terça-feira, 27 de setembro de 2016

I de "I want to ride my bike" (II)


O CICLISTA


O homem que pedala, que ped’alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.


Alexandre O'Neill, Poemas com Endereço [1962], 
in Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 
6.ª edição (revista por Luis Manuel Gaspar),  2012

I de "I want to ride my bike" (VIII)


"[...] A verdade é que o bem é maior do que o mal. E, devido a isso, mais difícil de encontrar. Todos sabemos: demasiada luz: cega."


Manuel A. Domingos
in Cão Celeste n.º 9, Lisboa, Julho de 2016





[Sabine Weiss, 1957]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

M de Meia-estação (III)




[Herbert Tobias]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XXXIII)


"[...] De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente - é um verbo. 
O nosso verbo, por exemplo, é escrever."


Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências
Lisboa, Relógio D'Água, 1996





[Willy Ronis, 1945]

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

S de S.T.T.L.




[In Nunes da Rocha, Cordoaria Nacional,
Lisboa, Averno, 2016]

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

M de Meia-estação (II)


CAFÉ SIMPLES


Deus fez o mundo e fê-lo com pressa,
mas os poetas, sem saírem das suas casas,
inflamados, coroados por línguas de fogo,
tiritando de solidão e de frio na madrugada,
mantêm-no em contínuo funcionamento.

O novo carregamento de luz ainda não chegou.
Longamente esperam as folhas negras das acácias,
os sete cinzentos do arco-íris, os vitrais das igrejas,
leves e frágeis como as asas de uma libélula.
Em breve se acumulará a claridade, nutritiva e generosa,
nas esquinas e o bispo branco derrotará o negro.
No Museu Nacional as sombras aguardam;
de um momento para o outro vão partilhar o verde,
o azul de Prússia, o vermelhão e o amarelo.

Os poetas, desvelados, administradores
de um vasto império invisível, preparam café;
esperam que fervam também as palavras.
Uma irmandade secreta de colherzinhas
tilintando nervosas, rodando para misturar
– enquanto as canetas sonham com o seu regresso
a Ítaca – as duas substâncias da vida:
o doce e o amargo, a luz e a escuridão.

Os poetas mexem e remexem: as suas colheres
e as suas canetas não sabem fazer outra coisa.
Com brio, com teimosia, quase com fervor.
Como se o redondo fluir dos relógios
nas morgues e nos aeroportos,
e o ciclo curto das estações
(às vezes apenas Outono e Inverno,
Outono e Inverno repetindo-se)
e o preguiçoso rodar do planeta inteiro,
com as suas dobradiças, os seus parafusos e rodas do destino,
dependessem única e exclusivamente
de um insone movimento de pulso.


Jesús Jiménez Domínguez
in Contra las cosas redondas, La Bella Varsovia, 2016
[Trad. ID]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 4 de setembro de 2016

L de "Las simples cosas" (V)



[ID, Santa Cruz, 2016]



"Mudou a luz: isto é setembro."

Carlos Marzal




[ID, Nazaré, 2011]

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P de Pássaros anónimos (XVIII)


recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997





[ID, Santa Cruz, Agosto 016]

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIV)


Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos,
Coimbra, 1963




[ID, 17/08/016]



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular,
Lisboa, Hiena Editora, 1991

sábado, 20 de agosto de 2016

A de A propósito de melros *


A ÚLTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


Roger Wolfe
in Criatura n.º5, trad. Luís Filipe Parrado,
Faculdade de Direito de Lisboa, 2010


*


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012


*


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO


I

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.


II

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros.


III

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.


IV

Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.


V

Não sei se prefiro
A beleza das entoações
Ou a beleza dos subentendidos,
O melro a assobiar
Ou o instante depois.


VI

Os pingentes de gelo cobriam a longa janela
De vidro bárbaro.
A sombra do melro
Atravessava-a, de um lado para o outro.
O ambiente
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.


VII

Ó homens magros de Haddam,
Porque é que imaginam pássaros de ouro?
Não vêem como o melro
Anda entre os pés
Das vossas mulheres?


VIII

Sei de tons nobres
E de ritmos lúcidos, irresistíveis;
Mas sei, também,
Que o melro faz parte
Daquilo que sei.


IX

Quando o melro desapareceu de vista
Marcou o limite
De um de muitos círculos.


X

Ao verem melros
A esvoaçar na luz verde,
Até as alcoviteiras da eufonia
Gritariam subitamente.


XI

Ele atravessava o Connecticut
Numa carruagem de vidro.
Um dia, o medo apoderou-se dele,
Ao confundir
A sombra dos seus cavalos
Com melros.


XII

O rio move-se.
O melro deve estar a voar.


XIII

Fez noite toda a tarde.
Estava a nevar.
E ia nevar.
O melro pousou
Nos ramos do cedro.


Wallace Stevens
[Trad. Inês Dias]


*


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ


Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
– se eu temperar o lirismo com a ironia –
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.


Fiama Hasse Pais Brandão
in Cantos do Canto, Lisboa, Relógio D'Água, 1995


*


LEX VISIGOTHORUM



para o Manuel de Freitas


Mestre,


Este escrivão será breve nas palavras e demorado sob as estrelas, pois a vida extingue-se com um sôpro e o pavio da candeia arde e consome-se com a falta dele. A oliveira cresceu como um Poeta, benzida pelas estações, no render da Guarda Real: os Meses, o Sol e a Lua. As raízes são profundas e agarram-se à terra como os condenados. No nosso ofício, entre verbos e versos, transcrevi uma lei visigótica: coima de cinco soldos para quem arrancar oliveira alheia. Bárbaros somos nós, em Portucale: árvore alheia, coração próprio. Meu velho amigo, fora das muralhas está a belíssima civilização do Mundo: o gamo dorme à sombra da rama e o melro assobia com mel no bico. O gato faz o que quer e é feliz com tão pouco. Não há ponta de treva que cresça nesta saúde. Aqui, rente ao osso da matéria, a acidez é baixa e a lira canta alto. Termino, amadoramente, com um verso de outro tempo: é o músculo do peito que dá corda ao destino. Mestre, esta terra tem coroa: a família, frutos e um fio de ouro no lagar.


Ricardo Álvaro
in AAVV, De fio a pavio, Lisboa: Tea For One, 2012


*


Foi possível    sabes?
O dia foi breve menos do que os outros      possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite      tão breve


Abel Neves
in Eis o amor      a fome e a morte, Lisboa, Cotovia, 1998


*


Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a morte não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me faltava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.


Bertolt Brecht
in Poemas, sel. e trad. de Arnaldo Saraiva, 
Lisboa: Presença, s/d




[* Uma micro-antologia, começada a 4 de Outubro, para o Ricardo Álvaro.]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

S de S.T.T.L.


Virá a morte e terá os teus olhos –
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
                                     
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios mal fechados.
Desceremos o remoinho mudos.


22 de Março de 1950


Cesare Pavese
in Trabalhar Cansa, trad. Carlos Leite,
Lisboa: Cotovia, 1997

domingo, 14 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XIII)





ÁLBUM


Quase nunca apareço, nessas
velhas fotografias: a mão
ou um ombro, desfocados; uma figura
ao fundo,
a sair do enquadramento.
Vejo-me, às vezes, na inquieta
mancha de uma criança, esse estremecimento
no olhar, ou o modo como
o sol derrama o seu ouro na  imagem;
ou aí, nesse golpe longo e branco
sobre a superfície do vidro
na parede atrás. Essa
nódoa de luz
a minha marca, de partida.

Se olharem de perto
para estes instantâneos, toda esta
película a ficar azul, começam
a reparar. Quando finalmente me virem,
vão ver-me por todo o lado: a flutuar
sobre flores, castelos de areia,
folhas caídas, naqueles
bonecos de neve derretendo-se, com as caras
desenhadas a carvão – entre todos
os convidados do casamento,
os convidados do jantar, os convidados
da festa de aniversário – este fumo
na emulsão, o defeito.
Está um fantasma aí; o fantasma levanta-se para ir.


- ROBIN ROBERTSON





[ID, 'The wrecking light', Agosto 2016]

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

S de Santa Cruz (XII)




Rainer Maria Rilke
in O LIVRO DE HORAS, trad. Maria Teresa Fias Furtado,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009


terça-feira, 9 de agosto de 2016

A de Amor (VI)



Laurel Gray: [on a scene in Dix's script] I love the love scene - it's very good.


Dixon Steele: Well that's because they're not always telling each other how much in love they are. A good love scene should be about something else besides love. For instance, this one. Me fixing grapefruit. You sitting over there, dopey, half-asleep. Anyone looking at us could tell we're in love.



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

L de (A) Luz da Sombra (XXV)


Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa. 
E do chão. 


- DANIEL FARIA





Abelardo Morell, "Laura and Brady in the shadow of our house", 1994

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

sábado, 30 de julho de 2016

S de "Sei de um rio" (II)


MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa Fria, 1966]


Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014





[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]

O de "O mar, o mar" (V)


São desprezíveis os que amam e os que troçam
e quem espera e o desespero e a nostalgia.
Somos deuses que a dor e a infecção engrossam
e em Deus vamos pensando todavia.

A baía suave. Sonho em bosques sumido.
Os astros pesam, flores-bolas de nevar.
Saltam panteras p'las árvores sem ruído.
Tudo é margem. Eterno chama o mar.


Gottfried Benn, 50 Poemas
trad. Vasco Graça Moura, Lisboa: Relógio D'Água, 1998



[Epígrafe de Inês Dias, Tempos VáriosLisboa: Paralelo W, 2014]

E de Estar (V)


AINDA NÃO


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há cama só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


- ANTÓNIO JOSÉ FORTE
in Surrealismo/Abjeccionismo, org. Mário Cesariny de Vasconcelos, 
Lisboa: Edições Salamandra, 1992

S de "Sei de um rio"




[ID, Julho de 2016]


*




[Fotografia de Inês Dias
in Manuel de Freitas, Motet pour les trépassés,
Lisboa, Língua Morta, 2011]

quarta-feira, 27 de julho de 2016

J de (O) Jardim e a a Casa (XVIII)


SE EU FOSSE...


Se eu guardasse patos.
Mas não figura romântica, dama, estilizada.
Não como a que se debruça risonha, regaçada,
para o lago pequeno do Jardim da Estrela.

Se eu guardasse patos, de pé descalço ou de
tamancos...
De cana na mão, malhado do sol, esgrouviada,
sem graça nem disfarces!
Levaria o meu rebanho à minha frente, direitinho
à pancada.
Vá tu, mole. Vá tu, mal mandado. Vá, vá!

Real guardadora de patos da borda-de-água...
Se eu fosse!
Patos, meus cuidados, batidos e dóceis correríeis
como gamos.

Ou se eu fosse uma mulher de canastra.
Das que atravessam a correr as pranchas, carregadas e airosas.
Tantos passos para lá, tantos outros para cá...
Entre o barco e o cais o espaço é curto e debaixo há água.
E a prancha ginga.
Mas elas correm pesadas, seguras e rítmicas.

Ser uma mulher de canastra...
Se eu fosse!


João Falco (Irene Lisboa), Outono havias de vir,
Lisboa: Seara Nova, 1937



"Filha de rei guardando patos", Jardim da Estrela, 1917


*


FILHA DE REI GUARDANDO PATOS
[Jardim da Estrela, 1917]


Já não nos podem tirar nada:
o castelo estava em ruínas
quando o conquistámos
e da revolução sobrara apenas
a memória doméstica da água cortada,
toda aquela roupa por lavar.

Mas as estações deixavam-se guardar
nos herbários e o futuro rasgava-se
ainda nesse gesto largo, sem muros,
longe do exercício incerto de descer
a calçada mais íngreme.

Estas eram as nossas estrelas -
açaimadas, coxas, vadias.
E não desistimos de as trazer para casa.




Inês Dias, 
in Deitar a Língua de Fora, com ilustrações de Luís Henriques
Lisboa: Língua Morta, 2012

segunda-feira, 25 de julho de 2016

N de 'Nous deux encore' (VI)




Andrei Tarkovsky, Nostalghia, 1983

domingo, 24 de julho de 2016

P de Poética (LVII)


[...]
Atormentava-o um problema, que lhe dava má consciência e o impedia de escrever: o que se passa no domínio da escrita não será destituído de valor se se mantiver puramente "estético", anódino, desprovido de sanção, se, no acto de escrever uma obra, não houver nada que seja o equivalente (e aqui intervém uma das imagens mais caras ao autor) do que são para o toureiro os cornos acerados do touro, a única coisa que - por causa da ameaça material que contêm - confere uma realidade humana à sua arte, e a impede de ser apenas a graça fútil de uma bailarina?
[...]


Michel Leiris, "Da literatura considerada como uma tauromaquia", 
in Idade de Homem, Lisboa: Editorial Estampa, 1971


*


"[...] disse que tal como aos toureiros lhes crescem as barbas com o medo de tourear assim lhe crescia a barba na espera dos críticos. e imaginei-o em pequeno a escrever num diário, imberbe. e agora esta vida de samurais e de toureiros onde é preciso sangrar. é isso a literatura, diz ele. um samurai que sabe que vai morrer mas continua a lutar. [...]"


Sandra Andrade, Doppelgänger,
Coimbra, DSO, 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

P de Perder a cabeça - IV c




[ID, Porto, 17/07/016]

P de Perder a cabeça - IV b


(O pardal)

A catástrofe das pequenas coisas.
Um pássaro canta sobre a esfera de pedra.
Envolve-o a secura, não a do deserto, mas a do cimento. Desbotado.
Nem um vaso, nem uma cadeira, nem um toldo, nem uma rosa de ninguém:
a luz nos mosaicos anuncia a aridez de uma execução.
A catástrofe das pequenas coisas.
Em baixo, tão em baixo que é preciso olhar para baixo, o artifício das árvores. É esta varanda que lhes tira a humanidade. Mas que é a humanidade de uma árvore? Não o pássaro que a esfera tornou um pássaro de pedra. Um canto de pedra.
Que acrescenta à pedra a forma de um voo.
Não lhe atenua a aridez:
exalta-a.
Exibe-a.
A catástrofe das pequenas coisas.
Não lhe vejo o bico entreaberto, nem o estremecimento das penas: ouço-lhe o canto.
Como um memorial.
De súbito, levantará voo.
E a pedra deixará a pedra. Sem uma marca.
:
um osso exposto
fractura quem o vê?


Rui Nunes, A Crisálida,
Lisboa, Relógio D'Água, 2016

P de Postais - V c




[ID, Porto, 25/10/015]

segunda-feira, 18 de julho de 2016

B de Biorritmo (CLVIII)


SHE LIVES BY THE CASTLE


Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes,
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015

domingo, 17 de julho de 2016

L de "Las simples cosas" (III)





NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011




[ID, Entre Famalicão e Moledo, Junho 016]

sábado, 16 de julho de 2016

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (VII)




*




Albert Camus
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa, 
Lisboa, Livros do Brasil, s/d


*


"no vivir por mano ajena"


Camilo José Cela



*




"O prazer da vida é apenas um: não ser um escravo."

Otar Iosseliani
in Ípsilon, 14/01/11

segunda-feira, 11 de julho de 2016