sábado, 31 de dezembro de 2016

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

P de Poética (LIX)


ESCREVER


Ficas frente à parede, abraças a cal. Dizem que queima. 


José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016





[ID,  Lisboa, 03/016]

domingo, 25 de dezembro de 2016

M de Merry Christmas (VII)




Giovanni Bellini
[detalhe]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

C de Coração arquivista



[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 11/016]



SEIS RECOMENDAÇÕES


Que idade tem esta sombra
Não lhe toques a carne

Concentra-te na superstição
Arrepio do pensamento

Prepara um chá, não arrastes a cadeira
Os nomes são ditos para dentro

Assoa-te, tira a cera dos ouvidos
Recordas Afrodite no wc?

Não adormeças no carril
O destino não tem ramal

Desliga a luz de cabeceira
E dorme para o lado que é teu


Nunes da Rocha, Óculos sujos, fígado gordo,
Lisboa, & etc, 2013

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

C de (Re)começo







"[...]

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio."


- RUI PIRES CABRAL

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

E de Estudos literários comparados (II)


A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.


Hakim Bey (trad. Inês Dias)
in Cão Celeste n.º4Lisboa, Novembro de 2013


*


I heard a Fly buzz – when I died – 
The Stillness in the Room 
Was like the Stillness in the Air – 
Between the Heaves of Storm –

The Eyes around – had wrung them dry – 
And Breaths were gathering firm 
For that last Onset – when the King 
Be witnessed – in the Room –

I willed my Keepsakes – Signed away 
What portions of me be 
Assignable – and then it was 
There interposed a Fly –

With Blue – uncertain stumbling 
Buzz – Between the light – and me – 
And then the Windows failed – and then 
I could not see to see –


- EMILY DICKINSON

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

E de Espera (LVIII) - 1.º Domingo de Advento


"(...) É para isso também que serve o círculo, a sua ideia. Serve para preparar o caminho da escuridão e do desconhecido, um caminho inteiramente interior. Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, antes de me virar sobre o meu lado direito, que é o lado em que sempre penso trazer o coração."


João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

M de Mesa de Amigos (X)


IV.


Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
[...]


Herberto Helder, Ofício Cantante,
Lisboa: Portugália, 1967




[Imagem: Paul Klee, "Nächtliches Fest", 1921]

J de (O) Jardim e a Casa (V)


PROPORÇÃO


No céu há uma lua e estrelas,
E no meu jardim há mariposas amarelas
Agitando-se em torno do arbusto de azáleas brancas.


Amy Lowell (trad. de Miguel Martins)
in Telhados de Vidro, nº 14, Lisboa, Averno, 2010

Q de "Quero a alegria de um barco voltando" (II)





domingo, 20 de novembro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXV




Diferença


Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro. Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti, desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda, de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras (por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho). Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me, seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes. Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu. Estás só, por isso estás comigo.


Jorge Roque
in Broto Sofro, com pinturas de Guilherme Faria
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2008

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLVI)




João Paulo Esteves da Silva, Tâmaras,
Lisboa, Douda Correria, 2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

B de Biorritmo - LXXI b


LEONARD COHEN, 1979


Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de "other forms
of boredom advertised as poetry",
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
- tudo, enfim, falece -,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.


Manuel de Freitas
in pequena morte: poemas, Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

P de Poesia (V)




"E se aquilo que não sabemos 
pudesse ser medido em quilómetros?"
(Catarina Mourão)



quarta-feira, 9 de novembro de 2016


V

A última vez que te encontrei foi diante do Banco Qualquer Coisa. Verificavas o preço das acções. Elas baixaram, não há dúvida. Talvez isso prejudique o teu futuro na América e até mesmo a tua actual capacidade para os estudos. És fraco e não podes impedi-lo. Se fosses resoluto poderias ordenar a um dos responsáveis: "sobe-me essas acções, badameco!"
Não confio já nos santos ou nos poetas e muito menos nos heróis.
Tudo é agora uma questão de mais ou menos brutalidade, de maior ou menor capacidade de matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.


Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO - Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores, 1970




[Guimarães, 2/08/013]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A de Amor


CONTA-MO OUTRA VEZ
                           
                               
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor;
é a história mais bela que conheço. 

        
AMALIA BAUTISTA




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

S de Sexta-feira (V)


"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA



[ID, Madrid, Agosto 015]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

D de (Os) despojos do dia *




*

S de Solidão (ou C de Comunidade) II


ANUNCIAÇÃO
- segundo Fra Angelico


Ele veio do jardim, sem deixar
nem sombra, nem pegada sobre o orvalho.
Os olhares de ambos sustêm-se no ponto
de equilíbrio: tudo conduzindo 
a este momento, tudo se afastando.

Uma palavra lançará a semente
da vida e da morte,
o ensombrar desta rapariga
por umas trevas emplumadas.
Mas ainda não: agora ainda não.

Como recordará ela o silêncio
desse interminável momento?
Ou o final, quando tudo começou -
a primeira de sete alegrias
antes das sete dores?

Ela recordará a canção a seguir
porque é apenas humana.
Um dia
acordará com asas, ou acordará
e descobrirá que elas desapareceram. 


Robin Robertson, Hill of Doors,
Londres: Picador, 2013
[Trad. ID]












                           
                                           
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 1 de novembro de 2016

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX b




[ID, 'Anunciação', Ponta Delgada, 011]

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A de Amor (XXVI)


ERRATA


Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê? 
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.


MANUEL DE FREITAS
in Terra Sem Coroa, Teatro de  Vila Real, 2007

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

L de "Les yeux du chat"




[Franz Pforr, "Sulamita e Maria", 1811 - detalhe]





[Friedrich Overbeck, "Retrato do pintor Franz Pforr", c. 1810]

sábado, 22 de outubro de 2016

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A de Amor (XXV)


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O de "O poema ensina a cair" (II)


VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA


eu não entendia
e ela se mexia tanto ao meu lado
e aqueles bancos apertados
o ar condicionado gelando
tudo (os brincos dela,
o meu humor)
mais de uma hora cruzando
ruas, avenidas, parágrafos – 
o livro gritando alto
para um mundo ensurdecido
depois de arrumar-se mais
algumas dezenas de vezes
o sol já estava no meio do céu
quando ela se levantou
foi então que percebi que
três pequenos pássaros
voavam em suas costas


- FABIANO CALIXTO





[ID, Lisboa |  2012]

F de Fazer Fotografia (LXXIII)


PHOTOGRAPHY
 

A fine wind blows into the heart,
And you fly headlong on,
While love within the roll of film
Holds the soul fast by its sleeve.
    
Bird-like she steals grain by grain
From oblivion - and now?
She does not let you fall to dust,
Even dead you're still alive -
      
Not wholly but a hundredth part,
In muted tone or sunk in sleep,
As if you wandered through some field
In a land beyond our ken.
     
All that's dear and seen and living
Makes the same flight as before,
Once the angel of the lens
Has your world beneath his wing.
      

Arseniy Tarkovsky, 1957
in Andrey Tarkovsky, Bright, bright day,
Londres: White Space Gallery / The Tarkovsky Foundation, 2007

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) X


Assim escrevo
alegre e inspirado com a palavra.
Folheio as obras dos velhos e novos
e faço-o confiante. Mas estou cercado
de vocábulos que me atacam pelas costas.
Sou um poeta difícil:
Ausculto a sílaba que contém
o movimento futuro da estrofe.
Sim, a poesia é a menos saudável das ocupações.
E ser poeta não é uma ambição minha:
É a minha maneira de estar sozinho.


António Barahona, Impressões Digitais (1968)

V de Vida (VIII)


"Vous ne pourrez jamais voir cette étoile comme je la voyais. 
Vous ne comprenez pas: 
elle est comme le coeur d'une fleur sans coeur."


- ANDRÉ BRETON - 




[Andrei Tarkovsky, A Infância de Ivan, 1962]

A VIDA


Da flor japonesa à coxa da rã galvanizada, vai ser preciso dormir muito para nos apercebermos da transformação. Da porta que é um corpo-a-corpo, à janela que é uma peleja, o soalho é um papagaio, o tecto um corvo que teve medo.
Há ainda a recordar do dia seguinte, a recordação de atrozes aventuras num nevoeiro de enforcado. Sabe que foi denunciado, que um parapeito está dali em diante à sua volta para o impedir de se lançar no relógio inútil que se pôs a indicar as horas. A aurora da tarde filtrada lembra-lhe a carne pura que, na proximidade dos homens, sempre desaparece num ruído de canaviais. Porque ele tocará a carne muito tempo sem a sentir e, quando a sentir, será à maneira daqueles animais encantadores que apenas sonham com a liberdade.
Toda uma rede de caretas e de contorções se opõe a que a jangada da sua idade regresse à secreta fonte do seu coração. A tarde em vão fecha a porta, uma estrada de passos, de sons, de esperança e de fadiga sempre lhe mostra aquelas grandes construções negras em que tudo para ele se compõe.
O vago substitui pouco a pouco o determinado. Em vez do sangue estende-se o mata-borrão, o mata-borrão que se embebe nas suas cartas sempre maniacamente datadas de Creusot. Olhos puros de nuvens pousam sobre ele como a ave na sua sombra. Lâmpadas varrem com a sua saia de pedra a escadaria de prata que vai dar ao grande ar dos países sem janelas. Que procura então este homem que faz uma mancha na terra? Este pobre quebra-luz lá está sobre a lâmpada das estrelas cadentes. Debate-se com a sombra matizada que choca nas suas pregas ovos de galinha-d’água, donde nascerão em hora adiantada o dever, a oportunidade a pequena felicidade e o fracasso. Os poderes do desespero com as suas rosas de sabão, os seus afagos desencontrados, a sua dignidade mal vestida, as suas respostas fugidias a perguntas de granito apoderam-se dele. Levam-no à escola das escórias, depois de o terem trajado com um avental de fogo. Persuadem-no de que o cabo de vassoura das bruxas cai a pique numa eternidade grotesca de retaguardas brilhantemente esclarecidas. Bocejam-lhe na cara sobretudo, e o que tem de mais trágico, bocejam sobre a mulher sem sequer terem o cuidado de pôr a mão sobre a boca, bocejam dos frutos da mulher com aroma de amêndoas amargas, bocejam da beleza, bocejam da duração, bocejam da recusa desta beleza e desta duração.
Uma manhã, ele lá está, a ver respirar uma cabeleira de anémonas. A rua saúda com todas as suas rodas, Entre todos os astros este... entre todos os astros… este que se submete a este astro inesquecível... Está tão perfeitamente só que se exceptua do total. Fita o dorso dos livros que se arqueiam. Escuta a música que brilha nos sapatos. Por vezes, ao meio-dia, sorri doze vezes. Sorri também à noite, quando tem medo. Põe em todas as suas sensações as algemas do sorriso.


André Breton e Paul Éluard, A Imaculada Concepção, 
Lisboa: Estúdios Cor, 1972

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

P de Poética (XXVIII)


faço versos para retardar o acidente coronário
podia fazer ginástica de manutenção que era o mesmo
disse de vez: ao diabo o nome nos índices remissivos!
escrevam teses sobre a prenhez do referente
deixem-me olhar a chuva e deixem-me
palitar os dentes - ut supra

não acerto com o Zeitgeist é escusado (e é inútil)
e passa tanto tempo num minuto


Fernando Assis Pacheco,
Memórias do Contencioso e outros poemas, 1980

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

C de Cicatriz (VI)


Pensei, eu podia ter descido aqui naquele dia, talvez tivesse desenhado um lago tranquilo e as últimas flores de Setembro, e voltado para Londres sem cicatrizes. Embora esta cicatriz faça parte de mim, não quero que desapareça, era algo que faltava escrever no meu rosto, nunca gostei de tatuagens, mas era como se esta linha faltasse, talvez tudo tivesse acontecido para que o meu rosto ficasse acabado...


Ana Teresa Pereira
in Karen, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Nazaré, 08/10/11]



Sábado, 6 de fevereiro

Estou a ler a tradução francesa de uma série de contos de Henry James. A sedução do outro? Ou o outro que procuramos em nós mesmos? E que no final quando descobrimos que foi um longo passo, um percurso, um tempo interior intensamente vivido tão ao lado do outro, tão com o outro, que num instante por circunstância da história comum se desfaz; se anula por qualquer intempérie quase meteorológica ou por uma caso ou fatalidade que irrompe na vida comum, no dia-a-dia de um ou do outro - tudo vai continuar, quase, como se coisa alguma se tivesse passado. Uma ferida ficou aberta no ar. Está quase em cicatriz. E no início dos inícios, quando tudo chegou ao fim, ou melhor, ao nenhum fim que sempre povoa a história das grandes amizades (...), percebe-se como a partida para o outro, para nós mesmos no outro, na invenção do outro e do outro em nós mesmos, tudo não passou do grande temor pelo desconhecido; um sucedâneo de descida à caverna e de ultrapassagem desse pavor. Olhamos, então, para a cicatriz que restou, para a incisão na pele, na carne, na alma. O outro compensa a realidade, supera-a; é uma ardil com que fintamos a própria existência. Uma espécie de bem-aventurança para contrapesar a esperança, que corrige a raiva ou o pessimismo da fortaleza que nem eu nem o outro, que nenhum de nós já sabe encontrar nos ardis da vida. Sendo estes iguais, exactamente iguais ao tempo da vida.


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O de Outono (XV)




[ID, 02/12/12]

T de (Uma) teoria de pássaros (XIII)


SENHORA


Senhora, há demasiados pássaros
No vosso piano
Que atrai o Outono sobre uma selva
Espessa de nervos palpitantes e libélulas

As árvores em arpejos insuspeitados
Às vezes perdem a orientação do globo

Senhora, suporto isso tudo. Sem clorofórmio,
Descendo ao fundo da madrugada,
O rouxinol, rei de Setembro, informa-me
Que a noite se deixa cair entre a chuva
Burlando a vigilância dos vossos olhares
E que uma voz canta longe da vida
Para suster o espaço despregado
O espaço tão cheio de estrelas que está quase a cair

Senhora, às dez cheira a tabaco de artista
Amais o aroma a corpo de pássaro
Sois um fenómeno ligeiro
Vou-me, solitário, até ao ocaso dos turistas:
É muito mais belo


Vicente Huidobro, Mágica,
trad. de Ricardo Marques,
Lisboa, Língua Morta, 2011

domingo, 9 de outubro de 2016

L de "La terre est bleue comme une orange" *




[BMW Isetta 300 convertible | 1957]


* Um verso de Paul Éluard.

R de 'Rezar na era da técnica' (XXIII)




[ID, 10/016]

sábado, 8 de outubro de 2016

S de "Semantics won't do" (XXVI)




[Para não interromper o concerto de ontem à noite.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O de Outono (IV)


T de Tempo Sem Tempo (XVII)


Porque é que as segundas têm de
estrangular os domingos;
e o outono, o verão;
e o tempo adulto, o tempo mais jovem?
Sob os jardins,
morreram outros jardins.
Atrás do sol,
outros sóis sucumbem,
como roupas velhas num armário.
Ele já não faz perguntas:
apaixonou-se por uma música.


Alain Bosquet
[Trad. ID]

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (II)


"Sempre que vou para o campo, e entro em contacto com a natureza, compreendo que viver é ver regressar; que cada sensação e cada sofrimento e cada prazer nosso partem, virginalmente, de uma memória. Quando terá nascido esta emoção que sinto agora de ver morrer a tarde, embalado no solo, enquanto acaricio a erva? Em que sítio do mundo terá nascido? De onde veio até mim para que eu a possa sentir deste modo tão necessário e radical? As emoções, tal como a linguagem, nascem numa fonte remota do sentir colectivo. Também o ver dos meus olhos e o gostar dos meus lábios são uma tradição interrompida que eu rezo de novo, e o choro é uma acção de graças de todos os que me antecederam no conhecimento da dor. […] Gostaria de te dizer que a memória nos faz e nos desfaz, que a memória é o único meio que o homem tem para diferenciar umas coisas das outras, para as viver e fazê-las suas. O que não se recorda, o que não regressa do coração aos sentidos, não se vive, sente-se. Entre o sentir e o viver está a memória."

Luis Rosales, El contenido del corazón, 1941
[Trad. ID]

domingo, 2 de outubro de 2016

E de "Empire des lumières"



[ID, 1 de Outubro de 2016, 'Such a perfect day']

sábado, 1 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) b


7 de Junho de 1979

Compreendi hoje, um pouco melhor, o mistério de solidão. A comunidade tem de estar dispersa, viver na tensão de encontrar-se sem duradouro encontro, cultivar o poder absoluto de estar só, que só ele é inofensivo; é um corpo vivo sem jugo; a comunidade é a diáspora.
Por estes dias sentia-me perturbada, dissolvida na água. Sempre tensa, à procura, em movimento dentro de uma ordem infinita e pré-estabelecida. O trabalho a realizar quotidianamente é mais forte do que conhecer e escrever; estou sempre à espera de poder parar, mas a noite é temporária e ponte para um dia igual. [...]


Maria Gabriela Llansol, Numerosas Linhas - Livro de Horas III,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013




[ID, Lisboa, 09/016]



XXXIX


E nós somos como os frutos. Pendemos do alto de ramos estranhamente tortuosos e suportamos bem os ventos. O que temos é a nossa maturidade, a nossa doçura e a nossa beleza. Mas a força para tal emana de uma raiz que se propagou até cobrir mundos e mundos em todos nós. E, se quisermos testemunhar a favor do seu poder, então devemos utilizar, cada um, o nosso mais solitário sentido.
Quanto mais solitários houver, mais solene, comovente e poderosa será a comunidade.


Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. Sandra Filipe, Lisboa: Averno, 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

T de "The days grow short..." (XIV)


426.

A paisagem em Naruni.

mar e arrozais
no início do outono -
o verde governa-os


Matsuo Bashô, O Eremita Viajante [Haikus - Obra Completa],
org. e versão portuguesa de Joaquim M. Palma,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2016





[ID, Lisboa, 09/016]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

P de "Postais do fim do mundo" (VI)


[...]

Como achas que posso amar a minha vergonha tão loucamente?
Nadamos o dia todo escondidos entre rochas
tentando saber o que se diz sobre nós no porto.
Gosto daquilo que disse que amava
e não posso acrescentar mais nada
porque toda esta morte me faz sentir
mais vivo do que nunca,
porque não distingo as épocas da minha vida,
porque não sei que tipo de mulher serias
nem que tipo de homem serei eu quando nos recordarmos.



[ID | Setembro 016]


Escrevo-te, finalmente, para saber quantas divisões
tinha a nossa primeira casa.
Esqueci-me de um dos quartos, ou não o fixei o suficiente.
Lembro-me de que te levantavas muito cedo,
eu passava a noite toda a escrever,
tu dizias-me para ir dormir,
mas ao amanhecer, enquanto tomavas o pequeno-almoço,
eu lia-te a história da minha educação.
Talvez nesse quarto não tenha acontecido nada
digno de ser recordado
e eu fechava-me nele para escrever
mas não escrevia nada, e tu tiravas-me dali
quase sem ar.
Talvez tenha escrito esse livro sozinho,
e foi essa a primeira ruptura.
No entanto, hoje preciso de saber
quantas divisões tinha a nossa primeira casa,
e a que horas é que te levantavas para ir trabalhar
e sustentar-nos.

[...]


Pablo Fidalgo Lareo, "Um ano sem voltar a casa",
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

I de "I want to ride my bike" (II)


O CICLISTA


O homem que pedala, que ped’alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.


Alexandre O'Neill, Poemas com Endereço [1962], 
in Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 
6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar),  2012

I de "I want to ride my bike" (VIII)


"[...] A verdade é que o bem é maior do que o mal. E, devido a isso, mais difícil de encontrar. Todos sabemos: demasiada luz: cega."


Manuel A. Domingos
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016





[Sabine Weiss, 1957]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

M de Meia-estação (III)




[Herbert Tobias]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XXXIII)


"[...] De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente - é um verbo. 
O nosso verbo, por exemplo, é escrever."


Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências
Lisboa, Relógio D'Água, 1996





[Willy Ronis, 1945]

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

S de S.T.T.L.




[In Nunes da Rocha, Cordoaria Nacional,
Lisboa, Averno, 2016]

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

M de Meia-estação (II)


CAFÉ SIMPLES


Deus fez o mundo e fê-lo com pressa,
mas os poetas, sem saírem das suas casas,
inflamados, coroados por línguas de fogo,
tiritando de solidão e de frio na madrugada,
mantêm-no em contínuo funcionamento.

O novo carregamento de luz ainda não chegou.
Longamente esperam as folhas negras das acácias,
os sete cinzentos do arco-íris, os vitrais das igrejas,
leves e frágeis como as asas de uma libélula.
Em breve se acumulará a claridade, nutritiva e generosa,
nas esquinas e o bispo branco derrotará o negro.
No Museu Nacional as sombras aguardam;
de um momento para o outro vão partilhar o verde,
o azul de Prússia, o vermelhão e o amarelo.

Os poetas, desvelados, administradores
de um vasto império invisível, preparam café;
esperam que fervam também as palavras.
Uma irmandade secreta de colherzinhas
tilintando nervosas, rodando para misturar
– enquanto as canetas sonham com o seu regresso
a Ítaca – as duas substâncias da vida:
o doce e o amargo, a luz e a escuridão.

Os poetas mexem e remexem: as suas colheres
e as suas canetas não sabem fazer outra coisa.
Com brio, com teimosia, quase com fervor.
Como se o redondo fluir dos relógios
nas morgues e nos aeroportos,
e o ciclo curto das estações
(às vezes apenas Outono e Inverno,
Outono e Inverno repetindo-se)
e o preguiçoso rodar do planeta inteiro,
com as suas dobradiças, os seus parafusos e rodas do destino,
dependessem única e exclusivamente
de um insone movimento de pulso.


in Contra las cosas redondas, La Bella Varsovia, 2016
[Trad. ID]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 4 de setembro de 2016

L de "Las simples cosas" (V)



[ID, Santa Cruz, 2016]



"Mudou a luz: isto é setembro."

Carlos Marzal




[ID, Nazaré, 2011]

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P de Pássaros anónimos (XVIII)


recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz, Agosto 016]

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIV)


Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos,
Coimbra, 1963




[ID, 17/08/016]



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular,
Lisboa, Hiena Editora, 1991

sábado, 20 de agosto de 2016

A de A propósito de melros *


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ


Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro, para o Ricardo Álvaro.]