sexta-feira, 30 de maio de 2014

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (L)



Do 'Terrorismo Poético' (cf. Hakim Bey) e do outro
Lisboa / Maio 014

domingo, 25 de maio de 2014

M de "Me, Myself and I"



[18/05/014]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXVIII)


Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.

Derek Walcott
[Trad. ID]

sábado, 24 de maio de 2014

C de Começar o dia com um livro novo (XXX)



[ID / Santarém, Março 2014]



LÍRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso. 
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento. 
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre - 
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro. 


Rosa Maria Martelo, Matéria,
Lisboa: Averno, 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

N de "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos" (VI)


QUINTAL


Deixou a porta aberta, não deve demorar.
Depois de escurecer costuma respeitar
o recolher obrigatório. Durante o dia, sim,
o bairro é mais pequeno, tem apenas de inserir-se
na colmeia, uma ilha maior, com mais recursos:
algumas calorias para o corpo funcionar.

Dantes havia aqui peixes dourados.
O quintal é agora uma ruína, uma faca velha
cravada no ombro, com a ponta de ferro
a fechar-se atrás de mim. Cruzes fluorescentes
espalhadas pelos cantos sinalizam as paredes
mais instáveis. E ao centro, junto ao tanque,
um pequeno grafito avermelhado. É sangue, não é?

Se não é, podia ser, combinava com o gemido
do baloiço enferrujado, a peça de metal no topo
do sarcófago. Quer dizer, hoje vinha visitá-lo.
Mas a casa aguentará mais do que o peso
de um homem? A memória é um túnel por baixo
da terra antiga. E eu não sei como descer.

Quanta corda ainda temos?


Vítor Nogueira, Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: &etc, 2011



[Ribatejo, 18/05/014]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

T de Tratado de Pedagogia - LXII


Outro dia reli o romance de Thomas Mann, A Montanha Mágica. Este livro encena uma doença que eu conheci muito bem: a tuberculose; através da leitura, reunia na minha consciência três momentos  dessa doença: o momento da anedota, que se passa antes da guerra de 1914, o momento da minha própria doença, por volta de 1942 e o momento actual, em que a moléstia, vencida pela quimioterapia, já não tem a mesma gravidade que tinha antigamente. Ora a tuberculose que vivi é muito pouco parecida com a tuberculose da Montanha Mágica: os dois momentos confundiam-se, igualmente afastados do meu presente. Apercebi-me então com espanto (só as evidências podem espantar) que o meu próprio corpo era histórico. Em certo sentido o meu corpo é contemporâneo de Hans Castorp, o herói da Montanha Mágica; o meu corpo, que ainda não tinha nascido, tinha já vinte anos em 1907, o ano em que Hans penetrou e se instalou na "região do alto"; o meu corpo é bastante mais velho do que eu, como se nós conservássemos sempre  a idade dos medos sociais por que passámos ocasionalmente. Se, afinal, quero viver, devo esquecer que o meu corpo é histórico e devo alimentar a ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes e não do meu corpo passado.  Numa palavra, devo renascer periodicamente, tornar-me mais jovem do que sou. [...] Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas surge em seguida uma outra em que se ensina o que se não sabe: a isso se chama procurar.


Roland Barthes, Lição
trad. Ana Mafalda Leite, Lisboa: Edições 70, 1988

terça-feira, 13 de maio de 2014

domingo, 11 de maio de 2014

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VIII)


ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


CARLOS DE OLIVEIRA



[Fotograma de In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai]

sexta-feira, 2 de maio de 2014

E de Espinhas para um gato (XVII)





Brassaï

quinta-feira, 1 de maio de 2014

J de Janelas (VI)


A DE OLHOS ABERTOS


A vida brinca na praça
com o ser que nunca fui
e aqui estou 
dança pensamento
na corda do meu sorriso
e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela
vida aqui estou 
a minha vida 
o meu sangue só e hirto
fere o mundo
mas quero saber-me viva
mas não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos


ALEJANDRA PIZARNIK
versões de Maria Sousa, Coimbra, do lado esquerdo, 2014




Mario Giacomelli, série “The Village”, 1958