terça-feira, 17 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

M de Mesa de Amigos - V c


RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rui Caeiro, Livro de Afectos,
Lisboa, edição de autor, 1992

domingo, 8 de abril de 2018

H de História de amor - c



[João César Monteiro, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970]



Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


LUÍS DE CAMÕES





[João César Monteiro, A Comédia de Deus, 1995]

domingo, 1 de abril de 2018

P de Páscoa Feliz (VII)


A FLECHA NEGRA


Não digas que escrevo
para o teu desconsolo - se o dia
não serve e a noite que chega
não me traz mais nada. Já foram
mais fáceis os meses e o sono,
os livros dilectos, a luz
sobre a cama -
e as vistas
da tarde por detrás da casa: hortas
de Macedo, olivais da Páscoa.
Mas não digas que escrevo
para o teu desconsolo. Escrevo
contra o nosso, escrevo
como posso.


Rui Pires Cabral, Morada,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2015

P de Páscoa Feliz (III)


sexta-feira, 30 de março de 2018

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VI)





E LUCEVAN LE STELLE


Para o meu avô,

os verdes na banca eram o real,
sem regresso ou poesia,
e a expansão acabara de novo
ali, no Cais da Ribeira,
quando a amada partira,
levando-lhe no nome a liberdade.

A tristeza tinha horas tão marcadas
que lhe tingiam os dedos,
portões que só se abriam
para as estrelas sempre acordadas
da mesma música: e nunca amei tanto
a vida, chorava em repetição.

Enquanto a felicidade boiava na praia,
à distância de um dia de verão
e de uma corda segura 
por quem não sabia sequer nadar.


Inês Dias, In Situ,
Lisboa: Língua Morta, 2012

segunda-feira, 5 de março de 2018

P de Poética (LVI)




*



Miguel de Carvalho, Neste estabelecimento não há lugares sentados
Lisboa, Alambique, 2016

[Fotografia de ID, Coimbra, 15/05/016]


*




Adriana Molder
[edição com texto e imagem de Adriana Molder, 
integrada na exposição TODAS AS FOTOGRAFIAS DO FORD, Travessa da Ermida, 2018]

domingo, 11 de fevereiro de 2018

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVII


[...] No veo por qué escribir tiene que traer aparejado el hablar en público. Más bien son actividades contrarias, se escribe en soledad y en muchos casos para huir del mundo. [...]


- ENRIQUE VILLA-MATAS

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

S de Sítio (III)


NADA MAIS - RIEN NE VA PLUS


Na alienação que é o pensamento
as coisas escorrem pelos dedos abaixo
a matéria, a «phisis»
tudo nos escorre pelos dedos abaixo
na alienação que é o pensamento
Dominam-se as coisas até onde o céu
pode ser aberto
e a geometria uma realidade nossa
para limitar o espaço
A cabeça em limites
onde um limite um ser
uma coisa
e tudo cá dentro cá dentro cá dentro
até onde um limite
ainda torna possível a existência
dum outro por abrir
Hoje o céu é novo é diferente
é dormir e acordar de novo para as coisas
o céu os pássaros
a fantasia dos pássaros
Hoje é o céu novo o céu novo
hoje é a Grécia de ontem
foi ontem a Grécia
mas a Grécia ainda é hoje
é hoje porque é dormir e acordar de novo para as coisas
achá-las vê-las
cumprimentar as coisas com bons dias ao Sol
bom dia meu irmão
ressuscitar um morto
dizer aqui S. Francisco de Assis
aqui a cabeça cheia de vento
a graça as flores
o vento na cabeça
a cabeça a janela
aberta aberta
de S. Francisco de Assis
Hoje é dizer fui ontem mas ainda sou amanhã
amanhã amanhã
amanhã até onde o céu for aberto
e até onde a Estrela Polar distante distante
Hoje é dormir cantar
dormir com uma canção na cabeça
dizer boa noite meu amor meus astros minha esfera
amanhã outra vez amanhã de novo te conheço
ressuscito para as coisas
e assim o sono a existência o momento que passa
e nada mais
porque nada mais meu bom Sartre na verdade
nada mais que o momento
conta senão para nós.


António Gancho, O ar da manhã
Lisboa: Assírio & Alvim, 1995

domingo, 4 de fevereiro de 2018

S de Sítio (II) - ou "Amitié"




[Vincent Van Gogh]

P de "Photographing Fairies"



[ID, Caneiras, 17/08/013]



[...]

Eram coisas que tornavam 
apetecível o inferno
e que teimavam em durar
através das horas e dos séculos.
Mas prefiro recordar a bola de sabão
que morreu entre os meus dedos
ou o ramo de pinheiro 
oferecido pelo Tiago, que percebia, 
pela primeira vez, a sombra do lume
quando está próxima a areia.


MANUEL DE FREITAS 
in Manuel de Freitas e Inês Dias, Sítio
com desenhos de Luis Manuel Gaspar, 
volta d' mar, 2016 







[ID, Festa de São Brás, 3/02/013]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

L de 'Les timides'


"As duas timidezes observavam-se uma à outra. Os dois silêncios, os dois constrangimentos. Eram ambos interiores orientais, sem janelas para fora, com vasos verdes no pátio do meio, e todas as varandas abertas para dentro de casa."

- ANAÏS NIN

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

R de Rezar na era da técnica (XXVI)


O MISTÉRIO DAS ORAÇÕES


Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.


Luljeta Lleshanaku
in Telhados de Vidro n.º 22, trad. de Inês Dias e Marjeta Mendes, Lisboa, Averno, 2017



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

B de Bom Ano Novo (X)


RELIGIÃO


If I were called in
to construct a religion
I should make use of water

PHILIP LARKIN


Inaugurar uma religião:
adorar os pontos em que se formam
as estações do ano
os gestos de desnudar-se
o dia depois da chuva
a distância: entre uma árvore e outra árvore,
entre cidades com o mesmo nome
em diferentes continentes.
Criar relíquias:
os táxis ao entardecer, as colheres
brilhando ao sol
esboços de mãos e pés
de pintores antigos
as presas ensanguentadas
que nos trazem os gatos.
E ainda outras, íntimas, insensatas
a luz nos seus cabelos
as fotografias de parentes
que não sabemos quem são.
Adotar novas bíblias:
longos romances inacabados
palavras lidas sobre os ombros
de alguém no metrô
poemas clássicos traduzidos
por tradutores automáticos.
Reconhecer enfim o divórcio
como um sacramento.
Na liturgia
tocar como partituras
os mapas das cidades.
E no Natal
só celebrar o que nasce
do sexo
para morrer
de fato.


Ana Martins Marques 
in Telhados de Vidro n.º 22, 
com capa de Rui Chafes e arranjo gráfico de Inês Mateus (sobre grafismo de Olímpio Ferreira),
Lisboa, Averno, 2017

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

M de Merry Little Christmas


[...]

A luz que ali existe é uma luz espiritual, que surge em raios quase imperceptíveis a partir do recém-nascido na manjedoura, à cabeça do qual aparecem uma série de anjinhos papudos com penteados pré-rafaelitas. Na base da manjedoura, o manto azul da Virgem torna-se no mesmo negro carregado da noite; o céu é da mesma cor do que se vê através da porta do estábulo. Numa colina distante, as sombras quase imperceptíveis dos pastores cuidam de um rebanho de ovelhas cinza metalizado. Acima destes, o anjo Gabriel paira num branco espectral e angélico; enquanto mais abaixo, o boi e o jumento, praticamente invisíveis nas sombras, adoram o menino. Geertgen transmite a escuridão da noite com uma mestria que eu nunca vi em nenhuma outra pintura - isto não é possível numa foto, e talvez seja apenas possível em filme, embora custasse uma fortuna em luzes para atingir o efeito. A noite em Hampstead é desta cor. As árvores tornam-se cerradas. A lua brilha clara como o anjo. As ervas são de um castanho espectral. Os ramos prateados como branco de giz, e cada forma dissolve-se nas sombras.




Derek Jarman, Chroma,
trad. de João Concha e Ricardo Marques, (não) edições, 2015

domingo, 17 de dezembro de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (LI)


[...]

É noite
espero-te
fumo
como a chaminé dum hospital

Escrevo
palavras que nadam num aquário
Tenho peças de relógio perdidas nas veias
Sou um colar violento ao teu pescoço de planta

Fumo
e teço um manto de algas
para te cobrir ao menor sinal de chuva

O sangue flui
com os destroços e os ossos das horas

O cigarro pega fogo à noite


in António Barahona, A Voz ao Espelho (Quinto Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 26 de Novembro de 2017

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

E de Espera (II) - 2.º Domingo de Advento





Gerhard Richter, "Velas"

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

E de Espera (LIX) - 1.º Domingo de Advento


"O vermelho é um instante no tempo. O azul é constante. O vermelho gasta-se depressa. Uma explosão de intensidade. Vibra em si mesmo. Desaparece como faíscas de lume dentro da escuridão uniforme. Para nos aquecermos no longo e escuro Inverno quando o vermelho se ausenta. Recebemos de bom grado o pisco-de-peito-ruivo, e as bagas vermelhas que permitem a vida. Vestido no vermelho Coca-Cola do Pai Natal, aquele que traz presentes. Sentamo-nos à volta da mesa e cantamos "Rudolph the Red Nosed Reindeer" e "The Holly and the Ivy". The holly hears a berry as bright as any blood. Os nossos rostos de Inverno são tingidos de um alegre vermelho. Preservamos o vermelho como uma chama. A vida é vermelha. O vermelho é para os vivos [...]."


Derek Jarman, Chroma,
trad. de João Concha e Ricardo Marques,
(não) edições, 2015




B de Biorritmo (CV)





Life is brief. Fall in love, maidens,
Before the crimson bloom fades from your lips,
Before the tides of passion cool within you,
For those of you who know no tomorrow.

Life is brief. Fall in love, maidens,
Before his hands take up his boat,
Before the flush of his cheeks fades,
For those of you who will never return here.

Life is brief. Fall in love, maidens,
Before the boat drifts away on the waves,
Before the hand resting on your shoulder becomes frail,
For those who will never be seen here again.

Life is brief. Fall in love, maidens,
Before the raven tresses begin to fade,
Before the flame in your hearts flicker and die,
For those to whom today will never return.


Viver (Ikiru - Japão, 1952). Realizador: Akira Kurosawa

terça-feira, 21 de novembro de 2017

L de Liberdade condicional





O HOMEM DA PERNA DE PAU


Havia um homem que vivia muito perto de nós
Tinha uma perna de pau e um pintassilgo numa gaiola verde
Chamava-se Farkey Anderson
E tinha estado numa guerra para arranjar aquela perna.
Sentíamos muita pena dele
Pois tinha um sorriso tão bonito
E era um homem tão grande a viver numa casa mesmo pequenina
Quando ele andava na rua a sua perna não fazia grande diferença
Mas quando andava na sua casa pequenina
Fazia um barulho horrível.
O Irmãozinho dizia que o pintassilgo dele cantava mais alto do que todos os outros pássaros
Para o homem não ter de ouvir a sua pobre perna
E ficar demasiado triste com isso.


KATHERINE MANSFIELD
[Trad. Inês Dias
- aqui]





[Inês Dias, Lisboa-Guimarães | 011-013]

Regresso do trabalho (II)




Nuno Moura, Clube dos Haxixins
Lisboa, Douda Correria, 2016

domingo, 19 de novembro de 2017

A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (VI)


"[...] A vida. Que é uma palavra só nossa para dizer poesia. [...]"*





* In Cão Celeste n.º 1, Lisboa, Abril de 2012

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

D de Do outro lado do espelho




*




Beatrix Potter, "O Conto do Porquinho Robinson",
in Contos, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017

terça-feira, 14 de novembro de 2017

T de Tratado de Pedagogia (XL)


"Tu as tout à apprendre, tout ce qui ne s'apprend pas: la solitude, l'indifférence, la patience, le silence."


- Georges Perec, Un homme qui dort, 1967


sábado, 11 de novembro de 2017

Y de "You can never hold back spring"


46.

Um grande poeta, meu amigo, disse-me que as buganvílias não têm cheiro. Mas nós sabemos que tudo tem cheiro, até o vidro, os navios de espelhos e as flores-de-lis tatuadas no coração das donzelas. As buganvílias, quando fenecem e se apagam lentamente, libertam, no exacto momento em que a sua luz se extingue, um suave odor a rapariga adormecida na madrugada. Os poetas sabem o mundo todo, mas nem sempre têm razão.


Rui Chafes, Entre o céu e a terra,
Lisboa, Documenta, 2012





[Lisboa, 26/10/12]

terça-feira, 24 de outubro de 2017

L de "Les yeux du chat"




[Franz Pforr, "Sulamita e Maria", 1811 - detalhe]





[Friedrich Overbeck, "Retrato do pintor Franz Pforr", c. 1810]

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]
 

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

terça-feira, 17 de outubro de 2017

S de Sense of Snow (VIII)


A CULPA COLECTIVA



A neve é um esforço, nunca dorme, 
nunca pode dormir. A última neve
talvez não chegue a cair, talvez não possa
voltar a unir a água na brancura
passageira das suas mãos. Sim, amanhã
talvez não chegue a nevar, cairá a chuva,
e ao olhar de Deus seremos náufragos
de morte semanal e para sempre.


Luis Rosales, Rimas y La casa encendida, 1979
[Trad. ID]