[Um anúncio de 1943]
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
T de "The days grow short" (XII)
COZINHA
Quando o Outono agarra o prédio com toda a força
e se infiltra nas paredes, começo a sentir, cada vez com mais intensidade,
a luz azulada que vem do esquentador a iluminar a cozinha. Como se
Turner paralisasse este espaço.
Com a água quente e espumosa em redor dos meus pulsos
fixo nos azulejos brancos uma sombra semelhante a duas flores
que um dia vi na berma de uma via rápida.
JOÃO MIGUEL QUEIRÓS
in Poetas Sem Qualidades, org. de Manuel de Freitas,
capa de Sérgio Eloy e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa: Averno, 2002
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
M de "My house, I say" (VI)
117.
Acumulaba azules, sombras
de óxido en las horas, días
en el cesto de frutas, pan
duro dentro de la panera.
La casa envejecía. Nadie
que cambiase los fluorescentes
de la cocina, que repare
el horno, el tirador, su miedo
si la noche la abandonaba
a sí misma. Con el pincel
del pintaúnas sin pintura
se arreglaba las manos. Tan
delicadas, había dicho.
- JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO
in 'Suroeste' n.º4,
Badajoz: Editora Regional de Extremadura e Fundación Ortega Muñoz, 2014
[ID, Santarém, Maio 014]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
C de Corpo Santo
['God is in the details', Beja 014]
As so with that, I thought I'd take a final walk
The tide of public opinion had started to abate
The neighbours, bless them, had turned out to be all talk
I could see their frightened faces
peering at me through the gate
I was looking for an end to this, for some kind of closure
Time moved so rapidly, I had no hope of keeping track of it
I thought of my friends who had died of exposure
And I remembered other ones
Who had died from the lack of it
And in my best shoes I started falling forward down the street
I stopped at a church and jostled through the crowd
And love followed just behind me, panting at my feet
As the steeple tore the stomach from a lonely little cloud
Inside I sat, seeking the presence of a God
I searched through the pictures in a leather-bound book
I found a woolly lamb dozing in an issue of blood
And a gilled Jesus shivering on a fisherman's hook
Babe
It seems so long
Since you've been gone away
And I
Just got to say
That it grows darker with the day
Back on the street I saw a great big smiling sun
It was a Good day and an Evil day and all was bright and new
And it seemed to me that most destruction was being done
By those who could not choose between the two
Amateurs, dilettantes, hacks, cowboys, clones
The streets groan with little Caesars, Napoleons and cunts
With their building blocks and their tiny plastic phones
Counting on their fingers, with crumbs down their fronts
I passed by your garden, saw you with your flowers
The Camellias, Magnolias and Azaleas so sweet
And I stood there invisible in the panicking crowds
You looked so beautiful in the rising heat
I smell smoke, see little fires bursting on the lawns
People carry on regardless, listening to their hands
Great cracks appear in the pavement, the earth yawns
Bored and disgusted, to do us down
[...]
These streets are frozen now. I come and go
Full of a longing for something I do not know
My father sits slumped in the deepening snow
As I search, in and out, above, about, below
Babe
It seems so long
Since you went away
And I
Just got to say
That it grows darker with the day
domingo, 5 de outubro de 2014
T de de "(um) torso dobrado pela música" (XIV)
O SEGREDO
[Jardim Amália Rodrigues, 1961]
Vão alguns em busca de beleza, dizem.
HERBERTO HELDER
Os meus dedos já souberam
de cor a perfeição.
A morte era o menos.
Só a beleza nos parecia intolerável
se não a despedaçássemos,
voz por voz, compasso a compasso,
numa harmonia mais dócil. Menos urgente
do que os músculos que ensaiávamos
todos os dias sem nos tocarmos.
Agora ouço outras mãos
a tactear o mesmo mistério e
é como segredar, pianississimo,
ao ouvido de alguém demasiado longe,
quando afinal adormeceste apenas
dentro de mim, com as garras
cravadas ao de leve na memória,
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
Libellés :
"A poesia é o menos.",
AVERNO,
Biorritmo
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (X)
NAS TRASEIRAS DO REAL
parque de locomotivas em San Jose
desconsolado eu deambulava
frente a uma fábrica de tanques
e sentei-me num banco
junto à baiuca do agulheiro.
Uma flor jazia no feno sobre
a estrada asfaltada
- a assombrosa flor do feno
pensei eu - tinha um
negro caule crestado e uma
corola de espinhos sujos
amarelados como polegadas
da coroa de Jesus e um tufo
de algodão seco e manchado
no meio tal pincel de barba
usado que jazesse soterrado
há um ano na garagem.
Amarela flor, amarela e
flor da indústria,
dura flor aguçada e feia,
e ainda assim flor,
com a forma da grande Rosa
amarela dentro da cabeça!
É esta a flor do Mundo.
San Jose, 1954
Allen Ginsberg, Uivo e outros poemas,
trad. Margarida Vale de Gato,
Lisboa: Relógio D'Água, 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
T de Teacher Was Here
Desde que sei escrever, medi os anos a partir de Setembro, quando fazia anos e regressava às aulas. Era um mês com cheiro a praias batidas, velas apagadas, mas livros e sonhos intocados.
Depois houve um ano em que regressei às aulas como professora. Lembro-me até do momento exacto em que percebi que me apaixonara por esses novos setembros: sei ainda de cor os quase trinta rostos sentados à minha frente a tentar adivinhar o verso seguinte de uma cantiga de amigo, o sorriso deles a abrir-se, o meu a tentar não dar nas vistas.
Fui professora em escolas públicas durante quinze anos, anos esses que conto pelo nome das escolas por onde passei. Regressei tantas vezes a casa exausta, impotente perante a carga burocrática; ou as decisões superiores sem olhos e razão no terreno; e sobretudo a dimensão dos problemas das centenas de alunos que nem sempre conseguíamos ajudar. Mas também sei que regressei tão mais vezes a casa de coração cheio. Há coisas que fazemos – e há coisas que fazem de nós aquilo que somos. É disso que falo aqui.
Este ano decidi tentar mudar de vida. Deixar de esperar por resultados de concursos podres, de ter de aplicar políticas podres, de ser tratada como provisória, residual, incapaz até prova (incapaz) em contrário. Vou enviar currículos, responder a anúncios, procurar traduções e revisões.
O que não significa que deixe de ser professora; pelo contrário, desejo sinceramente encontrar projectos dignos, que me devolvam algum do idealismo que tive de sacrificar por conta deste outrem. Gostaria que os meus alunos continuassem a aprender a não se resignar ao habitual, ao normalizado e avaliado por exames, ao que nos é simplesmente imposto. Que percebessem que esta é também a minha maneira de lhes explicar que todos temos o direito e o dever de nos reconstruirmos a nós próprios para nos conseguirmos reconstruir em sociedade. Que soubessem – eles e os colegas com quem fui aprendendo – como lhes agradeço, para já, por tudo.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
R de Rezar na era da técnica (XVIII)
O MAU POEMA
A lição é simples
e basta ouvir uns quantos mestres,
para já não a esquecer no futuro.
Tu própria a conheces:
a verdadeira arte faz-nos amar a vida;
e embora ensine a dor, e nos possa ferir,
e não consiga tornar-nos mais felizes quando precisamos,
embora nos obrigue a desejar a morte por vezes
- quem o provou o sabe -, a arte, se for autêntica,
reconcilia-nos com a nossa impotência,
infunde-nos uma coragem absurda
para enfrentar o correr dos dias.
De modo que, por tudo isso
e mais algum tópico que tenha esquecido,
há algo na arte de inevitável que conduz ao amor.
Mas permite-me agora que esqueça a doutrina.
Retiro tudo aquilo que disse.
E se o acaso fez com que algum destes versos
te levasse a um sentimento nobre,
não fui eu quem o instilou neles.
Pensei em desejar-te toda a solidão, toda a cólera,
oferecer-te a ira e o delírio
sem qualquer emenda, sem redenção possível.
Quis que sofresses com o tempo
e que ninguém o soubesse.
Mas já não acho que seja suficiente.
E espero que por isso compreendas agora
na medida certa este meu envio:
se ainda consegues acreditar num poema,
considera-te morta.
CARLOS MARZAL
[Trad. Inês Dias]
*
[...]
Did you write the book of love
And do you have faith in God above
If the Bible tells you so?
Now do you believe in rock and roll
Can music save your mortal soul
And can you teach me how to dance real slow?
[...]
domingo, 28 de setembro de 2014
C de "Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..."
PAUSA
Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.
A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.
Antonia Pozzi
in Morte de uma estação, sel. e trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, 2012
in Morte de uma estação, sel. e trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, 2012
[Ontem, uma pausa em Santa Cruz, na melhor das companhias]
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
O de "O mar, o mar" (VI)
GUERRA & PAZ
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.
Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987
[Santarém / Fevereiro 014]
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
T de Tratado de Pedagogia - LXIII c
ESTRANGULEI O MEU IRMÃO
Estrangulei
O meu irmão
Porque ele não gostava de dormir
Com a janela aberta
Minha irmã
Disse ele antes de morrer
Passei noites inteiras
A ver-te dormir
Debruçado sobre o teu reflexo no vidro.
RENÉ CHAR
[Trad. Inês Dias]
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
T de Tratado de Pedagogia (XXXII)
Termina assim um poema de E. E. Cummings:
I'd rather learn from one bird how to sing
than teach ten thousand stars above how not to dance.
domingo, 21 de setembro de 2014
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
L de Levantar a cabeça (XII)
"[…] Por entre a frincha larga das portadas havia sempre um resto de luz a invadir a penumbra e a expor as arestas das coisas. […]”
ALEXANDRE SARRAZOLA
in Neófitos, com fotografias de Mafalda Capela,
Lisboa: Averno, 2014
[Santarém, 06/10/12]
"Havia muito a ver também. Certos instantes de ver valiam como 'flores sobre o túmulo': o que se via passava a existir. No entanto Joana não esperava a visão num milagre, nem anunciada pelo anjo Gabriel. Surpreendia-a mesmo no que já enxergara, mas subitamente vendo pela primeira vez, subitamente compreendendo que aquilo vivia sempre. Assim, um cão latindo, recortado contra o céu. Isso era isolado, não precisava de mais nada para se explicar... Uma porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde... E de repente, sim, ali estava a coisa verdadeira. Um retrato antigo de alguém que não se conhece e nunca se reconhecerá porque o retrato é antigo ou porque o retrato tornou-se pó - esta sem-intenção modesta provocava nela um momento quieto e bom. Também um mastro sem bandeira, erecto e mudo, fincado num dia de verão - rosto e corpo cegos. Para se ter uma visão, a coisa não precisava de ser triste ou alegre ou se manifestar. Bastava existir, de preferência parada e silenciosa, para nela se sentir a marca. Por Deus, a marca da existência... Mas isso não deveria ser buscado uma vez tudo o que existia forçosamente existia... É que a visão consistia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas."
CLARICE LISPECTOR
in Perto do coração selvagem, Lisboa: Livros do Brasil, s/d
domingo, 14 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
T de "The days grow short" (X)
[...]
Assim que a estação morria,
o mar vinha buscá-la
entre salvas de limos
e restos de outros naufrágios.
Os banheiros desmontavam a praia,
arriando bandeiras friorentas
enquanto eu, rei sem reino
para trocar pelo me cavalo
regressava então ao exílio.
[...]
Inês Dias, "Tempos Vários"
in Da Capo, Lisboa: Averno, 2014
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sábado, 6 de setembro de 2014
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (IX)
LA BELLE ET LA BÊTE
Em vez da luva,
o gesto, do cavalo
a fuga, da chave
o ouro, do meu espelho
o outro; em vez de
uma rosa, a rosa.
Em vez das ruínas,
o arrepio de um sarcófago
sob a seara, ou
o calor da pegada
em que a mão agora poisa,
primeira pele de uma cobra
a sujar a memória.
Essa beleza de trazer
a vida na ponta dos dedos
e um exército inteiro
de dois gatos para guardar
fronteira nenhuma.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[ID, 04/05/014]
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