domingo, 1 de novembro de 2015

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25

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