrofe das pequenas coisas.
Um pássaro canta sobre a esfera de pedra.
Envolve-o a secura, não a do deserto, mas a do cimento. Desbotado.
Nem um vaso, nem uma cadeira, nem um toldo, nem uma rosa de ninguém:
a luz nos mosaicos anuncia a aridez de uma execução.
A catástrofe das pequenas coisas.
Em baixo, tão em baixo que é preciso olhar para baixo, o artifício das árvores. É esta varanda que lhes tira a humanidade. Mas que é a humanidade de uma árvore? Não o pássaro que a esfera tornou um pássaro de pedra. Um canto de pedra.
Que acrescenta à pedra a forma de um voo.
Não lhe atenua a aridez:
exalta-a.
Exibe-a.
A catástrofe das pequenas coisas.
Não lhe vejo o bico entreaberto, nem o estremecimento das penas: ouço-lhe o canto.
Como um memorial.
De súbito, levantará voo.
E a pedra deixará a pedra. Sem uma marca.
:
um osso exposto
fractura quem o vê?


Rui Nunes, A Crisálida,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

P de Postais - V d




[ID, Porto, 25/10/015]

segunda-feira, 18 de julho de 2016

B de Biorritmo (CLVIII)


SHE LIVES BY THE CASTLE


Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes,
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015

domingo, 17 de julho de 2016

L de "Las simples cosas" (III)





NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011




[ID, Entre Famalicão e Moledo, Junho 016]

sábado, 16 de julho de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (VII)




*




Albert Camus
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa, 
Lisboa, Livros do Brasil, s/d


*


"no vivir por mano ajena"


Camilo José Cela



*




"O prazer da vida é apenas um: não ser um escravo."

Otar Iosseliani
in Ípsilon, 14/01/11

segunda-feira, 11 de julho de 2016

sábado, 9 de julho de 2016

M de Música para os meus olhos (XLI)




"Evolução de uma Miopia"
in Clarice Lispector, Todos os Contos,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

M de Museu Imaginário (XXVI)



[Abbas Kiarostami, Cópia Certificada, 2010]



"[...]

Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.

[...]"


 João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio", 
in Telhado de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Antoni Tapiès, "Gran Sábana", 1968]



[Fotograma de Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

T de Tratado de Pedagogia (LX)


10 VERSOS


Sim, estive nessa rua
à hora incerta, de costas
para os avisos da morte

que já então me cobiçava.
Fui pequeno, confiante,
tive um chapéu de palha,

aprendi a tabuada. A noite
roubou-me a voz, a sorte
deu-me estes versos, 1 x 10

igual a nada.


Rui Pires Cabral
in Nós, os desconhecidos,
Lisboa: Averno, 2012


*


íamos ali
no intervalo das duas mortes jogava-se
o bilhar
alguns velhos concêntricos moíam apostas baixas
à carambola
ponho talco nas mãos e no taco enquanto
observo resvalar a nota dobrada em quatro sobre o pano
verde
uma visão triangulada às tabelas da cabeceira
com gramsci nietzsche hemingway mal batidos
camurças de 1.ª entre duas novas mortes
também jogava às sortes nas traseiras do prédio
entre gente ordinária no gamão - tinha 13 anos
depois tanto fazia ganhar como perder


Paulo da Costa Domingos, 4,
Lisboa: & etc, 1981

domingo, 26 de junho de 2016

D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" * - II


MAGSTRAEDE, 16


Apenas vos posso dizer que fica 
numa das ruas mais bem escondidas 
de Copenhaga, onde os prédios
dos séculos XVII e XVIII
se vestem de cores - estas sim -
realmente várias, obedientes
à lenta declinação da luz.

Portadas e janelas, nos seus graus
ínfimos de abertura e reclusão,
edificam um silêncio, uma dignidade,
que não consigo imaginar a Sul e que 
só um pintor dinamarquês soube captar.

Fica numa das ruas mais escondidas
de Copenhaga, embora vá fechar em Setembro 
de 2007, o restaurante Tyven Kokken hans Kone 
og hendes Eksten. E é sem querer, claro, que
nos despedimos para sempre destas paredes brancas. 


Manuel de Freitas
in Inês Dias, Lisboa: nigredo, 5 de Setembro de 2014



* O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

P de Pássaros Anónimos (VI)






POEMA


Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos



Mário Cesariny, 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão,
seguidos de Poemas de Londres (Quadrante)





[ID, 'Hyde Park - evening', Outubro 014]

quarta-feira, 22 de junho de 2016

C de "(O re)começo de um livro..." (V)

[...]
Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses, também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as suas doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.

[...]




Paulo da Costa Domingos, Narrativa,
com capa e carta-prefácio de Vitor Silva Tavares,
Lisboa, Alambique, 26 de Maio de 2016

L de Ler (XI)


"Estamos todos doentes, 
e só sabemos ler os livros que falam da nossa doença."


Jean Cocteau, La difficulté d'être,
Paris: Éditions du Rocher, 1989

F de Fazer Fotografia (LXXVIII)


"Nos meus passeios reparava que toda a paisagem nos últimos meses tinha adquirido como que uma tonalidade estranha por causa daquela dor. Aqui ou ali havia uma árvore onde a dor tinha sido mais intensa, aqui ou ali uma vedação onde tinha batido com a mão ao caminhar. Quando passava novamente nesses sítios, nos dias em que não tinha dores, a dor parecia lá continuar, na vedação.
A dor é uma paisagem."


Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor,
trad. Ana Diniz, Porto: Edições Asa, 1992

terça-feira, 21 de junho de 2016

quinta-feira, 16 de junho de 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

E de Encontro (II)


5.


Nunca separei um sorriso do amor.

Circula essa jornada confusa,
um afã não dito,
um amargo que muda


em ternura.

                    Tranquila vibração,
recôndita fugacidade, solta
o gemido que vai da língua à garganta,
semente de uma ave.

Enleia num alento o outro enleio.

O silêncio não precisa de provocar
o que não ouve, lá fora, na madressilva.

A glicínia a magnólia o cacilheiro
cada margem.

Um sorriso.

Joaquim Manuel Magalhães, "Homossexualidade",
in Telhados de Vidro n.º 4, Lisboa, Averno, Maio de 2005




[ID, Maio 016]




segunda-feira, 13 de junho de 2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

L de Look down




[ID, 10 de Junho de 2011, 
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas]

C de "(O) começo de um livro..." (IV)


1

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

2

Renunciei a que alguém, um dia, me chame: "Avó Gabriela".
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando: "Avó Gabriela". Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista.

3

Ela tinha sempre um olhar __ deixara de se temer a si própria. O anel
Que trazia no caule era mais amplo ainda; o que olhava, de somenos
Importância. Era uma planta de folhas claras. O ruído da cidade
Entrava pela janela. Viera pôr a sua luz à secretária.
Por que viera assustá-la?
Não sei.
Não compreendendo por que luz e ruído se associavam, dia após dia,
"cabra de luz", lhe chamava. Respirar era-lhe evidente difícil.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

quinta-feira, 9 de junho de 2016

T de Tratado de Pedagogia - LXIII





I'LL GO TO HELL


Escapar pelo rio,
fugir numa jangada,
acariciar o medo,
coleccionar estrelas,
gostar dos amigos.

Fumar a tristeza
num cachimbo de cortiça.
Ser a sombra que flutua,
uma alma sigilosa que se esconde do sol. 

Enfiar linha numa agulha
com um beijo,
ser a menina que lê
enquanto mexe no cabelo.

Irei para o inferno,
guardarei o teu segredo
do homem escondido
que procura a liberdade
e sonha que o futuro
não distingue as cores.

Irei para o inferno
contigo, Huckleberry,
e o fundo do teu abraço
será a minha salvação. 


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]





[ID, Sintra, Abril 016]

S de Segredo




[ID, Lisboa, 10/013]



sábado, 4 de junho de 2016

A de Amor (XII)


Não te aproximes tanto
de uma alma em cinzas. Apenas
arde

ou dá-me
do sol estrelas, escuros
fragmentos da mansidão. So tired

of dying
digo, baixinho, amo-te. Digo-o
pela tua boca.


- José Carlos Soares, Este perder-se
(2011)




[ID | 2011]

sexta-feira, 3 de junho de 2016

M de Morte (III)


O cão que persegue os pássaros não sabe
que nunca vai voar,
nem a encrespada onda que atingia a tua imensa
altura de criança conhecia
o seu destino de charco desfeito pelo vento.
E aquela nuvem também não
acordará inquieta, a meio da noite,
receando a chuva caída sobre os campos,
nem o pintassilgo que esculpe os seus sons de prata
nos muros do ar
se queima na cinza do seu próprio cantar.
Mas eu sei, quase nasci a saber,
que um dia não estarei sobre o teu coração
para compreender tudo.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. Inês Dias,
Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011





[ID, 'A perspectiva da morte', 14/06/016]

quarta-feira, 1 de junho de 2016

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]



Cai a persiana
como se o sol

se desatasse

e mora agora
em mim
a penumbra

das coisas 
claramente vistas


Vasco Gato, Primeiro Direito,
Lisboa, Artefacto, 2016