sábado, 31 de dezembro de 2011

B de Bom Ano Novo (V)

THE MUSIC CREPT BY US


I would like to remind
the management
that the drinks are watered
and the hat-check girl
has syphilis
and the band is composed
of former SS monsters
However since it is
New Year's Eve
and I have lip cancer
I will place my
paper hat on my
concussion and dance


- Leonard Cohen

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

E de Equilíbrio de forças


Ou a difícil arte de viver em sociedade.
[Nazaré, 27/12/11]

E de Espinhas para um gato (XII)

BLACK CAT




A ghost, though invisible, still is like a place
your sight can knock on, echoing; but here
within this thick black pelt, your strongest gaze
will be absorbed and utterly disappear:

just as a raving madman, when nothing else
can ease him, charges into his dark night
howling, pounds on the padded wall, and feels
the rage being taken in and pacified.

She seems to hide all looks that have ever fallen
into her, so that, like an audience,
she can look them over, menacing and sullen,
and curl to sleep with them. But all at once

as if awakened, she turns her face to yours;
and with a shock, you see yourself, tiny,
inside the golden amber of her eyeballs
suspended, like a prehistoric fly.




Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

B de Brincar com ossinhos (VII)

PASATIEMPO


Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía

cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era océano
la muerte solamente
una palabra

ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros

ahora veterano
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra


Mario Benedetti, Inventario: Poesía 1950-1985,
Madrid: Visor Libros, 2008

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

P de Perder a cabeça (II)


Coimbra, 18/12/11

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

M de Mãos Dadas *


Nazaré

*  De um poema de Carlos Drummond de Andrade.

P de Perder a cabeça


Coimbra, 18/12/11

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

J de (O) Jardim e a casa (XV)


Jacques Émile Blanche, "Cocteau dans le jardin d'Offranville", 1913 

P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (IV) *

Não assombra a sua casa quem quer. É preciso haver tempestade e incêndio. Conheci períodos em que a minha me não queria. Recusava-me a sua ajuda. As paredes não se impregnavam com nada. Faltavam-lhes as grandes sombras do fogo, os ondeados da água. Quanto mais a casa se esvaziava de mim, mais eu me esvaziava dela. Esta falta de permuta construía um tédio. Nem eu nem ela já éramos capazes de armadilha. E sem armadilha, nenhuma caça. É vivermos sem chegar a nada. Os meus amigos sentiam-no. E recuavam, como as paredes. Ia ser necessário eu esperar que os eflúvios voltassem, se contrariassem, formassem essa mistura explosiva que faz as nossas casas arderem. Porque elas nos imitam e só devolvem o que lhes damos. Mas este eco fala e obriga ao diálogo.


Jean Cocteau, "Das casas assombradas"
in Visão Invisível, Lisboa: Assírio & Alvim,  2005

* Enquanto revisito outros fantasmas.

O de "Onde se lê gato" (V)




Dia de Natal 2011

P de Poética (XIV)

LAS PALABRAS


Al mundo no le hacen falta las palabras. Sabe pronunciarse
en rayos de sol, en hojas, en sombras. Las piedras del camino
no son menos reales por yacer innumerables y sin catalogar.
Las hojas hablan con soltura el idioma de ser y nada más.
Un beso es un beso completo aunque ninguna palabra lo diga.
Y una palabra lo convierte en algo más pequeño o en otra cosa -
indebido, casto,  rutinario, conyugal, disimulado.
Aun llamándolo beso delata la ansiedad de las manos
que tantean la piel o se abrazan a un hombro, la lenta inclinación
del cuello o la rodilla, el contacto de dos lenguas en el silencio.
Pero las piedras son menos reales para quienes no son capaces
de nombrarlas, de leer las mudas sílabas enterradas en el sílice.
Ver una piedra roja es menos que verla como un jaspe - 
cuarzo metamórfico, pariente del pedernal que los Kiowa
ilaron para sus flechas. Nombrar es conocer y perpetuar.
La luz del sol no precisa aprobación cuando atraviesa los nubarrones
y unge con su claridad las hojas y las rocas, evaporando luego
cada gota cristalina para devolverla a las nubes que la engendraron.
La luz del día no precisa elogios, y sin embargo siempre la elogiamos - 
es superior a nosotros y a todas las palabras etéreas que logramos reunir.


DANA GIOIA,
trad. de Jesús Jiménez Dominguez
in Isla de Siltolá - Revista de Poesía, 5-6,
Sevilha, 2011

domingo, 25 de dezembro de 2011

M de Merry (?) Christmas (VI)


Jaime Rocha, Beber a cor, Lisboa: &etc, 1985

[Um dos presentes deste Natal]

sábado, 24 de dezembro de 2011

M de Merry (?) Christmas (V)



Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá

C de Cicatriz (VIII)

RADIOGRAFÍA


He visto el esqueleto de mi alma,
y no he tenido miedo.

Yo no he visto los huesos
que calmarán el hambre de los buitres
o encontrarán su tumba bajo el agua,
entre la sal y los naufragios.
No todavía.

Tampoco he visto en ellos cicatrices:
quizá no he estado nunca en la batalla,
siguiendo las estelas de los tanques,
golpeando otros huesos com mis huesos.
No todavía.

He visto el esqueleto de mi alma:
era una catedral del siglo XIII,
sólo niervos y vanos,
y nada alrededor, clara y oscura.



MARÍA M.  BAUTISTA
in Isla de  Siltolá - Revista de Poesía, 5-6,  
Sevilha, 2011

P de Poética (XIII)

Tenho uma grande novidade triste a anunciar-te: estou morto. 


[...]


Peço-te desculpa. Foi para pedir desculpa que fiz o estranho esforço de aparecer. A poesia é parecida com a morte. Conheço o seu olhar azul. Dá náuseas. Esta náusea de arquitecto sempre a implicar com o vazio, aí tens o que é próprio do poeta. O verdadeiro poeta é, como nós, invisível aos vivos. Só este privilégio o distingue dos outros. Não tresvaria: conta. Mas anda numa areia movediça, e às vezes a sua perna afunda-se tanto que chega até nós.


Jean Cocteau, "Visita"
in Visão Invisível, Lisboa: Assírio & Alvim,  2005

B de Biorritmo (CVII)


Give me back my broken night
my mirrored room, my secret life
it's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control
over every other living soul
And lie beside me, baby,
that's an order!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

B de Biorritmo (CVI)




Before I let you down again,
I just want to see you in your eyes.
I wouldn't have taken everything out on you,
I only thought you could understand.


They say every man goes blind in his heart,
And they say everybody steals somebody's heart away.
And I got nothing more to say about it
Nothing more than you would me.


Send me your flowers of your december,
Send me your dreams of your candied wine.
I've got just one thing I can't give you...
Just one more thing of mine


They say every man goes blind in his heart
And they say everybody steals somebody's heart away
And I've been wondering why you let me down
And I've been taking it all for granted

J de (O) Jardim e a casa (XIV)


David Seymour, "Gardening amid ruins in front of the Reichstag", Berlin, 1947

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

T de Tempo Sem Tempo (VI)

Na verdade, nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza - nada disso tem horas nem minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não se situa só à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.

Stig Dagerman, A  Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer,
Lisboa: Fenda,  1989

[Releitura obrigatória de Natal]

R de Regresso ao Trabalho (XXXIII) *




* Hoje não, pela primeira vez. Mas continuo a achar que a Carris e o Metro de Lisboa podiam usar estes versos como slogan:

[...]
I see you in the subway and I see you on the bus.
I see you lying down with me and I see you waking up.
I see your hand, I see your hair, your bracelets and your
brush. And I call to you, I call to you, but  I don't call
soft enough - There ain't no cure, there ain't no cure, there 
ain't no cure for love.

A de Alegoria da Cave (II)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

V de Vida - c

Não criamos nada. Juntamos coisas.

Ana Teresa Pereira
in O Lago, Lisboa: Relógio D'Água, 2011

T de Telhados de Vidro


[Outono, claro: 14/12/11]

E de Em carne viva (VI)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

B de Biorritmo (CV)



BOM DIA TRISTEZA
[Adoniran Barbosa & Vinicius de Moraes]


Bom dia tristeza, que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você

Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

R de Revisão de texto (ou E de Errata)


Coimbra, 18/12/11

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

C de Começar o dia com um livro novo (V)

SUPER-REALIDADE


Eu era de terra quando me procuraste,
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.

Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.

Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.

Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.


Rui Pires Cabral, A Super-Realidade,
Lisboa: Língua Morta, Dezembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XXII)


Um pássaro ferido na pedra de uma igreja em Coimbra
[18/12/11]

domingo, 18 de dezembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XXI)


Sergio Larrain, Londres, 1959

[Obrigada, Helena]

E de Espera (XXI) - 4º Domingo de Advento

VELAS


Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas –
quentes e vivas e douradas velas.

Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.

Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.

Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.


Konstandinos Kavafis, Páginas Íntimas,
trad. João Carlos Chainho, Lisboa: Hiena Editora, 1994

sábado, 17 de dezembro de 2011

J de (O) Jardim e a Casa (XIII)

This is the garden:colours come and go,
frail azures fluttering from night's outer wing
strong silent greens silently lingering,
absolute lights like baths of golden snow.
This is the garden: pursed lips do blow
upon cool flutes within wide glooms,and sing
(of harps celestial to the quivering string)
invisible faces hauntingly and slow.

This is the garden. Time shall surely reap
and on Death's blade lie many a flower curled,
in other lands where other songs be sung;
yet stand They here enraptured,as among
the slow deep trees perpetual of sleep
some silver-fingered fountain steals the world.


E.E. Cummings
[Obrigada, Maria José]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

M de Música para os meus olhos - XXI b





They sentenced me to twenty years of boredom
For trying to change the system from within
I'm coming now, I'm coming to reward them
First we take Manhattan, then we take Berlin

I'm guided by a signal in the heavens
I'm guided by this birthmark on my skin
I'm guided by the beauty of our weapons
First we take Manhattan, then we take Berlin

I'd really like to live beside you, baby
I love your body and your spirit and your clothes
But you see that line there moving through the station?
I told you, I told you, told you, I was one of those

Ah you loved me as a loser, but now you're worried that I just might win
You know the way to stop me, but you don't have the discipline
How many nights I prayed for this, to let my work begin
First we take Manhattan, then we take Berlin

I don't like your fashion business mister
And I don't like these drugs that keep you thin
I don't like what happened to my sister
First we take Manhattan, then we take Berlin

[...]

And I thank you for those items that you sent me
The monkey and the plywood violin
I've practiced every night, now I'm ready
First we take Manhattan, then we take Berlin

[...]

Ah remember me, I used to live for music
Remember me, I brought your groceries in
Well it's Father's Day and everybody's wounded
First we take Manhattan, then we take Berlin

M de Música para os meus olhos (XXI)

T de (Uma) Teoria de pássaros (XIX)

Ouviu-se ontem,
com sonhos realizados sob as mãos e amigos em volta:

F de Fazer Fotografia (LVII)

o gato à janela
a gaivota no telhado
a cidade na cidade
a rapariga no sofá, lendo e
pressentindo sexo
até à décima quinta linha
quem sabe a penúltima vírgula
daquela página daquele livro
daquele dia daquela vida e
todos em coro celebrando
mais um dia dos mortos


Bénédicte Houart, Vida: Variações II (2011)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

J de (O) Jardim e a casa (XII)

GARDEN

 

I


You are clear
O rose, cut in rock,
hard as the descent of hail.

I could scrape the colour
from the petals
like spilt dye from a rock.

If I could break you
I could break a tree.

If I could stir
I could break a tree—
I could break you.


II

O wind, rend open the heat,
cut apart the heat,
rend it to tatters.

Fruit cannot drop
through this thick air—
fruit cannot fall into heat
that presses up and blunts
the points of pears
and rounds the grapes.

Cut the heat—
plough through it,
turning it on either side
of your path.


H. D. (1886-1961)



[Paris, 2008]

R de Regresso ao Trabalho - XXXII b


A última folha,
de regresso ao trabalho
depois de um momento de Primavera.

R de Regresso ao Trabalho (XXXII)


A última folha,
a caminho do trabalho.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - II b

nós, os inconsoláveis que
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora

que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará


Bénédicte Houart, Vida: Variações II (2011)

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIV

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


EUGÉNIO DE ANDRADE


M de Medo - VI b

 ANNIE FRENCH (1872-1965)


"The peacock and the rose"


"The peacock cloak"
[Gosto sobretudo deste.]

M de Medo (VI)

o que eu queria da vida
aproxima-se tanto da morte
que por vezes é aterrador
valha-me um pavão e
outras coisas assim com asas
e bicos e muitas penas por colorir
valha-me um corpo tremendo
reanimando-me as mãos
uma overdose de coisa nenhuma
que me ponha de nariz no chão


Bénédicte Houart, Vida: Variações II,
Lisboa: Cotovia, 2011

R de Regresso ao Trabalho (XXXI)

M de Música para os meus olhos (XX)


[Hadda Brooks, "I Hadn't Anyone 'til You"]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

R de Regresso ao Trabalho (XXX) - amanhã...


[Lisboa]

E de Espera (XX) - 3º Domingo de Advento


Gerhard Richter, "Velas"

[Obrigada, Rui]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - VIII b

R de Revisões da matéria dada (IX)



[Obrigada, Lena]

P de (The) Privacy of Rain (XVIII)

Em primeiro lugar - XXII


A fronte colada aos vidros como quem vela de mágoa
Céu da noite que já ultrapassei
Planícies minúsculas nas minhas mãos abertas
No seu duplo horizonte inerte indiferente
A fronte colada aos vidros como quem vela de mágoa
Procuro-te para além da espera
Para além de mim mesmo
E já não sei de tanto que te amo
Qual de nós está ausente.


Paul Éluard
in Luiza Neto Jorge, Poesia Traduzida
Porto: Modo de Ler/Edições Afrontamento, 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

E de Espinhas para um gato (XI)


Pierre Bonnard, "Le Bol de Lait", 1919

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIII

MEMÓRIA


Para o Olímpio,
com demasiados anos de atraso e de saudade


Dizemos órfão. Viúvo. Mas
não há palavra suficiente para
o amigo que sobrevive ao amigo
e não se reconhece mais
na composição dos dias.

Em redor da tua ausência,
banco de pedra irreparável,
cresceram as grossas raízes
do mundo: sem margens generosas
nem cintilações íntimas entre as linhas,
natureza morta com estrelas frias.

Há perdas assim,
que não se deixam fechar.
Apenas uma espécie de solidão
com vista para outras solidões
e o nevoeiro sempre entre nós.

ID

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

B de Brincar com ossinhos (VI)


Atribuído a Frans Francken le Jeune (1581 - 1641),
"Le mort jouant du violon".

B de Biorritmo - CIV b

P de Poesia (VIII)


[Lisboa, Dezembro 2011]

A de Amor (XIX)

Não há amor ilegítimo.

Vicente Huidobro, Mágica,
trad. Ricardo Marques, 
Lisboa: Língua Morta, 2011


*


PARÁBOLA




Não há amores malditos

Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade

Não há amores malditos


Félix Grande, Biografía (1958-2010),
Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2011
[Trad. ID]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) - XXXII b



Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.

Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away.

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXII

GIFT


     You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
     This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.


Leonard Cohen


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Y de "You must believe in spring" *


Flores corajosas e promessas de flores
no caminho do trabalho, ontem.




* Música antiga. Máquina fotográfica nova.

M de Música para os meus olhos (XIX)

F de Fazer Fotografia (LV)

UM OLHAR PARA ABATER OS ALBATROZES


Um olhar
          para abater os albatrozes
Dois olhares
          para suster a paisagem
          à beira do rio
Três olhares
          para transformar a criança
          em acrobata
Quatro olhares
          para forçar o comboio
          a cair no abismo
Cinco olhares
          para voltar a acender estrelas
          apagadas por um furacão
Seis olhares
          para impedir o nascimento
          da criança aquática
Sete olhares
          para prolongar a vida
          da noiva
Oito olhares
          para transformar o mar
          em céu
Nove olhares
          para fazer bailar as
          árvores do bosque
Dez olhares
          para ver a beleza que se apresenta
         entre um sonho e uma catástrofe


Vicente Huidobro

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

T de (Uma) teoria de pássaros (XVII) - Finais Felizes


Obrigada, David.
Mas o que eu gostava mesmo era de, um dia, comer
"cailles en sarcophage avec sauce perigourdine",


T de (Uma) teoria de pássaros (XVI)


ALAIN DELON, 1962
[Fotografado por Jack Garofalo]

Obrigada, Ana.

F de Flor Suficiente (XIV)


Hospital de Santa Marta, hoje.

sábado, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

L de "Las simples cosas" (IV)

Gosto de ler em jardins:


[A p.145 da revista Criatura nº6]

P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (III)

R de Regresso ao Trabalho (XXIX)


Dois pássaros antes do fim-de-semana.

B de Biorritmo (CIV)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

C de Começar o dia com um livro novo (IV) *




* Neste caso, de Boris Vian.

T de Teologia (II)

Estamos no final do século XX, nunca a ciência e a filosofia chegaram tão longe.
Tanto que é perfeitamente concebível escrever sobre omeletas um tratado de teologia,
da mesma maneira que sobre Deus um compêndio de culinária. *

Rui Caeiro, Sobre deus, sobre a magna questão da existência de deus, Lisboa: Ed. do autor, 1988


[* Já foi escrito e está na minha biblioteca.]