domingo, 15 de janeiro de 2017

I de Inverno (II)




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/012]




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

C de Cicatriz (III)




You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair, yes there are

You live in a fancy apartment
Off the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does

When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs

And when the snow falls you're found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don't

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Won't you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn

Where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try

So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do

I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head


[ouvido/dansado no Bartleby]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

R de Rezar na era da técnica (VI)


Não nos induzas em tentação.
sed libera nos a malo. Livra-nos, se puderes,
das angústias sem fim, das noites de insônia,
dos sonhos possíveis que se tornam impossíveis.
Livra-nos do assédio dos fracos,
da inconsistência das coisas,
do medo sem motivo, das confissões
excessivas e do sucesso,
que tira a nossa liberdade
e é capaz de iludir os mais sagazes.


- MARLY DE OLIVEIRA

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVI




José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado 
e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016

domingo, 1 de janeiro de 2017

B de Bom Ano Novo (III)


Réveillon


As vozes. Os gestos. A passagem dos minutos, dos segundos. Lá fora, o frio intransitável. O coração reduzido ao receio do sangue sem diálogo (o pacífico punhal na bainha). A música à beira do excesso.
O ausente amantíssimo mas que não ousa o gesto decisivo. O vinho fluindo, o olhar interior fixo no horizonte, a mais ninguém visível. O rosto inebriado, sem lágrimas.
À meia noite as taças erguem-se até aos lábios sôfregos de esperança. No instante que mais confina com o silêncio, tudo mergulha no primeiro dia do eterno retorno.
O ausente amantíssimo. E o outro, deste lado do oceano. Habitando os dois a saudade, num coração solitário, à beira da explosão.
Lá fora, as estrelas brilham menos. Alguém começa a antever ao longe, muito ao longe, o cortejo da madrugada.

Londres, 1 de Janeiro 1997


Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

sábado, 31 de dezembro de 2016

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

P de Poética (LVIX)


ESCREVER


Ficas frente à parede, abraças a cal. Dizem que queima. 


José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016





[ID,  Lisboa, 03/016]

domingo, 25 de dezembro de 2016

M de Merry Christmas (VII)




Giovanni Bellini
[detalhe]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

C de Coração arquivista



[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 11/016]



SEIS RECOMENDAÇÕES


Que idade tem esta sombra
Não lhe toques a carne

Concentra-te na superstição
Arrepio do pensamento

Prepara um chá, não arrastes a cadeira
Os nomes são ditos para dentro

Assoa-te, tira a cera dos ouvidos
Recordas Afrodite no wc?

Não adormeças no carril
O destino não tem ramal

Desliga a luz de cabeceira
E dorme para o lado que é teu


Nunes da Rocha, Óculos sujos, fígado gordo,
Lisboa, & etc, 2013

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

C de (Re)começo







"[...]

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio."


- RUI PIRES CABRAL

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

E de Estudos literários comparados (II)


A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.


Hakim Bey (trad. Inês Dias)
in Cão Celeste n.º4Lisboa, Novembro de 2013


*


I heard a Fly buzz – when I died – 
The Stillness in the Room 
Was like the Stillness in the Air – 
Between the Heaves of Storm –

The Eyes around – had wrung them dry – 
And Breaths were gathering firm 
For that last Onset – when the King 
Be witnessed – in the Room –

I willed my Keepsakes – Signed away 
What portions of me be 
Assignable – and then it was 
There interposed a Fly –

With Blue – uncertain stumbling 
Buzz – Between the light – and me – 
And then the Windows failed – and then 
I could not see to see –


- EMILY DICKINSON

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

E de Espera (LVIII) - 1.º Domingo de Advento


"(...) É para isso também que serve o círculo, a sua ideia. Serve para preparar o caminho da escuridão e do desconhecido, um caminho inteiramente interior. Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, antes de me virar sobre o meu lado direito, que é o lado em que sempre penso trazer o coração."


João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

M de Mesa de Amigos (X)


IV.


Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
[...]


Herberto Helder, Ofício Cantante,
Lisboa: Portugália, 1967




[Imagem: Paul Klee, "Nächtliches Fest", 1921]

J de (O) Jardim e a Casa (V)


PROPORÇÃO


No céu há uma lua e estrelas,
E no meu jardim há mariposas amarelas
Agitando-se em torno do arbusto de azáleas brancas.


Amy Lowell (trad. de Miguel Martins)
in Telhados de Vidro, nº 14, Lisboa, Averno, 2010

Q de "Quero a alegria de um barco voltando" (II)





domingo, 20 de novembro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXV




Diferença


Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro. Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti, desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda, de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras (por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho). Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me, seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes. Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu. Estás só, por isso estás comigo.


Jorge Roque
in Broto Sofro, com pinturas de Guilherme Faria
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2008

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLVI)




João Paulo Esteves da Silva, Tâmaras,
Lisboa, Douda Correria, 2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

B de Biorritmo - LXXI b


LEONARD COHEN, 1979


Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de "other forms
of boredom advertised as poetry",
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
- tudo, enfim, falece -,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.


Manuel de Freitas
in pequena morte: poemas, Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

P de Poesia (V)




"E se aquilo que não sabemos 
pudesse ser medido em quilómetros?"
(Catarina Mourão)



quarta-feira, 9 de novembro de 2016


V

A última vez que te encontrei foi diante do Banco Qualquer Coisa. Verificavas o preço das acções. Elas baixaram, não há dúvida. Talvez isso prejudique o teu futuro na América e até mesmo a tua actual capacidade para os estudos. És fraco e não podes impedi-lo. Se fosses resoluto poderias ordenar a um dos responsáveis: "sobe-me essas acções, badameco!"
Não confio já nos santos ou nos poetas e muito menos nos heróis.
Tudo é agora uma questão de mais ou menos brutalidade, de maior ou menor capacidade de matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.


Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO - Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores, 1970




[Guimarães, 2/08/013]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A de Amor


CONTA-MO OUTRA VEZ
                           
                               
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor;
é a história mais bela que conheço. 

        
AMALIA BAUTISTA




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

S de Sexta-feira (V)


"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA



[ID, Madrid, Agosto 015]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

D de (Os) despojos do dia *




*

S de Solidão (ou C de Comunidade) II


ANUNCIAÇÃO
- segundo Fra Angelico


Ele veio do jardim, sem deixar
nem sombra, nem pegada sobre o orvalho.
Os olhares de ambos sustêm-se no ponto
de equilíbrio: tudo conduzindo 
a este momento, tudo se afastando.

Uma palavra lançará a semente
da vida e da morte,
o ensombrar desta rapariga
por umas trevas emplumadas.
Mas ainda não: agora ainda não.

Como recordará ela o silêncio
desse interminável momento?
Ou o final, quando tudo começou -
a primeira de sete alegrias
antes das sete dores?

Ela recordará a canção a seguir
porque é apenas humana.
Um dia
acordará com asas, ou acordará
e descobrirá que elas desapareceram. 


Robin Robertson, Hill of Doors,
Londres: Picador, 2013
[Trad. ID]












                           
                                           
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 1 de novembro de 2016

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012