quinta-feira, 31 de julho de 2014

D de "Do outro lado do rio"




[...]

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.


- RUI PIRES CABRAL




[Afurada, Julho 014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

H de "História abreviada da literatura portátil" (II)






[...]

There's more to life than books, you know 
But not much more 
Oh, there's more to life than books, you know 
But not much more, not much more 
Oh, you handsome devil 
Oh, you handsome devil 
Ow !


*


Rui Pires Cabral, Oh! Lusitania,
Lisboa: Paralelo W, 2014








terça-feira, 22 de julho de 2014

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXX)




"Il ne s'agit pas d'être le feu, mais de se faire um peu de feu

segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

E de Entre-campos


quinta-feira, 17 de julho de 2014

V de Vício (XI)




Julio Cortázar, La vuelta al día en ochenta mundos, tomo I,
Madrid: Siglo XXI España Editores, 2007


*


O QUE É GRAVE


Quando não se fala inglês,
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.


Gottfried Benn, 50 Poemas,
   versão de Vasco Graça Moura, 
   Lisboa: Relógio D'Água, 1998
     
       
 
[Gottfried Benn em 1932]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A de A poesia é o menos (IV)



ID, "Poem of the river" / Março 014

domingo, 13 de julho de 2014

T de Tratado de Pedagogia (VII)



[Ontem à noite, entre corações.]

sábado, 12 de julho de 2014

C de Cores




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 11 de Julho de 2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

N de "Na casa de Julho e Agosto" (IV)


NESTE SILÊNCIO

         
Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vasio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.
 
       
António Barahona da Fonseca, Poemas e Pedras,
Lisboa: edição do autor, 1962






[ID, Nazaré / Agosto 013]

quinta-feira, 10 de julho de 2014

P de (Po)ética (L)


ROMANCE OU FALÊNCIA


Posta assim, como uma fraude à escala mundial
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar ao vandalismo,
convencer toda a gente,
como quem esconde o derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência


Luís Pedroso, Romance ou Falência,
Lisboa: Artefacto, 2014

F de Fazer Fotografia - LXIX b



quarta-feira, 9 de julho de 2014

I de "I want to ride my bike" (III)


BICICLETA


Por vezes, ocorria-te pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos,
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
da bicicleta depressa te tiravam qualquer dúvida.

Um dia, porém, emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo. 


Vítor Nogueira, Segunda Voz,
Lisboa: Averno, 2014




Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959) 

R de Rezar na era da técnica (X)




Beau Séjour, 03/03/012

terça-feira, 8 de julho de 2014

P de "Paredes frias" (IV)


INTERMITÊNCIAS


O autocarro afasta-se,
e a praça é uma aranha de seis patas.

Tal como esta paisagem, 
a minha ideia de mim próprio foi mudando:
não posso estar completamente satisfeito.

Sei que parece um lugar-comum,
mas os lugares-comuns
                                  - como muros
de ambos os lados da estrada -
dão-nos segurança,
                            delimitam-nos.

Parar é prosseguir a caminhada.
Arbusto
            ou papoila,
também na margem existe vida.


Josep M. Rodríguez, A Caixa Negra,
trad. Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 2009




 [Lisboa, 18/05/013]

sábado, 5 de julho de 2014

C de Coração arquivista (II)




Exposição "Fotógrafo Artur Pastor"
no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico
(6 de Junho - 31 de Agosto de 2014)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

O de "Onde se lê gato" (IX) - Et semper


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229

                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.


*


Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 


*


Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014







[Abril de 2011]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

P de "Pelos caminhos da manhã" (IV)


Pelos caminhos da manhã...



[Mikhail Guzhavin, "Wild Flowers in a Field", 1927]


... à tarde.



terça-feira, 1 de julho de 2014

C de "Chama a luz com um assobio" (III)




Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, 2013



C de "Chama a luz com um assobio" (II)


CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.

Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.


João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
 Lisboa: Averno, 2004

Q de "Que a alegria em mim permaneça"


OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET:
A GAITA DE BEIÇOS


Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando con brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso e outros poemas,
Porto: erva daninha, 1980

C de "Chama a luz com um assobio"*


PARECIA UM MENDIGO


Parecia um mendigo na rua
Garrett. Depois vi melhor, à porta do sete:
vagabundo e músico. Não tinha
instrumentos. Era só assobio e a mão
que batia naquele caixotão. Parava
por vezes essa melodia: ladrava
de cão e o gato imitava.
Olhei-o nos olhos – surpresa brilhava
- e ele respondeu, com largo sorriso.
Retomou a música, com assobiadela:
mais pandeiro cavo no tal papelão.
Passavam caixeiros e a boa crioula,
madames e tipos, bem engravatados.
É isto, Cesário, que marca Lisboa?


Eduardo Guerra Carneiro, A Noiva das Astúrias,
Lisboa, & etc, 2001


* O título do post é um verso de Murilo Mendes.