sábado, 16 de novembro de 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

A de Amor (XXIX)


CONFIAR


Tenho tanta fé em ti. Sinto
que saberei esperar a tua voz
em silêncio, durante séculos
de escuridão.

Tu sabes todos os segredos,
como o sol:
poderias fazer despontar
os gerânios e a flor de laranjeira
no fundo das pedreiras,
das prisões
lendárias.

Tenho tanta fé em ti.  Estou tranquila
como o árabe, que
envolto no seu manto branco
escuta Deus amadurecer-lhe
a cevada à volta da casa.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
2.ª ed. rev. e aumentada, sel. e trad. de Inês Dias,
desenhos de Débora Figueiredo, prefácio de José Carlos Soares
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2019



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

R de Revisões da matéria dada - VII




BLANCHE - [...] Il ne restait rien, sauf...

LA MEXICAINE - Flores...

BLANCHE - Sauf la mort... J'étais assise et la mort assise en face, où vous êtes. On n'osait même pas nier sa présence...

LA MEXICAINE - Flores para los muertos... Flores...

BLANCHE - La mort d'un côté, le désir de l'autre.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

T de Tratado de Pedagogia (LXX)




João Miguel Fernandes Jorge, Sob Sobre Voz / Porto Batel,
2.ª ed., Lisboa: Presença, 1987



sábado, 12 de outubro de 2019

M de Mesa de Amigos (V)


AOS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.

De paixão.


Herberto Helder

domingo, 29 de setembro de 2019

M de Música para os meus olhos (XXXVIII)


NÃO IMPRECISO, INCOMPLETO


Sentado à mesa,
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
                             até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora
também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.


Josep M. Rodríguez
in A Caixa Negra,
trad. de Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2009




[Detalhe de Stefano di Giovanni Sassetta, "A Viagem dos Reis Magos", c. 1433-1435]


XXIX


Terra e céu. O cavalo negro à beira do rio
gelado. O pão que Märta cortou, em Luz de
Inverno, esboroa-se em duas partes
à semelhança das duas igrejas quase desertas
nas planícies de Upsala - Nosso Senhor
Jesus Cristo na noite em que foi traído

A imagem é um campo de neve: o que nos
abandona não se une às pedras ao silêncio de
deus
ao latim, que por um momento emerge na sua nudez de
língua viva
há coisas pelo meio - distância ecos obscuridade


João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012

domingo, 22 de setembro de 2019

P de (The) Privacy of Rain - XXIX b


WORKING IN THE RAIN


My father loved more than anything to
work outside in wet weather. Beginning
at daylight he'd go out in dripping brush
to mow or pull weeds for hog and chickens.
First his shoulders got damp and the drops from
his hat ran down his back. When even his
armpits were soaked he came in to dry out
by the fire, making coffee, read a little.
But if the rain continued he'd soon be
restless, and go out to sharpen tools in
the shed or carry wood from the pile,
then open up a puddle to the drain,
working by steps back into the downpour.
I thought he sought the privacy of rain,
the one time no one was likely to be
out and he was left to the intimacy
of drops touching every leaf and tree in
the woods and the easy mutterings of
drip and runoff, the shine of pools behind
grass dams. He could not resist the long
ritual
, the companionship and freedom
of falling weather, or even the cold
drenching, the heavy soak and chill of clothes
and sobbing of fingers and sacrifice
of shoes that earned a baking by the fire
and washed fatigue after the wandering
and loneliness in the country of rain.



Robert Morgan





[ID, Santa Cruz | 019]

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

F de Frequências (III)





[ID, 'Conference of the birds', 019
*
Jean Renoir]

domingo, 25 de agosto de 2019

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002





quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Q de Que a alegria em mim permaneça (III)


O FUTURO OUTRORA



[...]



g.

Livre é o dom das mãos do mundo: a alegria; nunca
saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
que o teu e as suas várias almas conhecem;

Mas para que uma última vez possas dançar
Podemos, sim, podemos pôr aqui o fogo
e a árvore da música:

a vibração do mundo quando não estamos a olhar.


Manuel Gusmão
in Telhados de Vidro n.º6,
Lisboa: Averno, Maio de 2006

sábado, 10 de agosto de 2019

A de Aniversário (VII)


O SORRISO


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


- EUGÉNIO DE ANDRADE



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

P de Paralelo W (II)



"[...]

Muitas coisas aconteceram no Paralelo W: exposições, festas, as leituras em scat do Nuno Moura, em allegro assai do Diogo Dória ou con tenerezza do João Paulo Esteves da Silva. Ocasionalmente, vendíamos livros. Mais importante do que a literatura e quem lá anda (às vezes pelos piores motivos) foi termos recolhido duas gatas - a Ginja e a Mia - que nos deram a magia e o consolo de que poucos humanos são capazes. O Joaquim ainda conheceu uma delas e teve uma frase indelével, ao saber do fecho do Paralelo W: 'Nunca mais nos vamos poder encontrar por acaso'. Na internet, para onde vamos agora de malas aviadas e coração devoluto, uma marradinha não é bem uma marradinha - e os corações são ali apenas sinais gráfico mais ou menos insinceros. É tão difícil, Zé, abrir uma garrafa de vinho branco online

[...]"





- Manuel de Freitas (texto) e Luís Henriques (ilustração),
Cão Celeste n.º 13, Lisboa, 2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019

P de "(As) Praias Obscuras" (II)



[ID, Nazaré, 02/08/019]



Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de irmãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que eu quero lhe dar


- Dolores Durán

sábado, 27 de julho de 2019

F de Fidelidade




Silvina Rodrigues Lopes
- Cão Celeste n.º 1, Lisboa, Abril de 2012

segunda-feira, 22 de julho de 2019

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVIII


SOROR MARIANA - BEJA 


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.


- Sophia de Mello Breyner Andresen




[ID, Beja, 12 de Agosto de 2013]

terça-feira, 16 de julho de 2019

V de Vista para um saguão (VII)


SEGREDO


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


                  MIGUEL TORGA

domingo, 14 de julho de 2019

(O) Jardim e a Casa (XXI)



António Barahona, A Fina Flora do Crepúsculo (Sétimo Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2019


*



Uma epígrafe:
Inês Dias, Ponto-Sombra, 
São Paulo, Corsário-Satã, 2018

terça-feira, 9 de julho de 2019

M de Música para os meus olhos - XXXIII b


MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa-Fria, 1966]


Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014



[ID, "Menina calçando a meia", 11/017]

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A de Altar (VI)



[Santo António, 2019]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII b


O trabalho é um dom. O mais das vezes representa uma pena, pois não há nenhum mérito em trabalhar se o trabalho tiver como finalidade servir uma cadeia de lucro. O trabalho, em si mesmo, degrada; não aperfeiçoa o homem. É uma abjecção presumida e um estorvo para a paz. No entanto, o trabalho é um dom. Quando constitui uma glória recatada, uma ciência paciente; quando não significa humilhação, mas sim identidade.


Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã,
Lisboa, Guimarães Editores, 2015

quinta-feira, 23 de maio de 2019

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI b


GRANDES ARMAZÉNS


Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamã, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.
Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamã, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.
Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.
Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamã, compra-me, por favor, o silêncio."


ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

S.T.T.L.


"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"


- JORGE LUIS BORGES,
 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)




[ID, Estrela, Maio de 2017]

domingo, 14 de abril de 2019

P de (Po)ética