ALDA MERINI
21 de Março de 1931 - 1 de Novembro de 2009
Obrigada por este parêntesis morto,
por este incunábulo puro,
por esta brisa de aloendro!
Às vezes os mortos são uma história lúgubre,
às vezes só se descobrem depois,
quando ao afastar cortinas de espaço
os encontramos inumeráveis e regressados,
e é desagradável dizer a quem passa
“este já não está sobre a Terra
porque vivia ébrio de beijos”.
*
Quando os apaixonados falam
entre as árvores
e centenas de ruas infelizes,
quando abraçam a hera
como se fosse um canto,
quando descobrem a graça
nas searas descompostas
e profundamente viçosas,
quando os apaixonados gemem,
tornam-se senhores da terra
e vizinhos de Deus
como os santos mais ébrios.
Quando os apaixonados falam da morte
falam da vida eterna
conversando num fino esperanto
que só Ele conhece.
A sua linguagem é dessacralizante,
mas evoca a graça infinita
de um imenso perdão.
*
Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não lhes urge,
quando se cala o ruído da multidão
e termina o linchamento das horas.
Os poetas trabalham no escuro
como falcões nocturnos ou rouxinóis
de dulcíssimo canto
e receiam afrontar Deus.
Mas os poetas, no seu silêncio,
fazem muito mais ruído
do que uma dourada cúpula de estrelas.
*
Regressa ao vento da poesia
que não há esperança
mas vive dia a dia
pisando os ossos dos velhos
e antigos profetas.
Regressa às montanhas ardentes
da solidão
que te queimarão o corpo
e a voz.
Regressa aos quotidianos tormentos
mas lembra-te que a solidão
é a única mulher que não te abandona.