terça-feira, 24 de outubro de 2017

L de "Les yeux du chat"




[Franz Pforr, "Sulamita e Maria", 1811 - detalhe]





[Friedrich Overbeck, "Retrato do pintor Franz Pforr", c. 1810]

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]
 

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

terça-feira, 17 de outubro de 2017

S de Sense of Snow (VIII)


A CULPA COLECTIVA



A neve é um esforço, nunca dorme, 
nunca pode dormir. A última neve
talvez não chegue a cair, talvez não possa
voltar a unir a água na brancura
passageira das suas mãos. Sim, amanhã
talvez não chegue a nevar, cairá a chuva,
e ao olhar de Deus seremos náufragos
de morte semanal e para sempre.


Luis Rosales, Rimas y La casa encendida, 1979
[Trad. ID]

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIII)


[Para a Maria e o Ricardo]



OS GATOS


Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


- MANUEL ANTÓNIO PINA




[Capa de Maria João Worm
para Cão Celeste n.º 11, Lisboa, Agosto de 2017]