quarta-feira, 31 de julho de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVII

VII.


Tantos pintores

A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade
e algures

Tantos mortos no rio

A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na     para um bocado
não se lhe chegam muito     pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade


Mário Cesariny, Titânia e a Cidade Queimada,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977

terça-feira, 30 de julho de 2013

D de "Die schöne Müllerin"


JOÃO E MARIA


O Alentejo não tem caroço, nem casca,
não tem paredes nem teto; certa vez

um velho deixou suas memórias sobre a mesa
todas queimaram, porque os fantasmas lá

não resistem à luz que se lança de altas espigas
para o pátio onde cada faísca risca e dança

entre sobreiros junhos girassóis e dura
mesmo noite adentro. Sente o cheiro

da madeira queimada? São fantasmas, nada.
O mundo é pequeno, o Alentejo é imenso

e lá estava o homem depois de todas as viagens
sem poder dizer de si mesmo algo como:

o dono e seu retorno. Afinal, onde a casa 
o relógio a mulher o cachorro o nome?

O retrato da Virgem a lâmpada a cama onde?
Desdobra-se o horizonte em céus em dunas

de poeira em túnicas no vento em fios
e não há nunca filhos ou amigos ou espelho.

Que lugar a cidade a fidelidade urdindo
desfazendo e outra vez os anéis sem fim

da espera? Indaga os livros os mortos
até que as areias do mar, do mar que

parecia distante,
lentamente - não, de repente - cobrem-lhe

a voz e o tempo. O mundo
é pequeno, o Alentejo é imenso.



Eucanaã Ferraz
in Relâmpago n.º31-32,
Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VI)





E LUCEVAN LE STELLE


Para o meu avô,

os verdes na banca eram o real,
sem regresso ou poesia,
e a expansão acabara de novo
ali, no Cais da Ribeira,
quando a amada partira,
levando-lhe no nome a liberdade.

A tristeza tinha horas tão marcadas
que lhe tingiam os dedos,
portões que só se abriam
para as estrelas sempre acordadas
da mesma música: e nunca amei tanto
a vida, chorava em repetição.

Enquanto a felicidade boiava na praia,
à distância de um dia de verão
e de uma corda segura 
por quem não sabia sequer nadar.


Inês Dias, In Situ,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quinta-feira, 25 de julho de 2013

M de Museu Imaginário - XXIX b

 
 
 
[Coimbra / Julho 013]
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

M de Museu Imaginário (XXIX)




Paul Klee, "Hesitação", 1906

sábado, 20 de julho de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXVII) *




Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite,
Lisboa: Averno, 2013


* e com muitas saudades deste gato
que nos deixava chamar-lhe Barnabé. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

P de Poética (XLIX)


FINAL


Sente o coração bater contra o rio onde o rio já não existe. Que pode fazer um homem que desloca a fronteira nos seus passos? São sons que provocam corredores sem saída, e batem no ar, e roem, e voltam para trás, e recomeçam, e por cima há um odor a cadáver no céu em ruínas. Sim, nem de outrora um pouco de vida. É um esplendor de luto, ponto final. E isso paga-se todos os dias, mesmo quando o dia todo se gasta a fugir disso. Pelo caminho taberna a taberna há sempre uma toalha ferida pelo exílio, e a proximidade das vozes só serve para esconder a manhã inútil. Quanto à literatura, francamente, o cheiro da montra não vale esta bifana em Vendas Novas. Acham pouco? Peçam duas. 



José Amaro Dionísio
in Telhados de Vidro n.º9,
Lisboa: Averno, Novembro 2007

quarta-feira, 17 de julho de 2013

C de (A) Comunidade (IV)





[...]
Já referi que São Francisco se recusava a deixar de ver as árvores por causa do bosque; mais ainda, também se recusava a deixar de ver os homens por causa da multidão. Aquilo que distingue este democrata genuíno de um mero demagogo é o facto de nunca ter enganado os outros nem se ter deixado enganar pela ilusão da sugestão de massas; por muito que gostasse de monstros, nunca viu diante de si um animal com muitas cabeças: apenas via a imagem de Deus, multiplicada, mas nunca monótona. Para ele, um homem era sempre um homem e, se não desaparecia no deserto, também não desaparecia no meio de uma densa multidão. [...]

G. K. Chesterton, São Francisco de Assis,
Lisboa: Alêtheia Editores, 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

R de Regresso ao Trabalho (LIII)


REGRESSO DE DEOLA


Uma vez mais desceremos à rua a olhar os transeuntes,
também nós seremos transeuntes. Arranjaremos maneira
de nos levantarmos de manhã livres do fastio
da noite e de sairmos para caminhar como antes.
Uma vez mais lá iremos para fumar, encostados à vidraça,
embrutecidos. Mas os nossos olhos serão os mesmos
e os mesmos serão os gestos e as caras. O segredo inútil
que o nosso corpo alberga e nos vela os olhares
morrerá lentamente ao ritmo do sangue
em que tudo desaparece.

Uma manhã sairemos,
já não teremos casa, sairemos para a rua;
o fastio da noite abandonar-nos-á;
vamos tremer por estar sós. Mas vamos querer estar sós.
Fixaremos os transeuntes com o sorriso morto
de quem foi abatido mas não odeia nem grita
porque sabe que de há muito a sorte
- tudo aquilo que foi e será - está inscrita no sangue,
no murmúrio do sangue. E esse eco não mais vibrará.
Ergueremos os olhos para os cravar na rua. 



Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

segunda-feira, 15 de julho de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXIX)


E então nós os vis
que amávamos a noite
rumorosa, as casas,
os percursos no rio,
as luzes vermelho sujo
desses lugares, a dor
mansa e calada -
arrancámos as mãos
da cadeia viva
e calámo-nos, mas o sangue
fez estremecer o coração,
e não houve mais doçura
nem mais abandono
aos passeios no rio -
não mais servos, soubemos
que estávamos sós e vivos.


Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

sábado, 13 de julho de 2013

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (IV)





Sugiero que el más triste de los presos,
tenga derecho a sábanas de seda,
bendita sea la boca que da besos,
y no traga monedas... y no traga monedas.
Propongo corromper al puritano,
espiar en la ducha a las vecinas,
ir a quitarle al Dios de los cristianos,
su corona de espinas, su corona de espinas.

Nada de margaritas a los cuerdos,
hay que engañar a la melancolía,
para bailar el vals de los recuerdos,
llorando de alegría, llorando de alegría.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

Conviene entrar penúltimo en la meta,
de la vuelta a la infancia en patinete,
y fusilar al rey de los poetas,
con balas de juguete, con balas de juguete.
Y luego doctorarse en cremalleras,
como hace la hormiguita por tu espalda,
que se quede a vivir la primavera,
debajo de tu falda, debajo de tu falda.

Hacen falta cosquillas para serios,
pensar despacio para andar deprisa,
dar serenatas en los cementerios,
muriéndonos de risa, muriéndonos de risa.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

La vida no es un bloc cuadriculado,
sino una golondrina en movimiento,
que no vuelve a los nidos del pasado,
porque no quiere el viento, porque no quiere el viento.
Se aconseja dormir a pierna suelta,
lejos de tentaciones de diseño,
que no pase de largo por tu puerta,
el hombre de tus sueños, el hombre de tus sueños.

La rana esconde un príncipe encantado,
tu boca un agridulce de membrillo,
¡qué ganas de un cursillo acelerado,
de besos de tornillo, de besos de tornillo!

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies
.

U de "Un Samedi sur la Terre" (II)


72 HORAS


há três dias que todos os dias são sábado de manhã
acaricio a maçaneta da porta a ideia de te ter para sempre



Pablo García Casado, Las afueras,
3.ª ed., Barcelona: DVD Ediciones, 2007

U de "Un Samedi sur la Terre"



O bom e o mau das sextas-feiras à tarde talvez seja a sensação de se ter merecido o descanso, de ter atingido a meta semanal e ao mesmo tempo ver como tantas coisas ficaram no tinteiro. O bom e o mau. O correcto e o incorrecto. Quando o sol desaparece e pressagia a primeira de tantas sextas-feiras escuras porque empurraste a tua vida para um túnel sem saída, porque te transformaste, sem dares conta ou sem quereres fazê-lo, num desses homens que vai às compras de carro para trazer o suficiente para todo o fim-de-semana e que observa as empregadas das lojas com desejo, como se nelas estivesse a resposta, a solução para uma sexta-feira que anoitece e pressagia mais um sábado de rádio, café e livros. A esperança reside nos olhos de quem nos atende. Não, não quero um quilo de batatas, quero-te a ti. 


Ignacio Escuín Borao, Habrá una vez un hombre libre
Barcelona: Huacanamo, 2009

[Trad. ID]

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O de "O mar, o mar" (III)


SEMPRE VENS DO MAR 


Sempre vens do mar
e tens a voz rouca,
e sempre olhos secretos
de água viva, entre as silvas,
e a fronte baixa, como
um céu baixo de nuvens.
Revives de cada vez
como uma coisa antiga
e selvagem, que o coração
já conhecia, calando-se.

De cada vez a dilaceração,
de cada vez a morte.
O mesmo combate de sempre.
Quem aceita o confronto
provou da morte
e leva-a no sangue.
Como bons inimigos
que não se odeiam mais
temos uma mesma
voz, uma mesma dor
e vivemos acossados
debaixo de um céu pobre.
Entre nós não há insídias,
não há coisas inúteis -
combateremos sempre.

Combateremos ainda,
combateremos sempre,
pois perseguimos o sonho
flanqueado pela morte,
e temos a voz rouca,
a fronte baixa e selvagem
e um céu idêntico.
Fomos feitos para isso.
Se um de nós cede ao confronto,
segue-se uma longa noite
que não é nem paz nem trégua
nem é morte verdadeira.
Já não existes. Os braços
debatem-se em vão.

Desde que o coração bata.
Alguém diz um dos teus nomes
e a morte recomeça.
Coisa ignota e selvagem,
renasceste do mar.



Cesare Pavese 
in O Vício Absurdo, sel.e trad. de Rui Caeiro, 
Lisboa: & etc, 1990

A de "A propósito de andorinhas" (II)




[Coimbra, 06/07/013]

quinta-feira, 11 de julho de 2013

P de (Po)ética - XLIX


TRABALHAR CANSA
 
 
 
Atravessar uma rua para fugir de casa
é coisa para um garoto fazer, mas este homem que vagueia
pelas ruas todos os dias já não é um garoto
e não foge de casa.
 
Há tardes de verão
em que as praças ficam vazias frente
ao sol já em declínio, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis, detém-se.
Vale a pena estar só, para estar cada vez mais só?
Vaguear é encontrar praças e ruas
vazias. Havia que fazer parar uma mulher,
falar-lhe, convencê-la a viver consigo.
Não ser assim é ficar a falar sozinho. É por isso que às vezes
há bêbedos nocturnos que nos abordam
para contar os projectos de uma vida inteira.
 
Sem dúvida não é ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas aquele que anda pelas ruas
por vezes detém-se. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa estaria
onde essa mulher estivesse e valeria a pena.
De noite a praça torna a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre as luzes inúteis, não levanta os olhos:
sente apenas o empedrado, feito por outros homens
de mãos calosas como as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Há certamente na rua uma mulher
que, solicitada, daria de boa vontade uma ajuda em casa.
 
 
Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. de Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990
 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

M de Museu Imaginário (XIX)


No princípio eram só as sombras a crescer da treva e a amortalhar arbustos e penedos; uma luz de prata mate assomava-se por detrás da penha cimeira e começavam a perceber-se os contornos às pedras e os dorsos às cabras que corriam sempre para diante. O sol ergueu-se por detrás das fragas inclinadas ao nascente e o vento rasou tudo de uma luz dourada que retumbou por sobre a esteva, o rebanho e os olhos do rapaz e do homem, parados nos baixios da chã que se estendia branda planalto acima. Quando ela estava com eles, as cabras corriam sempre para diante; o pêlo crespo a roçar nas folhas e nos ramos; a luz a incendiar as chagas das flores voltadas para o céu. As cabras atravessavam as estevas, largadas planalto acima, e a resina colava-se-lhes ao pêlo; depois era tocá-las para o sopé, fechá-las no cercado e passar o dia inteiro a pentear-lhes panças e cachaços até ficar a resina apartada do pêlo comprido das cabras - para unturas e bálsamos - e sempre as flores lá em cima, pétalas brancas, corolas amarelas e as chagas varridas pelo alívio do poente.

[...]


Alexandre Sarrazola, "Glória"
in Telhados de Vidro n.º18, Lisboa: Averno, 2013




Pellizza da Volpedo, "Il sole"
(o quadro de 1904 que aparece na capa de um dos livros da minha vida)

domingo, 7 de julho de 2013

O de "Onde se lê gato" - c


DA CUMPLICIDADE


há janelas atrás dos gatos
e outras
são narrativas das nossas mentes

há narrativas que julgamos
serem a verdade de outras janelas
onde se vê passar o silêncio

mas os silêncios 
são cúmplices e conjugam-se
nos sentidos mais felinos em que só o homem confia

espelhadas e saqueadas ficam
pelos movimentos das janelas vizinhas
é o poema de um gato negro à janela.



Miguel de Carvalho
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa: Averno, Maio 2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PRESSÁGIO DE QUEM ESTEVE NO CASAMENTO DE HERA



há sempre um jardim na memória
do Mundo, como se nada existisse
sem o sabor dos frutos

e tudo acontece
quando uma maçã de oiro
desce para os dias
num galho de sorte

ninguém disse aos deuses
que a noite tem luz
ou que a morte do chão
trai a semente

é por isso que o oiro
nem sempre é de lei
quando uma promessa de afago
cai da alegria.


Emanuel Jorge Botelho
in Urbano, Hespérides,
ed. do autor,  2012

quinta-feira, 4 de julho de 2013

R de Rebeca (XVIII)


QUANDO A SEMENTE É VOCÊ


abraçado à mão
abraçado ao cão
abraçado ao caco de corpo
sob o cobertor de feltro

agora curvado
arrasado sobre o banco
do último vagão

os pés pelas mãos
a cabeça vazia
a cabeça entre as mãos

até que um nada
torcicolo ou cólica
comprime a vértebra fatal
enrola a língua
aperta o bulbo, desfaz o giro
e o chão se levanta
cobra seus direitos
morde-lhe os grãos

tempo de plantio
quando a semente
é você



Fabio Weintraub
in Telhados de Vidro n.º 18,
Lisboa: Averno, Maio 2013

R de Realizar - XI b





terça-feira, 2 de julho de 2013

F de Fazer Fotografia - XIII h *




"[...]

Ao pensar no que sinto, sempre que contemplo uma grande fotografia, recordo que, nesse fugidio instante, sou invadido por um fulgurante maravilhamento, uma impressão de comunhão e de re-encontro, como se durante esse momento, nada de mau me pudesse acontecer e a imagem me emprestasse, por um segundo, a ilusão de uma imortalidade. Estas jubilosas constatações levaram-me a concluir que o propósito de uma imagem fotográfica deveria ser o de transmitir essa euforia, independentemente do que ela representa.

[...]"


Gérard Castello Lopes - fotografia e texto
in Perto da Vista,
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984

*

segunda-feira, 1 de julho de 2013

P de Poética (XLVIII)


guarda no seixo
o teu maior segredo
e deixa-o lavar-se
pla água do rio
que banhou pitonisas e freiras
deixa-o
plo porfiar das cantigas
que a água por onde ele rola
aclara as vozes
traz a sede às raparigas
deixa-o e foge
e esquece o que rola
redondo, como a tua barriga


Ana Paula Inácio, As Vinhas de Meu Pai,
Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2000




F de Fazer Fotografia (LXXVI)




Ed Van Wijk, "At the beach", Holanda, 1950s