domingo, 20 de agosto de 2017

C de "celui qui regarde une fenêtre fermée" (III)



[ID, Lisboa | 06/011]



GATO EM APARTAMENTO VAZIO


Morrer - isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio. 
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outros são.
E nem se acende a luz pela noitinha. 

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha. 

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Algo há aqui que não corre
como devia correr. 
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis. 
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Deixa-o só voltar,
deixa-o lá mostrar-se.
Há-de aprender
que com um gato não se brinca assim. 
Há-de um bicho ir-se chegando para perto,
como quem não quer a coisa,
bem devagar,
muito sobre as patinhas ofendidas.
E ao princípio nada de saltar nem de miar.


Wislawa Szymborska, Paisagem com grão de areia, 
trad. de Júlio Sousa Gomes, Lisboa, Relógio D' Água, 1998




[ID, Lisboa | 04/015]

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

F de Fosforologia



PATERSON, 2016 (JIM JARMUSCH)


Os poemas são como o mundo: não rimam. Voltam, desaparecem, tentam dizer o peso da água ou o aroma ténue da cerveja. São uma trela no escuro, depois de termos queimado todos os fósforos. Escrevemos, num caderno vazio, a palavra ausência. Talvez amanhã seja outro dia.

[...]



- Manuel de Freitas 
in Telhados de Vidro n.º 11, Lisboa, Agosto de 2017




Jim Jarmusch, Os limites do controlo (2009) | Paterson (2016)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

I de "I want to ride my bike" (X)



E. M. CIORAN

R de 'Respirar debaixo de água'


A MINHA IRMÃ


Passava as horas recostada no sofá, ela
era chuva e cascata do beiral.
Aumentava o volume para não ouvir os passos
cansados no corredor.

Ela sabia correr e encher de ar os seus pulmões,
mergulhar quatro metros abaixo de água
até obter importantes troféus de bronze.

Uma vez pensei no perigoso que era suster tantos minutos a respiração,
cheguei a acreditar que desapareceria para sempre.
Vivia a ilusão do não regresso: afundar-se abaixo do nível,
alguns centímetros abaixo do nível. Ninguém se sente bem na tempestade sempre.

Para permanecer é necessária a descida.


Jeannette Lozano (trad. Inês Dias)
in Telhados de Vidro n.º 19, Lisboa, Averno, Maio 2014





[Imogen Cunningham, "Aiko's hands", 1971]

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

S de Santa Cruz (XVI)




[ID, 'Do (meu) mundo', 08/017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XXXIX)


SOBRE OS PERIGOS DE TOCAR MÚSICA MEDIEVAL
- para Inês Dias e Ana Isabel Dias


Hipnotizantes, as pequenas mãos da harpista, pousadas,
balançando cada lado do espelho

que é ruído branco da cascata,
impedindo-nos de fazer a travessia para o Vazio.

Quando aquelas mãos voam, uma em direcção à outra,
o erotismo de ver e de tornar órfico,

- uma calma mais profunda no som - também a harpista,
arriscando-se a perder o toque que os seus dedos devem ter,

está em perigo de se hipnotizar a si mesma
com a sua própria e bem ensaiada divindade.


John Mateer, Descrentes,
trad. Andreia Sarabando, Coimbra, DSO, 2015





[ID, 'God is in the details', Londres | 2014]

A de "até que os fios do coração"


SOBRE O LADO ESQUERDO


     De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
     No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».


- CARLOS DE OLIVEIRA




[14/03/011, às 7h40]

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

segunda-feira, 31 de julho de 2017

I de 'I want to ride my bike' (IX)




Jeanne Moreau
[1928-2017]

domingo, 30 de julho de 2017

C de "Chama a luz com um assobio" (II)


CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.

Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.


João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
 Lisboa: Averno, 2004

sexta-feira, 28 de julho de 2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

R de 'Rezar na era da técnica' (XXV)


Um dos poemas lidos ontem, 
no Paralelo W, pelo Nuno Moura:




in Poemas Ameríndios - mudados para português por Herberto Helder,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997

sábado, 8 de julho de 2017

E de Efeito Borboleta (V)


R de Regresso ao/do Trabalho (LI)





à saída do turno, na mudança de turno
de novo a névoa pelos ossos
a alma trata de si e por favor não me fales da noite
o tempo perdido pelo caminho
com essa coisa comerciante

mãos nos bolsos
subindo a estrada, entre as canas da índia
dentro das ruas como nos desenhos
até chegar a estas palavras

ardeu tudo há muito tempo
andamos com restos no bolso, um minuto por vigiar
como almas penadas, aquelas que erram
sem poderem regressar
nunca
ou não era bem assim


João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005




[ID, 'Aqui a tua casa: esta névoa', São Miguel 015]



*



PARTE POÉTICA


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos 
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados, 
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre. 
Mas entretanto já é hora de dormir. 
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

segunda-feira, 3 de julho de 2017

C de "(O) começo de um livro..." (VI)


Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
[...]




Rui Nunes, Lampedusa,
com arranjo gráfico de Luís Henriques,
Lisboa, Paralelo W, 2017

domingo, 2 de julho de 2017

T de (Uma) teoria de pássaros (XXXIV)




Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

T de (Uma) teoria de pássaros (II)


O VÔO DOS PÁSSAROS


Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.
Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.
Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.

Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.
Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sôbre nenhum pássaro.
Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.

Em vôo, como os anos, a vida, o tempo...

Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.


- LÊDO IVO

segunda-feira, 26 de junho de 2017

C de Carrosséis (XVIII)




Nunes da Rocha, Poemas obsoletos de um bicho imóvel,
Lisboa, Averno, 24 de Junho de 2017

C de Carrosséis (VII)




"I used to know a little square/so long ago, when i was small/all summer long it had a fair/wonderful fair with swings and all/I used to love my little fair/and at the close of every day/I could be found, dancing around/a merry-go that used to play//ah, mon amour/à toi toujours/dans tes grands yeux/rien que nous deux (...)"

sexta-feira, 23 de junho de 2017

P de Poética (LXII)





Ricardo Marques, A Noite [Variações],
com capa a partir de colagem de Rui Pires Cabral e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 2017


quarta-feira, 21 de junho de 2017

P de Pele (V)




[Imagem de Splendor Solis
um tratado alquimista alemão de 1582]

C de Coração arquivista (IV)


[...] Anoto este facto, entre outros, no meu caderno, para futuras referências. Quando for grande terei sempre comigo um espesso caderno de notas com numerosas páginas metodicamente dispostas por ordem alfabética. Aí escreverei as minhas notas. Na letra B, haverá por exemplo "Borboletas brancas reduzidas a pó". Se no meu romance tiver que descrever um raio de sol num parapeito da janela, irei ver a letra B e lá encontrarei as palavras "Borboletas brancas reduzidas a pó". Há-de ser-me útil. [...]


Virginia Woolf, As Ondas,
trad. Francisco Vale, Lisboa: Relógio D'Água, 1988

terça-feira, 13 de junho de 2017

S de Santo Antoninho dos Esquecidos (II)


13 DE JUNHO DE 2011


para a Inês Dias


A festa foi ontem. Mas não tivemos festa,
pela primeira vez em muitos anos.
Almoçámos tarde, na Rua da Regueira,
e o amor parecia diluir-se entre vielas
demasiado limpas e sombras do que já fomos.

Nas paredes devolutas, encontraste pássaros,
grinaldas frias, versos sem dono
nem sentido. Perto, ou muito longe,
três velas teimavam em iluminar-te os passos.
O cravo, azul, veio ao nosso desencontro.
Mas era de papel, embora rubro;
não nos podia salvar de sermos nós.

A festa, a única que me interessa, é o teu nome.


- MANUEL DE FREITAS
in Sunny Bar, org. de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Alambique, 2015





[ID, 12/06/017]

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XII)


QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR *


Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre doméstico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sítio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nosso animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum hades, nenhum céu.


* verso de um poema de Ruy Belo


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa, & etc, 2005




[O Barnabé,
fotografado pela sua Inês]

domingo, 4 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

V de Vida (IX)




Como falava ele ao pequeno-almoço,
quando abria o verso
sobre a onda que nunca rebentava?
Riscava o coração com aparos
de prata
e num êxtase diário subia ao sótão das palavras
a perguntar por Deus?

Qual a distância entre a criatura
e esse muro indiscreto de suor e sonhos
esse labor de mãos sujas de tinta
essa estrada de nada
e de madeira
esse quadro infantil retido na sanita
esse cuco soturno que afinal é um logro
esses passos perdidos na flanela do tempo
a pequena sílaba que descia do queixo
num líquido sabor a maresia
esses gestos de enfado e paciência
que ajudam a memória a subir ao palco
esse pulso cortado pela lâmina de barba
por fazer e é preciso chegar cedo ao concerto?

O gato dorme no colo.
O cão sabe de cor um soneto de Antero.
A rodilha das mãos espremida
em desespero de causa.
A carne sempre à espera de um talho mais discreto
nos sons, no sangue, na exposição das entranhas.
Chegou o intervalo e a história não acaba.
Acabou o poema e a vida ainda não chega.


Armando Silva Carvalho, Lisboas,
Lisboa: Quetzal, 2000

quinta-feira, 1 de junho de 2017

P de Pássaros anónimos (X)


O CORVO


O céu desta cidade não me vence.
Ao ver a lua cheia num rasgão de nuvens
esqueço-me das casas da minha casa,
das ruas da minha rua, das vidas da minha vida.
Há uma noite acesa no meu mundo.

E tu deitas na mesa.
Primeiro as mãos que não querem esperar
pelo corpo à beira do colapso
que julgo financeiro
em matéria de sexos pois são muitos e novos
os que tu disfarças.

Depois vem o aparelho da fala com a tua metafísica
varrida por vassouras de metal pungente
que correm pelo teu rosto e tu tão bem disfarças
com a faca do riso entreaberta.

Por fim o teu cabelo. É belo olhá-lo.
E belo vê-lo pousar como um corvo
na toalha branca do jantar.
E ver por fim a natureza que te ocupa
o órgão do prazer,
a música de Bach ou o ramo de luz
que cresce dos teus olhos.

Não vejo o teu coração, deixei de ver a lua.
E o céu desta cidade não me vence.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

S.T.T.L.





[...]
Já referi que São Francisco se recusava a deixar de ver as árvores por causa do bosque; mais ainda, também se recusava a deixar de ver os homens por causa da multidão. Aquilo que distingue este democrata genuíno de um mero demagogo é o facto de nunca ter enganado os outros nem se ter deixado enganar pela ilusão da sugestão de massas; por muito que gostasse de monstros, nunca viu diante de si um animal com muitas cabeças: apenas via a imagem de Deus, multiplicada, mas nunca monótona. Para ele, um homem era sempre um homem e, se não desaparecia no deserto, também não desaparecia no meio de uma densa multidão. [...]

G. K. Chesterton, São Francisco de Assis,
Lisboa: Alêtheia Editores, 2013

terça-feira, 23 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

D de Da Capo




[Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
 com capa de Luís Henriques, Lisboa, Averno, 2013]


*



sexta-feira, 19 de maio de 2017

P de (Po)ética - LIX




"[...]
que el arte es largo y, además, no importa."

- ANTONIO MACHADO

segunda-feira, 8 de maio de 2017

P de Postais - V c


[...]
Primeiro olha para mim. Muito. Diz-lhe Eu só sei
fingir e correr
pela calada. Finjo que te amo quando caminhamos
por uma zona onde podemos ser assaltados.
Eu finjo a coragem e o acolhimento.
Chego-te para mim para que não percebas como o
meu medo gelou esta zona perigosa. Só que eu começo
a tremer e sugiro-te um pouco desse frio.
Então trememos os dois
no frio do meu medo, de braço dado, passo mais rápido,
confundidos, de braço dado, ausentes um do outro,
rasteiros.
Em silêncio após vários dias, continuamos.
E ainda hoje continuamos.

[...]


Nuno Moura, A Minha Casa,
Lisboa, Tea For One, 2016





[ID, 'Parallel Walks', 013]

terça-feira, 2 de maio de 2017

S de Self (III)


77


começa a alvorada como se houvesse outras mais
irá florir a ameixoeira na varanda
e a indestrutível batata-doce

perdi um amigo
talvez dois
desencontrámo-nos, quebranto de encruzilhada
ou por simples fastio

é verdade que não sou íntegro
nem honesto, caio por pouco sem ninguém saber

para fugir à dor na estrada desavinda
por um afago de mão enganada na barriga

mas hoje imponho-me a alegria da rectidão
arrumei a roupa e tomei banho

saio sem pecado para o conhecimento da manhã
aonde quer que me leve


João Almeida, Um milagre no caminho,
Lisboa, Averno, Maio de 2011

S de S.T.T.L.


Sem mo dizeres - compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. [...] O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é o momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de que nos sentimos logo irmãos...


Raul Brandão, "O Silêncio e o Lume"
(Dezembro, 1924)

sábado, 29 de abril de 2017

D de Dansa (VII)



quarta-feira, 26 de abril de 2017

T de Tempo Sem Tempo (XX)


INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


     Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
     Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. 


Julio Cortázar, Histórias de cronópios e famas,
trad. de Alfacinha da Silva,
Lisboa, Estampa, 1973




terça-feira, 25 de abril de 2017

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIII)



ID, Entrecampos | 2000
[era antes do Digital]




ID, Rossio | 2012
[era depois dos Telemóveis]

segunda-feira, 24 de abril de 2017

L de Ler (XIII)




Lá fora
ainda temos luz,
sem esquinas,
dessa que se deixa
às vezes ficar
como a cintura da jovem
junto ao braço do velho
no mesmo banco,
condoída da nossa prisão.

Mas deste lado de mim 
está a cortina da noite,
atrás da noite
a escada que sempre subi 
à tua frente,
dentro da escada
um rato
a escavar, a escavar
por entre os séculos.

E dentro do rato
um coração com urgência
de anjo exausto,
todo o sangue emparedado
da mais solitária personagem
neste nosso romance
com nome de jardim.


Inês Dias, Da Capo,
com capa de Luis Manuel Gaspar, fotografias de Mafalda Capela 
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2014

sábado, 22 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (L)


PONTO DA SITUAÇÃO


Hoje, eis o que tenho para dizer
Chegou a Primavera
No sangue ligeiro da camarera
Curvada na secção dos detergentes

Ela sabe o bem que traz ao mundo 
- Fearful symmetry... sem dúvida
É bom não ter dúvidas

Ou seja
Não vale a pena andar com o maldito no cu
Tampouco com os guizos da alma à mostra

Segue o corpo
Dá-lhe pousio e esgotamento.


João Almeida, Hotel Zurique,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa, Averno, 2017



sexta-feira, 21 de abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

M de Meia-estação (IV)


Sempre acreditei que só as palavras
me saíam da boca, e eram elas
que me podiam adiar a morte.
Hoje sei que me sai da boca um fio,
transparente e tenaz como uma insónia,
que te atou à minha vida para sempre.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013




[ID, Santarém | 2017]

terça-feira, 18 de abril de 2017

A de Aniversário (VI)


A BIRTHDAY


My heart is like a singing bird
Whose nest is in a water'd shoot;
My heart is like an apple-tree
Whose boughs are bent with thick-set fruit;
My heart is like a rainbow shell
That paddles in a halcyon sea;
My heart is gladder than all these,
Because my love is come to me.

Raise me a daïs of silk and down;
Hang it with vair and purple dyes;
Carve it in doves and pomegranates,
And peacocks with a hundred eyes;
Work it in gold and silver grapes,
In leaves and silver fleurs-de-lys;
Because the birthday of my life
Is come, my love is come to me


- Christina Rossetti (1861)

E de 'Emotional weather report'


segunda-feira, 17 de abril de 2017

F de Falar para as paredes (XIX)





[ID, 'Parallel walks', 2013 | 2016 | 2017]




segunda-feira, 10 de abril de 2017

P de Poética (LXI)


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE





Edward Burne-Jones
[detalhe]

sexta-feira, 7 de abril de 2017

R de Regresso ao real (X)


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros, Poemas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005





[ID, Guimarães, 08/013]

W de Wild is the wind (XI)


10.


Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso ______

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas, arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.



Jaime Rocha, Mulher inclinada com cântaro,
Nazaré: volta d' mar, 2012



video

quinta-feira, 6 de abril de 2017

P de Poética (LX)


"A poesia é tudo o que nasceu com asas a cantar."


Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D' Água, 2016


quarta-feira, 5 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo - XLIX b




Paulos da Costa Domingos, A Céu Aberto,
com desenhos de Pedro Calapez,
Lisboa, Averno, 2017



sábado, 1 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XLIX)




Paulo da Costa Domingos, A Céu Aberto,
com desenhos de Pedro Calapez,
Lisboa, Averno, 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

E de 'Em caso de tempestade este jardim será encerrado'


Mais uma vez os jacintos,
celestialmente azuis no meu jardim:
Eles, pelo menos, inalterados.


Amy Lowell, Não eram rosas,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2012




[...]
Poetry is the synthesis of hyacinths and biscuits.
[...]


- CARL SANDBURG

terça-feira, 28 de março de 2017

P de (Po)ética - XLIX d


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017



terça-feira, 21 de março de 2017

P de Poética (XLII)


ASPECTOS DE UMA DEFINIÇÃO


[...]

- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.

[...]

Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.

*

Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.

[...]

A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar os movimentos de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.

*

Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema. 

[...]

Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã. 

[...]


- ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

sábado, 18 de março de 2017

R de Rebeca (XII)


Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.


- Derek Walcott [1930 - 17 de Março de 2017]
in The Bounty, 1998
[Trad. Inês Dias]

segunda-feira, 13 de março de 2017

E de "e é sempre segunda-feira / nas paragens" (VI)


HUMILDADE


Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tanto quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.


- CECÍLIA MEIRELES

sexta-feira, 10 de março de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XLVIII)


quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?

[...]




Emanuel Jorge Botelho, Os ossos dentro da cinza
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 9 de Março de 2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

R de Rezar na era da técnica (XXIV)


P de (Po)ética (LV)


ESCREVER


A vida é demasiado séria para eu continuar a escrever. A vida costumava ser mais fácil, e muitas vezes agradável, e então escrever era agradável, embora também parecesse sério. Agora a vida não é fácil, tornou-se muito séria e, por comparação, escrever parece um pouco disparatado. Escrever não é, muitas vezes, sobre coisas reais, mas depois, quando é sobre coisas reais, está muitas vezes a ocupar o lugar de algumas coisas reais. Escrever é demasiadas vezes sobre pessoas que não aguentam mais. Tornei-me entretanto uma dessas pessoas. Sou uma dessas pessoas. O que eu devia fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não aguentam mais, é pura e simplesmente desistir de escrever e aprender a aguentar. E prestar mais atenção à própria vida. A única maneira de me tornar mais inteligente é não voltar a escrever. Há outras coisas que eu devia estar a fazer em vez disso.


Lydia Davis, Não Posso nem Quero,
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015




[ID, Coimbra 013]

quarta-feira, 8 de março de 2017

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (M.G.L.) - XI


ENTRE MARÇO E ABRIL


Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?


EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, 7 de março de 2017

C de Começar o dia com um livro novo XLVII - b




[Uma epígrafe
in Rosa Maria Martelo, Siringe
Lisboa, Averno, 2017]