domingo, 28 de fevereiro de 2016

D de (Des)obediência (II)



[ID, Guimarães, 2013]



[ID, Beja, 2014]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVIII)


No fundo, talvez ele [Emerson] esteja muito perto de Pickpocket de Bresson: ter viajado tanto para chegar àquela que esteve sempre ao seu lado, chegar ao mais próximo de si, obedecer às intimações da proximidade. É que a exigência de viver no presente - e, portanto, acima do tempo ou no seu coração mais secreto - é a condição do esclarecimento de que a alma não é viajante: "onde ela se encontra, encontra-se o dia" (p. 37). A alma é luz: cada ser basta-se a si próprio se responder às "exortações para ficar em casa, para entrar em comunhão com esse oceano interior". Não ter contratos mas proximidades, agora citando a passagem completa: "Que cada um saiba que, doravante, não obedeço a nenhuma lei senão a eterna. Não quero outras obrigações senão as da proximidade" (p. 44). A lei eterna é a de considerar e aceitar tornar-se aquilo que se é, sem uma noção teórica disso que se é [...].
Aquele que viaja para se divertir, ou para obter uma coisa que não traz consigo, viaja para se afastar de si próprio e envelhece mesmo sendo jovem: eis o estilhaçamento da temporalidade própria de cada um: aquele que vai ter com as ruínas ancestrais, sem ter mais nada para dar a não ser o vazio da sua curiosidade, acrescenta ruínas às ruínas.


- Maria Filomena Molder
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

L de Lar (V) - quase P de Primavera (XIV)


ÚLTIMO SONHO



A minha avó Isabel
ouvia em sonhos rebanhos de ovelhas
passando junto à janela.

Todas as noites, em plena cidade,
as ovelhas da sua infância visitavam-na.
Jurava que ouvia os suaves balidos,
o delicado tilintar dos chocalhos
misturando-se ao rumor de patas pisando o asfalto.

A minha avó Isabel
recebia a visita dos sons da sua meninice aos noventa anos.
Para ela, a cidade povoava-se de ovelhas invisíveis
pastando entre as recordações da sua infância na aldeia
sem electricidade, sem água corrente, sem automóveis.

Quando um som, um cheiro, uma imagem ou uma voz
encontram o seu caminho de regresso até nós,
não há nada mais verdadeiro do que essa presença
vívida, intensa, verdadeira.

Talvez no final da nossa vida
nos permitam recordar o essencial,
o mais belo que tenhamos vivido.

Se é verdade que a nossa memória
nos concede um último desejo antes dessa viagem
em forma de ilusão com aspecto de realidade,
de alucinação esplêndida como um céu de verão,
com que som adormecerá cada um de nós?


María Paz Moreno
[Trad. ID]




[08/12/2010]

S de "Semantics won't do" (XXV)



domingo, 21 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVII)


"Por conseguinte, ao fazer a introdução a um discurso sobre as 'coisas mínimas' e sem história, não sabemos resistir à tentação de cobrir os nossos ombros com um recurso à história, pedindo emprestadas as palavras de quem considerou ser digno discorrer sobre 'as humildes e baixas matérias': 'É de tamanho vilipêndio a mentira que - escrevia Leonardo -, mesmo quando diz bem de coisas de Deus, retira graça à sua divindade, e é de tamanha excelência a verdade que, mesmo quando louva as coisas mínimas, estas se tornam nobres; e tem a verdade em si tamanha excelência que, ainda que se aplique às humildes e baixas matérias, excede sem comparação as incertezas e as mentiras aplicadas aos grandiosos e altíssimos discursos... Mas tu, que vives de sonhos, agradam-te mais as razões sofísticas e os logros dos embusteiros sobre as coisas grandes e incertas, do que as certas e naturais e não tão elevadas.'"


- Leonardo da Vinci citado por Umberto Eco
in Apocalípticos e Integrados,
 Lisboa, Relógio D'Água, 2015

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

M de "(O) Mundo Inteiro" (II)


[...]
O companheiro lançou uma risada seca:
- Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.

[...]


José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
5.ª ed., Lisboa: Moraes, 1977





[ID, Estádio, 11/013]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XV)


EL VERBO


En el principio era el verbo
y el verbo no era dios
eran las palabras
frágiles transparentes y putas
cada una venía con su estuche
con su legado de desidia
era posible mirarlas al trasluz
o volverlas cabeza abajo
interrogarlas en calma o en francés
ellas respondían con guiños cómplices y corruptos
qué suerte unos pocos estábamos en la pomada
éramos el resumen la quintaesencia el zumo
ellas las contraseñas nos valseaban el orgasmo
abanicaban nuestra modesta vanidad
mientras el pueblo ese desconocido
con calvaria tristeza decía no entendernos
no saber de qué hablábamos ni de qué callábamos
hasta nuestros silencios le resultaban complicados
porque también integraban la partitura excelsa
ellas las palabras se ubicaban y reubicaban
eran nuestra vanguardia y cuando alguna caía
acribillada por la moda o el sentido común
las otras se juntaban solidarias y espléndidas
cada derrota las ponía radiantes
porque como sostienen los latinoamericanos del boul mich
la gran literatura sólo se produce en la infelicidad
y solidarias y espléndidas parían
adjetivos y gerundios
preposiciones y delirios
con los cuales decorar el retortijón existencial
y convertirlo en oda o nouvelle o manifiesto
las revoluciones frustradas tienen eso de bueno
provocan angustias de un gran nivel artístico
en tanto las triunfantes apenas si alcanzan
logros tan prosaicos como la justicia social

en el después será el verbo
y el verbo tampoco será dios
tan sólo el grito de varios millones de gargantas
capaces de reír y llorar como hombres nuevos y mujeres nuevas

y las palabras putas y frágiles
se volverán sólidas y artesanas
y acaso ganen su derecho a ser sembradas
a ser regadas por los hechos y las lluvias
a abrirse en árboles y frutos
a ser por fin alimento y trofeo
de un pueblo ya maduro por la revolución y la inocencia.


MARIO BENEDETTI

sábado, 13 de fevereiro de 2016

F de Fazer Fotografia (LIX)


"No dia 5 de Maio de 1938, Antonia oferece a Dino um maço de fotografias acompanhadas de um bilhete que então pareceu enigmático ao destinatário:

Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.
Antonia."


in Antonia Pozzi, Morte de Uma Estação,
pref. de José Carlos Soares,
Lisboa: Averno, 13 de Fevereiro de 2012
(dia em que a autora cumpriria 100 anos)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

P de "Pelos caminhos da manhã" (VII)


[...]
Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados de melancolia não encontravam quem os entendesse. O ambiente tentou manter com eles um diálogo negro. Tud...o em volta se assemelhava à escavação de um túmulo. Outros olhares podiam assustar-se, vendo como desciam águas novas pelas escarpas quebradas em degraus. Pensariam que se configurava, nessa fundura, o que um cadáver pode ver, se acaso vê pelas pálpebras cerradas: as paredes de barro e um céu distante. Não o olhar de Gabriel e de Lizzie que era o de quem acaba de nascer e sofre o choque da respiração. O Old Roar Gill aconselhava a que morressem nesse mesmo instante, mas eles não entendiam o conselho.


Hélia Correia, Adoecer,
Lisboa, Relógio D'Água, 2010



[ID, Londres, 2014]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" (IX)




Eduardo Guerra Carneiro, Isto anda tudo ligado,
2.ª ed., Lisboa, Fólio Exemplar, Outubro de 2015 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

P de Poética (XXIX)


O TROY É UMA INSTITUIÇÃO E NEM SEQUER PEDE
e assim acaba por ser um mendigo absentista, impróprio.
Dizem que só no carnaval estende a mão
como os outros põem a sua máscara.
Mas em janeiro, que é o mês das chuvas
e o Passeio Marítimo uma espécie de frontão do mar,
ou em agosto ou julho quando tudo está em festa
e até fevereiro regressa com o som dos seus foliões
e os churrascos na praia são
como sinais votivos de um povo milenar,
o Troy limita-se a falar sozinho da sua estrela
desorbitada, fala ou tagarela sem redenção ao vento
e contra o vento de levante expõe
a sua barba como um deus repudiado e rebelde,
e vai de um lado para o outro no semáforo,
sempre de um lado para o outro perseguindo o esquecimento.
Por muito amar, muito perdeu, comentam,
e agora é a sua liberdade contra a memória.
Sempre de um lado para o outro com a sua barba
e o seu casaco em agosto porque todos os caminhos
levam à desilusão.
                               A tristeza é a luz
da loucura ou esta talvez a sombra da dor,
mas a nossa alegria, a dos homens lúcidos,
é a insanidade com método, ou o código que ensina
a esquecer a impostura. Os loucos dão festins
surreais e os lúcidos festins com o sangue
dos nossos semelhantes: guerra, guerra,
e a loucura não consta muitas vezes
como forma de autodestruição.
O Troy carrega uma dívida no pensamento.
O Troy, que foi ferido por uma má carícia.
Tem uma lua desbocada no cérebro, uma maré.
por isso mesmo passa o dia atravessando no semáforo.
Tal como o vinho, tomada em grandes doses só
a loucura entorpece o seu dom caritativo.
Ah, querido, grande Novalis, a poesia cura
as feridas melancólicas da razão.
O Troy, como o mar, de um lado para o outro
do Passeio Marítimo.
                                   Começa-se por ser um deus,
um amante ardente, e acaba-se como louco
que, se pede esmola, a pede ao passado.


António Hernández, O Mundo Inteiro,
trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012





Izis Bidermanas, Carnaval de Nice, 1956

sábado, 6 de fevereiro de 2016

R de Rezar na era da técnica (XX)


I

Chego à Achadinha e poiso o corpo sobre o chão quente. Deixo que a realidade, vivaz e rasa, tome conta de mim, da minha respiração, das sombras que me povoam. Que se vá instalando com doçura em cada pedaço de pele. Nisto vão chegando os gatos, um a um, em passadas cautelosas. Percebo nos seus olhos a ternura do reencontro, mesmo naqueles que nunca consigo afagar, porque a sua liberdade e a sua bravura não consentem as minhas mãos temerosas. Nunca, como eles, fui capaz de atravessar destemidamente o escuro. Nunca, como eles, apontei as garras ao medo, riscando de coragem a noite funda. Alguns não me perdoam essa fraqueza, esse meu ser excessivamente gente, e têm toda a razão. A esses apenas peço, em surdina, que me emprestem, assim de viés, um raspão da sua presença.

Deito-lhes bocadinhos de comida e água fresca. Pelo chão, pelas escadas, pelo alpendre. Vêm e vão, num silêncio-poema, fitando, serenos, a minha ansiedade.


Renata Correia Botelho, "Os donos da alvorada",
in Cão Celeste n.º 5, Lisboa, Maio de 2014




[ID, Achadinha, Junho de 2015]

R de Rezar na era da técnica (XIII)


NADA MAIS - RIEN NE VA PLUS


Na alienação que é o pensamento
as coisas escorrem pelos dedos abaixo
a matéria, a «phisis»
tudo nos escorre pelos dedos abaixo
na alienação que é o pensamento
Dominam-se as coisas até onde o céu
pode ser aberto
e a geometria uma realidade nossa
para limitar o espaço
A cabeça em limites
onde um limite um ser
uma coisa
e tudo cá dentro cá dentro cá dentro
até onde um limite
ainda torna possível a existência
dum outro por abrir
Hoje o céu é novo é diferente
é dormir e acordar de novo para as coisas
o céu os pássaros
a fantasia dos pássaros
Hoje é o céu novo o céu novo
hoje é a Grécia de ontem
foi ontem a Grécia
mas a Grécia ainda é hoje
é hoje porque é dormir e acordar de novo para as coisas
achá-las vê-las
cumprimentar as coisas com bons dias ao Sol
bom dia meu irmão
ressuscitar um morto
dizer aqui S. Francisco de Assis
aqui a cabeça cheia de vento
a graça as flores
o vento na cabeça
a cabeça a janela
aberta aberta
de S. Francisco de Assis
Hoje é dizer fui ontem mas ainda sou amanhã
amanhã amanhã
amanhã até onde o céu for aberto
e até onde a Estrela Polar distante distante
Hoje é dormir cantar
dormir com uma canção na cabeça
dizer boa noite meu amor meus astros minha esfera
amanhã outra vez amanhã de novo te conheço
ressuscito para as coisas
e assim o sono a existência o momento que passa
e nada mais
porque nada mais meu bom Sartre na verdade
nada mais que o momento
conta senão para nós.


António Gancho, O ar da manhã
Lisboa: Assírio & Alvim, 1995

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


O SENTIDO DA SIMPLICIDADE



Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de Agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para este encontro,
ela insiste, a palavra. 


Yannis Ritsos traduzido por Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1980





[ID, Bartleby, 2012]