segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

P de "Postais do fim do mundo"


"Caminhavam e dormiam contra o ritmo do mundo. [...] Atiravam ao rio os jornais, e isso era a sua oração: serem levados, erguidos, pisados, sem sentirem no homem o osso da dor instalada no esqueleto, mas só o pulsar do fluxo do sangue. Nada de combates, de violências, de despertar."

Anaïs Nin, "A Casa Fluvial", Debaixo de uma Redoma,
trad. de Maria Ondina Braga, Lisboa: Vega, 1986




[27/01/2013]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 15 de janeiro de 2017

I de Inverno (II)




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/012]




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

C de Cicatriz (III)




You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair, yes there are

You live in a fancy apartment
Off the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does

When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs

And when the snow falls you're found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don't

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Won't you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn

Where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try

So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do

I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head


[ouvido/dansado no Bartleby]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

R de Rezar na era da técnica (VI)


Não nos induzas em tentação.
sed libera nos a malo. Livra-nos, se puderes,
das angústias sem fim, das noites de insônia,
dos sonhos possíveis que se tornam impossíveis.
Livra-nos do assédio dos fracos,
da inconsistência das coisas,
do medo sem motivo, das confissões
excessivas e do sucesso,
que tira a nossa liberdade
e é capaz de iludir os mais sagazes.


- MARLY DE OLIVEIRA

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVI




José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado 
e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016

domingo, 1 de janeiro de 2017

B de Bom Ano Novo (III)


Réveillon


As vozes. Os gestos. A passagem dos minutos, dos segundos. Lá fora, o frio intransitável. O coração reduzido ao receio do sangue sem diálogo (o pacífico punhal na bainha). A música à beira do excesso.
O ausente amantíssimo mas que não ousa o gesto decisivo. O vinho fluindo, o olhar interior fixo no horizonte, a mais ninguém visível. O rosto inebriado, sem lágrimas.
À meia noite as taças erguem-se até aos lábios sôfregos de esperança. No instante que mais confina com o silêncio, tudo mergulha no primeiro dia do eterno retorno.
O ausente amantíssimo. E o outro, deste lado do oceano. Habitando os dois a saudade, num coração solitário, à beira da explosão.
Lá fora, as estrelas brilham menos. Alguém começa a antever ao longe, muito ao longe, o cortejo da madrugada.

Londres, 1 de Janeiro 1997


Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010