terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ALEGRIA MORTÍFERA
 
 
 
Ó morte, vem a meus braços,
já que não posso morrer!
 
AFONSO DUARTE
 
 
 
     A morte rondava, rotatita, ritual e ríspida:
     comia os adjectivos todos, não perdoava a eternidade dos momentos, levara a mãe e alguns dos seus melhores amigos.
     A morte respirava perto, descalça, a dansar sobre cacos de vidros.
 
 
 
§
 
 
 
     A morte punha a nu a sua castidade toda.
 
 
 
§
 
 
 
     Dormiam como dois irmãos, unidos pelo mesmo sangue, que circulava através da ternura.
 
 
 
§
 
 
 
     Esperavam um pelo outro, enquanto dormiam.
 
 
 
§
 
 
 
     Amava sem medida, sem deixar de ser perverso: andava pelo verso a verificar o som do vinho a cair no copo,
     a vibração do eco colorido e do sabor,
     cansado do cansaço, o coração cheio de musgo,
     emparedado entre a paixão e o remorso.
 
 
 
24.II.96
 
 
 
António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012
 

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