sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

M de Música para os meus olhos (XXXVIII)


NÃO IMPRECISO, INCOMPLETO


Sentado à mesa,
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
                             até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora
também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.


Josep M. Rodríguez
in A Caixa Negra,
trad. de Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2009




[Detalhe de Stefano di Giovanni Sassetta, "A Viagem dos Reis Magos", c. 1433-1435]


XXIX


Terra e céu. O cavalo negro à beira do rio
gelado. O pão que Märta cortou, em Luz de
Inverno, esboroa-se em duas partes
à semelhança das duas igrejas quase desertas
nas planícies de Upsala - Nosso Senhor
Jesus Cristo na noite em que foi traído

A imagem é um campo de neve: o que nos
abandona não se une às pedras ao silêncio de
deus
ao latim, que por um momento emerge na sua nudez de
língua viva
há coisas pelo meio - distância ecos obscuridade


João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012

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