sexta-feira, 10 de junho de 2016

C de "(O) começo de um livro..." (IV)


1

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

2

Renunciei a que alguém, um dia, me chame: "Avó Gabriela".
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando: "Avó Gabriela". Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista.

3

Ela tinha sempre um olhar __ deixara de se temer a si própria. O anel
Que trazia no caule era mais amplo ainda; o que olhava, de somenos
Importância. Era uma planta de folhas claras. O ruído da cidade
Entrava pela janela. Viera pôr a sua luz à secretária.
Por que viera assustá-la?
Não sei.
Não compreendendo por que luz e ruído se associavam, dia após dia,
"cabra de luz", lhe chamava. Respirar era-lhe evidente difícil.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

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