sábado, 12 de outubro de 2024
sexta-feira, 4 de outubro de 2024
domingo, 29 de setembro de 2024
P de "(As) Praias Obscuras"
«[...] "Quero a alegria de um barco voltando" é dos melhores versos que conheço.
Corrijam-me, se estiver errado.»
Manuel de Freitas, Ubi Sunt
(Averno, 2014)
Libellés :
As praias obscuras,
AVERNO,
Manuel de Freitas
sábado, 31 de agosto de 2024
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
quinta-feira, 1 de agosto de 2024
quarta-feira, 10 de julho de 2024
T de Tratado de Pedagogia (XVII)
Go and catch a falling star,
Get with child a mandrake root,
Tell me where all past years are,
Or who cleft the devil's foot,
Teach me to hear mermaids singing,
Or to keep off envy's stinging,
And find
What wind
Serves to advance an honest mind.
If thou be'st born to strange sights,
Things invisible to see,
Ride ten thousand days and nights,
Till age snow white hairs on thee,
Thou, when thou return'st, wilt tell me,
All strange wonders that befell thee,
And swear,
No where
Lives a woman true and fair.
If thou find'st one, let me know,
Such a pilgrimage were sweet;
Yet do not, I would not go,
Though at next door we might meet,
Though she were true, when you met her,
And last, till you write your letter,
Yet she
Will be
False, ere I come, to two, or three.
Get with child a mandrake root,
Tell me where all past years are,
Or who cleft the devil's foot,
Teach me to hear mermaids singing,
Or to keep off envy's stinging,
And find
What wind
Serves to advance an honest mind.
If thou be'st born to strange sights,
Things invisible to see,
Ride ten thousand days and nights,
Till age snow white hairs on thee,
Thou, when thou return'st, wilt tell me,
All strange wonders that befell thee,
And swear,
No where
Lives a woman true and fair.
If thou find'st one, let me know,
Such a pilgrimage were sweet;
Yet do not, I would not go,
Though at next door we might meet,
Though she were true, when you met her,
And last, till you write your letter,
Yet she
Will be
False, ere I come, to two, or three.
John Donne
sábado, 6 de julho de 2024
P de Poética (XXXVI)
BICICLETA
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder
in Antologia de Poesia Portuguesa 1960-1990, org. e introd. de Luís Miguel Nava,
Lisboa / Leuven: Caminho / Leuvense Schrijversaktie, 1991
domingo, 23 de junho de 2024
P de Paralelo W (II)
"[...]
Muitas coisas aconteceram no Paralelo W: exposições, festas, as leituras em scat do Nuno Moura, em allegro assai do Diogo Dória ou con tenerezza do João Paulo Esteves da Silva. Ocasionalmente, vendíamos livros. Mais importante do que a literatura e quem lá anda (às vezes pelos piores motivos) foi termos recolhido duas gatas - a Ginja e a Mia - que nos deram a magia e o consolo de que poucos humanos são capazes. O Joaquim ainda conheceu uma delas e teve uma frase indelével, ao saber do fecho do Paralelo W: 'Nunca mais nos vamos poder encontrar por acaso'. Na internet, para onde vamos agora de malas aviadas e coração devoluto, uma marradinha não é bem uma marradinha - e os corações são ali apenas sinais gráfico mais ou menos insinceros. É tão difícil, Zé, abrir uma garrafa de vinho branco online.
[...]"
- Manuel de Freitas (texto) e Luís Henriques (ilustração),
Cão Celeste n.º 13, Lisboa, 2019
Libellés :
"A poesia é o menos.",
"Les yeux du chat",
(po)ética,
Cão Celeste,
Paralelo W
quinta-feira, 20 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
S de Santo Antoninho dos Esquecidos (II)
13 DE JUNHO DE 2011
para a Inês Dias
A festa foi ontem. Mas não tivemos festa,
pela primeira vez em muitos anos.
Almoçámos tarde, na Rua da Regueira,
e o amor parecia diluir-se entre vielas
demasiado limpas e sombras do que já fomos.
Nas paredes devolutas, encontraste pássaros,
grinaldas frias, versos sem dono
nem sentido. Perto, ou muito longe,
três velas teimavam em iluminar-te os passos.
O cravo, azul, veio ao nosso desencontro.
Mas era de papel, embora rubro;
não nos podia salvar de sermos nós.
A festa, a única que me interessa, é o teu nome.
- MANUEL DE FREITAS
in Sunny Bar, org. de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Alambique, 2015
[ID, 12/06/017]
quinta-feira, 30 de maio de 2024
terça-feira, 14 de maio de 2024
I de Intimidade - III b
"Digamos que há uma entrega total ao momento e ao ofício - tal como às pessoas a quem se ama ou com quem se está em intimidade. Repara que, mesmo quando se está só a conversar com alguém, há uma entrega total. Quando se está num acto íntimo tem de se ter uma atenção e entrega totais, tal como num acto artístico (o que quer que esta expressão queira dizer...). É por isso que não quero ninguém por perto, no atelier. Chego mesmo a sentir pudor."
Rui Chafes, Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
Lisboa: Documenta, 2016
*
"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."
Rui Chafes, Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
Lisboa: Documenta, 2016
*
"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."
Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014
sexta-feira, 26 de abril de 2024
quinta-feira, 25 de abril de 2024
terça-feira, 5 de março de 2024
F de Flor Suficiente (XI)
[ID, Lx, 10/011]
"[...]
olha traz-me um ramo de qualquer coisa
qualquer coisa que venha amaciar o seco das palavras
deitadas a este relento entre ninhos de raposa
e um sonho de groselhas
é que deixam secura e mais nada não deixam mais nada
os sabugueiros ao menos deitam flores e bagas
tudo pérolas traz-me um ramo de azul tuaregue
e nem é preciso que vás ao deserto
entra por esta noite pode ser apenas esta
não dês alerta aos bichos dos varandins
às gatas e aos gatos com cio aos homens com sabre
sossega as gazelas vai à fonte e traz o azul
eu estarei à tua espera sem o falcão
sem o rei na barriga nem a gataria à espreita
[...]
Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015
[ID, Lx, 02/015]
quarta-feira, 17 de janeiro de 2024
A resposta será, sem dúvida, que podemos representar a obra de uma vida reduzida a três tratados, e também a três poemas, ou a três acções, nas quais o poder de criação pessoal seja levado ao extremo. O que significa mais ou menos isto: calarmo-nos quando não temos nada para dizer, fazermos apenas o estritamente necessário quando não temos projectos especiais e, coisa esta muito importante, ficarmos indiferentes quando não experimentamos a sensação indescritível de sermos arrastados, de braços abertos, por uma vaga da criação.
Robert Musil, O Homem Sem Qualidades
*
[...] Estas árvores vão adoptar-me pouco a pouco, e para o merecer aprendo aquilo que é preciso saber:
Já sei olhar as nuvens que passam.
Já sei ficar parado.
E já sei quase calar-me.
Jules Renard, Histoires Naturelles
terça-feira, 16 de janeiro de 2024
T de (Uma) teoria de pássaros (II)
O VÔO DOS PÁSSAROS
Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.
Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.
Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.
Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.
Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sôbre nenhum pássaro.
Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.
Em vôo, como os anos, a vida, o tempo...
Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.
- LÊDO IVO
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