Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

R de Regresso ao real (IV)

[...]
XI.

Colocas a tua mão direita sobre o coração ao adormecer e regularizas deste modo o incómodo do tempo em que estiveste acordado, do tempo que houve que preencher com o absurdo quotidiano. Essa mão direita é uma aranha pacífica e atenta que ganhou também o seu repouso e um sonho que não é possível controlar nem situar na caótica convulsão do universo que a cada um pertence.
Dormes. E enquanto lutas com um grupo de bandidos num Rio de Janeiro onde nunca estiveste, enquanto assistes à passagem de semblantes luminosos de gente que deve ter morrido há muito tempo, ou enquanto sorris internamente perante uma história que existe no outro lado da realidade, a tua mão continua a arder, independente, na lenta combustão que a tornará lívida, inerte, dura e terrível, no transitório momento que separa a vida do apodrecimento. O sonho é apenas uma outra forma da realidade e talvez (quem o sabe?) a morte o seja também. Porém o que definitivamente se transforma é a tua mão direita, essa peça que tão descuidadamente transportas, como se fosse um direito absoluto a posse desse extravagante objecto, como se a memória te impedisse de observar o monstruoso teatro que ela, a mão, executa durante aquilo a que chamamos tempo. As unhas. Os dedos. As articulações. E algo ainda. Como aceitar impassível a presença da mão, desse pequeno corpo a cujo movimento não podes assistir atenta, continuamente? Estamos fabricados para as ideias gerais mas nada existe nelas que nos ofereça um pouco de paz, um pouco de certeza no destino de todos e cada um.
Acordas. Eis a tua mão direita que se move numa direcção que lhe é própria, e se te pergunto que fizeste com ela, que tens feito com ela, qual o seu futuro, então entenderás quanto o domínio, a percepção e o controle das diversas realidades te é interdito.


Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO, 1970

P de Perder a cabeça (IV)


[Lisboa, 27/01/12]

I de Insónia (II)

TANTAS COISAS POR DIZER


Tantos sílexes partidos ao meio, tantas centelhas amargas, tantas cabeças de morto explodindo à volta das suas órbitas, tantos cavalos rindo de sofrimento ao sol, tantos manjericos, colocíntidas, mandrágoras na lama das fontes profundas, tantos enforcados cobertos de pássaros. Tantos espantalhos em cruz. Tantas raparigas de braço dado no assustador perfume das fábricas de Náuplia, tantas ondas que cospem sobre os rochedos da Bretanha, tantos submarinos que descem até junto de tesouros cegos, tantos luares escondidos atrás de uma árvore, tantas sombras assassinas que os denunciam. Tantas coisas por dizer neste silêncio do bulício dos planetas e dos homens gritando nos antípodas até que a nossa luz se torna a sua. Tantos livros que enchem a Torre de Pisa. Tantas quedas que esperam um sinal. Tantas graças que são engolidas pela boca de ogre do zero.

Jean Cocteau
[Trad. ID]

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVII b

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVII *

VII.
Tantos pintores

A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade, comovida, agradce
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade
e algures

Tantos mortos no rio

A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na     para um bocado
não se lhe chegam muito     pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade


Mário Cesariny, Titânia e a Cidade Queimada,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977
      
* Para o meu primo.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

L de (A) Luz da Sombra (XXI)




Hoje, a luz (e as sombras) das 17h30.
    

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

D. SEBASTIÃO
[Estação do Rossio, 1887]


Os poetas é que fazem a História,
disseste. E eu soube de imediato que
bastaria um bando de pequeníssimo sinais
coincidir mansamente sobre os teus ombros
para mudar o destino.
    
Se a luz fosse caprichosa
ao ponto de acordar o teu lado escuro,
se te caísse uma flor entre as mãos tão frias
que me apetecia queimá-las com as minhas,
se a música esquecida no chão, entre malas,
já nos tivesse ouvido antes –
então ordenaria a todos os meus exércitos
invisíveis de palavras e músculos,
alguns metafóricos, que se rendessem
ou invadissem o teu mundo
até ser, pelo menos, nosso.
   
Mas dois corpos não podem ocupar
o mesmo lugar nem no espaço de um poema.
Falhámos outro comboio, esse império.
Ficou apenas um último encontro,
a História sempre por refazer.


ID

D de Davam grandes passeios ao domingo (IV)

P de Poética (XVIII) *

O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]


Jean Cocteau


* Mas também deve ser F de Fazer Fotografia.

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

J de "Je sauverais le feu"



[Lisboa, 26/01/12]

T de (Uma) teoria de pássaros (XXVII)



E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)

[...]

Poesia, risco, amor. Neste feixe repete-se um rosto.

Rosto furador de muralhas, como verifica o poeta Paul Éluard, e do planeta minúsculo faz-se a partida para ilimitadas terras.

Acendem-se pássaros em pleno céu. A terra treme e o mar inventa canções novas. O cavalo do sonho galopa em cima das nuvens. A flora e a fauna transformam-se. A cortina do son, que ainda há pouco desceu sobre o tédio do velho mundo, volta a levantar-se para surpresas de astro e areia. E vingados que ficamos dos minutos lentos, dos corações tépidos, das mãos racionais, finalmente olhamos.

[...]


René Crevel
(na introdução que termina, citando 
A poesia não é acto de um, mas de todos.)



Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

ADAMASTOR
[Miradouro de Santa Catarina, 1927]
   
      
     
Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.

Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.

Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final. 

E escrevemos como vivemos, 
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa certeza de que
nada ficará – nós não ficaremos.


                                                                                                                                                                    ID

B de Biorritmo - CXIII b

TIEMPOS DIFÍCILES

Era todo tan triste y tan absurdo.
No vivías apenas. Te colgabas
de la pared de la melancolía
y veías pasar las lentas horas
que hacia nada conducen y hacia nunca.
Las mujeres te habían retirado
su protección, los dioses su asistencia
y la literatura su cobijo.
Fueron tiempos difíciles aquéllos.

Luis Alberto de Cuenca, El hacha y la rosa (1993)

B de Biorritmo (CXIII)

"I'm half alive and it's driving me mad."

[Na voz de Billie Holiday]

 

T de (Uma) teoria de pássaros (XXVI)


Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

P de Poética (XVII)


Jean Cocteau, Le Sang d'un Poète, 1930

R de Rezar na era da técnica (IV)


Bruce Davidson, "Widow of Montmartre, Mme. Fauché (Hands Fixing Flowers)", 1956

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI c

[...] Para a multidão, uma vedeta é uma pessoa que caminha sobre as águas: triunfa, por procuração, dessa sensação de "mergulho" prenhe de angústia que é a sorte do homem moderno arpoado pelo anonimato voraz da multidão das grandes cidades. Ao ver os olhares prenderem-se à pantalha como a uma bóia de salvação, compreende-se perfeitamente que o seu contacto, mesmo imaginário, imunisa contra a morte, triunfa, ainda que por um só instante, do sentimento de não-reconhecimento que é o lote da vida das moléculas humanas em vão rebeladas contra a condição que lhes foi criada de entrar sem apelo "em composição". O difícil é saber-se a partir de quando uma fixação a princípio tão imprevista começou a ver-se mais ou menos sabiamente solicitada: porque é evidente não ter a oferta ficado muito tempo em atraso sobre a solicitação. O acidental, o imprevisto, como no cinema, ritualizou-se prontamente, e no negócio nem sempre é esquecido o juro do culto. Tudo se passa hoje como se produzisse uma "corrente de ar" que se tornou para o artista uma perigosa causa de desquilíbrio: é evidente que a partir dum certo grau de sucesso inicial, o escritor moderno se sente apesar de tudo apanhado pela "dimensão do grande homem". O nascimento do grande escritor corresponde em 1949 (pelo que diz respeito à grande massa do público) não a uma condecoração por serviços prestados (frequentemente a título póstumo) mas antes à necessidade difusa de prover sem demora a faltas e vazios entre os cabeças de cartaz (e isto é especialmente evidente nos meios fechados, como o da Boa Imprensa de extrema-esquerda, onde se produzem com frequência, por uma ou outra razão, mutações ou "separações"). A verdade é que o escritor dispõe hoje de mil maneiras de se manifestar de alcance muito mais eficaz do que que os seus livros. A sua situação ganha muito em rapidez ao servir-se de outras vias além da lenta penetração duma obra escrita, da lenta digestão dela por um público que a fome nem sempre devora. [...]


Julien Gracq
in A Literatura no Estômago, pp. 45 e 46

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XII)

LÍNEA CLARA

a Pollux Hernúñez

Dicen que hablamos claro, y que la poesía
no es comunicación, sino conocimiento,
y que sólo conoce quien renuncia a este mundo
y a sus pompas y obras - la amistad, la ternura,
la decepción, el fraude, la alegría, el coraje,
el humor y la fe, la lealtad, la envidia,
la esperanza, el amor, todo lo que no sea
intelectual, abstruso, místico, filosófico
y, desde luego, mínimo, silencioso y profundo -.
Dicen que hablamos claro y que nos repetimos
de lo claro que hablamos, y que la gente entiende
nuestros versos, incluso la gente que gobierna,
lo que trae consigo que tengamos acceso
al poder y a sus premios y condecoraciones,
ejerciendo un servil y injusto monopolio.
Dicen, y menudean sus fieras embestidas.
     
Defiéndenos, Tintín, que nos atacan.

Luis Alberto de Cuenca, La Vida en Llamas (2006)

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

T de Tratado de Pedagogia (XLV)


18/01/12

L de (A) Luz da Sombra (XX)

Duas formas de luz (re)confirmadas ontem ao jantar:
a poesia e os amigos.

B de Biorritmo (CXII)

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

B de Biorritmo (CXI)

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - XI b

[…]
Desde que existe um público literário (quer dizer: desde que há uma literatura) o leitor, colocado diante de uma grande variedade de escritores e de obras, reage de duas maneiras: por um gosto e por uma opinião. Instalado diante de um texto, vai produzir-se nele o mesmo clic interior que sentimos, sem regra e sem razão, quando encontramos alguém: "ama" ou "não ama", sente ou não sente, à medida que vai virando as páginas, a sensação de ligeireza, de liberdade pura, embora suspensa, que se pode comparar à sensação de um galope sobre um cavalo de raça. Pode-se dizer, efectivamente, no caso de uma feliz conjugação, que o leitor adere à obra, enche de segundo a segundo a capacidade exacta da forma vazia que vai aprofundando numa rapidez voraz, formando com ela, no vento contínuo das páginas viradas, esse bloco de velocidade lubrificada e sem falhas cuja recordação depois da última página vir bruscamente "cortar o gás" nos deixa atordoados e vacilantes como num princípio de náusea. Alguém que tenha lido um livro desta maneira fica preso a ele por um laço forte, uma espécie de aderência, qualquer coisa parecida com o sentimento vago de ter sido iluminado; durante uma conversa, cada um poderá reconhecer noutrém, mesmo só através de uma inflexão de voz particular, esse sentimento quando ele se exprime, por vezes com os mesmos rodeios e o mesmo pudor próprios do amor, e se uma certa ressonância se produz dir-se-ia que se tocaram dois fios eléctricos. É este sentimento, e ele só, que transforma o leitor em prosélito fanático que não descansa (sendo esse, talvez, o mais desinteressado sentimento que exista) enquanto não fizer partilhar por outros a sua singular emoção. Há livros que nos queimam as mãos, que semeamos como por encanto, que compramos meia dúzia de vezes sempre contentes por nunca os vermos voltar. Cinquenta leitores deste quilate, fazendo incessantemente vibrar quem os rodeia, são outros tantos portadores de vírus filtrantes que chegam para contaminar um vasto público – bastam algumas dezenas de anos, por vezes um pouco mais, frequentemente muito menos; a glória de Mallarmé, como se sabe, não teve outro veículo: cinquenta leitores que se deixariam morrer por ele.

Julien Gracq
in A Literatura no Estômago, pp.15 e 16

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XI)

[...] Aliás, algo agradava a esse público no tom destas vozes proféticas: a seguir à guerra, ele esperava instintivamente da sua literatura uma explosão, um levantamento em massa - tinha o direito de o esperar - representava-a de antemão brutal, excedida, apocalíptica, conquistadora, um pouco à maneira desse desembarque que tinha esperado durante tão longos meses. Comprava muitos livros - todos os que lhe eram propostos de semana a semana, de olho vidrado e sobrancelha carregada, como se lhe estendessem revólveres prontos a disparar, pelos arautos da nova Promessa. Quem o sabia? talvez fosse aquele, era preciso não perder o messias. [...] Contudo a arca milagrosa não se abria, não se avistavam senão os primeiros clarões precursores. Era preciso esperar; à beira do santo Lugar as revistas multiplicavam os novos acampamentos e faziam bicha - equipavam-se como para proteger a raça inteira dos dentes do dragão. Os meses passsaram, e os anos; veio a fadiga, e o desencanto; o público esfregou os olhos. Tinha diante de si este espectáculo chulo: jockeys de "Grand Prix" cavalgando lesmas.


Julien Gracq
in A Literatura no Estômago,
trad. Ernesto Sampaio, Lisboa: A Barca Solar, s/d

E de Espera (XXIII)


John Everett Millais, "St. Agnes Eve", 1857

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

C de Começar o dia com um livro novo (VII)

Nunca soube porque é que todos lhe chamavam "filosofia".
Ela dizia-me que eu era o sol e ela a lua, que eu era o cubo e ela a esfera, que eu era o ouro e ela a prata. Então saíam chamas do meu corpo e chuva de todos os poros do seu.
Abraçávamo-nos e as minhas chamas misturavam-se à sua chuva e formavam-se infinitos arco-íris à nossa volta. Foi então que ela me ensinou que eu sou o fogo, e ela, a água.


Arrabal, La Pierre de la Folie,
Paris: René Julliard, 1963
[Trad. ID]

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

B de Biorritmo (CX)


[Trafaria, 1999]

E de Espinhas para um gato (XIII)



Théophile Alexandre Steinlen
(1859-1923)
"Chat au Clair de Lune"

B de Biorritmo (CIX)

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

É PRECISO DIVERTIRMO-NOS UM POUCO


É preciso divertirmo-nos um pouco, não é, entre duas síncopes. É preciso divertirmo-nos um pouco, longe do círculo familiar que almoça sobre a erva vermelha à beira da estrada. Só faltava mesmo ficarmos atados à cadeira como Ulisses e, tal como Ulisses, deixarmos tudo no Inferno. É preciso divertirmo-nos um pouco e percorrermos as estradas por onde anda Mercúrio, multiplicado por mil espelhos. É preciso divertirmo-nos um pouco e deitarmos a língua de fora à morte que nos vigia e que nos diz para não apanharmos nem frio, nem calor. Que preceptora! Que rasteira! É preciso divertirmo-nos um pouco e seguir a infância e os medos que a fazem correr a pés juntos até ao rio. É o único refúgio possível para evitar a preceptora que anda atrás dela.


Jean Cocteau
[Trad. ID]

B de Biorritmo (CVIII)

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

FILHA DE REI GUARDANDO PATOS
[Jardim da Estrela, 1917]

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

F de Falar para as paredes (XI)

GRAVIDADE DO CORAÇÃO


A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.
Quem ama escreve nas paredes.
Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.


Jean Cocteau, Poésies (1917-1920)

Trad. ID

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XX)

O QUE PENSAS QUANDO OLHAS PARA MIM E NÃO DIZES NADA



Há um jardim com anões de barro quando não falas
mas isto sou eu a dizer e posso enganar-me e     aliás
para que serve o que digo?
Estás a pensar na chuva que há-de cair só nas tuas mãos
nas minhas     que me importa?
É a chuva?     Pensas nela enquanto olhas
para mim   Que mundo é este?   Fala
diz qualquer coisa
ou deixa que assim seja por todos os séculos
ou eu ou a chuva
muito bem     não podes decidir
É um prazer saber-e    Amen


Abel Neves, Eis o amor     a fome e a morte (1999)

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

P de (The) Privacy of Rain (XIX)


Hoje "pelos caminhos da manhã" (I)

L de Lar (VI)

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

I de Inverno (II)

P de Poética (XVI)

LA EDUCACIÓN SENTIMENTAL


Solía repetir con menosprecio:
la poesía para nada sirve.
Me quiso preparar para un infierno
donde, al bajar la guardia se arriesga uno a perder,
donde sólo el dinero protege de este frío
de la edad. Pero, en cambio, no sabía
que es por este motivo que la necesitamos,
que es preciso rastrear la poesía
por hospitales y juzgados: luego
ya hablará de la amada.
Hay poesía incluso en gente
que, al igual que mi padre, odió la vida.
Y tenía razón en su argumento:
de nada sirve, aquélla que él leía.


*


RÉQUIEM


Es la fotografia de un grupo de poetas.
Tiene una extraña mancha:
procede de la sombra de un árbol, o es el resto
de algún mal revelado.
Poca cosa, unos poetas:
son tan débiles.
Simulan fortaleza,
pasión, indiferencia.
Muertos mejoran, dicen.
Afortunados quienes pueden
hacer surgir el mito desde algunos versos
y desde un amarillo retrato de poetas.
Yo, que no aguantaría 
ni una hora a Verlaine,
siento pena por ti,
amigo al cual no me devuelven
ni versos ni retratos
con las manchas que pone
la muerte al señalar 
el primer candidato 
al mito o al olvido,
dos formas, nada más, de un solo engaño.

Joan Margarit, Aguafuertes (1998)

R de Regresso ao Trabalho (XXXV)

"É curioso, mas uma prisão é menos sinistra do qualquer local de trabalho."

Albert Cossery, A violência e o escárnio,
Lisboa: Antígona, 1999

[Leitura de cabeceira desde os tempos do estágio]

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

E de Espera (XXII)

Foi possível     sabes?
O dia foi breve menos do que os outros     possível
tão breve     a passagem dum melro     todo amarelo no canto
foi só escrever o poema
e logo a noite     tão breve


Abel Neves, Eis o amor     a fome e a morte (1998)
CHAPLINESQUE


We will make our meek adjustments,
Contented with such random consolations
As the wind deposits
In slithered and too ample pockets.
 
For we can still love the world, who find
A famished kitten on the step, and know
Recesses for it from the fury of the street,
Or warm torn elbow coverts.
 
We will sidestep, and to the final smirk
Dally the doom of that inevitable thumb
That slowly chafes its puckered index toward us,
Facing the dull squint with what innocence
And what surprise!
 
And yet these fine collapses are not lies
More than the pirouettes of any pliant cane;
Our obsequies are, in a way, no enterprise.
We can evade you, and all else but the heart:
What blame to us if the heart live on.
 
The game enforces smirks; but we have seen
The moon in lonely alleys make
A grail of laughter of an empty ash can,
And through all sound of gaiety and quest
Have heard a kitten in the wilderness.




- Hart Crane

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

PROMETEU
[Jardim Constantino, 1923]


Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

I de Insónia

ACTUALIDADES PATHÉ


Sobre vinte quilómetros de tela
Chapéu de coco e asas de anjo
Passa São Charlot,
O bem-amado do mundo,
Para o ensinar a rir
O riso universal
E redentor.

No cinema
Em cinco continentes ao mesmo tempo
É a minha pátria.


Claire Goll (trad. João Barrento)
in O Bosque Sagrado - o cinema na poesia,
 Porto: Gota de Água, 1986

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

R de Revisão de texto (ou E de Errata) b


Hoje, perto de um dos meus jardins preferidos.

T de (Uma) teoria de pássaros (XXV)

O FAROL

Conto popular argentino


Cada mañana había que limpiar la linterna
de pájaros muertos.

Azorín


Deserto adentro,
Construir um farol.
Há algo que salvar em todas as partes.

Não deixes que me esqueça,
por favor.
Ânsia de escuridão torna-se caverna,

isolamento.

Graças a ti,
acedo ao exterior,
desenho um rumo.

Assim amanheço luz de entre as minhas sombras:
Pouco importa se há pássaros mortos.


Josep M. Rodríguez, Raíz

Domingo, 8 de Janeiro de 2012


"Ao leme", 1915

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVI




[...]

I gazed a gazely stare at all the millions here
We must have died alone, a long long time ago
[...]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." - IX

[...]

ILS ÉTEIGNENT LES ÉTOILES À COUPS DE CANON

Les étoiles mouraient dans ce beau ciel d'automne
Comme la mémoire s'éteint dans le cerveau
De ces pauvres vieillards qui tentent de se souvenir
Nous étions là mourant de la mort des étoiles
Et sur le front ténébreux aux livides lueurs
Nous ne savions plus que dire avec désespoir

ILS ONT MÊME ASSASSINÉ LES CONSTELLATIONS

Mais une grande voix venue d'un mégaphone
Dont le pavillon sortait
De je ne sais quel unanime poste de commandement
La voix du capitaine inconnu qui nous sauve toujours cria

IL EST GRAND TEMPS DE RALLUMER LES ÉTOILES

[...]


Guillaume Apollinaire

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

C de Começar o dia com um livro novo (VI)

22

Na universidade aprendeste a luz
que não vem nos livros, às escuras,
no teu quarto velho. Dois olhos, nariz
e boca. sargaços que são pernas e
braços de dois corpos que experimentam
a direcção do vidro queimado entre o
sol e a esperança, a dor que te ensina.


Rui Costa, Breve ensaio sobre a potência,
Lisboa: Língua Morta, Janeiro de 2012